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| Chaves - início do século XX |
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 31
Francisco Rodrigues. Nasceria judeu e seria ainda
criança quando, na Páscoa de 1497, foi levado à igreja de Chaves para ser
baptizado e receber um nome cristão. Tal como os seus pais que passaram a
chamar-se Garcia Gonçalves e Aldonça Gonçalves, ignorando-se os nomes judeus que
todos tinham antes. Pouco depois a família deixou a vila de Chaves e fixou
residência na cidade de Bragança, terra onde, por 1518, Francisco Rodrigues se
casou com Isabel Lopes, que lhe deu 5 filhos e 4 filhas, a mais nova das quais
parece ter nascido no dia em que Francisco foi preso, em nome da inquisição.
Conseguiu fugir da cadeia de Bragança e internar-se em Espanha mas foi parar ás
malhas da inquisição de Valladolid, que o remeteu que o remeteu preso a
Portugal, correndo o seu processo perante o bispo do Porto D. frei Baltasar
limpo, pois que o tribunal de Coimbra ainda não tinha entrado em funcionamento.
Estranhamente, contra a fama justiceira daquele bispo e apesar das graves
acusações que sobre ele pendiam, Francisco Rodrigues saiu condenado em penas
ligeiras, abjurando em sala, sem comparecer em qualquer auto de fé. No entanto,
ele seria um dos líderes da nação hebreia de Trás-os-Montes. E tinha-se
destacado na luta contra a inquisição, pois foi na região de Bragança o
escrivão e recebedor dos dinheiros da finta lançada entre eles para financiar a
embaixada que tinham em Roma, negociando para que o papa não assinasse a bula
de criação do santo ofício. Do ponto de vista da sua profissão, Francisco
Rodrigues foi escrivão da câmara de Bragança, tabelião do ouvidor e do vigário
do arcebispo de Braga e procurador no juízo da comarca. Eram funções de grande
relevo e muito proveito, que exigiam um esmerada educação e instrução literária
e em leis. Ignoramos onde foi adquirida, se terá frequentado alguma universidade
(Salamanca, como o filho?), sabendo apenas que terá “estagiado” na Galiza, na
casa fidalga de D. Fernão de Andrade. Dos filhos de Francisco Rodrigues,
destacamos dois: Santiago Rodrigues, que casou e viveu em Bragança, em cuja
descendência nasceria o célebre médico e cientista Jacob de Castro Sarmento.
Outro foi o advogado Duarte Chaves que foi casar e viver em Miranda do Douro e
acabou queimado nas fogueiras da inquisição de Lisboa, acesas no auto de fé de
24.10.1559.
Nota: Mais informações ver o livro - Jacob de Castro Sarmento
– de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, editado por Nova Veja
Lda em 2010.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 30
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| MURÇA. Foto wikipédia |
André Lopes da Silva. Nasceu na vila de Murça, cerca do
ano de 1660, sendo filho de Diogo Garcia e Catarina Lopes. Casou em Bragança,
com Beatriz Henriques, filha de António Mendes Furtado e Isabel Henriques.
Nesta cidade estabeleceram sua residência e geraram uns 12 filhos. André foi
preso pela inquisição de Lisboa em Junho de 1725, saindo penitenciado em
cárcere e hábito no auto da fé de 25.6.1728. Era, certamente um dos homens mais
ricos de Bragança e, não obstante ser homem da nação hebreia, passeava-se pela
cidade montado em luxuosa sege. E era em sua casa da cidade, sita na praça do
Colégio da Companhia, comprada ao fisco por 640 mil réis, que se hospedavam
visitas da maior nobreza como eram os marqueses de Távora. De resto ele morava
ordinariamente em uma formosa quinta dos arredores da cidade, chamada Quinta de
Palhares, na qual construíra ele uma capela da invocação de S. Miguel onde, aos
domingos e dias santos, um capelão particularmente contratado, celebrava missa
para ele e para a sua família. A capela era cabeça de um morgadio por ele
instituído, a que a mesma quinta estava vinculada. Para se avaliar do valor da
citada quinta, refira-se que, em média, a sua produção anual de vinho eram umas
14 pipas e o pão se media em mil e tantos alqueires, de 13.8 litros o alqueire,
nela se alimentando ainda um rebanho de 200 cabeças. Outras propriedades
agrícolas tinha ainda fora da quinta, e no lugar de Ferreira, termo de
Bragança, na chamada Quinta das Comunhas, construiu, em parceria com seu irmão,
uma destilaria de aguardente, a qual valia uns 500 mil réis. Podemos assim
afirmar que André Lopes da Silva era um grande empresário agrícola e
agro-industrial. Mas era também assentista, trazendo contratado o assento das
tropas de Trás-os-Montes, ou seja o fornecimento de comida e pagamento de
soldos aos militares, bem como a aveia, cevada e palha para os cavalos. E
trazia também arrendadas as cobranças de rendas de comendas na casa dos Távora
e do almoxarifado da casa de Bragança. Naturalmente que nestas relações
comerciais havia muitas dívidas, activas e passivas. E ressalta igualmente a
actividade prestamista que também desenvolvia, aparecendo-nos na relação de
bens efectuada à data da sua prisão uma bandeja e um cordão de ouro pertencente
ao alcaide Lázaro de Figueiredo Sarmento que os deixara em garantia de 80
moedas de ouro que André Silva lhe emprestara na ocasião de seu casamento. Na
carreira profissional de André Lopes da Silva consta ainda a passagem pela
alfândega da comarca de Bragança onde durante mais de 10 anos foi feitor e
recebedor, competindo-lhe também a fiscalização de mercados e feiras sobre
produtos que não tinham pago os respectivos impostos, falando-se concretamente
de intervenções sobre mercadores em feiras de Santa Maria do Azinhoso
(Mogadouro) ou de S. João de frieira (Terra de Lampaças). E ainda o cargo de
Ajudante-Mor da comarca, competindo-lhe, nomeadamente a tarefa de recrutamento
de soldados.
António Júlio Andrade
domingo, 23 de dezembro de 2012
DA CUMPLICIDADE DE ALCANICES À DEVASSA EM CARÇÃO
Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Cristãos baptizados por força das leis dos
Estados e espoliados da sua cultura e dos próprios nomes hebraicos, os marranos
continuavam guardando a lei de Moisés no interior de suas almas e frequentando
as igrejas cristãs “para cumprir com o mundo”. Na medida do possível, mais ou
menos às escondidas, davam expressão à sua religiosidade com orações, rituais e
cerimónias aprendidas também clandestinamente. Para isso aquele grupo de
pessoas, ligadas por laços familiares e mantendo absoluta confiança entre si,
costumavam juntar-se para rezar em casa de Alonso Gonçalves e Leonor Fernandes.
E parece que o rabi ou oficiante de tais cerimónias era um Luís Francisco, de
Mogadouro, aliás muito procurado pela Inquisição portuguesa. [1]
Não sabemos como o tribunal do Santo Ofício de Valladolid, a cuja jurisdição Alcañices pertencia, descobriu, mas o facto é que, nos primeiros dias de Setembro de 1578, foram presos e conduzidos às suas masmorras a maioria dos elementos do grupo, o que passou à história com a designação de “complicidad de Alcañizes”.
Aquela “célula judaica” não foi completamente desmantelada pois 4 dos implicados na “cumplicidade” e com mandatos de prisão conseguiram fugir para o outro lado da fronteira. E logo no dia 13 daquele mês, os inquisidores de Valladolid enviaram à Inquisição de Coimbra um emissário pedindo mandatos de captura contra os 4 fugitivos. E pediam também autorização para ser o próprio tribunal de Valladolid a encarregar-se de efectivar tais prisões, em terreno da jurisdição de Coimbra.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Por 1578, na povoação de Alcañices,
distrito de Zamora, próximo da raia do concelho de Vimioso, viviam algumas
famílias de marranos emigrados (ou fugidos) do Nordeste Trasmontano,
nomeadamente das terras de Bragança, Mogadouro e Miranda. Aliás, a fronteira
era então muito difusa e aquela gente vivia cá e lá, residindo em Portugal e
assistindo em Castela, ou vice-versa, como se lê em alguns processos.
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| ALCANICES |
Não sabemos como o tribunal do Santo Ofício de Valladolid, a cuja jurisdição Alcañices pertencia, descobriu, mas o facto é que, nos primeiros dias de Setembro de 1578, foram presos e conduzidos às suas masmorras a maioria dos elementos do grupo, o que passou à história com a designação de “complicidad de Alcañizes”.
Aquela “célula judaica” não foi completamente desmantelada pois 4 dos implicados na “cumplicidade” e com mandatos de prisão conseguiram fugir para o outro lado da fronteira. E logo no dia 13 daquele mês, os inquisidores de Valladolid enviaram à Inquisição de Coimbra um emissário pedindo mandatos de captura contra os 4 fugitivos. E pediam também autorização para ser o próprio tribunal de Valladolid a encarregar-se de efectivar tais prisões, em terreno da jurisdição de Coimbra.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 29
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| Mogadouro-estação da CP |
António Júlio Andrade
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
A reposição dos sambenitos roubados na igreja de Carção
Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Maria Ferraz
INTRODUÇÃO
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Maria Ferraz
INTRODUÇÃO
Ao falar da Inquisição há duas
posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma
delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar
aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o
mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada
numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os
crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns
chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores
atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em
sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas
posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em
Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de
dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o
extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia
com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável,
passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do
povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade
popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de
controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o
exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas
político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas
lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta
instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar
as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a
tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder
ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que
investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal
igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o
acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores.
Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo
objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a
Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes
estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar
a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova
criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o
controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer carreira
política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário para se
entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa que
tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos, usar
uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia aspirar a
um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou secretário de
estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social, significando
que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os dirigentes do país e
da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas
vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de
Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o
colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de
juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e
social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção
de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou
judiciais.
Claro que esta poderoso complexo
institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror,
fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido
social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o
objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das
almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social,
aterrorizando o povo.
Nada disto era novo, pois a
perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e
regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do
terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a
Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício
transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror
entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do
historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais
blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na
moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias
e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os
processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate
permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo
em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir.
A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a
destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a
saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia
ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria
humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao
algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a
lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior
expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz
vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos
com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria
mais ainda a suportar do que a própria prisão.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
FREIXO DE ESPADA À CINTA
LOURENÇO ALVARES – seguiam-no como a um rei
Corria o mês de Junho de 1513 quando um junco ido de Malaca aportou em Ta-Nang, na costa da China. Era o barco capitaneado por Jorge Alvares, que naquele sítio fez logo erguer um padrão assinalando o extraordinário feito, que foi a chegada, por mar, a tão longínquas paragens do primeiro homem branco.
Jorge Alvares era o feitor da Casa Real portuguesa em Malaca e natural de Freixo de Espada à Cinta, terra aonde não terá voltado, pois veio a falecer em 8.7.1521, no mesmo sítio de Ta-Nang, sendo enterrado junto ao mesmo padrão da descoberta. (1)
Enquanto isso, naquele mês e ano de 1513, na pequena e remota vila de Freixo de Espada à Cinta, as autoridades locais prendiam um Lourenço Álvares, com base em uma denúncia chegada do vizinho reino de Castela em que era acusado de ter mandado fazer um “cunho de tostão” para fabricar moeda falsa. O crime, se é que o houve, foi perdoado por alvará do rei D. Manuel. (2)
Ignoramos se havia algum parentesco entre o navegador Jorge Alvares e o incriminado falsificador de moeda castelhana, Lourenço Álvares, os quais, para além do apelido, da terra de origem e da época em que viveram, tinham em comum o facto de ambos serem altos funcionários do Estado.
Com efeito, são vários os documentos oficiais referentes a Lourenço Álvares, de Freixo de Espada à Cinta, desempenhando então importantes funções no domínio da arrecadação dos impostos do almoxarifado de Torre de Moncorvo, nomeadamente:
1503-01-18 – Carta do ofício de recebedor das sisas de Freixo de Espada à Cinta passada a Lourenço Álvares. (2’)
1513-08-03 – Conhecimentos de recibos de Lourenço Álvares, recebedor dos portos, por que recebeu de várias pessoas as parcelas que nos mesmos se declaram (3)
1513-10-18- Procuração que fez Lourenço Álvares, almoxarife dos portos de Trás-os-Montes, a Gabriel Álvares, seu irmão, para cobrar de todos os mercadores das ditas comarcas de Entre Douro e Minho, todo o dinheiro que ficaram devendo (4)
1514-05-16 – Carta do ofício de recebedor dos portos de Trás-os-Montes passada a Lourenço Álvares, com o ordenado de 4 mil reis (4?)
1514-08-26 – Rol do dinheiro que recebeu Lourenço Álvares (5)
1515-03-09 – Procuração de Lourenço Álvares para Diogo Vaz, seu genro, receber do escrivão dos portos de Trás-os-Montes todos os dinheiros que tiver feito, que são devidos à Fazenda Real, da dízima dos panos e mercadorias dos 3 anos passados (6)
1517-01-15 – Requerimento de Lourenço Álvares, recebedor dos portos das comarcas de Trás-os-Montes para João Mendes, rendeiro principal dos ditos portos, dar fiança à dita renda. (7)
1518-02-11 – Carta de recebedor das sisas de Freixo de Espada à Cinta passada por Lourenço Álvares a Diogo Vaz, seu genro. (7´)
1520-06-27 – Diligências da conta de Lourenço Álvares, recebedor dos portos de Trás-os-Montes. (8)
Para além do mais, estes e outros documentos oficiais deixam antever uma ligação muito forte e um jogo de interesses em volta da cobrança de impostos na região do Nordeste Trasmontano, com dois homens a ganhar protagonismo, ao lado de Lourenço Álvares: Diogo Vaz, seu genro e João Mendes, rendeiro. De ambos haveremos de falar.
Não sabemos como evoluiu nos anos seguintes, a cobrança dos mesmos impostos. Sabemos é que, em 20.9.1526, foram citados, como devedores à Fazenda Real “da conta do arrendamento dos portos de Trás-os-Montes” Diogo Vaz, Brites Álvares, João Álvares e Leonor da Paz. Será que esta citação aconteceu algum percalço com o almoxarife Lourenço Álvares e aqueles eram os seus familiares/herdeiros e nessa qualidade foram citados?
Certamente que estas e outras pistas precisarão de ser investigadas. E também os processos de outros Freixenistas que, como ele, conheceram então as masmorras da Inquisição, como sejam os de Jerónimo Reinoso, que foi casado com Maria Álvares, preso em 1558; Pedro Álvares, preso em 1563; António Fernandes, preso em 1550 “acusado de levar mercadorias às terras dos mouros”; João Garcia, filho de João Garcia e Isabel Álvares, preso em 1554…
Voltando a Lourenço Álvares, diremos que ele nasceu por 1478 e certamente foi circuncidado, como todos os meninos judeus. Tinha já uns 17-18 anos quando foi baptizado, pela Páscoa de 1597, como ele próprio confessou aos inquisidores, acrescentando que foi o cura da vila de Mós (actualmente uma aldeia do concelho de Torre de Moncorvo) que o baptizou e que foram seus padrinhos o fidalgo Diogo de Sampaio e sua mulher Inês Doutel. (9)
E são estes os dados biográficos que o seu processo nos fornece. Outros mais, também muito escassos, colhemo-los nos processos de Diogo Vaz, seu genro e de Diogo Mendes, filho do rendeiro João Mendes, que igualmente conheceram as cadeias da Inquisição de Évora. Por eles sabemos que Lourenço era casado com Ana Fernandes, de Freixo de Espada à Cinta e que tinha uma filha chamada Isabel Fernandes, a qual casou com o dito Diogo Vaz, tabelião.
Não sabemos se foi em Freixo que prenderam Lourenço Álvares, o qual foi levado para Évora e metido “dentro do aljube do cardeal nosso senhor” onde foi interrogado pelo “doutor Domingos Álvares, vigário geral nomeado pelo infante nosso senhor”, em 17.7.1533. E esta nota é interessante, se nos lembrarmos que a Inquisição portuguesa só foi criada em 1536. Significa isto que antes de ser já o era e que, em vez de tribunal da Igreja, mais parece um tribunal da Corte.
Vejamos agora os pontos essenciais do interrogatório, que a isso se resume o processo de Lourenço Álvares. Pelo teor das perguntas que lhe foram feitas, adivinham-se as culpas que lhe imputavam e pode intuir-se do seu comportamento religioso e elevada cultura bíblica. (10)
O denunciante seria o padre da aldeia do Larinho, concelho de Torre de Moncorvo e a cena ter-se-á passado no dia da festa de Nossa Senhora dos Montes Ermos. Aí, o pregador, Luís Álvares de seu nome, terá falado sobre a virgindade de Nossa Senhora e Lourenço Álvares terá comentado que ela não podia engravidar e parir e continuar virgem. E ter-se-ia alongado na conversa dizendo que os santos não deviam ser adorados, mas apenas Deus. E este é único e não constituído por três pessoas.
Claro que ele negou tais acusações e disse que já o profeta Isaías pregava que Maria havia de conceber e ficar virgem – citando a passagem correspondente do Velho Testamento. E disse que, em seu entender, os santos deviam “ser adorados como advogados para que roguem por nós “ a Deus.
Acusavam-no também de ser mau cristão e não se confessar e comungar. Respondeu que, nos últimos anos se fora confessar em Barrueco Pardo e em Vilvestre, duas localidades castelhanas próximas de Freixo.
Mas se estas faltas respeitavam a uma esfera mais íntima e pessoal, outras havia que interferiam com a vivência pública da comunidade cristã-nova e, por isso mesmo, de maior gravidade. E assim, acusavam-no de ter livros proibidos e de os divulgar e comerciar de Espanha. Defendeu-se afirmando que ele tinha era uma “Confessionário Romano” por onde lia e que efectivamente mandara para o notário de Vila Real, Preto de seu apelido, um livro. Porém esse livro não era proibido, era uma “Bíblia de Alcalá” que tinha o Velho e o Novo Testamento. E não fora ele a comprá-la a Espanha, antes foi um sobrinho do dito Preto que estudava em Salamanca que lha fizera chegar a Freixo para ele enviar para Vila Real, conforme o seu conhecido e amigo, o notário Preto, lhe pedira.
Lourenço Álvares era também acusado de dizer que Cristo não era o Messias prometido, que o verdadeiro Messias estava ainda para vir. Porém, os inquisidores não terão aprofundado muito o tema, aceitando facilmente a resposta negativa do réu, acaso porque o problema messiânico ainda não ganhara o relevo que, poucos anos depois, viria a ter. Deste assunto falaremos a seguir. Por agora vejam apenas este curtíssimo excerto do interrogatório:
- Perguntado que amizade é a que ele tem tão estreita com os cristãos-novos e porque o seguem como a Rei (…) disse ele dito Lourenço Álvares (…) que o não seguem como a Rei mas antes fogem dele por ser oficial d´el-rei.
Nada mais que o interrogatório se contém no processo de L. Álvares. Nem sabemos se ficou preso e houve sentença. E não mais lhe pegamos o rasto, ignorando se voltou a Freixo ou se meteu por Castela ou outra qualquer pátria.
Porém, 10 anos depois, em 1543, na mesma Inquisição de Évora, perante o licenciado Álvaro paredes, o tabelião e escrivão de Miranda do Douro, Diogo Mendes, dele disse muitas coisas que ajudam a compor o seu retrato, começando por identificá-lo, nos seguintes termos:
- Haverá 6 ou 7 anos, estando ele declarante em Miranda, veio ter com ele um cristão-novo que se chama Lourenço Álvares, morador em Freixo de Espada à Cinta, o qual foi recebedor dos portos e do almoxarifado de Torre de Moncorvo com o qual ele declarante tinha conhecimento por ser casado com uma parente dele chamada Ana Fernandes, o qual Lourenço Álvares lhe parece que é homem de 70 anos, pouco mais ou menos.
A fazer fé nas declarações de Diogo Mendes, Lourenço Álvares era um grande pregador do messianismo judaico e um verdadeiro cabalista. Tinha uma Bíblia em hebraico, caldeu e latim e costumava trazer com ele um Saltério (livro de salmos). Dizia que estava próxima a vinda do Messias, que “a falsidade de Cristo” acabaria em 1542. E isto com base no salmo 32 que diz: “falax est equus ad salutem” (falso é o cavalo para a saúde). Então o que têm a ver estas palavras com a afirmação de que o Messias viria no ano de 1542? É que, segundo os especialistas da ciência da Cabala, as letras hebraicas têm correspondências numéricas e o conjunto daquelas letras faz a soma de 1542.
Será que estamos em presença do último cabalista conhecido em Portugal? Neste caso o processo de Lourenço Álvares ganha um interesse único, apresenta uma descoberta fantástica e vem colocar Freixo e Miranda do Douro nas rotas do estudo da Cabala judaica, conforme o parecer do dr. Hugo…..
Mas deixemos estas coisas para os entendidos. Fiquemos com as declarações de Diogo Mendes, sem qualquer hesitação, falava de Lourenço Álvares como um homem “sábio e letrado na lei de Moisés”. Confessava, aliás, que foi ele que o levou para o judaísmo e o catequizou, depois da morte de seu pai, altura em que o dito Lourenço Álvares lhe terá feito a seguinte declaração formal:
- Ora, olha e tem ponto que agora que teu pai é falecido te quero desenganar porque nunca em sua vida to ousei dizer porque ele era muito grande cristão e agora para que não percas a tua alma, te faço saber que (…) a lei de Moisés é que vale porque a de Cristo é falha e enganosa.
Explicava o tabelião que se deixara levar pela conversa de Lourenço Álvares, que “por ele ser amigo dele declarante e homem velho e sábio na lei o induziu e o enganou”.
Iludido ou não, Diogo Mendes parecia confiar plenamente naquele homem “velho e sábio” e contava-lhe até os seus sonhos, que mais pareciam visões proféticas. Vejam este caso:
Em certa altura Diogo ficou doente, muito doente, às portas da morte, com febres altíssimas e delirando. E pareceu-lhe mesmo que fora ao outro mundo e que lá viu uma dezena de homens “com suas lobas vestidas e capelos e que um o tomava e que outro o deixava e que lhe parecia que falavam hebraico”. Diogo contou a Lourenço Álvares a visão que tivera e este lhe asseverou:
- Te faço saber que o que viste do outro mundo eram judeus e não há outra coisa nem se fala outra língua no céu senão o hebraico.
Argumentou Diogo dizendo que não podia provar tal coisa, ao que Álvares retorquiu:
- Crê no que te digo, porque quero que te salves e não te percas.
Outros pormenores acrescentou Diogo Mendes sobre o “sábio e letrado” mestre “que o induziu e trouxe à crença na lei de Moisés”. Assim, disse “que há muito tempo que lhe mostrou uma Bíblia que tinha, em hebraico, caldeu e latim” Foi também ele que lhe ensinou a fazer ritos e cerimónias judaicas como guardar os sábados, acender as candeias, celebrar a Páscoa comendo pão asmo e mandando fazer de comer em louça nova, a jejuar do “dia das perdonanças”… mas também lhe disse que a lei tinha muitas mais cerimónias que lhas não podia ensinar…”
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
NOTAS
1 – LUIZ KEIL, O Primeiro Português que foi à China, Lisboa – 1933.
2 – HIRONDINO DA PAIXÃO FERNANDES, Bibliografia do Distrito de Bragança, tomo I, Bragança – 1996, cit. PEDRO DÁZEVEDO, Miscellanea archeologica, in: Archivo Historico Portuguêz, VIII: 95, Lisboa – 1903 – “Carta de perdão dada por D. Manuel a “um falsificador do cunho de tostão (…) Manuell do Porto, morador em Freixo d´Espada Cinta e criado do chantre da Guarda, nos enviou dizer per sua petiçam, que estando elle e outro em a dita villa de Freixo, hum Pêro Estevez e outro Martin Afonso, juízes hordenairos em a dita villa, prenderom a hum Lourenço Alves, por se achar culpado por huns autos que de Castela vierom que ele mandara fazer o cunho de tosta…”
3 – IANTT, corpo cronológico, parte II, maço 41, nº 124.
4 – IANTT, cc, p. II, mç. 42, nº 193
5 – IANTT, cc, p. II, mç. 51, nº 9
6 – IANTT, cc, p. II, mç. 55, nº 153
7 – IANTT, cc, p. II, mç. 68, nº 30
8 – IANTT, cc. P. II, mç. 90, nº 63
9 – Diogo de Sampaio, senhor de Vila Flor, era também alcaide dos concelhos de Mós, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta.
10 – IANTT, Inquisição de Évora, processo, de Lourenço Álvares.
A leitura do processo foi feita pelo dr. Hugo…
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 28
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| Terreiro do Paço |
Gaspar Lopes Pereira, aliás, Gaspar Dias de Aguilar. Nasceu em Mogadouro por 1642. Era filho de
Francisco Lopes Pereira e de Maria Dias, aliás, Maria del Angel. Aos 10 anos
foi levado pelos pais para Castela, residindo em Madrid por algum tempo e dali
passando a Granada onde fixaram residência definitiva. Não sabemos que estudos
terá feito Gaspar mas ele aparece com um homem muito culto e inteligente e que
inspirava confiança. Terá sido mesmo uma espécie de preceptor dos filhos de
António Mogadouro, cuja casa, em Lisboa, frequentava. Isto porque ele se diz
mercador, mas não mercador de loja, antes um homem de negócios, em constantes
deslocações e viajando não apenas para Lisboa mas também para as bandas de
Itália e França. Por isso mesmo, depois que o padre António Vieira saiu
penitenciado da inquisição de Coimbra e se dirigiu para Roma onde, juntamente
com outros vultos da ordem dos Jesuítas e mercadores marranos de Lisboa, na
década de 1670, se lançaram numa verdadeira batalha diplomática para obter do
papa de Roma um perdão para os cristãos-novos presos e a alteração dos
estatutos da inquisição, Gaspar Lopes Pereira foi escolhido para servir de
correio entre Lisboa e Porto. E costumando fazer esta viagem em 20 dias,
daquela vez gastou 43 dias, chegando a Roma com as cartas de Lisboa em 10.10 de
1673. Tinha expirado o prazo que a Santa Sé havia concedido e assim se haviam
gorado as negociações. Foi recebido com raiva e insultos pelo chefe da
embaixada dos marranos em Roma, o padre jesuíta Francisco de Azevedo, que o
acusava de ter atraiçoado os seus amigos, familiares e toda a gente da nação.
Desculpou-se Gaspar dizendo que adoecera no caminho, mas não aceitou que o
padre Azevedo remetesse contra ele e ambos se engalfinharam em luta. Regressou
a Portugal onde o esperava, naturalmente, um ambiente de desconfiança por parte
dos seus irmãos de raça. Para além disso, as inquisições de Castela e Portugal
andariam há muito tempo a seguir o seu rasto, pois também elas tinham espiões
por terras de França e de Itália. Efectivamente em 16.3.1675, em Lisboa foi
recebida uma carta da inquisição de Valladolid dizendo que fora buscado em
Espanha para ser preso, mas não foi encontrado e solicitando que o fizessem
prender em Lisboa, por constar que ali residia. Juntamente enviavam 14 folhas
cheias de acusações de judaísmo. Foi preso em
8 de Abril de 1675. Metido na cadeia, confessou que efectivamente fora
levado para o judaísmo por um tio seu, Diogo Henriques do Vale e que fizera
práticas judaicas. Acrescentou que estava arrependido e que já há bastante
tempo abandonara a lei de Moisés. Por mesmo os da sua nação eram todos seus
inimigos e as acusações que lhe faziam era ditadas por ódio e não por espírito
de justiça cristã. Terá chegado à conclusão de que esta táctica de defesa não
adiantava e, por isso, mudou de atitude. Passou a afirmar-se judeu e a dizer
que na verdade só havia salvação na lei que Deus deu a Moisés”e que isso defenderá
até onde o seu entendimento alcançar”. Teve debates teológicos com os
inquisidores e qualificadores do santo ofício e quando estes lhe colocavam
alguma questão bíblica mais complicada, ele respondia: - “Se na igreja católica
há doutores e bispos e outros mestres que ensinavam a sua doutrina, também nós
temos mestres e professores nas sinagogas, que sabem responder a todas as
coisas da lei de Moisés”. A sentença só podia ser a condenação à morte, sendo
queimado na fogueira do auto-de-fé celebrado no Terreiro do Paço em 10 de Abril
de 1682.
António Júlio Andrade
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
OS ISIDROS EM MADRID - Banqueiros e homens de negócio
![]() |
| CONVITE- os "ISIDROS" na Casa do Infante |
Em língua castelha, um autor anónimo, à época residente em Madrid, deixou registadas em um pequeno caderno, entre outras, as seguintes notas:
* 22 de Agosto de 1654 – Ninguém mais confia nos banqueiros portugueses. Estão falidos e fogem da Inquisição. Asseguram-me que, depois do auto-de-fé de Cuenca, mais de 200 famílias fugiram durante a noite. Isso é o que o medo pode fazer.
* 18 de Setembro de 1654 – Desde sábado último, a Inquisição prendeu em Madrid 17 famílias portugueses… Diz-se com muita certeza que não há um português com elevada categoria que não seja cripto-judeu.
* 17 de Maio de 1655 – Em Sevilha, no começo de Abril, quatro ricos mercadores portugueses foram presos pela Inquisição.
* 29 de Maio de 1655 – Os ricos irmãos Cardoso que geriam os impostos de várias províncias, fugiram porque um chantagista ameaçara depor afirmando que eles eram judaizantes, a menos que pagassem pelo seu silêncio. Face à impossibilidade de terem que provar tratar-se de falso testemunho, preferiram fugir ao castigo a permanecer na prisão até que se restabelecesse a verdade.
* 22 de Julho de 1655 – Os Cardoso fugiram para Amesterdão, levando consigo 200 000 ducados em lãs e 250 000 em ouro. Diz-se que foram fugidos à inquisição. Eles procuram uma terra para viver em liberdade.
O texto é bem elucidativo e leva-nos à casa comercial de Don Juan Rodriguez Cardoso – como todos o tratavam e ele gostava que se dissesse – e à sua residência de Mósteles, nos arredores de Madrid. E ele e sua mulher, Maria Henriques, terão nessa altura partido para Bayonne. Tê-los-ão acompanhado outros familiares, entre os quais o filho mais velho, Manuel Rodrigues Cardoso, nascido em Torre de Moncorvo em 1625 e que casara com sua prima co-irmã, Maria de la Peña, como atrás se disse.
Elucidativa é também a seguinte denúncia então chegada à Inquisição espanhola:
- Disse que este (D. Juan R. Cardoso) também era muito bom biscainho e muito observante da lei do Todo Poderoso Deus de Israel e que estava retirado em Mósteles e que era muito astuto porque se por acaso diziam algo contra ele na Inquisição, tinha consigo Don Fulano Belásquez, cavaleiro da ordem de Santiago e que havia sido cavaleiro do Condestável de Castela, para que este senhor servisse de defesa, ao qual pagava a renda para que informasse que não era judeu.
Mas nem toda a família Isidro abandonou Castela e na casa de Mósteles ficaria um outro filho de Don Juan, o Luís Marques Cardoso que já vimos em Sevilha, casado com sua prima Aldonça Cardoso Velasco. Dele falaremos no capítulo seguinte. Agora vamos apenas contar um episódio protagonizado por sua mulher e que mostra bem como os cristãos-novos viviam em permanente clima de medo e sujeitos a contínuos actos de chantagem.
Encontrava-se D. Aldonça, em certa ocasião, numa rua de Madrid, em um aparatoso coche, bem ataviada, com um gibão de veludo verde, quando se aproximaram quatro mulheres embuçadas e se lhe dirigiram nos seguintes termos:
- Melhor te ficaria o sambenito que te puseram na Inquisição do que esse gibão de veludo. Nós sabemos quem tu és e podíamos denunciar-te.
In: Os Isidros, a epopeia de uma família de marranos de Torre de Moncorvo.
For the book on the Isidros of Torre de Moncorvo
Fernanda .
Congratulations.this is very important work .
I am descended from one Jacob Lopes Torres who was in Jamaica before 1700.
I wouldn't be surprised if he was from Torre de Moncorvo .
You said last time you wrote that you were not feeling well. How are you
feeling now?
Best regards
Richard Henriques
Em língua castelhana, um autor
anónimo, à época residente em Madrid, deixou registadas em um pequeno caderno,
entre outras, as seguintes notas:
* 22 de Agosto de 1654 – Ninguém mais confia nos banqueiros
portugueses. Estão falidos e fogem da Inquisição. Asseguram-me que, depois do
auto-de-fé de Cuenca, mais de 200 famílias fugiram durante a noite. Isso é o
que o medo pode fazer.
* 18 de Setembro de 1654 – Desde sábado último, a Inquisição prendeu em
Madrid 17 famílias portugueses… Diz-se com muita certeza que não há um
português com elevada categoria que não seja cripto-judeu.
* 17 de Maio de 1655 – Em Sevilha, no começo de Abril, quatro ricos
mercadores portugueses foram presos pela Inquisição.
* 29 de Maio de 1655 – Os ricos irmãos Cardoso que geriam os impostos
de várias províncias, fugiram porque um chantagista ameaçara depor afirmando
que eles eram judaizantes, a menos que pagassem pelo seu silêncio. Face à
impossibilidade de terem que provar tratar-se de falso testemunho, preferiram
fugir ao castigo a permanecer na prisão até que se restabelecesse a verdade.
* 22 de Julho de 1655 – Os Cardoso fugiram para Amesterdão, levando
consigo 200 000 ducados em lãs e 250 000 em ouro. Diz-se que foram fugidos à
inquisição. Eles procuram uma terra para viver em liberdade.
O texto é bem elucidativo e
leva-nos à casa comercial de Don Juan Rodriguez Cardoso – como todos o tratavam
e ele gostava que se dissesse – e à sua residência de Mósteles, nos arredores
de Madrid. E ele e sua mulher, Maria Henriques, terão nessa altura partido para
Bayonne. Tê-los-ão acompanhado outros familiares, entre os quais o filho mais
velho, Manuel Rodrigues Cardoso, nascido em Torre de Moncorvo em 1625 e que
casara com sua prima co-irmã, Maria de la Peña, como atrás se disse.
Elucidativa é também a seguinte
denúncia então chegada à Inquisição espanhola:
- Disse que este (D. Juan R. Cardoso) também era muito bom biscainho e
muito observante da lei do Todo Poderoso Deus de Israel e que estava retirado
em Mósteles e que era muito astuto porque se por acaso diziam algo contra ele
na Inquisição, tinha consigo Don Fulano Belásquez, cavaleiro da ordem de
Santiago e que havia sido cavaleiro do Condestável de Castela, para que este
senhor servisse de defesa, ao qual pagava a renda para que informasse que não
era judeu.
Mas nem toda a família Isidro
abandonou Castela e na casa de Mósteles ficaria um outro filho de Don Juan, o
Luís Marques Cardoso que já vimos em Sevilha, casado com sua prima Aldonça Cardoso
Velasco. Dele falaremos no capítulo seguinte. Agora vamos apenas contar um
episódio protagonizado por sua mulher e que mostra bem como os cristãos-novos
viviam em permanente clima de medo e sujeitos a contínuos actos de chantagem.
Encontrava-se D. Aldonça, em
certa ocasião, numa rua de Madrid, em um aparatoso coche, bem ataviada, com um
gibão de veludo verde, quando se aproximaram quatro mulheres embuçadas e se lhe
dirigiram nos seguintes termos:
- Melhor te ficaria o sambenito que te puseram na Inquisição do que
esse gibão de veludo. Nós sabemos quem tu és e podíamos denunciar-te.
In: Os Isidros, a epopeia de uma família de marranos de
Torre de Moncorvo.
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 27
Francisco Lopes Pereira. Ao findar do mês de Fevereiro de
1651, mais de 100 pessoas foram presas em Mogadouro e levadas para as masmorras
da inquisição de Coimbra. Um dos prisioneiros chamava-se Francisco Lopes Pereira.
Contava uns 34 anos de idade e era casado com Maria Dias, que lhe dera já dois
filhos (Gaspar e Manuel) e lhe haveria de dar uma filha – Beatriz. A estadia na
cadeia foi relativamente curta, já que saiu penitenciado no auto de fé
realizado em 14 de Abril de 1652.
Regressado a Mogadouro, Francisco Lopes Pereira viu um primo
seu e muito amigo ser assassinado por andar metido em ilícitos amores com uma
mulher casada que tinha o marido em Castela. E um irmão e um cunhado desta
foram os autores do assassínio. Francisco Lopes jurou vingar-se e logo se meteu
a caminho de Lisboa onde procurou advogados e requereu justiça. Decorreu o
processo, sendo os autores julgados e condenados à morte, embora à revelia,
pois que, entretanto, se tinham voltado a abalar para Castela. Com a sentença
na mão, Francisco fez erguer na praça de Mogadouro uma forca e ali pendurar
dois bonecos de palha, simulando os assassinos, ao menos para que a memória do
crime perdurasse. E por muito tempo ali ficou a forca e os enforcados.
Depois disso, Francisco pegou na mulher e nos filhos e foi-se
também para Castela, assentando em Madrid, no estanco do tabaco. E logo no ano
seguinte arrematou o monopólio da venda do mesmo produto na região de Granada,
conseguindo amealhar boa fortuna. E chegado aos anos de 1660, Francisco Lopes
conseguiu mesmo arrematar a cobrança dos “Milhones”, as rendas reais, na dita
região.
E quando tudo parecia correr da melhor maneira, Francisco e
Maria foram presos pela inquisição. Particularmente interessante para se
escrever a história desta família de marranos de Mogadouro é o processo de
Maria Dias, nomeadamente as suas “contraditas”, que, anos depois, foram
copiadas e enviadas para a inquisição de Lisboa e juntas ao processo de seu
filho Gaspar. E assim ficamos a saber que com a ascensão económica, a família
procurou também a promoção social, começando pela adopção de novos sobrenomes.
Assim, ela passou a chamar-se D. Maria del Angel e os filhos passaram a
nomear-se Gaspar de Aguilar e Manuel de Aguilar, enquanto a filha, nascida já
em Espanha se dizia Beatriz del Angel e casava com D. Pedro Maldonado de
Medina. Da descendência de Francisco será o famoso Barão de Aguilar.
António J. Andrade
sábado, 8 de dezembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 26
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| TORRE DE MONCORVO |
Manuel Rodrigues Isidro. Porventura nunca em Torre de
Moncorvo se assistiu a uma tão intensa luta política como nos anos de 1600. As
forças em presença podemos seguramente designá-las de “partido dos marranos” e
“partido da inquisição”. A liderar o partido dos marranos encontrava-se Manuel
Rodrigues Isidro. E a luta ganhou tal intensidade que incluiu processos
judiciais, assassinatos políticos, arruaças sem conta e cenas de pancadaria.
Uma dessas cenas desenrolou-se no dia 17 de Maio de 1599 na Rua dos Sapateiros,
à porta de Manuel Rodrigues Isidro que dela saiu com o dedo de uma das mãos
decepado e possivelmente ali perderia a vida se não fosse tão lesto a recolher-se
em casa, com a preciosa ajuda dos familiares. Outro episódio desenrolou-se em Madrid
onde um fidalgo cavaleiro Moncorvense da ordem de São Tiago e líder do tal
“partido da inquisição” assassinou um cunhado de Manuel Isidro. E destes e
doutros episódios resultou a prisão de uns 9 homens das famílias mais nobres de
Torre de Moncorvo, incluindo o presidente e os vereadores da câmara, assim como
um familiar da inquisição. Presos com “baraço e pregão”, que o mesmo é dizer
que foram presos e passeados pelas ruas da vila com uma corda atada ao pescoço,
acabando alguns desterrados para o Brasil e outros para o couto de Castro
Marim. Claro que, pertencendo eles a famílias poderosas, tinham muitos amigos
nas altas esferas do poder e juravam que a vingança haveria de ser terrível. E
que melhor palco havia para executar a vingança do que o tribunal da
inquisição? Não eram as suas escuras e húmidas masmorras bem mais difíceis de
suportar do que quantos desterros havia?
No regresso de uma viagem por Madrid e Lisboa passando em Coimbra,
a caminho de Torre de Moncorvo, no dia 1º de Dezembro de 1618, Manuel Rodrigues
Isidro fo efectivamente preso pela inquisição, acusado de se ter declarado
seguidor da crença judaica, segundo tinha declarado uma testemunha. Nada se
provou e, passados 5 anos, foi posto em liberdade sem que lhe tivesse sido
decretada qualquer punição e sem comparecer em qualquer auto de fé! E isto nos
convence ainda mais que se tratou de uma prisão baseada em razões políticas e
não religiosas. Devolvido à liberdade, não mais voltaria a Torre de Moncorvo e
nem sequer se demorou em Portugal. Antes se meteu a caminho da Flandres e foi
tomar residência na cidade de Amesterdão onde se fez circuncidar e abraçou
abertamente a lei judaica tomando o nome hebreu de Isaac Baruch. Halévy informa
que depois ele se passou à Alemanha fixando residência na cidade de Hamburgo e
ali terá sido um dos 20 fundadores do primeiro banco que houve no mundo. O
mesmo biógrafo alemão transcreve os dizeres da sua lápide sepulcral encontrada
no cemitério judaico de Hamburgo, nos seguintes termos: - Sepoltura do benaventurado y honrado Ymanoel Baruch. Faleceu a 6 fra 18
de Nisan. Ano de 5402. Sua alma goze da goria. Ou seja: faleceu em
18.4.1642.
Voltemos atrás, ao tempo de sua prisão. Manuel tinha então 43
anos e estava casado com Alda Cardoso e eram pais de 3 filhos e 7 filhas. Era
dono de muitos bens de raiz: 4 ou 5 casas e várias propriedades agrícolas em
torre de Moncorvo, destacando-se uma formosa parcela de terreno atrás das casas
conhecido por Olival das Bolas, com seu monumental chafariz de horta. Tinha
também olivais por longes terras como era um na vila de Lamas de Orelhão, para
lá de Mirandela. E era o dono da Quinta de Meireles (hoje uma freguesia do
termo de Vila Flor) que trazia arrendada por uma dezena de lavradores que em
cada ano lhe pagavam 315 alqueires de pão e trigo, 7 galinhas e 4 carneiros. E
tinha tulhas em muitas terras de Trás-os-Montes pois ele era rendeiro da
Comenda de Mascarenhas e trazia arrendadas as Terças de toda a comarca de Torre
de Moncorvo que abrangia uns 26 concelhos de Trás-os-Montes e Alto Douro. Sim,
que a sua profissão era a de rendeiro. Mas tinha também interesses no porto e
em Madrid, trabalhando com os irmãos, especialmente com Vasco Pires Isidro, em
uma rede familiar de negócios. Por isso mesmo que Markus Schreiber coloca estes
dois irmãos entre os “banqueiros do rei” de Espanha.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
UMA DOCEIRA MARRANA
Uma doceira marrana que fazia os deliciosos massapães de Torre de Moncorvo
Naquele dia 21 de Agosto de 1647, fizeram-se em Torre de Moncorvo umas quantas prisões, a mando do tribunal da Inquisição de Coimbra. Entre os aprisionados contava-se um Francisco Brandão e sua mulher Maria Rodrigues. Enquanto se não organizava a marcha para Coimbra – isso implicava uma série de diligências – o Francisco foi metido na cadeia da vila e a Maria ficou guardada em casa de uma cristã-velha, Joana de Gouveia, de seu nome e pertencente à nobreza da vila.
Chegada a hora de abalar, a tralha (colchões, cobertores, panelas, pratos… - que eles tinham que levar cozinha e cama - foi carregada em um jumento que seguiu à frente, na caravana dos homens. A ela puseram-lhe um macho à porta da casa onde estava presa e ajudaram-na a montar para o dorso do animal. Depois ataram-lhe as mãos e os pés, não tanto com receio de que ela fugisse, mas para engrandecer o espectáculo. Quem dirigia estas operações era o comissário local, ajudado pelo familiar do santo ofício Francisco de Gouveia Pinto.
Implorou que a levassem pela rua das Quatro Esquinas, para que os filhos a não vissem naquela triste e degradante situação, exposta à irrisão do público. De contrário, decidiu o comissário, segundo o alvitre do familiar, que iria mesmo pela Praça do Município onde ficava a sua casa, para que vissem bem vista e servir de exemplo, sobretudo para os filhos que choravam. Escarninho, o familiar voltou-se para ela e ordenou:
- Valha aos diabos, bravazona! – ao que ela respondeu:
- Não quer que chore pelos meus meninos? Pois vou presa por falsários e traidores.
Mais tarde ela explicaria que o Pinto disse aquilo por raiva e que estava raivoso por lhe não cometerem a ele a prisão, nem vir com ela nem com os mais presos, a ganhar dinheiro.
Certamente que ele não aceitava tal explicação e se alguém lhe perguntasse porque estava ali, sem ser chamado, a acompanhar a prisioneira pelas ruas da vila, responderia que era por zelo da fé cristã. Aliás, eram mais de 50 pessoas, beatos e beatas e garotos que, como ele, seguiam, como em procissão, proferindo ameaças e impropérios contra os hereges dos judeus.
Ao passar pelo Rossio, junto à igreja matriz, juntou-se outra prisioneira, Beatriz da Costa, igualmente montada e amarrada em uma cavalgadura conduzida pela rédea por um caminheiro contratado para o efeito. E Maria Rodrigues terá então desabafado para esta companheira:
- Negros companhas foram os nossos! – como quem diz: pouca sorte a nossa!
Ao chegar o cortejo ao cabo da vila, avistou-se a coluna dos homens que seguiam presos, à frente, na estrada do Pocinho, a transpor a Portela das Aveleiras. E Maria Rodrigues ter-se-á posto a gritar para o marido:
- Meu Brandão, pai dos meus filhos! – e a falar coisas que as testemunhas não reproduziram.
E então, o familiar disse ao homem que tinha a besta pelo cabresto, lha volvesse, não lhe desse o sol no rosto – uma forma assaz matreira de mandar parar a marcha e impedir que a prisioneira comunicasse com o marido. E ela, então, virou-se para o Pinto clamando em alta voz e por muitas vezes:
- Falsário, traidor, inimigo cruel da gente da nação! – e acrescentou ameaças e juras que eu lho havia de pagar, tratando-me muito mal e tudo em desprezo do meu ofício; e ouviram estas palavras mais de 50 pessoas – conforme testemunho de Francisco de Gouveia Pinto, em carta dirigida aos inquisidores de Coimbra, descrevendo a cena.
Sim: este era mais um crime a acrescentar no cadastro daquela mulher que foi presa por judaísmo. Insultar um familiar do Santo Ofício era falta de respeito para com o santo tribunal. E a gravidade do crime aumentava porque as ameaças e insultos ao familiar foram feitas à frente de mais de 50 pessoas.
Algumas dessas pessoas foram depois chamadas a depor no processo e, com mais ou menos colorido, todas confirmaram o essencial da cena. Uma delas disse que Maria Rodrigues chamou em altas vozes palavras afrontosas ao dito familiar, como: traidor, falsário, quanto me tens comido, a que o dito familiar respondeu se a levara presa lhe havia de pôr uma mordaça.
Deixemos a caravana seguir para Coimbra e voltemos à Praça do Município, em Torre de Moncorvo, à casa de Francisco Brandão e Maria Rodrigues, paredes-meias com a do ferrador Henrique Rodrigues. Aliás, as duas casas comunicavam por um buraco e Maria confessará mais tarde aos inquisidores que foi a mulher do ferrador que a catequizou. Vejam essa declaração:
- Disse que haverá 12 anos, em sua casa, por um buraco de sua casa, que estava junto de outra de Henrique Rodrigues, ferrador, chegou ao dito buraco Susana Mendes, mulher do mesmo e doutrinou-a e apartou-se.
Não curando saber a verdade desta confissão, é interessante notar este pormenor da construção das casas e imaginar como as mulheres conversavam sem sair da própria casa.
Tinha a casa dois pisos, sendo que o primeiro era destinado ao comércio. Tendeiro era a profissão de Francisco. Mas na sua tenda não se vendiam apenas tecidos e linhas. Sabemos, por exemplo, que em Torre de Moncorvo ele era o único vendedor de sabão autorizado. Como também vendia resmas de papel… Para aquela época, devia ser uma boa casa comercial a sua, pois que nos dias de feira, pela muita gente que acudia a comprar a sua casa, nem tempo tinha para comer.

Uma das acusações que lhe fizeram foi de em sua casa se juntarem várias famílias de cristãos-novos, certamente para rezarem e fazerem cerimónias judaicas. Ela responderá que não, que as pessoas iam lá e se juntavam porque dava jogo em sua casa. Por causa disso, aliás, é que vieram as inimizades com um tal Francisco Gonçalves, que também tinha casa de jogo e viu os lucros descerem com a abertura da sua.
Certamente que a sala do jogo era no piso de cima, pois essa actividade envolvia muita discrição e alguma clandestinidade, pois ninguém gostava de ser visto ou apanhado a jogar.
Subia-se para o andar de cima por uma escada interior, a partir da tenda. E durante a semana parece que raramente se via a dona da casa ficar em baixo por muito tempo. Passava os dias a fazer doces e o seu trato principal era o de doceira. Dirá ela que de contínuo assistia na sua tenda a fazer e a vender doces, sem dali sair.
De verdade, na culinária Moncorvense a doçaria sempre mereceu especial destaque e, para além das famosas amêndoas cobertas, merecem inscrever-se no seu dicionário doceiro os massapães que já a Maria Rodrigues fazia para vender, tal como hoje se fazem, com amêndoas pisadas, ovos, farinha e açúcar.
E se a doceira dizia que passava o tempo a fazer e vender doces, gente apareceu a dizer perante o comissário da Inquisição que durante a semana mal se vê na tenda mas aos sábados deixa o andar de cima e vem abaixo à tenda e fica sentada na escada sem fazer nada. Mas vejam todo o colorido da denúncia feita pelo distribuidor e contador Teotónio Barreto:
- Maria Rodrigues durante a semana não vem abaixo á tenda (…) e nos sábados vem assistir na tenda, mais consertada de corpo e rosto e mais alegre do que do costume. E ele testemunha vê muitas vezes, por a tenda estar na praça.
E se este homem via, por a tenda estar na praça, imagina-se como o familiar Francisco de Gouveia Pinto se poria a espiolhar cada gesto e cada fala daqueles judeus que ele havia de apanhar. Pelo seu depoimento, dá ideia de ser frequentador assíduo da tenda e conversar muito com o tendeiro e a mulher. Assim, disse que, várias vezes, aos sábados, vendo os dois sem trabalhar, lhe perguntava porque estavam ociosos e eles respondiam que estavam enfadados e não podiam aturar o trabalho de toda a semana. E disse que outras vezes os via, em dias de sábado, ter fechada a loja e eles estarem na praça.
Gouveia Pinto nomeou também os cristãos-novos que via entrar para casa do Brandão e lá ficarem com a porta fechada. E terá mesmo estranhado isso e perguntou-lhes mesmo porque se juntavam lá em casa. A isto terá ele respondido com outra pergunta: se em sua casa não recebia também os seus amigos? E este respondeu que conversava com os amigos à porta mas não dentro de casa.
Reparou também o Pinto que os tais ajuntamentos se faziam mais nas noites de sexta-feira. E então passou a andar mais de olho neles. Eis o resultado de uma dessas observações, conforme relatou ao comissário Pedro Saraiva de Vasconcelos, em 15 de Junho de 1646:
- Hoje, 15 do mês de Junho, entrando ele na tenda do dito Francisco Brandão e sua mulher Maria Rodrigues, ao tempo que o relógio deu uma hora depois do meio dia, sexta-feira, estava Maria Rodrigues fiando uma roca, e a tirou da cinta e se pôs a conversar com ele testemunha e com o dito seu marido, sem fazer coisa alguma.
Interessante também o processo de Maria Rodrigues, do ponto de vista das suas relações familiares e da dispersão territorial dos mesmos. Tinha um irmão casado em Lamego e outro em Coimbra. Um sobrinho era advogado no Porto e outro a residir em Lagos que era revedor, administrador e cobrador das terças do Reino. Sendo preso pela Inquisição de Évora, ao ditar o seu inventário disse que tinha 21 painéis, entre eles um quadro do rei de Portugal, D. João IV. E muito mais se poderia dizer sobre os dois processos que lhe foram instaurados – o que não caberia num artigo de jornal. Talvez que um dia voltemos a tratar do assunto.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2062, de Maria Rodrigues.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 25
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| Vila Flor- 1939 |
Francisco Vaz Eminente. Um dos mais antigos documentos de
legislação aduaneira dá pelo nome de “Convénio de Eminente”. Foi promulgado em
Espanha em 1680 e vigorou naquele e em outros países europeus que depois o
seguiram, até finais do século seguinte. Respeitava este monumentos legislativo
à cobrança dos impostos sobre certas mercadorias estrangeiras que entravam no
país. Por detrás do nome, encontra-se o homem que o concebeu, um homem
trasmontano, sefardita e marrano que foi grande em Espanha, ali desempenhando o
cargo de “Contador de Honor dél Tribunal de Contaduria” – algo que, em termos
actuais, em Portugal, podemos grosseiramente comparar a juiz do tribunal de
contas. Eminente era a alcunha herdada da família, uma família que em Vila Flor
seria isso mesmo: eminente. O nome era Francisco Vaz. Para além das suas
actividades de rendeiro, “asientista” e “banqueiro” do rei de Espanha, sabemos
que Francisco Vaz casou em Sevilha com Violante Ribeira, por 1653 e tendo
ficado viúvo, casou de novo, em Madrid, com Josefa Salazar. Uma e outra
pertenciam a ricas famílias de mercadores fugidos de Portugal por causa da
inquisição. E em 1689, também o “Contador” Francisco Vaz Eminente foi preso
pela inquisição de Madrid, com sequestro de seus bens, que eram imensos.
Voltemos a Vila Flor para dizer que o primeiro que tomou a alcunha de Eminente
foi também um Francisco Vaz (seu avô?), que ali nasceu por 1560 e ali faleceu
antes de 1620. Foi casado com uma Isabel Pereira, a qual foi presa em 1638,
contando já 84 anos de idade. Foi penitenciada em 1640 juntamente com duas
filhas e uma nora, mulher do “Eminente Lopo Vaz” que também estagiou nas
masmorras da inquisição de Coimbra entre 1620 e 1625.
António Júlio Andrade
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
ANTÓNIO HENRIQUES – o bacharel de V. N. Fozcôa que em Coimbra hospedou o correio do Messias
Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
De entre esses movimentos messiânicos que surgiram na primeira metade do século de 500, realce para o que foi protagonizado por Reubeni, o qual foi, aliás, levado muito a sério, mesmo em círculos estranhos ao judaísmo, a ponto de ser, inclusivamente, recebido com todas as honras na Cúria Romana e nas Cortes de Portugal e Castela. E, de entre os pregadores desse movimento messiânico, destacou-se o cripto-judeu Diogo Pires, nascido em Évora, formado em Medicina pela universidade de Salamanca e falecido em Itália em 1607.
Maria F. Guimarães
O estabelecimento da Inquisição
deixou muito perturbados os cristãos-novos. E esta perturbação naturalmente que
desencadeava ondas de emoção colectiva. Escusado será dizer que, face a uma tal
situação de amargura e desespero, as pessoas procuravam alívio, refugiando-se
na religião de seus pais e avós. Extremamente fragilizados e tornados
vulneráveis, sentiam-se como náufragos e tentavam desesperadamente agarrar-se a
qualquer tábua de salvação.
Não admira, pois, que em tal
ambiente de tragédia e desespero, tenha brotado com força a ideia de um
salvador do povo judeu. E foram vários os Messias que surgiram e os Profetas
que os anunciavam, um pouco por toda a parte: na Turquia, na Itália, na
Alemanha ou na África.De entre esses movimentos messiânicos que surgiram na primeira metade do século de 500, realce para o que foi protagonizado por Reubeni, o qual foi, aliás, levado muito a sério, mesmo em círculos estranhos ao judaísmo, a ponto de ser, inclusivamente, recebido com todas as honras na Cúria Romana e nas Cortes de Portugal e Castela. E, de entre os pregadores desse movimento messiânico, destacou-se o cripto-judeu Diogo Pires, nascido em Évora, formado em Medicina pela universidade de Salamanca e falecido em Itália em 1607.
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| Dia 30 – 18H30
Apresentação do livro “Os Isidros”
por António Júlio Andrade
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Em Portugal surgiram, entretanto,
dois estranhos personagens e trágicos: Bandarra, o poeta , sapateiro de
Trancoso, cristão-velho e Luís Dias, o alfaiate de Setúbal, cristão-novo. E se
o primeiro se apresentava como um adivinhador e profeta, o segundo
considerava-se o Messias prometido aos judeus. E nele acreditavam até pessoas
de elevada cultura e prestígio social, como fossem:
* O dr. Francisco Mendes, médico
do irmão do inquisidor mor e futuro rei de Portugal – o cardeal D. Henrique.
* O dr. Dionísio, outro médico,
ou físico da Corte que depois fugiu para Londres.
* Mestre Gabriel, apresentado
como físico e também como procurador de causas (advogado) que “andava por
Lisboa pregando aos cristãos-novos, de casa em casa, a lei de Moisés e se
provou que circuncidou muito número deles”.
* Um Lente de Medicina da
universidade de Coimbra cuja identidade permanece desconhecida.
* João Fernandes, um cristão-novo
que era sapateiro em Évora e se transferiu para Lisboa tornando-se vendedor de
calçado e foi celebrizado com “o bedel do Messias”, espécie de contínuo ou
porteiro.
* Pêro Álvares, um conceituado
mercador de Évora que em Lisboa frequentava casas da nobreza, como eram as do
duque de Bragança e do conde de Portalegre. Foi pelos historiadores apelidado
como o “diplomata” ou embaixador do Messias de Setúbal.
* Diogo Montenegro, esse é
apresentado como “astrólogo e mago” mas também como “vagabundo e tão calaceiro
e de má e leve opinião que antes que fosse preso, andava pelas ruas e casas de
cristãos-novos de Lisboa pedindo esmola, sob ameaça de denunciar à Inquisição,
como heréticos, os que lha não davam”.
Mais estranho ainda é que, entre
os “apóstolos” do Messias de Setúbal, se contasse um cristão-velho, licenciado,
alto funcionário de Estado, que foi juiz de fora em Portalegre, Évora e
Santarém, antes de assentar em Lisboa, como Desembargador do Paço. Era o dr.
Gil Vaz Bugalho, e em sua casa faziam sinagoga os membros do movimento.
Por Trás-os-Montes, de entre os
divulgadores dos movimentos messiânicos da época e do Messias de Setúbal, foram
citados dois primos, residentes em Miranda do Douro, ambos com o nome de Diogo
de Leão, um deles morador na rua da Costanilha e o outro na rua Nova.
Apresentamos, por fim, o homem
que era tido como o “correio do Messias”, acaso o seu maior propagandista –
Jorge Fernandes, o Labaredas, de alcunha. Era um homem que pouco parava, que
levava a vida negociando por qualquer parte e levando a qualquer canto a
mensagem do Messias. E seria o homem que estabelecia a ligação entre os grupos
ou células de judaizantes seguidores do alfaiate de Setúbal.
E terá sido com esse espírito
que, a certa altura, empreendeu uma deslocação a Coimbra. Aí o seu contacto foi
um tal Jorge Vaz que tinha umas casas de aluguer na rua de Santa Sofia
funcionando como “repúblicas” de estudantes. Em uma dessas casas ou
“repúblicas” ficou alojado, dormindo em um quarto partilhado com o bacharel
António Henriques.
Jorge Fernandes acabaria
exactamente por ser preso nesse quarto e conduzido para o tribunal da
Inquisição de Évora, acabando por ser queimado na fogueira. No decurso do
processo e entre as muitas declarações produzidas, disse que, naquela estadia
em Coimbra, se declarou seguidor da lei de Moisés, com António Henriques e com
ele praticou cerimónias da mesma lei. Seguiu-se, naturalmente, a prisão de
António Henriques, acusado daqueles crimes e ainda de ter alojar e encobrir
hereges. Antes de continuarmos, vejamos ligeiramente os traços biográficos
deste homem.
Nasceu em Vila Nova de Foz Côa,
por volta de 1517, sendo filho de Gabriel Henriques, juiz das sisas e de sua
mulher Brites Fernandes. Tinha uma irmã chamada Francisca da Silva que casou
com o mercador Manuel Henriques e moravam em Foz Côa. Francisca da Silva foi
também presa pela Inquisição, muitos anos depois, em 1604, quando contava já
uns 80 anos. Isabel Henriques se chamou outra sua irmã, a qual casou com o dr.
Henrique Dias, famoso advogado de Torre de Moncorvo, terra onde moravam, na rua
do Cano. Um filho destes, sobrinho do bacharel, Francisco da Silva, de seu
nome, seria igualmente processado pela Inquisição, em 1603, juntamente com sua
mulher, Guiomar Rodrigues.
Teria uns 16 anos e “sabia já
Gramática” quando os pais de António Henriques o mandaram de Foz Côa para
Salamanca, a estudar. Frequentou aquela Universidade durante 6 ou 7 anos,
saindo formado bacharel em Cânones e Leis. Porém, regressando a Portugal, e por
entretanto ter saído legislação que obrigava a frequentar a universidade de
Coimbra para poder exercer a profissão e validar o diploma, o nosso bacharel
teve de rumar à cidade do Mondego, onde foi depois denunciado e preso, em Março
de 1541, como já se disse. Saiu condenado ao pagamento das custas do processo e
30 cruzados para obras pias e abjurando “de vehementi” em 1.7.1541, pedindo
perdão “por agasalhar, recolher e encobrir em minha pousada a um Jorge
Fernandes (…) sabendo dele que era herege e apóstata da nossa santa fé católica”.
A primeira versão dos factos,
apresentada pelo bacharel Henriques no decorrer do processo foi, no entanto,
bem diferente e contrária a esta confissão. Não curando agora de saber qual a
inteira verdade, vejamos a versão inicial apresentada, pois contém pormenores
deveras interessantes. Comecemos por ver o retrato que António Henriques fez de
Jorge Fernandes, o Labaredas:
- É filho de um feneiro (casa de recolha de cavalgaduras a que se
fornece feno) de Lisboa e que sempre se criou em Lisboa e lá se criou e na
corte (…) pessoa bem vestida, homem mancebo e ao parecer mais homem de paço do
que herege.
Não o conhecendo de parte alguma,
A. Henriques disse que foi o filho do dono da casa que veio pedir-lhe para que
o alojassem na “república” durante 5 ou 6 dias que era o tempo que necessitava
para efectuar os seus negócios. E dispondo-se ele a auscultar os outros
estudantes que ali moravam, o mesmo filho do dono lhe argumentou que tal não
era necessário, pois sendo ele o mais velho e mais antigo na casa e já bacharel
formado, os outros estudantes não iriam contra.
Acrescentou o prisioneiro que,
tendo passado os 5 ou 6 dias, e o Labaredas não parecendo disposto a ir-se
embora, ele se queixava do intruso “à ama” que arrumava a casa e fazia o comer,
bem como aos seus companheiros. Até que um dia, regressando dos estudos,
encontrou o Labaredas “lendo uma brivia (bíblia) de Toscano” e vestindo uma
espécie de colete tecido de lã e com uns fios pendentes e a meter conversa com
ele, começando a falar-lhe do Messias que não era Jesus Cristo, mas um outro, o
verdadeiro Messias prometido nas Escrituras “e que estava em Lisboa”. Aí,
António Henriques terá concluído que era perigoso viver com tal companhia e
expulsou-o do quarto.
Posto na rua e andando
“desagasalhado” por Coimbra, o Labaredas procurou Nuno Rodrigues, um outro
estudante da “república” pedindo-lhe que o alojasse no seu quarto. E este
estaria disposto a isso mas… “sabendo isto o réu (António Henriques) tomou o
Nuno Róis perante a ama e mais companheiros e disse que nas casas onde ele réu
morasse não havia de entrar tão perro danador das honras e famas dos homens”.
Durante um mês e tal viveu Jorge
Fernandes em outra casa da rua do Corpo de Deus e depois foi de novo
hospedar-se na rua Sofia em casa de um António Gomes, vizinho, de
paredes-meias. E em sua casa estava quando vieram as justiças para o prender.
Parece que aquelas casas
comunicavam todas umas com as outras por portas interiores, conforme
testemunhou o nosso bacharel: - “Há um mui grande lanço de casas feitas de uma
parte, logo afeiçoadas para estudantes, as quais entram umas pelas outras, de
uma parte até outra (…) e todas as casas daquela rua e daquele lanço são
passadiças umas das outras de um cabo até ao outro”.
E o Labaredas, sentindo-se
apertado, bateu a uma dessas portas interiores, que lha abriram e por onde ale
se meteu no edifício da “república” que ele bem conhecia, indo esconder-se
exactamente debaixo da cama do bacharel Henriques.
Estava este na rua com os
vizinhos a assistir à cena, quando viu as justiças regressar da casa de António
Gomes com as mãos a abanar e dispondo-se a ir embora sem efectuar a prisão. Aí,
ele desconfiou e, subindo ao seu quarto, ali encontrou o Labaredas. De imediato
armou um alvoroço e o expulsou de casa fazendo que o prendessem e atirou pela
janela os papéis e ornamentos que com ele trazia para fazer as suas práticas
judaicas, nomeadamente “uma vestidura de fímbrias e uns tefelins”.
FONTES E BIBLIOGRAFIA:
ANTT,
Inquisição de Évora, processo 2161, de António Henriques
ANTT,
Inquisição de Coimbra, processo 1362, de Francisco da Silva
ANTT,
Inquisição de Coimbra, processo 43, de Francisca da Silva.
ELIAS
PIPINER, O Sapateiro de Trancoso e o Alfaiate de Setúbal, Imago Editora, Rio de
Janeiro, 1993.
Nota – Este texto foi originalmente publicado no jornal
Terra Quente
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