quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Marranos de Lagoaça no Tribunal da Inquisição

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães

- Próximo da minha terra natal há uma povoação – Lagoaça – onde as famílias indicadas por judias são numerosas e formam o grosso da população, considerando-se, desde tempos imemoriais, separadas de qualquer consanguinidade ou afinidade com a outra parte, que é especialmente agrícola e mesteiral, enquanto aquela se dedica ao comércio quase absolutamente e, até há poucos anos, exclusivamente às recovagens e ao contrabando; afastados completamente da vida pública, em que nem tentavam intrometer-se, com costumes e usos muito diferentes dos do resto da população, com a qual porém se confundiam nas práticas externas do catolicismo.
Estas palavras escreveu, por 1879, o Dr. Bernardo Teixeira Leite Velho, de Mogadouro, em umas notas que deixou manuscritas e de que o Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado publicou alguns excertos. [1]
Muitas referências foram também feitas pelo Abade de Baçal aos criptojudeus de Lagoaça, assim retratados:
- Diz-nos o ilustre abade de Carviçais que o tipo de judeu do sul do distrito é sardento, olhos penetrantes, nariz adunco e que são chamados Cházaros em Lagoaça.[2]
No mesmo volume, página LX, das suas memórias, acrescenta:
- Segundo me informa o erudito abade de Carviçais José Augusto Tavares, também no sul do distrito de Bragança, principalmente nas povoações de Lagoaça e Vilarinho dos Galegos, há abafadores, que são conhecidos pelo nome de encalcadores e ainda massagistas.
Esta informação tem despertado muita controvérsia, sobretudo depois da publicação do conto de Miguel Torga – O Alma Grande – descrevendo a morte provocada de um moribundo, por asfixia. A verdade é que, nunca se provou tal prática e o comportamento das famílias marranas perante os seus moribundos seria idêntico ao das famílias católicas: prestar-lhes assistência e dar-lhe o conforto espiritual para bem morrer, na graça de Deus.
Diz uma tradição popular que os judeus expulsos de Espanha, que atravessaram a fronteira por Miranda do Douro, seguiram três destinos diferentes: os mais pobres, que vinham a pé, ficaram-se por Carção e Argoselo, os que eram remediados e vinham de burro, seguiram para as terras de Mogadouro e Vilarinho dos Galegos, enquanto os mais ricos, donos de possantes machos e mulas, se foram fixar em Lagoaça. De contrário, refere-se outra tradição dizendo que a terra de fixação dos judeus ricos era Freixo de Espada à Cinta e que para Lagoaça foram os judeus pobres.
Certamente que nenhuma das afirmações encerra toda a verdade, até porque a principal característica da gente da nação hebreia era exactamente a sua permanente mobilidade e o estabelecimento de redes comerciais familiares descentralizadas. Estavam onde podiam estar e aproveitavam todas as oportunidades que lhe eram proporcionadas. Como quer que seja, são indiscutíveis as tradições judaicas e marranas de Lagoaça e há um rifão popular que diz:

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 15


Francisco Fonseca Henriques. Ficou mais conhecido pelo nome de Dr. Mirandela, herdado da terra onde viu a luz, no ano de 1665. Formado pela universidade de Coimbra, foi um dos médicos portugueses mais famosos de todos os tempos. O seu livro – “Medicina Lusitana” – impresso em Amesterdão, em 1710, foi por mais de um século uma espécie de bíblia e receituário de medicina em Portugal, com reedições sucessivas. Outra obra de muito interesse e mesmo de actualidade, é o seu “Aquilégio Medicinal”, publicado em 1726, em Lisboa. Trata-se do primeiro inventário feito de norte a sul de Portugal das “águas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e cisternas”, com vista à sua catalogação química e uso no tratamento das diferentes doenças, ou prevenção das mesmas e conservação da saúde. Sim, que o Dr. Mirandela foi exactamente revolucionário nesse sentido: adepto e apoiante do termalismo e decidido defensor da medicina preventiva. E pleno de actualidade é o terceiro livro deste médico Trasmontano, que eu gosto muito de apresentar: “Ancora Medicinal para conservar a vida com saúde – os segredos da nutrição”. Foi impresso em Lisboa em 1721, com 2 reedições em 1731 (ano da sua morte) e outras em 1740 e 1754 e… “por ser o mais conhecido guia da alimentação e conservação da saúde” e porque “tem agora mais actualidade do que nunca”, foi reeditado no ano 2000. Esta obra permite que consideremos o Dr. Mirandela como o primeiro grande médico nutricionista assumido em Portugal. E as suas preocupações com a qualidade do ar que respiramos, farão dele um pioneiro dos ambientalistas. Sobre o assunto, melhor fala a apresentação escrita por ele próprio no seu livro. Vejam apenas este excerto: - Quem respirar bons ares; quem com moderação e prudência usar de bons alimentos; quem dormir com sossego as horas que bastem; quem fizer exercício como deve; quem trouxer a natureza bem regulada nas suas evacuações; e quem não tiver paixões que lhe alterem a harmonia dos humores: não pode deixar de ter boa saúde, ou ao menos, não terá tantas ocasiões de a perder. O Dr. Mirandela era de ascendência hebreia e a história de seus ancestrais nos cárceres da inquisição é longa. Como também a de seus tios, irmãos, sobrinhos e primos. Ele, felizmente, parece não ter sido perseguido. E nisso terá valido a protecção do rei D. João V, de quem ele era médico oficial. Sobre seus descendentes, diremos que teve um filho médico que fez carreira em Itália e várias filhas, que todas elas foram metidas em Recolhimento de freiras. A casa onde ele nasceu, na aldeia de Carvalhais, na proximidade de Mirandela, aguentou-se até há bem poucos anos, tendo sofrido obras de remodelação. Outras gerações de trasmontanos tiveram a lembrança de lá colocar uma placa alusiva. Não sei se ainda lá se encontra.
António Júlia Andrade

domingo, 28 de outubro de 2012

CARÇÃO APRESENTAÇÃO I- UMA HISTÓRIA DE RESITÊNCIA À INQUISIÇÃO

Carção é uma aldeia do concelho de Vimioso, no mais profundo Trás-os-Montes, afastada das rotas comerciais e turísticas. Seus habitantes, porém, sempre tiveram arte e engenho para quebrar o isolamento da terra e sair a mercadejar por toda a parte. Sobre eles escreveu, há cerca de um século, o douto Abade de Baçal:
- Percorrem o distrito de Bragança com venda ambulante de bacalhau, arroz, azeite e outros géneros, comprando ao mesmo tempo peles ovinas, bovinas e caprinas (…) Encontram-se estabelecidos nos povoados principais, aldeias ricas e férteis do reino, colónias e até do estrangeiro, onde entram à formiga, sem eira nem beira, nem ramo de figueira, apenas com dois centos de sardinhas em cima de um burro podre e dentro de uma dúzia de anos chegam a preponderar pela fortuna adquirida no negócio. [1]
Muito semelhante é o retrato feito por outros historiadores, literatos e etnólogos que escreveram sobre o génio mercantil e empreendedor das gentes de Carção. E todos associam esta qualidade à sua herança judaica. Leite de Vasconcelos, por exemplo, usou estas palavras:
- A gente de estirpe judaica destas últimas povoações (Carção e Argozelo) vivia, até há pouco, sobretudo do comércio e da indústria dos curtumes. Com suas mulas de carga, era vê-los de casa em casa de terra em terra a vender bacalhau, arroz e azeite e outros géneros alimentícios ou a ajustar as peles para o fornecimento da sua indústria. Dizia-se até que a um judeu de Carção ou Argozelo nada mais faltava para fazer fortuna do que uma libra e uma mula. E, a respeito dos de Carção, que, quando nascia algum, logo nascia uma mula, tão habitual era neles a ocupação de almocreves e recoveiros. [2]
Trindade Coelho, famoso escritor de Mogadouro, esse ia mais longe escrevendo:
- Nos meus sítios, a mula como meio de locomoção é quase exclusiva dos judeus. Por isso já dizia em Cortes, in illo tempore, um deputado trasmontano – que de 10 em 10 anos se deveria confiscar toda a fortuna aos judeus, e deixar só, a cada um, uma mula e 10 moedas. Daí a 10 anos voltavam outra vez a estar ricos, e ia-se-lhes para cima com novo confisco.[3]

Nos últimos 150 anos, com a abertura das modernas estradas e linhas de caminho de ferro, houve um particular movimento migratório das gentes de Carção para a nossa vila e depois para a cidade de Macedo de Cavaleiros que conheceu um progresso notável, absorvendo vários concelhos da região. E esse movimento migratório foi registado pelo nosso povo na seguinte quadra:

 

Para cá do Marão

Mandam os que cá estão;

Mas em Macedo

Mandam os de Carção.

 

 Os Macedenses, por seu turno, fixaram também em versos aquela “invasão” de imigrantes de Carção:

Vindos dos lados da Arábia

E de balança na mão

Vieram os de Carção

Que com grande lábia

Invadiram a Estação [4]

 

De certo aquela é uma herança judaica e marrana, uma herança que as gentes de Carção souberam preservar. E é fantástico que eles tenham perseverado em sua crença na lei mosaica apesar de todas as perseguições inquisitoriais e eclesiásticas. Vejam, a propósito, o que o pároco de Carção dizia em carta de 2.6.1852, para o bispo de Bragança:

- Neste povo grassa desde tempo imemorial uma seita que em tempo da Inquisição era muito oculto, mas de 34 (1834) a esta parte é isso muito divulgado, quero dizer que não se escondem os sectários como outrora; assim há muita gente, que pelo menos in confuso sabem disso … O erro é a seita, ou Lei Mosaica. [5]

BELMONTE -"Souvenires"


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 14

Apresentação do livro será no próximo dia 3
 de Novembro em Torre de Moncorvo
Henrique Lourenço. Poucos dados recolhemos sobre este homem que nasceu em Torre de Moncorvo na viragem do século de 500 para o de 600, segundo as suas próprias declarações, sendo filho de outro Henrique Lourenço e de sua mulher, Isabel Pereira. Em 14 de Janeiro de 1636 foi preso no Panamá, de onde foi levado para as cadeias da inquisição de Lima, no Perú. Ao ser preso, foram-lhe confiscados todos os seus bens e leiloados em praça pública, tendo rendido 17 544 pesos. A mercadoria era constituída por 5 escravos, lotes de tecidos provenientes de Ruão (França) e 64 barris de pimenta. O objectivo da sua viagem seria a venda destas mercadorias e a compra de prata naquelas paragens da América espanhola. Saiu reconciliado em 1639, condenado a remar nas galés de Sua Majestade e depois de cumprida a pena devia apresentar-se em Sevilha, cidade que foi designada para seu cárcere. O lhe que aconteceu depois não sabemos. Apenas temos uma informação datada de 29 de Agosto de 1641, produzida por seu irmão Manuel Henriques Pereira, o gigante, de alcunha, dizendo que seu irmão Henrique Lourenço “foi para as Índias de Castela e ouviu dizer que casara no México, com uma cristã-velha e era falecido”. Acerca dos 7 irmãos e 3 irmãs de Henrique Lourenço, muito haverá a dizer, pois todos eles merecem figurar num dicionário de ilustres marranos de Trás-os-Montes.
António Júlio Andrade 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 13

Aldeia de Sambade - 2012
António Rodrigues Mogadouro. Uma das irmãs de Manuel Fernandes Vila Real chamou-se Isabel Henriques e foi casada com António Rodrigues Mogadouro. A este, o sobrenome ficou-lhe da terra onde terá nascido ou passado a infância, pois que o filho mais velho indicou a aldeia de Sambade como a terra natal de seu pai. Mogadouro  e Sambade eram então duas terras relativamente próximas e complementares, na medida em que Mogadouro produzia muitas lãs e Sambade era o grande centro da indústria têxtil do Nordeste Trasmontano. Nascido por volta do ano de 1598, António Rodrigues cedo começou a viajar e a mercadejar por terras de Castela onde tinha cópia de familiares, nomeadamente em Madrid, cidade pujante em termos de construção civil e seu tio António Álvares dominava a produção e venda de tijolos (“ladrillos”). Madrid era então a jovem capital de Espanha unificada e a função pública ganhava respeito e dignidade. E António tinha dois primos empregados em organismos do Estado, altos funcionários, como hoje se diria. Facto é que, aos 22 anos, ele decidiu fixar-se em Madrid, ali permanecendo por 5 anos. Regressou a Trás-os-Montes e foi casar a Vila Real, com Maria Lopes, a qual faleceu pouco depois, sem lhe dar descendência. Voltou a Madrid mas… em 1933 regressou definitivamente a Portugal, estabelecendo-se em Lisboa, com casa de comércio, na Rua das Mudas. E logo voltou a casar, com Isabel Henriques, como atrás se disse. Poucos anos depois, aquando da revolução de 1640, já a casa comercial do Mogadouro tinha nome, a ponto de “ganhar o concurso” para o fornecimento de géneros aos exércitos estacionados em Trás-os-Montes. Certamente ajudaram nisso as relações com a família dos Távoras, senhores de Mogadouro e com o Conde de castelo melhor que naquela mesma família estava casado. E ainda mais ajudariam seus numerosos irmãos e irmãs estabelecidos por Mogadouro, Sambade, Chacim, Miranda do Douro… todos trabalhando em rede. E em rede trabalhava com outros irmãos, primos e sobrinhos que ele tinha em Madrid, Bordéus, Livorno… Em simultâneo cresciam os filhos e com estes metidos na empresa desde cedo, alargavam-se os negócios, em termos geográficos e na diversificação de produtos comerciados: especiarias e diamantes da Índia, escravos de Angola, açúcar e tabaco do Brasil, sal, vinho e azeite de Portugal, tecidos e metais do Norte da Europa… Entretanto o poder político mudou de mãos, com o rei Afonso VI a ser encarcerado e a ver a mulher casar-se com o irmão Pedro, este aclamado rei nas Cortes Gerais da Nação cujos membros eram na grande maioria Familiares da Inquisição. E com o “partido da inquisição” a tomar as rédeas do poder, as primeiras vítimas foram, naturalmente, os mercadores marranos apoiantes do regime e que, respondendo ao apelo do padre António Vieira, entraram com seus capitais na fundação da Companhia das Índias. E assim António Rodrigues Mogadouro foi preso em 29 de Julho de 1672, juntamente com os dois filhos varões mais velhos, seguindo-se os outros todos, à excepção de uma filha casada com o primo Diogo Rodrigues Marques que conseguiu fugir para Inglaterra. Ao cabo de 7 anos o velho patriarca morreu na cadeia. Mas o seu processo na inquisição não terminou. Apenas foi encerrado no auto de fé de 26.11.1684, em que os seus ossos foram desenterrados, metidos em um caixão e queimados na fogueira, juntamente com um boneco de palha que o representava. Na cadeia também morreram duas filhas, uma delas pouco depois de ser presa e lavando um filho no ventre prestes a nascer e que também morreu. O filho mais velho, António Rodrigues Henriques, que à data da prisão era já o gestor executivo das empresas Mogadouro, esse foi queimado vivo no auto de fé de 10.5.1682. No mesmo auto saiu penitenciada a filha mais nova, Brites Henriques e os filhos Francisco e Pantaleão. Este acabaria por reconstruir a sua vida e, anos depois, aparecia em Lodres como um dos 5 líderes da comunidade judaica que assinaram o contrato para construção da sinagoga de Bevis Marks.
António Júlio Andrade

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Belmonte - Loja KOSHER

A Portugal Kosher, em Belmonte, na pessoa do Rabino Elisha Salas, é o representante em Portugal da UNION ORTODOXA, STAR - K (Estados Unidos, Canadá e Israel) e CHATAM SOFER (Estados Unidos, Canadá e Israel), organizações cuja Certificação é reconhecida mundialmente junto de toda a comunidade judaica.Visite o site:
http://www.kosherportugal.com/p/kosher-produzidos-em-portugal-com-selo.html

A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa

A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa

Editora: Vega
Autor: António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães
Disponibilidade: Em stock

Preço: 14,15€
               
A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, segundo número da colecção SEFARAD, tem como base uma investigação profunda de umcorpus de processos na Inquisição de Lisboa. Através desses processos, os autores reconstituíram a história da família Mogadouro, proprietária da Nau Jerusalém, que se ocupava predominantemente do transporte de judeus portugueses que fugiam da Inquisição e de judeus que vinham de Itália para Portugal disfarçados de comerciantes. À excepção de uma filha que era casada, todos os membros do clã dos Mogadouro conheceram, em simultâneo, os horrores das cadeias da Inquisição de Lisboa.
O próprio jogo vocabular do título mostra-nos toda a dimensão de perversão com que o devir dos tempos conseguiu brindar certas comunidades: A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, isto é, de como uma comunidade rica da periferia foi perseguida por um tribunal instalado na capital.
 

TORRE DE MONCORVO - SINAGOGA

Brevemente nas livrarias

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O PODER DA INQUISIÇÃO.Por: J. Andrade F.Guimarães

Ao falar da Inquisição há duas posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável, passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores. Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos, usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social, significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou judiciais.
Claro que esta poderoso complexo institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror, fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando o povo.
Nada disto era novo, pois a perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir. A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria mais ainda a suportar do que a própria prisão.
E para os maiores “criminosos”, os que eram condenados à morte (relaxados é o termo usado), os sambenitos eram decorados com um desenho da própria cara envolta com as chamas do inferno e pinturas aterradoras de demónios, mordendo-o. E na procissão para o auto de fé a humilhação completava-se metendo-lhe na cabeça uma carocha – espécie de chapéu cónico, muito alto, igualmente decorado com as chamas e os diabos do inferno.
Claro que o alvo principal do castigo não eram os relaxados mas as suas famílias, os seus amigos, a sociedade que precisava ser permanentemente condicionada pelo medo e sobre a qual tinha sempre de pairar a sombra da Inquisição. Para isso, por cada relaxado, faziam-se dois sambenitos. Um deles ficava exposto na cidade sede da Inquisição e o outro era enviado para a terra, sendo pendurado no interior da igreja matriz, exposto como estandarte, onde ficava pelos anos afora. Os sambenitos dos relaxados, assim expostos na igreja, forneciam poderoso combustível para a imaginação dos beatos católicos que “neles tinham com que domar a soberba dos cristãos novos” – como explicava um lavrador de Carção – e com eles perdurava a ignomínia sobre os filhos, netos e outros familiares dos condenados.
NOTA – Este texto faz parte de um artigo publicado na revista Almocreve / 2012, que se publica na aldeia de Carção, concelho de Vimioso, com o título de A Reposição dos Sambenitos na Igreja de Carção

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 12


Manuel Fernandes Vila Real. Seus pais eram de Vila Real e emigraram para Lisboa, terra onde Manuel Fernandes nasceu, em 1608. O início da sua vida activa foi na loja de fancaria de seu pai mas, aos 14 anos, foi com o governador Jorge de Mascarenhas para Ceuta, seguindo a carreira militar e ali atingiu o posto de capitão. Voltou a Portugal e foi com cobrador das rendas do Priorado do Crato e corretor dos reais de Lisboa que seu pai arrematara. Os negócios da família estendiam-se também ao Brasil, ao trato do açúcar e do tabaco. Para o transporte destes produtos do Brasil para Lisboa e para os portos do Mediterrâneo e do Báltico, Manuel Fernandes decidiu-se pela compra de um barco e com esse objectivo se dirigiu a Sevilha, Málaga, Ruão e Havre onde conseguiu efectuar a compra e a partir dali trabalhar na marinha mercante, com seus cunhados Manuel e João de Morais. Falecendo o João, Vila Real necessitou de ir a Paris. E levaria boas recomendações, a ponto de cair nas boas graças do chefe do governo, o poderoso Cardeal Richelieu. Sucedeu entretanto a revolução do 1º Dezembro de 1640 que colocou no trono de Portugal o rei D. João IV, da Casa de Bragança, que teve desde logo o apoio da generalidade da nação sefardita que vivia em Portugal mas também no resto do mundo, nomeadamente na Holanda, França e Inglaterra. Durante alguns anos, Manuel Fernandes foi uma espécie de embaixador itinerante, acompanhando altos dignitários da monarquia portuguesa em negociações diplomáticas e de apoio militar, bem como na compra de armas e mobilização de voluntários para o exército que, durante uns 18 anos, enfrentaria uma guerra com Espanha. Por tudo isso ele se terá constituído em alvo prioritário da inquisição que, nas artes da espionagem, tinha óptimos executantes, normalmente recrutados entre frades, como foi o caso. E vindo a Lisboa, em 1647, na companhia do Conde de Vidigueira que chefiara uma embaixada a Paris, Manuel Fernandes Vila Real foi preso pela inquisição, acusado de judaísmo e de ler livros proibidos. Recordemos que naqueles tempos se travava uma tremenda luta política entre a inquisição e o rei D. João IV que fora excomungado pelo Papa de Roma e por este via recusada a nomeação de bispos para Portugal. E o clímax desta luta política foi atingido no dia 1º de Dezembro de 1652. Com efeito, para comemorar os 12 anos da revolução que colocou no trono o rei D. João IV, a inquisição preparou uma festa magnífica com um grandioso auto de fé em que foi sentenciado e queimado na fogueira o embaixador Manuel Fernandes Vila Real. A presidir às cerimónias estava o próprio rei que, por disposição legal e obrigação política, não podia escusar-se a esta tremenda humilhação – presidir à festa de imolação de um dos seus maiores e mais desinteressados apoiantes! Resta, finalmente, dizer que Manuel Fernandes Vila Real foi também um homem de letras, escritor de tratados de diplomacia e política, o mais conhecido dos quais será El Político Christiano ó Discursos políticos sobre Algunas Acciones de la Vida del Eminentíssimo Señor Cardenal Richelieu, editado em França em 1641 e em 2005 reeditado pela Ed. Caminho com introdução biográfica e notas do Prof. Borges Coelho, também ele um ilustre trasmontano e grande historiador da inquisição e cristãos novos, a quem devemos uma grande homenagem. A publicação daquele livro terá sido uma das causas próximas e directas da prisão e condenação à morte do embaixador Vila Real, pois que os inquisidores de Lisboa consideraram que tal livro continha matéria perigosa, ideias influenciadas pela doutrina judaica.
António Júlio Andrade

BELMONTE -Rede de Jusdiarias de Portugal


domingo, 21 de outubro de 2012

JOSÉ ANTÓNIO PINTO -Originário de Torre de Moncorvo, circuncidado em Livorno e judaizante em Tetuão.

Por:J.Andrade
F.Guimarães

Foto do livro "Os Isidros - a epopeia de uma família
de cristãos-n​ovos de Torre de Moncorvo
Livorno é uma cidade da costa ocidental da península itálica. Ao findar do século XVI, quando os judeus e os cripto-judeu eram escorraçados de Portugal e Espanha e mal aceites na maioria dos restantes estados europeus, o grão-duque Fernando I convidou os perseguidos a fixar-se em Livorno. E, por lei promulgada em 1593, concedeu e esses imigrantes alargados privilégios entre os quais a isenção de taxas e impostos e a mais absoluta liberdade religiosa. No caso dos judeus permitia-lhes até a criação de tribunais próprios para resolver os processos surgidos entre eles.
Naturalmente que, abrindo-se-lhe uma tal porta, um grande número de cristãos-novos portugueses escolheram Livorno para viver. Este fluxo migratório acentuou-se a partir da queda do conde de Olivares, famoso ministro de FilipeIV, em 1643 e da bancarrota da Coroa espanhola em 1647, altura em que as inquisições redobraram o seu ímpeto persecutório, primeiro em Espanha, depois em Portugal. Como testemunho deste movimento migratório, ficou célebre o comentário feito pelo embaixador de Veneza naquela cidade quando, em 4.6.1655, assistiu à chegada de um navio que ali desembarcou 40 novos imigrantes: - São uma espécie de cristãos que quando aqui chegam imediatamente se tornam judeus.
E foi assim que, por 1670, a comunidade sefardita de Livorno rivalizava com a de Amesterdão, não havendo outra que se lhe comparasse, tanto no cômputo populacional (cerca de 300 membros), como do movimento comercial. Amesterdão era a grande praça comercial no Norte da Europa e Livorno desempenhava idêntico papel na bacia do mar Mediterrâneo, destronando Veneza. A Livorno chegavam os produtos que os barcos traziam da Índia, da China, da África e das Américas (escalando ou não os portos de Lisboa e Sevilha) e os comerciantes Livornenses os encaminhavam depois para os países da Europa central e meridional e também para o império Otomano e mais partes do Médio Oriente. Segundo António Carlos Carvalho, foram os Livornenses “os primeiros europeus a apreciar o sabor do café, o gosto do chocolate e o prazer do tabaco”. E nos trilhos da emigração de cristãos-novos portugueses para Livorno, ficou famosa a nau Jerusalém e a família Mogadouro, sua proprietária, de que alguns membros foram processados e mortos pela inquisição como “passadores de judeus”.
Ao contrário das outras cidades italianas, em Livorno não existia qualquer “ghetto” e os judeus misturavam-se livremente com o resto da população e ostentavam com orgulho seus brasões nos documentos. A comunidade era dirigida por um colégio de 60 membros hereditários e as actas das suas reuniões eram redigidas em português, mantendo-se esta língua como oficial da “nação hebreia” de Livorno até 1787.

REDE DE JUDIARIAS EM PORTUGAL

Sinagoga de Belmonte.

A Rede de Judiarias de Portugal - Rotas de Sefarad é uma associação com carácter público mas de direito privado e que tem por fim uma actuação conjunta, na defesa do património urbanístico, arquitectónico, ambiental, histórico e cultural, relacionado com a herança judaica (artº. 1º dos Estatutos).
Assim, a Rede de Judiarias de Portugal, fundada em dezassete de Março de 2011 pretende conjugar a valorização histórica e patrimonial com a promoção turística, acção que ajudará igualmente a descobrir uma forte componente da identidade portuguesa e peninsular.
O contributo dos judeus portugueses para a história do mundo foi enorme; desde a ciência náutica que há mais de 500 anos deu ao país um avanço decisivo para o início da globalização, à evolução da economia mundial e da medicina, muitos foram os sectores em que o papel dos sefarditas nacionais se tornou preponderante.

sábado, 20 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 11


Bragança- anos 50
José da Costa Vila Real. A família dos Costa Vila Real ganhou uma projecção extraordinária no mundo sefardita e na sociedade inglesa. Destaque muito especial para um dos seus membros – José da Costa. Nasceu em Bragança por 1689 e faleceu em Londres em 1730. Foram 4 décadas de uma vida intensa, com a inquisição de Coimbra em perseguição constante de seus ancestrais, paternos e maternos. Por 1706, vivia em Lisboa, em casa do pai que, depois de enviuvar, casou segunda vez e trocou Bragança pelo sul do país, acabando por fixar-se em Lisboa. Na capital do reino não abrandou a vigilância do tribunal da fé sobre eles, sendo presos todos os membros do agregado familiar: o pai, a madrasta, as irmãs e… José da Costa, naturalmente. Seguiram-se mais de 5 anos nas húmidas e escuras masmorras, entre 1706 e 1711. Posto em liberdade, depois de abjurar publicamente no auto da fé, rapidamente reconstruiu sua vida e fazenda, em negócios de açúcar e tabaco e muito especialmente em contratos de abastecimento de géneros aos exércitos estacionados em Trás-os-Montes. No verão de 1726, quando a inquisição tinha já um segundo processo organizado e se preparava para o prender novamente, José Vila Real protagonizou uma incrível aventura. Deflagrando então um incêndio em Lisboa, aproveitou a confusão reinante para se meter em um barco inglês que estava ancorado à saída para o mar e nele embarcou com mais 17 membros de sua família e a maior parte de sua fortuna, antecipadamente transformada em dinheiro e papéis de crédito garantidos. E ainda antes da sua chegada, já a imprensa Londrina informava desta fuga e avaliava a fortuna transportada em mais de 300 mil libras. Digno de registo também é o facto de antes da fuga e para que ninguém pudesse dizer que ele fugia por causa de alguma dívida ou possível falência comercial, José da Costa fez-se munir de certidões tiradas na Casa da Índia e nas Alfândegas do tabaco e do Açúcar, atestando que nada devia ao fisco nem ao estado português. E se a fama de capitalista o precedeu na chegada a Londres, mais badalado ainda seria o seu casamento no ano seguinte, no seio da família de António Lopes Suasso, também originário de Bragança, possivelmente o detentor da maior fortuna entre os particulares daquela época, não apenas na Inglaterra mas no mundo ocidental. Do casamento de Isaac (nome que tomou com a circuncisão) Vila Real e Kitty (Rachel) da Costa, nasceu uma filha, Sarah, que casou com o visconde de Galway. Ironia da história: foragidos de Portugal, os Costa de Bragança entram na classe da Nobreza de Inglaterra! 
António Júlio Andrade 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ESTUDOS DE ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL – Uma destilaria de aguardente em Alijó.Por: António Júlio Andrade

Um velho alambique em funcionamento.Foto A.F.F.M.
Sendo embora uma minoria na sociedade portuguesa, os judeus (e marranos) deram um contributo fantástico para o desenvolvimento do País. E em Trás-os-Montes, naturalmente, até porque esta terá sido a região do País que mais fugitivos de Espanha acolheu depois da expulsão dos judeus daquele país. Creio não exagerar dizendo que eles sempre estiveram na vanguarda do desenvolvimento e foram os arautos da modernidade entre nós.
Esta é uma ideia força que eu captei da leitura de centenas de processos da inquisição. Sim, que eles se revelam uma preciosa fonte para o conhecimento da nossa história, ao nível económico, social e cultural.
A título de exemplo e usando uma linguagem moderna, direi que foram eles os primeiros a preocupar-se com o desenvolvimento das estruturas de apoio ao turismo, como eram as estalagens. Com efeito, no século de 500, os forasteiros que demandavam Torre de Moncorvo tinham à sua disposição a estalagem de Isabel Lopes, a qual acabou presa pela inquisição.
Em Miranda do Douro, existia igualmente uma estalagem cuja proprietária se chamava Maria Álvares e era também da nação hebreia. Situava-se na emblemática Rua da Costanilha, porventura na casa que ainda hoje continua servindo a mesma função.
Vila Flor era então uma terra de muito comércio e muito viajada. Em prova disso regista-se ali a existência de duas estalagens por meados daquele século de 500. Uma delas pertencia ao marrano Gaspar Fernandes e a outra a Álvaro Rodrigues, por alcunha o Lamegão, pois que viera de Lamego. Esta estalagem seria a preferida dos mercadores espanhóis que visitavam a terra. Também o Lamegão e seus familiares foram hospedar-se nas cadeias do santo ofício, sob a acusação de judaísmo.
Sabemos que o exemplo se repetia em Vinhais… e em Freixo de Numão, actual concelho de Vila Nova de Foz Côa., havia a estalagem de Manuel Rodrigues Freitas, igualmente um homem da nação hebreia.
Mas se em vez de turismo e estalagens falarmos na indústria da moagem do pão, o panorama histórico é semelhante. Em Torre de Moncorvo, por exemplo, em meados do século de 600,cerca de metade dos moinhos que funcionavam durante todo o ano, todos sitos na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho) estavam nas mãos de um único industrial, Pêro Henriques Julião, certamente o mais rico mercador hebreu da vila. Mais podemos dizer de Mirandela onde, na rua da Ponte, existia “uma casa térrea que servia de atafona e pertencia ao marrano António Lopes, o Mourisquinho, de alcunha. E também por esses tempos foram instaladas na margem do rio Tua as primeiras azenhas que, durante alguns séculos marcaram a paisagem do rio hoje feito espelho de água.
Também na Princesa do Tua encontrei um cristão-novo, da família do dr. Francisco da Fonseca Henriques que era proprietário de “um lagar de azeite, com 3 casas de mós, de 2 varas, dentro da vila de Mirandela, por cima do Arco de Santo António, que valerá 200 mil réis”. Esta informação é tanto ais importante quanto os cronistas dizem que havia poucos anos que se plantaram em Mirandela as primeiras oliveiras. Repare-se também na grandeza deste lagar: 3 casas de mós e 2 varas!
Do lagar de azeite construído em Torre de Moncorvo na primeira metade do século de 600 não temos a descrição. Mas sabemos que pertencia ao mercador hebreu atrás referido, Pêro Henriques Julião. E sabemos que se situava à margem da rua dos Sapateiros. Não consegui foi apurar se este lagar e a casa de morada do seu proprietário e a cortinha e olival onde ambas as construções estavam plantadas eram as mesmas que, dois séculos mais tarde nos aparecem referidas como o lagar, o palacete e a cortinha de D. Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida como A Ferreirinha da Régua.
Um outro lagar de azeite que encontrei mencionado nos processos da inquisição situava-se na aldeia de Mós, termo do actual concelho de V. N. de Fozcôa e um de seus proprietários era um mercador marrano da vila de Freixo de Numão e que a seguir vamos encontrar como sendo um dos proprietários da destilaria de aguardente que dá título a esta crónica.
Por agora diremos que o contributo daquela gente laboriosa para o desenvolvimento de Trás-os-Montes se não ficou por estas áreas. Com efeito quem, senão eles, dominava as técnicas de fabrico da seda? Basta ler os processos da inquisição instaurados a torcedores e fabricantes de seda de Bragança e Chacim para se ter a prova. O mesmo se dirá do fabrico de cordas na Real Cordoaria de Torre de Moncorvo, cujas casas pertenciam, em grande parte, ao já nosso conhecido Pêro Henriques Julião. E a indústria dos lanifícios, fortemente implantada na aldeia de Sambade não era essencialmente conduzida pela gente da nação? E o tratamento das peles e fabrico de solas que ganhou a máxima expressão por terras de Argoselo e Carção, no concelho de Vimioso? Alguém dominava como eles as técnicas de preparação do sumagre nas atafonas, por eles utilizado nos curtumes e exportado para os países do Norte?
Agora, porém, desejo falar-lhes de uma outra unidade agro-industrial, porventura a mais valiosa e rentável de quantas encontrei até hoje – uma destilaria de aguardente.
Fazendo uma comparação grosseira, direi que o melhor dos lagares de azeite atrás referidos foi avaliado em 200 mil réis e aquela destilaria aparece com aquele valor multiplicado por 6 – 1 milhão e duzentos mil réis!
Aos leitores menos familiarizados com o assunto, convém recordar que, para além de ser uma bebida muito “gulosa” e, por isso mesmo, muito apetecida e cara, a aguardente era e continua sendo um produto essencial para o fabrico do vinho generoso, o chamado vinho do Porto, então vinho de Lamego.
Situava-se tal destilaria em um monte, no sítio do Vale da Cabra, termo de Alijó. Era dotada de 2 alambiques “grandes”. Para além da casa dos alambiques, era constituída por um armazém dos tonéis e uma casa de viver onde assistia em permanência o feitor da fábrica.
Não sei se existe ainda algum vestígio deste monumento. Caso exista, julgo que deve despertar a atenção dos que se dedicam ao estudo e conservação do nosso património de arqueologia industrial e poderá ser transformado em sítio museológico.
Um dos proprietários da fábrica, senhor da 3ª parte dela, chamava-se António Dias Fernandes, um grande mercador da vila de Freixo de Numão, no actual concelho de V. N. de Fozcôa. Quando foi preso, tinha duas encomendas de aguardente prontas a seguir e eram as seguintes:
* Um lote de 26 pipas a embarcar para o Rio de Janeiro, dirigidas a seu filho António Dias Fernandes, como o pai.
* Um lote de 21 pipa, com destino a Londres, encomendadas pelo mercador Miguel de Viana e antecipadamente pagas, em dinheiro e tecidos, no montante de “um conto e 250 mil réis”.
Pensando no valor do dinheiro, direi que aquela quantia dava para pagar a cerca de 480 operários médios durante um ano.
Infelizmente não consegui apurar quanta mais aguardente Dias Fernandes teria em stock. E quanta teriam os outros sócios detentores de 2/3 dos activos da destilaria. De qualquer modo, penso que aqueles números bastam para se fazer uma pequena ideia da importância desta unidade agro-industrial, estrategicamente situada no coração do Douro vinhateiro, região que, anos depois, viria a ser demarcada, a primeira em todo o mundo. Certamente que esta destilaria foi importante para o progresso e o desenvolvimento da região e merece ser colocada na história da vinha e do vinho do Douro. Aqui fica o alerta aos responsáveis e aos centros de investigação da história e promoção de Trás-os-Montes e Alto Douro.
FONTE – IANTT, Inquisição de Lisboa, pº , de António Dias Fernandes
Publicado no jornal Terra Quente de 15 de Outubro de 2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

MARRANOS: ORAÇÕES PELOS MORTOS

In OS MARRANOS EM TRÁS-OS-MONTES
de AMÍLCAR PAULO

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 10

 Sinagoga de Bevis Marks
Manuel Nunes de Miranda. Nasceu em Torre de Moncorvo, por 1645. Era filho de Francisco Nunes Ramos, médico, originário de Vila Flor e de sua mulher Ana Henriques, de Torre de Moncorvo. Seus pais, perseguidos pela inquisição, abandonaram Moncorvo e foram para a Galiza, fixando-se em Verin. Ali faleceu o dr. Ramos e a mulher e os filhos foram para Madrid. Tempos depois, contando 18 anos de idade, Manuel Nunes encontrava-se já em Toulouse, cidade capital da região francesa do Languedoc, a trabalhar com o primo José, na casa comercial do pai deste e seu tio materno, o banqueiro Manuel Fernandes de Miranda, sediado em Bordéus. Em 1675, casou com Francisca Fernandes Gomes, nascida em Bordéus em 1654, filha de pais trasmontanos aparentados com os Miranda. Entretanto, em Madrid, seriam presos 3 irmãs e 2 irmãos de Manuel, que saíram penitenciados em 1680, posto o que, alguns deles se refugiaram também na França, nomeadamente em Toulouse, cidade para onde foi sua irmã Branca e o marido, Francisco de Queirós. Porém, na capital do Languedoc, os ventos da intolerância religiosa, aliados à crise financeira por que passavam comerciantes cristãos e gente da nobreza da terra, sopravam ainda mais fortes do que os provocados pela inquisição em terras de Portugal e Castela. E Manuel Nunes de Miranda e sua mulher viram-se assim ser presos por práticas de judaísmo e fizeram parte daquele grupo de 18 mercadores sefarditas condenados a morrer na fogueira, na praça de S. George, em 1685. Como em outra ocasião já escrevemos, eles dispunham de contactos ao mais alto nível da sociedade de França, gente que ficou horrorizada por ver anunciar a celebração de um auto de fé na pátria do Iluminismo e os ajudou a fugir, na véspera de lhes ser atada uma corda ao pescoço e serem levados à fogueira, tendo-se queimado em seu lugar 18 bonecos de palha. Foi para Londres que Manuel Nunes fugiu com a mulher e os filhos, certamente porque ali estava já o tio banqueiro que igualmente abandonara a cidade de Bordéus com sua família, teres e haveres, numa fuga em massa que então se registou de sefarditas, muito em especial homens de negócio, banqueiros e armadores de barcos. Em Londres toda a família (5 filhas e 1 filho) abraçou abertamente o judaísmo, tomando nomes hebreus. Rapidamente os negócios de Jacob e Abigail (os novos nomes de Manuel e Francisca) cresceram e ele ganhou prestígio no seio da comunidade judaica de Inglaterra. Em prova disso está o facto de ele ter sido um dos fundadores do Banco de Inglaterra, em 1694, aparecendo na lista dos maiores accionistas em 15º lugar, com a subscrição de 2000 acções, no montante de 25 000 libras. Outro momento importante na vida deste sefardita nascido em torre de Moncorvo aconteceu em 12 de Fevereiro de 1699. Ele foi um dos 5 membros da comunidade que assinaram com a empresa de Joseph Avis um contrato no valor de 2 650 libras para a construção da sinagoga de Bevis Marks na capital de Inglaterra, com o qual se abriu uma nova era na construção do mundo moderno, sob o influxo e por acção pioneira dos judeus novos.
Igreja Matriz de Torre de Moncorvo.
António Júlio Andrade
 
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

TRANCOSO - MARIA SOARES, MULHER CORAJOSA QUE ANIMAVA O MARIDO

Trancoso -Leão de Judá

No dia 31 de Maio de 1662, na vila de Trancoso, o comissário local da Inquisição, Francisco Soares de Albergaria procedeu à prisão de João Mendes da Costa e sua mulher Maria Soares.
Tratava-se de uma poderosa família de cristãos-novos, que tinha o assento da Beira, ou seja a responsabilidade pelo abastecimento de géneros às tropas estacionadas naquela região do País.
E era também uma família ligada a importantes dignitários do regime, assistentes em Madrid e com entrada na Corte do rei Filipe. Referimo-nos ao dr. Miguel da Silveira, poeta famoso e professor de príncipes e jovens da nobreza que faleceu em Nápoles, terra para onde foi, na comitiva do duque de Medina, quando a Inquisição ali começou a prender uma série de cristãos-novos portugueses que com eles frequentavam os mesmos corredores do poder. E ao seu irmão, dr. Francisco da Silveira, médico de muita aceitação nos mesmos círculos, o qual, quando a roda da fortuna virou, se meteu em fuga para a França, fixando-se em Bordéus. Eram ambos tios maternos de Maria Soares.
Por esta parte materna, Maria Soares descendia de António Henriques Bueno da Mesquita, natural e morador em Torre de Moncorvo, cuja mulher, Filipa Rodrigues, foi mandada prender pela Inquisição de Coimbra em 1592.
E já antes dela outros familiares tinham conhecido as cadeias da Inquisição. E depois dela também. E a odisseia desta família seguiria também pelos cárceres da Inquisição de Castela. Foi o caso de um neto de Filipa, tio-avô de Maria Soares, o dr. Filipe de Nagera, médico de profissão que foi preso em Toledo em 1608 e saiu no auto-de-fé de 7 de Fevereiro de 1710, condenado a 5 anos de galés.
À data da prisão de Maria Soares, o seu pai (Fernão da Silveira) era já falecido e a sua mãe (Branca Henriques) estava já emigrada em Bordéus. Tinha fugido com o filho Rafael da Silveira, que naquela cidade francesa se tornaria famoso e depois terá embarcado para a Jamaica, com descendência ainda hoje em dia bem identificada.
De referir que Maria Soares (como, aliás, as suas duas irmãs) foram presas na sequência das denúncias feitas por seu irmão António Gomes da Silveira, encarcerado ano e meio antes.
Não sabemos a idade certa da prisioneira. Andaria pelos 30 anos. Mas era já mãe de 8 filhos (6 rapazes e 2 raparigas), o mais velho dos quais tinha uns 12 anos e a mais nova 10 meses.
Imagina-se todo o drama daquela mãe que muito justamente recearia não voltar a vê-los. Mas a sua coragem e força interior era bem maior, como em seguida se verá. Por agora diga-se que o calvário de Maria Soares nas masmorras de Coimbra se prolongou por mais de 2 anos, saindo condenada em confisco de bens, cárcere e hábito, no auto-de-fé de 26 de Outubro de 1664. Naturalmente confessou suas culpas, que não valia a pena negar. E confessou que foi educada na religião judaica, desde pequena, por seus pais. E que também ela tinha já começado a educar nessa mesma lei o seu filho mais velho, Luís Henriques, de 12 anos de idade. De resto, o seu processo é um autêntico inventário dos cristãos-novos de Trancoso, pois são dezenas e dezenas as pessoas com quem ela disse ter judaizado.
Apesar dessa atitude, em tudo colaborante com os inquisidores, Maria Soares foi submetida a tormento. Acaso para “purgar” os seus pecados.
E agora, se bem que não conheçamos todos os pormenores que rodearam a cena, vamos relatar um pouco do acto da prisão e “leva” para Coimbra de Maria Soares e seu marido, o assentista João Mendes da Costa, também ele de uma família cristã-nova bem poderosa na região de Trancoso.
Terá sido ao domingo, em plena missa, como geralmente acontecia, para maior triunfo da Inquisição e exemplo mais claro para os fiéis cristãos, que a prisão se efectuou.
O comissário local do Santo Ofício que dirigia as operações, logo lhe mandaria meter grilhões nos pés e sequestrar os bens. E exigiu que lhe dessem para a mão 40 mil réis, em dinheiro vivo, que era para se pagarem os ferros e as cordas com que os prendiam, os animais que se haviam de alugar para o transporte de pessoas e bens até Coimbra, a alimentação e hospedagem pelo caminho e os jornais aos homens que os prendiam e levavam presos até à cadeia.
Se não tinham dinheiro… vendiam-se em hasta pública os bens dos prisioneiros até perfazer aquela quantia.
Para comandar a “leva dos presos” o comissário encarregou o padre Caldeira, da ordem de S. Pedro, já muito experimentado nestas andanças e precioso colaborador da Inquisição.
Como a leva era reduzida (para além de Maria Soares e do marido, ia apenas outra rapariga, Clara de Almeida, sua parente), o padre Caldeira requisitou apenas dois guardas da correição de Trancoso e um almocreve (Francisco Pires) seu amigo e igualmente bem experimentado e conhecedor dos caminhos e dos métodos utilizados na condução de tal “gado”.
E como os presos, para além da roupa que precisavam para vestir, tinham de levar a cama e a roupa necessária para dormir, a panela, o prato, copo, faca, garfo… para comer e confeccionar as refeições… alugou-se um jumento para carregar a trouxa de Maria Soares.
E para que a viagem se fizesse com mais ligeireza, alugou-se também uma mula para a transportar a ela. Assim, ela foi colocada sobre o dorso do animal, com as mãos amarradas com uma corda que lhe passavam também em volta do corpo atada na albarda do animal. A rédea da besta segurava-a o almocreve que, por sua vez, ia montado no seu poderoso macho.
Pelo caminho havia o cuidado de não deixar que os presos comunicassem entre si. E se comunicavam, havia de se tomar cuidado em todas as palavras e gestos que trocavam e delas prestar completa informação aos inquisidores, no acto da entrega.
De concreto, notou o almocreve que, em uma volta do caminho, a viu fazer gestos para o marido e dizer-lhe que tivesse coragem, que tudo havia de passar, que seriam apenas dois ou três anos de cadeia que tinha de suportar, que cuidasse de si, que não se importasse dela e que não tivesse cuidado com os filhos. E porque ele fosse o homem responsável pelo fornecimento de géneros às tropas, ela o tratava por capitão e dizia:
- Força capitão…
Por sua vez, o marido dizia-lhe:
- Está feito. Se eu faltar (…) os meus filhos que vão à geração de Filipe Lopes e a nenhuma outra.
Queria com isto dizer que, no caso de ele morrer, a tutela de seus 8 filhos (todos menores de 12 anos) deveria ser entregue a seu irmão Filipe. Para além disso, o marido recriminava Maria, culpando seus familiares pela sua prisão, dizendo:
- Boa obra nos fez a vossa gente!...
E ela voltava, dizendo-lhe que tivesse paciência, que se lembrasse dos filhos, que tudo se havia de resolver, que eram apenas 2 ou 3 anos.
Pelo caminho havia estalagens que já eram conhecidas e recomendadas para pernoitarem os presos do Santo Ofício. Algumas tinham mesmo “apartamentos” especialmente preparados para o efeito, sem janelas e com as portas especialmente reforçadas.
Uma dessas estalagens era em Mortágua, à saída da vila. Nela pernoitaram a Maria Soares e o marido. E embora em apartamentos distintos, eles conseguiram chegar à fala. E o padre Caldeira tomou nota e contou depois aos inquisidores que Maria Soares dizia:
- Que tivesse ânimo nesta ocasião, pois tudo se resolveria em dois ou três anos. Como bom capitão de guerra…
Muito corajosa esta mulher!
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
 Bibliografia e Fontes:
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 493, de Filipa Rodrigues
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 7825, de António Gomes Silveira
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 4952, de Maria Soares
JULIO CARO BAROJA, Los judíos en la España Moderna y Contemporánea, ediciones Arion, Madrid, 1961, tomo I, p. 392 e tomo II p. 197 - 206

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 9

Vila Flor - 1951
Tomás Rodrigues Pereira. Nasceu em Vila Flor por 1605 e faleceu em Amesterdão em 1699. Depois de casar com Beatriz Gomes, o casal deixou Vila Flor e foi para Madrid. Em Espanha começou por trabalhar no negócio da distribuição do sal e nos anos 30 tornou-se conhecido como exportador de lãs para França. Em tais negócios usava o pseudónimo de Francisco de Gurre, o que deixa adivinhar alguma margem de ilegalidade ou fuga aos impostos. Por 1640, seguiu com a mulher, os filhos e a sogra para Amesterdão, abraçando claramente o judaísmo e tomando o nome de Abraão Israel, ao circuncidar-se, naturalmente. Mercador abastado e influente no seio da comunidade, conseguiu autorização para instalar uma refinaria de açúcar, a primeira que houve em Amesterdão. O tempo era de angústia para os sefarditas, com o “auto de fé” de Toulouse, em França e a Inglaterra a abrir-se aos católicos. Tomás Rodrigues Pereira não podia ficar indiferente e colocou-se desde logo ao lado de Guilherme III na luta contra o rei de Inglaterra Jaime II, tomando o encargo do abastecimento das tropas, juntamente com Álvaro machado. Esta operação terá sido coordenada pelo seu filho Jacob e terá envolvido 28 padeiros, 700 a 800 cavalos e 300 a 400 vagões. Não era coisa fácil dar de comer a exércitos estacionados, quanto mais em manobras de invasão de um país estranho. Para além de mercador, Tomás era também banqueiro e foi um doa 20 fundadores do Banco de Hamburgo, o primeiro que existiu. E era também um homem de letras e o seu nome está ligado à fundação do primeiro jornal impresso a nível mundial – a Gazeta de Amesterdão. Tal como aparece entre os fundadores da célebre Academia dos Floridos, cujo membro mais brilhante foi Oróbio de Castro. Quando em 1666 chegou a Amesterdão a notícia de que o Messias havia aparecido e estava na Terra Santa, pronto a tomar a liderança da nação hebreia, Tomás meteu-se logo a caminho da Palestina ao encontro do Messias. Descobriu-se o logro quando Tomás Pereira ia já em Veneza e terá sofrido uma tremenda desilusão. Mas isso não o fez esmorecer na fé mosaica e não impediu que ele custeasse a criação de uma escola talmúdica, espécie de seminário, em hebron, na Terra Santa. E quando faleceu, deixou 46 000 florins à Talmud Totah de Amesterdão. De entre os seus escritos religiosos, destacam-se dois livros: Certeza del Camiño e Espejo de la vanidad del Mundo. Será que nas escolas de Vila Flor o nome deste grande sefardita foi alguma vez citado, como exemplo para as gerações mais novas?
António Júlio Andrade

domingo, 14 de outubro de 2012

Descendentes de Francisco Rodrigues Brandão Faro entre Viseu e Londres

por: António J. Andrade
       Maria F. Guimarães
MONCORVO .1974

No dia 26 de Maio de 1779, na cidade de Londres, fazia seu testamento um indivíduo que se identificava como mercador, natural de Viseu e se assinava Joshua Rodrigues Brandão. Anos antes, em 25.1.1768, na mesma cidade, um outro mercador, chamado Abraham Rodrigues Brandão tinha feito testamento semelhante. Para além da identificação, do expresso desejo de ser sepultado no cemitério dos Portugueses, das disposições sobre a herança dos bens, Abraham deixava 20 libras/ano para a sua irmã Mariana, casada com Mateus Oróbio Furtado, residente em Viseu. E contemplava ainda seus sobrinhos, filhos de sua irmã Isabel, casada com João Pereira Dias, residente em França. 
Sem dúvida que os nomes judaicos de Abraham e Joshua não foram os recebidos no baptismo cristão feito em Portugal, antes foram adoptados depois da fuga para o estrangeiro e ingresso na comunidade judaica, porventura no acto da sua circuncisão. Sabemos, porém, que Abraham e Joshua eram irmãos e ambos deixaram descendência directa. Alguns de seus descendentes continuaram vivendo em Inglaterra e outros emigraram para o continente americano, ganharam notoriedade e são bem conhecidos.
E foi a seu pedido que nós partimos à procura dos ascendentes de Mariana, Abraham, Joshua e outros seus parentes. Naturalmente que, por se tratar de gente cristã-nova, a procura começou pelos arquivos da Inquisição Portuguesa. E logo verificámos que Mariana e seus 7 irmãos foram quase todos hóspedes daquele tribunal, como, aliás, muitos mais parentes seus. Possivelmente também o terão sido Joshua e Abraham que então teriam os nomes de João e Lopo Rodrigues Brandão, segundo pensamos, se bem que não tenhamos ainda provas concretas desta identidade. Mas temos a certeza de que ambos eram filhos de Francisco Rodrigues Brandão Faro e de Guiomar Rodrigues Portelo, estes nascidos por 1662 e que também conheceram as masmorras do Santo Ofício.
Fiquemos então em Viseu, na Rua Nova, na morada de Francisco e Guiomar, ao início do mês de Novembro de 1698, quando a Inquisição o foi prender. Antes de mais, diga-se que ele suspeitava que poderia ser preso já que, antecipadamente ele tratara de enviar uma pequena fortuna (quase de 3 contos de réis, em “250 ducatões de ouro”!) para Londres. E, no próprio dia da prisão, entrando ele em casa, uma criada lhe dissera que fora ali procurado pelo padre António Chaves, vizinho da Rua Nova, que até entrou no seu escritório e se pôs a mexer-lhe nos papéis. E ao ouvir isto, Francisco foi direito aos papéis, ripou da folha comprovativa do envio dos 250 ducatões para Londres e rasgou-a atirando os pedacinhos pela janela para a rua. Só que o mesmo padre estava de vigia e mandou um rapazito apanhar os pedaços de papel e reconstituiu a folha. Era realmente um conhecimento (tipo nota de recibo) da remessa daquele dinheiro, uma prova de que ele estava colocando no estrangeiro os seus recursos financeiros e talvez preparando a fuga.
Bom, vejamos agora a situação económica do casal. Antes de mais, diga-se a casa onde moravam era muito boa pois foi avaliada em 250 mil réis. O casal era ainda proprietário de uma casa sita numa das 4 esquinas da mesma rua, vendida por 140 mil réis, de 2 outras na mesma rua que serviam de tulha para recolha do cereal e mais uma pegada às tulhas, que arrematara um ano antes por 120 mil réis no Juízo do Fisco. Em Viseu ainda, na Rua da Carvoeira, era co-proprietário de mais 2 casas. Do seu património imobiliário constava ainda uma casa sita em Lisboa, junto à igreja de Santa Engrácia, a qual era dotada de uma atafona que, pensamos, serviria para moer os fardos de tabaco vindos do Brasil. Aliás, a casa e atafona tinham o formidável valor de 750 mil réis!
E vale bem a pena dizer que o imóvel pertencera em tempos ao chantre da Sé de Viseu, o licenciado João Saraiva de Carvalho. Foi dada como hipoteca de uma dívida de 600 mil réis a um seu parente que morava no Brasil – Francisco Rodrigues, o Temeroso, de alcunha – e, talvez por não ter filhos, chegou ás mãos de Brandão Faro e de sua tia por afinidade, Leonor Mendes, viúva de João Rodrigues Portelo.
E estes são 3 elementos da rede familiar de negócios de Francisco Brandão Faro. E se do Brasil recebia fardos de tabaco e caixas de açúcar descarregadas em Lisboa, para aquela colónia, enviava em troca remessas de vinho, tecidos, ferramentas… A título de exemplo, diremos que, tempo antes da prisão, ele remetera para o Brasil 35 almudes de aguardente, carregados no Porto por seu primo Diogo Vaz Faro que, por sua vez, recebia 3 arrobas de “pau cravo”. A aguardente, porém, era fabricada na Sabugosa, termo de Tondela, onde Francisco tinha montado um alambique de cobre. E ali tinha também um celeiro onde recolhia o cereal proveniente das rendas que trazia arrematadas à Mitra de Viseu.
Mas, se no Porto era Diogo Vaz que tratava dos negócios de Francisco com o Brasil, já com a praça de Londres era Rodrigo Álvares da Fonseca o intermediário privilegiado. Por suas mãos transitaram os 250 ducatões, como transitavam as pipas de vinho, os açúcares ou os tabacos. E em Londres o parceiro comercial de Francisco era o seu parente Luís de Castro, que antes em Portugal se chamava Nuno Rodrigo Portelo e que, em troca, lhe despachava predominantemente tecidos. E não era só a cidade do Porto o palco dos negócios entre Luís de Castro e Brandão Faro. Não, que os ovos não devem meter-se todos no mesmo cesto. Por uma questão de segurança, algumas operações de embarque / desembarque de mercadorias negociadas eram efectuadas no porto de Viana do Castelo, por exemplo, onde o seu representante era um tal João Reimaste, estrangeiro.
Por esclarecer estará ainda a questão do nome Faro, mas que terá sido acrescentado ao apelido por alguma ligação à cidade capital do Algarve e por ali passariam certamente alguns de seus negócios.
Na rede comercial de Brandão Faro entrariam provavelmente muitas mais pessoas, geralmente ligadas por laços familiares, como era o caso de seu cunhado Domingos Pereira, marido de Isabel Gomes Brandoa, em Bayonne, França, país de onde importava muitos coiros de vaca para solas. E também haveria alguns outros parentes e amigos que asseguravam as parcerias comerciais em praças de mais negócio, como Amesterdão na Holanda, Livorno em Itália e outras.
Mas não se pense que o mundo empresarial de Brandão Faro girava apenas em volta da cobrança de rendas e dos grandes negócios de importação / exportação. Não: ele deitava a mão a tudo, como se depreende do inventário de seus bens, onde aparece quantidade de objectos de ouro e prata (avaliados em 235 500 réis), muito linho e algodão, em rama ou fiado, muitas dívidas de pão fornecido ou dinheiro emprestado a juros, de solas vendidas a sapateiros, pipas de vinho fornecidas a vendeiros.
E também ia a Bragança cobrar dívidas da mão do abade de Rossas e negociar sedas com o “industrial” Tomás Rodrigues da Silva ou na real fábrica que existia na cidade. De igual modo se metia no monopólio das “cartas de jogar e solimão”, em parceria com Luís Rodrigues Ferreira, da cidade da Guarda.
Voltemos ao momento da prisão de Francisco para dizer que, em casa, em dinheiro vivo, ele tinha a extraordinária quantia de 3 contos, 50 e tantos mil réis metidos “em um caixotinho fechado com um cadeado, metido numa arca e outro pouco de dinheiro em dois taleigos…” Sinal de vitalidade e força empresarial? Ou mais uma prova de que ele se preparava para abandonar o país e estabelecer em terra alheia a sede da sua empresa?
A verdade é que, metido a ferros nas masmorras da Inquisição de Coimbra, Francisco Brandão Faro, desde logo se declarou culpado de práticas de judaísmo e delas pedia misericórdia e perdão. Aliás, confessou que desde há meio ano que andava pensando vir apresentar-se de livre e espontânea vontade e se o não fez foi porque João Lopes da Mesquita e seu irmão Francisco Lopes da Mesquita lhe disseram que não se admitiam apresentações. Este último, aliás, sendo seu compadre e pessoa de grande intimidade é que o terá induzido no erro e doutrinado, uns 15 anos atrás. Este seu compadre dizia-se mesmo judeu, tal como um outro irmão, o dr. António Lopes da Mesquita, médico de profissão. Para além destes e entre muitas outras pessoas denunciadas por Francisco Brandão Faro como seus cúmplices em práticas de judaísmo, fixemos o nome de seu primo Francisco Marcos Ferro, advogado, natural de Torre de Moncorvo, morador em Viseu e que, dois anos antes, transferiu a sua residência para o Porto. Daquele médico e deste advogado haveremos de falar em outra ocasião.
Resta agora dizer que o processo levou dois anos a ser despachado, acabando o réu por ser condenado em hábito e penas espirituais, saindo no auto-de-fé de 18 de Dezembro de 1701. Em Agosto seguinte seria autorizado a despir o sambenito que remeteu para Coimbra, juntamente com 3 vinténs. E terminamos transcrevendo uma pequena oração que Francisco Brandão Faro rezava “para os mortos, a qual dizia sexta-feira ou sábado, por estarem as almas em folgança”:
Folgança composta
Assentamento de altura,
Dá Senhor claridade dos céus
Para a vida em o mundo virá,
Venha sobre a alma do meu pai
E da minha mãe. (Ou da pessoa de quem se pedir – acrescentou).
Fonte – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo nº 8867, de Francisco Rodrigues Brandão Faro.
NOTA – Este trabalho foi publicado no jornal Terra Quente