domingo, 19 de agosto de 2012

Inquisição em Miranda do Douro e a ponte sobre o rio Sabor na Portela,por Antonio Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães

Várias vezes temos dito que os processos da Inquisição se constituem no melhor jazigo da memória do nosso povo, porque eles foram instruídos com base nas vivências quotidianas e neles pulsa, em toda a sua originalidade e sem artificialismos o viver colectivo das pessoas. E por vezes, neste jazigo da memória, descobrem-se coisas surpreendentes.
Permitam uma pergunta disparatada e que é a seguinte:
- Haverá alguma relação entre o estudo dos processos da Inquisição de Miranda do Douro e o estudo do mapa rodoviário de Torre de Moncorvo?
- Nenhuma – dir-se-á – um verdadeiro disparate, realmente!
Pois, meus amigos, andávamos nós às voltas com os processos instaurados pela Inquisição em Miranda do Douro e caiu-nos à frente um documento bem interessante sobre aquele assunto. Refere-se à construção da ponte sobre o rio Sabor e que ainda hoje estabelece a ligação da estrada que vai da Beira Alta para o Nordeste Trasmontano, nas proximidades de Torre de Moncorvo.
Trata-se de uma obra de arte que vai ficar submersa dentro de um ou dois anos, pela água da barragem que se está construindo ali perto. Daí também a oportunidade deste texto. Antes de avançarmos, vejam como a câmara municipal de Torre de Moncorvo a ela se refere em texto datado de 7 de Junho de 1861:

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma casa de morada na Rua da Costanilha em Miranda do Douro por 1640

Por: Antonio Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães

Por ser terra de fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios, tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1)
Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que, existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso” interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.
No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.