quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Em língua castelhana, um autor
anónimo, à época residente em Madrid, deixou registadas em um pequeno caderno,
entre outras, as seguintes notas:
* 22 de Agosto de 1654 – Ninguém mais confia nos banqueiros
portugueses. Estão falidos e fogem da Inquisição. Asseguram-me que, depois do
auto-de-fé de Cuenca, mais de 200 famílias fugiram durante a noite. Isso é o
que o medo pode fazer.
* 18 de Setembro de 1654 – Desde sábado último, a Inquisição prendeu em
Madrid 17 famílias portugueses… Diz-se com muita certeza que não há um
português com elevada categoria que não seja cripto-judeu.
* 17 de Maio de 1655 – Em Sevilha, no começo de Abril, quatro ricos
mercadores portugueses foram presos pela Inquisição.
* 29 de Maio de 1655 – Os ricos irmãos Cardoso que geriam os impostos
de várias províncias, fugiram porque um chantagista ameaçara depor afirmando
que eles eram judaizantes, a menos que pagassem pelo seu silêncio. Face à
impossibilidade de terem que provar tratar-se de falso testemunho, preferiram
fugir ao castigo a permanecer na prisão até que se restabelecesse a verdade.
* 22 de Julho de 1655 – Os Cardoso fugiram para Amesterdão, levando
consigo 200 000 ducados em lãs e 250 000 em ouro. Diz-se que foram fugidos à
inquisição. Eles procuram uma terra para viver em liberdade.
O texto é bem elucidativo e
leva-nos à casa comercial de Don Juan Rodriguez Cardoso – como todos o tratavam
e ele gostava que se dissesse – e à sua residência de Mósteles, nos arredores
de Madrid. E ele e sua mulher, Maria Henriques, terão nessa altura partido para
Bayonne. Tê-los-ão acompanhado outros familiares, entre os quais o filho mais
velho, Manuel Rodrigues Cardoso, nascido em Torre de Moncorvo em 1625 e que
casara com sua prima co-irmã, Maria de la Peña, como atrás se disse.
Elucidativa é também a seguinte
denúncia então chegada à Inquisição espanhola:
- Disse que este (D. Juan R. Cardoso) também era muito bom biscainho e
muito observante da lei do Todo Poderoso Deus de Israel e que estava retirado
em Mósteles e que era muito astuto porque se por acaso diziam algo contra ele
na Inquisição, tinha consigo Don Fulano Belásquez, cavaleiro da ordem de
Santiago e que havia sido cavaleiro do Condestável de Castela, para que este
senhor servisse de defesa, ao qual pagava a renda para que informasse que não
era judeu.
Mas nem toda a família Isidro
abandonou Castela e na casa de Mósteles ficaria um outro filho de Don Juan, o
Luís Marques Cardoso que já vimos em Sevilha, casado com sua prima Aldonça Cardoso
Velasco. Dele falaremos no capítulo seguinte. Agora vamos apenas contar um
episódio protagonizado por sua mulher e que mostra bem como os cristãos-novos
viviam em permanente clima de medo e sujeitos a contínuos actos de chantagem.
Encontrava-se D. Aldonça, em
certa ocasião, numa rua de Madrid, em um aparatoso coche, bem ataviada, com um
gibão de veludo verde, quando se aproximaram quatro mulheres embuçadas e se lhe
dirigiram nos seguintes termos:
- Melhor te ficaria o sambenito que te puseram na Inquisição do que
esse gibão de veludo. Nós sabemos quem tu és e podíamos denunciar-te.
In: Os Isidros, a epopeia de uma família de marranos de
Torre de Moncorvo.
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