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domingo, 23 de dezembro de 2012

DA CUMPLICIDADE DE ALCANICES À DEVASSA EM CARÇÃO

Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Por 1578, na povoação de Alcañices, distrito de Zamora, próximo da raia do concelho de Vimioso, viviam algumas famílias de marranos emigrados (ou fugidos) do Nordeste Trasmontano, nomeadamente das terras de Bragança, Mogadouro e Miranda. Aliás, a fronteira era então muito difusa e aquela gente vivia cá e lá, residindo em Portugal e assistindo em Castela, ou vice-versa, como se lê em alguns processos.
ALCANICES
Cristãos baptizados por força das leis dos Estados e espoliados da sua cultura e dos próprios nomes hebraicos, os marranos continuavam guardando a lei de Moisés no interior de suas almas e frequentando as igrejas cristãs “para cumprir com o mundo”. Na medida do possível, mais ou menos às escondidas, davam expressão à sua religiosidade com orações, rituais e cerimónias aprendidas também clandestinamente. Para isso aquele grupo de pessoas, ligadas por laços familiares e mantendo absoluta confiança entre si, costumavam juntar-se para rezar em casa de Alonso Gonçalves e Leonor Fernandes. E parece que o rabi ou oficiante de tais cerimónias era um Luís Francisco, de Mogadouro, aliás muito procurado pela Inquisição portuguesa. [1]
Não sabemos como o tribunal do Santo Ofício de Valladolid, a cuja jurisdição Alcañices pertencia, descobriu, mas o facto é que, nos primeiros dias de Setembro de 1578, foram presos e conduzidos às suas masmorras a maioria dos elementos do grupo, o que passou à história com a designação de “complicidad de Alcañizes”.
Aquela “célula judaica” não foi completamente desmantelada pois 4 dos implicados na “cumplicidade” e com mandatos de prisão conseguiram fugir para o outro lado da fronteira. E logo no dia 13 daquele mês, os inquisidores de Valladolid enviaram à Inquisição de Coimbra um emissário pedindo mandatos de captura contra os 4 fugitivos. E pediam também autorização para ser o próprio tribunal de Valladolid a encarregar-se de efectivar tais prisões, em terreno da jurisdição de Coimbra.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A reposição dos sambenitos roubados na igreja de Carção

Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Maria Ferraz


                                                          INTRODUÇÃO
Ao falar da Inquisição há duas posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável, passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores. Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos, usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social, significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou judiciais.
Claro que esta poderoso complexo institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror, fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando o povo.
Nada disto era novo, pois a perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir. A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria mais ainda a suportar do que a própria prisão.

domingo, 28 de outubro de 2012

CARÇÃO APRESENTAÇÃO I- UMA HISTÓRIA DE RESITÊNCIA À INQUISIÇÃO

Carção é uma aldeia do concelho de Vimioso, no mais profundo Trás-os-Montes, afastada das rotas comerciais e turísticas. Seus habitantes, porém, sempre tiveram arte e engenho para quebrar o isolamento da terra e sair a mercadejar por toda a parte. Sobre eles escreveu, há cerca de um século, o douto Abade de Baçal:
- Percorrem o distrito de Bragança com venda ambulante de bacalhau, arroz, azeite e outros géneros, comprando ao mesmo tempo peles ovinas, bovinas e caprinas (…) Encontram-se estabelecidos nos povoados principais, aldeias ricas e férteis do reino, colónias e até do estrangeiro, onde entram à formiga, sem eira nem beira, nem ramo de figueira, apenas com dois centos de sardinhas em cima de um burro podre e dentro de uma dúzia de anos chegam a preponderar pela fortuna adquirida no negócio. [1]
Muito semelhante é o retrato feito por outros historiadores, literatos e etnólogos que escreveram sobre o génio mercantil e empreendedor das gentes de Carção. E todos associam esta qualidade à sua herança judaica. Leite de Vasconcelos, por exemplo, usou estas palavras:
- A gente de estirpe judaica destas últimas povoações (Carção e Argozelo) vivia, até há pouco, sobretudo do comércio e da indústria dos curtumes. Com suas mulas de carga, era vê-los de casa em casa de terra em terra a vender bacalhau, arroz e azeite e outros géneros alimentícios ou a ajustar as peles para o fornecimento da sua indústria. Dizia-se até que a um judeu de Carção ou Argozelo nada mais faltava para fazer fortuna do que uma libra e uma mula. E, a respeito dos de Carção, que, quando nascia algum, logo nascia uma mula, tão habitual era neles a ocupação de almocreves e recoveiros. [2]
Trindade Coelho, famoso escritor de Mogadouro, esse ia mais longe escrevendo:
- Nos meus sítios, a mula como meio de locomoção é quase exclusiva dos judeus. Por isso já dizia em Cortes, in illo tempore, um deputado trasmontano – que de 10 em 10 anos se deveria confiscar toda a fortuna aos judeus, e deixar só, a cada um, uma mula e 10 moedas. Daí a 10 anos voltavam outra vez a estar ricos, e ia-se-lhes para cima com novo confisco.[3]

Nos últimos 150 anos, com a abertura das modernas estradas e linhas de caminho de ferro, houve um particular movimento migratório das gentes de Carção para a nossa vila e depois para a cidade de Macedo de Cavaleiros que conheceu um progresso notável, absorvendo vários concelhos da região. E esse movimento migratório foi registado pelo nosso povo na seguinte quadra:

 

Para cá do Marão

Mandam os que cá estão;

Mas em Macedo

Mandam os de Carção.

 

 Os Macedenses, por seu turno, fixaram também em versos aquela “invasão” de imigrantes de Carção:

Vindos dos lados da Arábia

E de balança na mão

Vieram os de Carção

Que com grande lábia

Invadiram a Estação [4]

 

De certo aquela é uma herança judaica e marrana, uma herança que as gentes de Carção souberam preservar. E é fantástico que eles tenham perseverado em sua crença na lei mosaica apesar de todas as perseguições inquisitoriais e eclesiásticas. Vejam, a propósito, o que o pároco de Carção dizia em carta de 2.6.1852, para o bispo de Bragança:

- Neste povo grassa desde tempo imemorial uma seita que em tempo da Inquisição era muito oculto, mas de 34 (1834) a esta parte é isso muito divulgado, quero dizer que não se escondem os sectários como outrora; assim há muita gente, que pelo menos in confuso sabem disso … O erro é a seita, ou Lei Mosaica. [5]