quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A reposição dos sambenitos roubados na igreja de Carção

Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Maria Ferraz


                                                          INTRODUÇÃO
Ao falar da Inquisição há duas posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável, passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores. Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos, usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social, significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou judiciais.
Claro que esta poderoso complexo institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror, fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando o povo.
Nada disto era novo, pois a perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir. A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria mais ainda a suportar do que a própria prisão.
E para os maiores “criminosos”, os que eram condenados à morte (relaxados é o termo usado), os sambenitos eram decorados com um desenho da própria cara envolta com as chamas do inferno e pinturas aterradoras de demónios, mordendo-o. E na procissão para o auto de fé a humilhação completava-se metendo-lhe na cabeça uma carocha – espécie de chapéu cónico, muito alto, igualmente decorado com as chamas e os diabos do inferno.
Claro que o alvo principal do castigo não eram os relaxados mas as suas famílias, os seus amigos, a sociedade que precisava ser permanentemente condicionada pelo medo e sobre a qual tinha sempre de pairar a sombra da Inquisição. Para isso, por cada relaxado, faziam-se dois sambenitos. Um deles ficava exposto na cidade sede da Inquisição e o outro era enviado para a terra, sendo pendurado no interior da igreja matriz, exposto como estandarte, onde ficava pelos anos afora. Os sambenitos dos relaxados, assim expostos na igreja, forneciam poderoso combustível para a imaginação dos beatos católicos que “neles tinham com que domar a soberba dos cristãos novos” – como explicava um lavrador de Carção – e com eles perdurava a ignomínia sobre os filhos, netos e outros familiares dos condenados.
Não sabemos exactamente quantas daquelas bandeiras da ignomínia estavam penduradas nas paredes da igreja de Carção. Há testemunhas dizendo que eram umas 30, o pároco diz que eram 22 e outros ficam-se pelas 18, número que também a nós se impõe, depois da consulta à maior parte dos processos acessíveis à leitura.
Façamos agora um pequeno exercício de imaginação e entremos naquela igreja, em dia de quinta feira santa. Estão lá dentro todos os homens e mulheres, rapazes e raparigas da terra, que todos se confessaram e vão comungar, conforme consta do “rol dos confessados” daquele ano. Dizem-nos que o pregador é um padre ainda novato mas muito inteligente e bem lançado, que já deu nas vistas como orador. Costuma também acompanhar o Comissário regional da Inquisição, como secretário, a tomar depoimentos em diligências ordenadas pelo santo tribunal. Agora está ali, num sermão inflamado e cheio de invectivas contra os judeus. Apontando para os sambenitos pregados nas paredes do templo e percorrendo cada um deles, lentamente, com o dedo a apontar e o olhar faiscante, descarrega:
- Malvados judeus que matastes Cristo! Até quanto continuareis a judaizar, nesta terra e nesta igreja? Qual o castigo merecido por esta gente de sangue infecto? A solução é só uma, conforme aponta o profeta Ezequiel: seja atirada para o fogo a fim de ser purificada; como o lenho seco da videira que se lança ao fogo, assim entregarei os que me são infiéis – oráculo do Senhor Deus. E foi essa a obra de misericórdia praticada pela santa Inquisição, com os malvados dos judeus que estão desenhados nestes sambenitos que tão belo ornamento fazem desta igreja de Carção e a transformam num jazigo de memórias que hão-de atravessar gerações e gerações, para edificação dos crentes e ignomínia dos inimigos de Cristo e da Igreja.
Imagina-se o efeito que um sermão desta natureza não provocaria no povo de Carção. Certamente que uma parte dele, especialmente os mais beatos, comungava dos sentimentos do pregador. Via-se no rosto destes beatos estampados sinais inequívocos de aprovação, fazendo o templo enxamear de pragas e maldições contra os judeus.
De contrário, imagina-se o vulcão de desespero que se abria no coração de cada um dos filhos, netos e mais familiares e amigos de cada um dos que estavam pintados naquelas bandeiras e que tinham sido queimados nas fogueiras acesas pela Inquisição. O medo impediria os rumores de fervilhar e os ódios de explodir. A sombra da Inquisição enchia a igreja e abafava a exaltação de uns e o desespero de outros, sentimentos contraditórios que acabariam por sair da igreja e percorrer as ruas ventosas da aldeia, aninhando-se, terríveis, no interior de cada casa. E certamente que as pragas e maldições de uns, misturadas com as queixas e os desesperos de outros, faziam o caldo de cultura apropriado para a construção de uma sociedade neurótica.
Dissemos já que a história dos marranos de Carção é uma história de resistência à Inquisição. Pois essa resistência atingiu o clímax quando eles fizeram desaparecer da igreja aquelas infamantes bandeiras, aqueles odiosos sambenitos – um crime horrendo, que atentava contra justiça divina exercida pela Inquisição.
No livro – Carção Capital do Marranismo – contámos já como as coisas se passaram, como os sambenitos ficavam escondidos quando se enfeitava a igreja, com sedas e papéis, nas grandes solenidades da semana santa e do dia do Corpo de Deus. Dissemos também que foram presos e processados 6 homens, acusados de tirar da igreja os retratos das pessoas que foram relaxadas à justiça secular e nela estavam expostos por ordem do Santo Ofício. Deixamos aqui os nomes desses heróis da resistência de Carção:
* Tomás Lopes, rendeiro, 45 anos, casado, cujos pais, avô, bisavô (Belchior Lopes) e outros mais familiares foram antes dele processados. Possivelmente era o mais rico dos homens de Carção e foi acusado de ser o mandante e o maior responsável pelo roubo dos sambenitos. A verdade é que foi no ano em que ele entrou para mordomo principal que se viu a igreja toda cheia de ornamentos que tapavam os retratos. E foi ao desmontar aqueles ornamentos que desapareceram os primeiros sambenitos. De certo modo, ele assumiu a liderança da contestação e da defesa, dirigindo-se a Coimbra ainda antes de ser emitida qualquer ordem de prisão pelo facto, “a trazer uma petição na qual pedia que se mandasse tomar informação do seu procedimento, por testemunhas que não fossem suas inimigas”. Prontificava-se até a pagar do seu bolso a realização de uma segunda devassa sobre o caso, pois na que fizera o Comissário Domingos Luís Noga, secretariado pelo Familiar António Ferreira de Castro, só foram ouvidas pessoas suas inimigas, que testemunharam por ódio e inveja e não por amor à verdade e à religião cristã. Claro que uma tal proposta era inaceitável, antes considerada como sacrílego atrevimento que punha em causa a justiça divina. Lógica era, no entanto, a sua explicação para o desaparecimento dos sambenitos:
- Ouviu que caíram muitos quando se caiou a igreja e seria descuido dos párocos o não tornarem a mandá-los pôr no lugar em que estavam.
* BelchiorRodrigues de Lucena, curtidor, 58 anos, casado, neto materno do citado Belchior. 3 dos retratos desaparecidos pertenciam a tios paternos e um outro a uma tia materna deste homem. Um quarto era ainda de uma tia materna, por afinidade. No ano em que Lucena foi mordomo seria até quando desapareceram mais retratos, no dizer de uma testemunha. E muitas razões teria ele para ficar encantado com o desaparecimento daqueles panos que o cobriam de vergonha. Vejam a resposta, titubeante, que ele deu aos inquisidores quando lhe perguntaram se tinha parentes seus processados pela Inquisição:
- Disse que foram presos os seus avós paternos e maternos, digo não está certo se estes o foram, porém que o haviam sido todos os ditos seus tios: Atanásio Rodrigues, António Rodrigues, Bernardo Rodrigues, Luísa Rodrigues, Inês Rodrigues, Francisco Lopes, Gaspar Rodrigues, Luísa Lopes, Maria Lopes, Francisca Lopes, e que esta foi relaxada e também os ditos Atanásio Rodrigues, António Rodrigues, Bernardo Rodrigues e os mais e também o dito seu primo Manuel Jerónimo entende que foram reconciliados.
* Roque Rodrigues da Praça, mercador, 52 anos, casado, neto paterno do mesmo Belchior Lopes e filho de Isabel Luís, a Bonita, que fora relaxada, juntamente com o irmão Domingos Luís. Para além do roubo dos sambenitos, Roque era acusado de ter um livro de orações e cerimónias judaicas que trouxera de Livorno, 20 anos atrás, quando foi a Roma buscar licença para se casar com a prima Catarina Rodrigues.
* Miguel Luís, o furriel de cavalaria reformado, 53 anos, viúvo. Era meio irmão de Roque, filho do mesmo pai, neto do mesmo Belchior, por nós apresentado como “o patriarca” em Carção Capital do Marranismo. O Furriel era muito habilidoso, como armador de altares e andores e costumavam os mordomos contratá-lo para o efeito. Como os retratos desapareciam sempre quando se armava e desarmava a igreja, naturalmente que era apontado como um dos principais autores materiais dos furtos.
* Jerónimo Álvares era irmão da mulher do anterior (Isabel Álvares) e com ele costumava participar na tarefa de armação da igreja. Não podia, pois, deixar de ser igualmente acusado. Repare-se na resposta que deu quando lhe perguntaram quantos eram os retratos que estavam pendurados na igreja e de que pessoas:
- Disse que veio assistir de idade de 10 anos no lugar de Carção onde casou e viu que nas paredes daquela igreja estavam pendentes alguns retratos mas que não teve a curiosidade de contá-los nem averiguar de que pessoas eram.
*António Álvares, o Mosca Rajada, de alcunha, irmão do anterior, 36 anos. Estes dois irmãos eram netos de José de leão, que foi relaxado em 1665.
Não vamos aqui analisar os processos destes homens. Diremos tão só que todos foram presos em Fevereiro de 1739 e conduzidos até Coimbra em “manada” dirigida pelo Dr. Domingos Luís Noga, de Alfândega da Fé, Familiar da Inquisição, provavelmente da família do Comissário António Luís Noga que, no terreno, conduziu as investigações sobre o caso.
E todos os 6 homens foram considerados culpados do desaparecimento dos sambenitos, se bem que as contradições dos testemunhos fossem muitas e a generalidade destes fosse baseada no “ouviu dizer” e é “fama pública”. A pena aplicada foi semelhante: proibição de pertencer a irmandades e confrarias religiosas, desterro para terras do centro e sul do país, entre 3 e 5 anos. Mas… o ponto essencial da sentença foi a obrigação de se recolocarem os sambenitos furtados no sítio em que estavam.
Antes de historiarmos este passo, façamos uma pausa para dizer que com aqueles 6 heróis da resistência ao religiocídio judaico de Carção foram levados para Coimbra dois outros cristãos novos de Carção, as duas “ovelhas ranhosas” da comunidade que se prestaram a desempenhar o papel de “bufos”. Frutos maduros da sociedade neurótica que a Inquisição construía, acabaram por passar de acusadores a acusados, de denunciantes a réus e presos por falsários. A história foi também contada por nós em Carção Capital do Marranismo. Deixemos aqui os seus nomes:
* Domingos Rodrigues, o Galo, de alcunha. Tudo começou quando ele, em um domingo, em plena missa, se levantou e disse que na aldeia havia 5 ou 6 famílias que faziam cerimónias judaicas. Acabou por se provar que o objectivo das suas denúncias era extorquir dinheiro aos seus patrícios. E mais se provou que ele tinha levado pelo menos um sambenito da igreja. Acabou condenado em penas semelhantes aos outros e mais ainda, numa pena absolutamente vil: ser chicoteado pelas ruas da cidade de Coimbra.
* António Pires, o Magriço, de 60 anos, que acabou condenado por falsário e fautor de hereges. Não ouviu ler a sentença porque morreu no cárcere, dias antes da realização do auto de fé.
Temos, portanto, 8 homens de Carção que saíram condenados no auto de fé de 8.7.1742, 7 deles vivos. De acordo com o regimento, antes de abandonarem a cidade de Coimbra, para cumprir o degredo que lhe fora imposto, deveriam ser instruídos na religião cristã. Vejam o “diploma” que lhes foi passado:
- Ilustríssimos Reverendíssimos Senhores. Em observância do que me ordenou esse ilustríssimo e rectíssimo tribunal, instruí pontualmente nos mistérios da nossa santa fé a Vicente Ribeiro, de Lamego; Salvador Ribeiro, de Lamego; Belchior Rodrigues Lucena, de Carção; Roque Rodrigues, de Carção; Jerónimo Álvares, de Carção; Miguel Luís, de Carção; António Álvares, de Carção; Tomás Lopes, de Carção; Domingos Rodrigues Galo, de Carção; João de Almeida Lima, do Porto; Santos Araújo, de S. Silvestre de Requião; António Pires, de Trancoso; Manuel António do Rosário, de Reigada; Pascoal de Cerqueira, de S. Jorge; Matias da Fonseca, sacerdote; José Cardoso, de S. Romão; Manuel Monteiro, de Lamego. E a todos, depois de ouvidos e absolvidos de suas culpas dei a sagrada comunhão, na igreja do Colégio da Companhia de Jesus, de Coimbra. E os mesmos sacramentos da penitência e sagrada eucaristia, precedendo a instrução necessária que administrei na igreja de Santiago desta mesma cidade de Coimbra  Valentim da Costa, de Lamego e Gines António Ramires, aliás João Baptista de Almeria. Foram somente instruídos e admitidos ao sacramento da penitência Manuel da Silva, de Mós e Francisco Pires, residente em Carção, por terem abjurado em forma. Tudo o conteúdo por mim nesta carta afirmo e sendo necessário o juro in verbo sacerdotis. Colégio da Companhia de Jesus, 13 de Julho de 1741. Aos pés de Vossas Ilustríssimas Reverências, Joseph Pinto.
Já atrás se disse que o ponto principal das sentenças proferidas pelo Conselho Geral da Inquisição nos processos daqueles homens de Carção foi a ordem para se reporem na igreja os sambenitos. Antes de vermos como a ordem foi cumprida, convém dizer que dos interrogatórios a que, por mais de 2 anos, os prisioneiros foram submetidos, ressalta uma interrogação e uma preocupação fundamental no espírito dos inquisidores:
- O que foi feito dos sambenitos tirados da igreja? E qual o objectivo do furto?   
Sim, o grande receio daqueles juízes controladores de consciências era que os sambenitos fossem guardados em casa como objectos de culto e funcionassem como as estátuas dos santos nas igrejas católicas, lembrando o martírio daqueles homens e mulheres que morreram nas fogueiras, em defesa da sua religião. Sim, o roubo dos sambenitos e a sua conservação como objectos da memória transformaria aqueles relaxados em mártires, aquelas bandeiras da ignomínia e da vergonha, em bandeiras de glória e de exaltação religiosa, em estandartes do marranismo. E isso acrescentaria muito a gravidade do crime.
Efectivamente não nos foi possível chegar a uma conclusão absoluta e inquestionável. De facto apareceu um homem cristão velho, chamado Manuel Meirinho a dizer o seguinte:
- Viu ele testemunha, por um buraco da parede na casa do banho de Tomás Lopes uma estampa das que estavam na igreja e fez diligência para se saber de quem era mas que (…) havendo passado coisa de 3 horas a quis ele testemunha tornar a ver e já não a achou na mesma parte nem em outra. Mas ele testemunha está bem certo que era a dita estampa a mesma que vira na igreja.
Deverá dar-se crédito a este testemunho? Facto é que, os inquisidores não conseguiram obter de Tomás Lopes a sua confirmação.
Continuando o seu depoimento, a mesma testemunha deu informação sobre outro dos sambenitos:
-António Pires Magriço lhe disse que na casa de Jerónimo Álvares andava uma estampa e que a meteram na barrela para que se lhe tirassem as tintas mas que nunca soube nem ouviu dizer que os cristãos novos venerassem as ditas estampas.
Deverá também dar-se crédito a este testemunho? Facto é que, estando presos e sendo interrogados sobre o assunto o denunciante Magriço e o réu Jerónimo, os senhores inquisidores não conseguiram igualmente obter confirmação do depoimento de Manuel Meirinho.
Mais dignos de crédito, por serem plurais e até aceites por alguns dos acusados, parecem ser os testemunhos dizendo terem alguns sambenitos sido enterrados em vinhas e sumagrais e terem outros sido usados como enxalmos nas albardas de burros e machos.
Neste caso, os marranos de Carção eram mais consequentes com uma das ideias base do judaísmo: não adorar ídolos de pau ou pano, como fazem os cristãos.
Acaso a repetição dos testemunhos dizendo que os sambenitos roubados teriam tido um fim menos nobre, gastando-se debaixo da terra ou em contacto com o suor dos lombos das bestas, deixaria os inquisidores mais sossegados.
Voltemos então à sentença dos inquisidores ordenando que os sambenitos fossem de novo pendurados na igreja de Carção!
Aqui colocam-se duas hipóteses. Se os sambenitos estavam nas casas, então foi só recolhê-los e pendurá-los, eventualmente depois de algum remendo ou concerto.
Mas se já não havia nenhum, se todos apodreceram na terra ou no lombo dos animais? Neste caso seria necessário fazer outros de novo. E fazê-los aonde? Em Coimbra? Em Carção ou em outra terra trasmontana, sob as ordens do Comissário regional encarregado do caso? Recordemos que quando uma pessoa era relaxada no auto de fé não se fazia apenas um retrato para ser pendurado na igreja da sua terra. Fazia-se um outro que ficava pendurado numa igreja da sede do tribunal, neste caso, de Coimbra.
Como atrás se disse, ainda não conseguimos obter provas que permitam afirmar uma ou outra tese. Talvez existam documentos que ainda não encontrámos e que um dia venham esclarecer totalmente o assunto.
Por agora digamos que para conduzir esta operação de reposição dos retratos na igreja de Carção foi escolhido um homem de Freixo de Espada à Cinta, Familiar do Santo Ofício, naturalmente – José da Guerra e Faria, de seu nome. E aqui surge mais uma interrogação: havendo Familiares em Vimioso, em Bragança, em Miranda, no Outeiro e em várias outras terras bem mais próximas de Carção, como foram os inquisidores escolher um homem de tão longe, de mais de 20 léguas de distância? Porque os de longe parecem revestidos de maior autoridade? Ou seria para fazer crescer as despesas que os condenados tinham de pagar? Podemos informar que o pagamento por cada dia a um Familiar correspondia a umas 5 jornas de um operário médio. E o Familiar fazia-se acompanhar de um criado.
Vamos então apresentar os documentos comprovativos de que os sambenitos foram efectivamente repostos na igreja de Carção, que é o objectivo primeiro deste trabalho, Mas não foram colocados todos. Apenas 15. Por colocar ficaram 4, nomeadamente os de Francisco Lopes de Leão e de José de Leão, acaso por ter passado já quase um século sobre a sua morte e o de Jorge Oliveira que, nascido em Carção, era morador no Azinhoso. Mais intrigante o caso de Matias Fernandes, cuja memória era recente. Mas vejam então o documento certificativo de que os sambenitos foram colocados:
- Eu o padre Joseph Afonso do Vale, cura da Santa Cruz do lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, certifico em como na igreja matriz deste dito lugar prendeu Joseph da Guerra Faria, Familiar do Santo Ofício, quinze retratos: o de Bernardo Rodrigues, solteiro; e o de Francisca Lopes, casada com Luís Lopes; e o de Catarina Lopes, a Bicha casada com Miguel Luís; e o de Maria Lopes de Leão, casada com Domingos Fernandes Roldão; e o de Isabel Gonçalves casada com Estêvão Dias; e o de Helena Rodrigues casada com António Rodrigues; e o de Maria Fernandes casada com Miguel Lopes de Leão; e o de Isabel Luís, a Bonita casada com Gaspar Rodrigues; e o de Belchior Fernandes, solteiro; e o de Atanásio Rodrigues, lavrador; e o de Manuel Lopes de Leã; e o de António Rodrigues; e o de João de Oliveira, moradores que foram todos deste dito lugar de Carção e ficam pendurados no lugar onde se costumam pendurar os mais e ficou certo de que se se extrair algum do lugar onde ficam, de dar conta ao santo tribunal da Inquisição de Coimbra da pessoa que souber que o tirou. E por verdade, passei esta que assinei, em Carção, aos 27 do mês de Dezembro de 1744. Padre Joseph Afonso do Vale, o escrevi.
Seguem-se as assinaturas do padre Vale e o Familiar Guerra Faria.
Como se vê, este documento, além de testemunhar a reposição dos sambenitos, faz certo que o pároco se obriga a vigiar de futuro eventuais roubos e participá-los de imediato para a Inquisição de Coimbra.
Mas há ainda um outro documento, uma certidão notarial, enviada para Coimbra, do teor seguinte:
- Ilustríssimos Senhores! Foram pregados os quinze (15) retratos na igreja de Carção, no lugar onde se costumam pendurar, como consta da certidão do pároco, que com esta remeto, a cuja feitura assistiu o Familiar Joseph da Guerra e Faria, o qual vai assinado na mesma certidão. Neste particular, desejo acertar, como Vossas Senhorias me ordenaram e em tudo o mais mandarão o que forem servidos. Urros, Janeiro, sete de mil setecentos quarenta e quatro. O notário, Francisco Giraldes da Guerra.(CONTINUA)
 Publicado na revista  ALMOCREVE DE CARÇÃO

2 comentários:

  1. Lelo. O título deste texto é: A Reposição dos Sambenitos Roubados na Igreja de Carção. O texto foi publicado na revista Almocreve, edição de 2012. O texto sobre o catecismo dos marranos de Trás-os-Montes é um outro e foi publicado no Almocreve, edição de 2010. Agradeço a correcção. J. Andrade

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  2. Obrigado. Assim está bem. J. Andrade

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