![]() |
| Click na imagem para aumentar |
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
O Rabi Mór tem, desde D.Dinis, sete delegados seus, chamados ouvidores, colocados na capital de cada comarca, os quais exercem a jurisdição sobre os judeus em todo o distrito. Localiza-se em Torre de Moncorvo, o de Trás os Montes... in "Os Judeus em Portugal no Século XIV ", de MariaJ.P.Ferro. Este é o nosso ponto de partida: divulgar as obras sobre os judeus em Trás os Montes.
EM TORRE DE MONCORVO
I
TORRE DE MONCORVO – A VISITA DO INQUISIDOR
Nunca em Torre de Moncorvo se teria visto tanta gente como naquele dia 20 de Março de 1583. Nem sequer nas festas do Corpo de Deus em que, obrigados por lei, compareciam na vila os moradores das aldeias de “légua adentro do termo” – Felgueiras, Larinho e Açoreira. Agora estendeu-se a ordem pelas outras aldeias todas até duas léguas de distância. E para não haver qualquer dúvida, nos três dias antecedentes, por todo o laço se lançaram pregões convocando “os abades, curas e mais clérigos” e responsabilizando-os pela comparência de todos os fregueses.
A igreja matriz, ainda não concluída mas já em serviço, transbordava e a missa foi solene e cantada, oficiando o Reitor dela, acolitado por um verdadeiro “cabido”, como se de uma Sé de bispado se tratasse. Junto do altar-mor, em plano mais elevado, destacava-se uma figura imponente que por todos era especialmente reverenciada. É que ninguém ignora que o seu poder é imenso, um poder terrífico, de ordem divina, concedido pelo Papa romano, competente para julgar crimes da fé e decidir sobre a vida dos homens. Veio de Coimbra o Inquisidor do Santo Ofício, licenciado Jerónimo de Sousa.
A pregar o sermão, o mais famoso orador da comarca, o licenciado Manuel do Rego, da Companhia de Jesus. Falou do bom pastor e do rebanho de Cristo e dos lobos que se metem no meio do rebanho e matam as ovelhas, que o mesmo é dizer aqueles que vivendo em meio do povo de Cristo suguem a Lei de Moisés. São lobos que vestem a pele de ovelhas os que fazem “rezas e cerimónias de judeus”. Explica que se conhecem esses “lobos” por guardarem o sábado e não o domingo, por vestirem camisas lavadas nesse dia, por não comerem carne de porco e outros animais que dizem impuros e muitos outros pormenores que constam de uma lista que depois será afixada à porta da igreja. O orador convida aqueles que têm culpas a que as confessem espontaneamente pois lhe serão perdoadas se o fizerem naquele tempo de graça. E intima todos os que sabem de alguma coisa a denunciá-la. Se o não fizerem… ameaça com o fogo do inferno.
No final da missa leram-se os éditos e fez-se o juramento. O primeiro foi o juiz de fora, dr. Simão da Fonseca que subiu ao altar e, de joelhos, com a mão colocada sobre o missal, jurou que iria confessar qualquer crime contra a fé católica e denunciar qualquer suspeita vinda ao seu conhecimento. Seguiram-se os vereadores da câmara, Diogo Monteiro, e Pêro Carneiro Varejão e Gaspar Pereira de Vasconcelos, o procurador do concelho Luís da Costa e o escrivão da câmara, Manuel de Almeida que, por acaso, ou talvez não, até era meio cristão-novo. Depois foi o juramento de todo o povo junto. Terminaram as cerimónias com uma imponente procissão pelas ruas em volta da igreja.
Esta era a primeira vez que um inquisidor marcava presença em Torre de Moncorvo. Até então ouvira-se apenas falar deste tribunal distante e, por isso, menos temível. Sabia-se mesmo que nele haviam sido processados alguns cristãos-novos ligados a Torre de Moncorvo. Era o caso de António Nunes que fora residir em Gouveia e que em Torre de Moncorvo tinha deixado três filhos, todos já casados e bem de vida: Henrique Nunes e Diogo Nunes, mercadores e André Nunes, o advogado de mais fama nos tribunais da comarca.
Naturalmente foi com muita inquietação que o dr. André Nunes participou na missa e procissão, ladeado pelo genro, Francisco Rodrigues da Silva, também advogado. O seu lugar na igreja era lá na frente, do lado da Epístola, bem junto ao púlpito, enquanto as mulheres ficavam lá atrás, ao fundo da igreja. No final toda a família se juntou e dirigiu para casa, que os estômagos já pediam o almoço que ainda era preciso aprontar. Ao atravessar a praça, ele terá deitado um olhar para o seu escritório e um leve arrepio lhe percorreria o corpo. Era o início de um terrível pesadelo.
A casa de habitação situa-se na zona do Castelo. Moram ali há alguns anos tendo-se transferido da aldeia do Felgar. A mulher, Leonor da Mesquita, originária de uma bem conhecida família de cristãos-novos de Vila Flor e com ficha na Inquisição, é já falecida. Para além de André Nunes e do genro, moram ali a esposa deste e três outras irmãs, solteiras. A mais velha e seu marido também chegaram a morar com eles mas agora vivem lá para o Minho, em Viana do Castelo. As palavras são poucas, os gestos pesados, o apetite desaparece. O dr. André Nunes pensa certamente no pai e na mãe que, há uma dúzia de anos, foram encarcerados pela Inquisição de Coimbra. Embora libertos ao fim de dois anos, eles não voltaram a ser os mesmos, não mais tiveram alegria e nunca falaram nada do que lhes aconteceu no cárcere e do que ali sofreram. Adivinhava-se o medo que tinham da Inquisição, um medo terrível, como se de “um fero monstro” se tratasse.
Nas casas de seus irmãos respirava-se com certeza um ambiente de igual modo carregado de medos. Como, aliás, nas casas dos muitos cristãos-novos que moravam na Torre de Moncorvo e que, em geral, eram “pessoas ricas” e invejadas por muitos.
Por detrás da igreja matriz, fazendo esquina da rua do Cabo com uma travessa do largo do Outeiro e com as traseiras dando para uns quintais e uma canelha esconsa, está ainda hoje, a chamada “Casa da Inquisição” ou “Casa dos Jesuítas”. Foi nela que ficou instalado o inquisidor Jerónimo de Sousa, sempre pronto para receber todas as pessoas que se aprontassem para confessar quaisquer erros praticados contra a santa madre igreja ou denunciar possíveis práticas de judaísmo, feitiçaria, heresia, gestos e hábitos contrários à religião católica. Era óptima a situação da casa, tendo em conta que a ela podia aceder-se por dois arruamentos muito pouco frequentados e ainda por uma porta traseira que dava para uma loja da qual se subia por um alçapão para o sobrado. Sim, que o Santo Ofício sempre privilegiou o segredo e tudo fazia para encorajar os denunciantes e dissipar os receios de represália. Medo e segredo serão as palavras que melhor caracterizam o ambiente instalado na vila com a visitação do senhor inquisidor. E ninguém se admira se as pessoas escolherem sobretudo as sombras da noite para ali entrarem a fazer suas denúncias.
Manuel Faria foi o primeiro. Tem 40 anos, diz-se cristão-velho, é natural de Barcelos e veio para Torre de Moncorvo como alfaiate. Ali casou com Luísa da Ponte e passou a estalajadeiro. É na rua do Cano a sua estalagem e esta tem um quintal anexo, o qual pega com três outros quintais, ligados a três casas e essas casas e quintais todos se comunicam e pertencem, respectivamente, ao licenciado Henrique Dias, a seu filho Jerónimo da Silva e ao genro Rodrigo Álvares – membros, entre outros, de uma poderosa família de cristãos-novos. Feito o juramento sobre o livro dos Santos Evangelhos, o estalajadeiro prestou as seguintes declarações:
- Que via aos sábados as pessoas todas daquela família vestir camisas lavadas e pôr toucados limpos as mulheres e ficarem-se pelos ditos quintais “palrando e folgando como em dia de festa” ora num quintal ora em outro, correndo-os todos e não iam trabalhar nesses dias. Nos outros dias da semana, porém, não os vê nos quintais mas sim a negociar nas suas casas e a fazer o que é necessário “posto que sejam pessoas ricas que trabalham pouco”.
Antes de assinar o auto que o padre Simão Lopes escreveu, o denunciante jurou guardar absoluto segredo e caiu a dizer que tivera muitas desavenças com os ditos vizinhos.
Bem de dia e pela porta principal entrou “nas pousadas onde reside o santo ofício” o padre Francisco Gonçalves de Matos, reitor da igreja matriz. Cumpria-lhe dar o exemplo e incitar os outros à denúncia. Além de que também o clero regular tinha medo e sentia a pressão que os funcionários e familiares da Inquisição sobre eles exerciam. A sua denúncia, porém, não traria consequências imediatas e o facto denunciado era já “velho” e bem conhecido de toda a gente. Respeitava a Francisco Dias, um cristão-novo, mercador de Torre de Moncorvo que anda foragido e excomungado há cerca de dois anos. A excomunhão fora lançada por ele próprio, reitor, em missa de domingo, na sequência de uma notificação que para isso recebera de Salamanca e baseada no facto de ele ter ficado a dever dinheiro à universidade onde em tempos estudou. A acrescentar à excomunhão, um outro crime: não veio confessar-se na Quaresma deste ano nem no ano passado. E o pior é que “lhe dizem que anda na terra escondido e todo o povo sabe disso e está escandalizado”.
A confirmar esta denúncia apresentou-se logo de seguida o vereador Diogo Monteiro, de 71 anos, viúvo de Isabel da Costa. E também André Pereira, de 25 anos. Acontece, porém, que tanto um como o outro estiveram antes envolvidos no assassínio de André Dias, pai do denunciado. Haverá nisto alguma vingança? Uma terceira pessoa vem cumprir o seu dever de corroborar esta denúncia: Pedro Dias, de 30 anos, natural de Amarante, casado nesta vila, “caminheiro do vigário”.
No dia seguinte, apareceu Tristão de Seixas que mora ali na rua do Cabo entre a matriz e a “casa da inquisição”. A sua profissão é de “inquiridor e contador da correição” – o equivalente a um chefe de repartição de finanças em nossos dias. Tem 40 anos, é cristão-velho e está casado com Branca Borges. Conta que em Janeiro passado, na estalagem de Tomé João, em Freixo de Espada à Cinta, estando ele em serviço com o chanceler da comarca que era o padre Afonso Monteiro, ali viu o dr. André Nunes e o irmão Diogo Nunes em um sábado vestindo camisas lavadas e a comer uma galinha cozida e assada e muito bem dispostos. E ao domingo os viu de manhã comendo umas ervas e um caldo e “lançando-se para sua casa em cima de bestas albardadas” depois de feitos os negócios na alfândega.
Seguiram denúncias semelhantes contra o mercador Duarte Pereira, um cristão-novo de Vila Flor, apresentadas por um lavrador que veio do Mourão e outro de Valtorno, duas aldeias que pertencem ao concelho de Vila Flor. Não vamos atender a estas denúncias mas estranha-se o facto de elas não terem sido feitas em Vila Flor quando, dias antes, lá esteve o inquisidor. Certamente os denunciantes tinham medo de ser vistos e sofrer represália, sentindo-se mais seguros em Torre de Moncorvo por não serem conhecidos, muito embora tivessem de percorrer umas léguas a mais.
E que crédito poderá dar-se a uma tal Maria Migueiz, solteira, de 33 anos que em garota veio de uma aldeia próxima de Vila Real e durante um ano esteve servindo em casa do dr. André Nunes e sua mulher Leonor da Mesquita, de onde foi corrida? Parece que nunca mais arranjou patrões seguros e agora “agasalha-se por onde pode, por não ter casa nem posses para a alugar”. Ela conta que quando serviu naquela casa, os patrões e a família toda “não comiam carne de porco nem toucinho nem a cozia em panela onde se houvesse de fazer comida para eles, antes a mandavam cozer em outra panela estremada para os criados e gente que traziam a trabalhar”.
Chama-se Antónia de Almeida esta denunciante, natural de Alfândega da Fé mas casada em Torre de Moncorvo com o alcaide Gaspar de Lobão. Vem denunciar de Beatriz Henriques, mulher que foi de Domingos Henriques, por ter mandado amortalhar muito bem e até “enfeitar o cadáver de sua filha Ana com umas toalhinhas com rendas de ouro”. A cena passou-se há uns 17 ou 18 anos e o depoimento foi confirmado pelo alcaide que nisso viu uma prática judaica. O depoimento é interessante também por se tratar de alguém que morava junto à Fonte do Concelho e dizer que ali havia um forno, o que mostra até onde se estendia já o perímetro urbano da vila.
Muito prolixo se revela o sombreireiro António Fernandes, cristão-velho de 35 anos, que veio há três anos da cidade da Guarda, casou em Torre de Moncorvo e mora na Praça. De sua casa ele vê e sabe “porque teve tento nisso desde há dois anos a esta parte” que aos sábados vestem camisas lavadas os seguintes cristãos-novos:
- Diogo Henriques, tendeiro, casado com Ana Vaz; Henrique Nunes, mercador, casado com Isabel Álvares; Henrique Nunes, sirgueiro; Pedro Henriques, o fastio, mercador; Henrique Fernandes, o galé; João Róis, tendeiro; Álvaro Lopes, tendeiro; Rui Dias, tosador; Manuel Henriques, mercador; Estêvão Róis, mercador; António Dias, ferrador e Luís Vaz Videira.
Bartolomeu Fernandes, porteiro da vila, natural de Freixiel, para lá de Vila Flor e casado em Moncorvo, não se apresentou a depor, mas foi chamado por Jerónimo de Sousa à “Casa da Inquisição”. É que havia já um depoimento por ele feito há 11 anos perante o vigário da comarca, lavrado pelo escrivão Francisco Pinheiro e na altura remetido para Coimbra. Agora foi citado para confirmar tal depoimento, o que ele fez, contando um episódio de quando era criado de servir em casa do mercador Álvaro Vaz e com ele ia por terras deste Reino e de Castela a vender suas mercadorias. Vamos ver.
Bartolomeu tinha vinte e poucos anos quando deixou Freixiel e veio para Torre de Moncorvo à procura de amo para servir. Ficou na casa de Álvaro Vaz, um cristão-novo, mercador de panos que acabara de casar com Catarina Henriques, uma irmã do médico Julião Henriques que então residia em Vilvestre, frente a Lagoaça, no reino de Castela.
Acompanhava seu amo pelas feiras e frequentes vezes iam comerciar por terras de Espanha. Numa dessas ocasiões, regressaram por Vilvestre ali passando na barca o rio Douro e vieram pernoitar a Freixo de Espada à Cinta, na estalagem de Francisco Rodrigues. Ao mesmo sítio veio ter, logo depois, o dr. Julião Henriques, em cuja casa tinham parado por volta do meio-dia. Depois de cearem, Bartolomeu deu as boas noites e foi-se deitar. Mas não dormiu, antes se pôs a espreitar, desconfiado que andava de seu amo, por ser cristão-novo e a conselho do reitor que lho dera na confissão. E viu então que seu amo, o dr. Julião, a estalajadeira, dois filhos desta e suas mulheres e mais uns quantos cristãos-novos de Freixo se juntaram na cozinha e em cima da mesa colocaram um “alambel”, dois castiçais, um livro “que poderia ter duas mãos de papel” e o abriram e cada um deles lia pelo dito livro, com as mãos levantadas. O primeiro foi Julião Henriques, seguido de seu amo. E depois de ler, davam uma palmada no livro e diziam qualquer coisa que ele não percebia. Apenas percebeu a palavra “Messias” várias vezes repetida. No fim, a estalajadeira meteu o livro em um cortiço onde também guardava o sal, a um canto do lar.
Regressado a Torre de Moncorvo, Bartolomeu foi contar o sucedido ao reitor da matriz e este mandou chamar o escrivão Francisco Pinheiro que de tudo lavrou um auto que foi enviado para a Inquisição de Coimbra.
A cena passou-se há cerca de 11 anos. Mas hoje, 22 de Março de 1583, um apontamento do caso está ali nas mãos do inquisidor Jerónimo de Sousa. E Bartolomeu, como se não apresentava a fazer de novo a denúncia, foi mandado chamar à “casa da inquisição”. Agora é já casado e conseguiu o emprego de porteiro da câmara. Seu antigo patrão continua no comércio de tecidos e seu cunhado, o dr. Julião, deixou Vilvestre e fixou residência em Vila Flor onde casou com Branca Coutinho, também de ascendência hebreia.
Bartolomeu justifica-se perante o inquisidor e este pede-lhe que repita a história para dela se lavrar um novo auto que há-de figurar no relatório da visitação, o que efectivamente se faz.
Ana Pires é mulher solteira, 30 anos, cristã-velha, natural de Moncorvo onde trabalha de forneira no forno de Filipe Monteiro, sito ao Rossio. Aqui há dois anos foi também forneira mas no forno da Fonte do Concelho, do outro lado da vila. É pobre e já foi criada de servir em várias casas. Apresenta-se na “casa da inquisição” dizendo que “vem aqui para descarregar sua consciência e não ficar excomungada” – conforme lhe aconselhara o seu confessor. Tem denúncias a fazer, de práticas de judaísmo.
A primeira refere-se ao licenciado André Nunes e sua família em cuja casa serviu durante um mês tendo saído 15 dias antes do último Natal. Conta que naquela casa todos se levantavam cedo, excepto ao sábado, dia em que ficavam na cama até tarde e depois se vestiam bem, ou melhor, se “aperaltavam e enfeitavam” e não trabalhavam, enquanto que aos domingos se levantavam cedo e vestiam e trabalhavam como em qualquer dia de semana. Acrescenta que nunca a mandaram cozer pão ao sábado mas sempre à segunda-feira. E que também não comiam carne de porco e não a deixavam cozer nas panelas de sua serventia, mas só em uma panela que tinham de parte para cozer a comida dela e de algum cristão-velho que traziam a trabalhar. Recorda-se ainda de uma sexta-feira à noite terem uma galinha preparada para o jantar e eles todos satisfeitos e bem dispostos e então a mandaram ir buscar um feixe de giesta verde dizendo que era para preparar uma pouca de azeitona, suspeitando que era para ela não presenciar alguma cerimónia judaica.
A outra denúncia refere-se ao tempo em que trabalhava no forno da Fonte do Concelho e ali tinha por vizinhos Duarte Fernandes, Pêro Henriques, o fastio e Henrique Fernandes cujas mulheres vinham cozer ao “seu” forno. Porém, nunca as viu cozer aos sábados e nunca as viu fiar nem fazer outro serviço naqueles dias, antes reparava que se levantavam mais tarde e só mais tarde abriam as portas e janelas. E nesses dias, quando saíam de casa, traziam camisas lavadas os homens e toucados limpos as mulheres, depreendendo ela que guardavam o sábado e não o domingo como dia santo.
Viu-se atrás um estalajadeiro da rua do Cano denunciar, por práticas de judaísmo, o dr. Henrique Dias e seus familiares. Tais denúncias são corroboradas por duas irmãs, Leonor e Maria Pimentel, solteiras, cristãs-velhas, de 23 e 19 anos respectivamente, que moram juntas em uma casa abaixo da igreja. Dizem que durante quatro meses veio a sua casa uma menina de uns 9 anos, filha de Rodrigo Álvares e de Francisca da Silva, aprender a bordar e a costurar, aparecendo todos os dias logo de manhã e aos sábados só vinha da parte da tarde e ficava pouco tempo, além de que, nesse dia, trazia sempre camisa lavada e melhores vestidos e vinha ornada de coifas e fitas.
Uma denúncia de judaísmo é também feita por um cristão-velho contra Maria Vaz, solteira, tecedeira, moradora na rua dos Sapateiros, filha que ficou de Domingos Sobrinho e Catarina Vaz (esta está homiziada no couto de Bragança por causa de uma morte). Diz o denunciante que, sendo seu vizinho, escutava até alta noite o barulho do seu tear, mas nunca depois que o sol se punha à sexta-feira até que o sol nascia, ao domingo, sinal de que ela respeitava o “sabat”.
Uma outra denúncia, também isolada, contra Inês Vaz, cristã-nova, casada com um cristão-velho, por não comer toucinho nem permitir que isso se coza em panela de que ela use. A denunciante é natural de Sambade, veio para Torre de Moncorvo como criada de servir e aqui casou. Diz saber aquilo por fazer alguns serviços em casa da denunciada que é sua amiga e lhe presta ajuda quando pode.
Chamada a depor foi Aldonça, mulher solteira de 25 anos, natural de Orense, Espanha, que há 3 meses está servindo em casa de António Machado e sua mulher cujo nome ignora (!), ambos cristãos-novos. E conta que, pelo Entrudo, lhe perguntou porque não tinha em casa toucinho e carne de porco, que era costume comer-se então, principalmente no “domingo gordo”. Ao que ela respondeu que não comia toucinho porque tivera uma doença e lhe fazia mal, mas que comia presunto.
Lionis de Oliveira e Clara Fernandes formam um casal de cristãos-novos, pais de 3 meninas, a mais velha de 9 anos. Residem na rua Direita. Ele é alfaiate, ela ajuda e devem ter boa freguesia pois costumam ter ao seu serviço mais um ou dois obreiros. E são dois alfaiates cristãos-velhos, ambos vindos do litoral e casados em Torre de Moncorvo que vêm denunciá-los por judaísmo. Um deles continua seu empregado e o outro deixou de o ser há 15 dias. As denúncias incidem sobre a guarda do sábado, dia em que Lionis não trabalhava, limitando-se a dar alguns pontos e que logo ao entardecer de sexta-feira, a mulher varria a casa e limpava, ao contrário dos outros dias em que só fazia isso à noite, depois de terminar o serviço.
Pêro Botelho encontra-se preso na cadeia de Torre de Moncorvo. Não está, porém, “carregado de ferros” como João Fernandes que, a seu lado, se queixa e pragueja, não tendo esperança de ser libertado. Pêro Botelho recomenda-lhe calma e confiança em Deus que há-de fazer com que o libertem. Ele responde que não tem confiança em Deus nem nos santos – palavras bem pouco cristãs.
Na mesma casa, no piso do sobrado, por cima da cadeia dos homens, está a das mulheres. E uma que se encontra presa dá pelo nome de Isabel Fernandes, por alcunha, a foliona. Ouvindo a conversa entre os homens, mete-se nela corroborando as palavras de João Fernandes dizendo que nada adianta ter confiança em Deus nem nos santos.
E foi isto o que Pêro Botelho veio também contar ao inquisidor Jerónimo de Sousa, devendo acrescentar-se que todos os intervenientes eram cristãos-velhos.
Esta denúncia foi feita em 24 de Março. No mesmo dia se apresentou ainda a depor um padre do Felgar (Nicolau Carvalho) mas falaremos de tal depoimento em outra ocasião, em conjunto com outros depoimentos recolhidos pelo sr. Inquisidor em Freixo de Espada à Cinta, terra para onde seguiu. Acaso, pela mesma razão, passaria mais tarde pela aldeia de Felgar (em 9 de Abril) e também, de novo, por Torre de Moncorvo, antes de regressar a Coimbra. E nesta segunda passagem, que foi breve, ele teve ainda tempo para receber mais uma denúncia, que vamos registar.
Chama-se Beatriz a denunciante. É solteira, criada de servir, natural do concelho de Castro Daire. Seu amo é escrivão do eclesiástico da comarca e, porventura, a incitou a confessar o que sabia, do tempo em que serviu na casa de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo, por cerca de um ano, de onde saiu há 3 anos. Era na rua Direita esta casa do mercador António Henriques, o fastio, de alcunha, que entretanto faleceu e então era casado com Filipa Rodrigues, agora viúva, pais de Violante Henriques, então solteira e agora casada também com um cristão-novo, mercador, de que não sabe o nome (!).
Beatriz declara que, em cada sexta-feira, logo que entardecia, a Violante se punha a varrer e a limpar a casa, coisa que não fazia nos outros dias e a ela a mandavam embora. E que então mudavam também a roupa das camas metendo lençóis lavados e que vestiam camisas limpas para o sábado. A limpeza de sexta-feira à tarde não era só feita na casa onde moravam, mas igualmente a faziam em uma outra casa que tinham ao lado e que servia de armazém ou “casa de despejos”. E esta casa sempre estava aberta para ela, Beatriz, excepto naquelas noites de sexta-feira em que a fechavam. Mais estranho lhe parecia que, em alguns sábados, chegando logo de manhã, havia uma candeia de azeite na tal casa que estava morna, como se tivesse estado acesa durante a noite. E atentou nisso porque a tal candeia costumavam guardá-la em uma “câmara” levando-a na sexta-feira à noite e trazendo-a ao sábado de manhã.
Beatriz terminou o depoimento dizendo que em todo o tempo que serviu na casa de António Henriques nunca os viu comer carne de porco e se a compravam e tinham em casa lha davam a ela para a comer, não permitindo, porém, que a assasse no mesmo espeto em que era assada a carne deles ou cozida na mesma panela.
Estas foram as suas declarações. Subentendido fica que eles se reuniam “em sinagoga” na “casa dos despejos” à sexta-feira à noite, que guardavam o sábado e cumpriam outros preceitos da lei de Moisés.
Aqui chegados, cumprirá fazer um breve apanhado da visitação do inquisidor Jerónimo de Sousa a Torre de Moncorvo, já que os autores projectam um trabalho mais pormenorizado sobre alguns dos processos que depois foram instaurados.
Em primeiro lugar, diga-se que todos os denunciantes eram cristãos-velhos e, exceptuando o episódio da “foliona”, todos os denunciados eram cristãos-novos, com as denúncias a circunscrever-se a práticas de judaísmo.
Olhando para os denunciantes, verifica-se que há gente importante (reitor da matriz, vereador da câmara…) mas convergindo na denúncia de um tal Francisco Dias que anda fugido à justiça e já excomungado por dívidas à universidade de Salamanca. Em boa verdade, nem se trata de uma denúncia, mas de colocar em cima da mesa um facto publicamente conhecido. Há depois um “inquiridor, contador e distribuidor da correição” e um alcaide “pequeno” – dois funcionários públicos de média estatura funcional – cujas denúncias podem ser entendidas como obrigação de ofício. De resto… os denunciantes são quase todos de baixa condição social e vindos de fora a morar na terra, predominando moços e moças de servir, uma das quais nem sequer tem morada, antes se “agasalha onde pode”. E procuram culpar, fundamentalmente, seus antigos patrões.
Pode dizer-se que, ao fim de tantas pessoas denunciadas, muito pouco havia de concreto para que o sr. Inquisidor pudesse, desde logo, decretar a sua prisão. Apenas a uma senhora – Francisca da Silva, filha do dr. Henrique Dias e mulher de Rodrigo Álvares – que foi denunciada por três pessoas diferentes, seria decretada a prisão, com base nas provas recolhidas na visitação. Mas isto não significa que os cristãos-novos de Torre de Moncorvo podiam dormir descansados. A inquisição não desistia facilmente e mais provas continuariam a ser recolhidas e nesse mesmo ano de 1583 mais uma dúzia de prisões serão efectuadas pela inquisição em Torre de Moncorvo. Antes, porém, veremos uma exposição que os cristãos-novos desta terra fizeram chegar a Coimbra e que deixou “engasgadas” as cúpulas do Santo Ofício.
Sem comentários:
Enviar um comentário