terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 36

" De Villa Real que he junto desta comarqua ..."

Rodrigo Álvares. Não restam dúvidas de que judeus e sefarditas foram pioneiros nas artes tipográficas, não apenas em Portugal mas na Europa. E os irmãos Tartas, de Bragança, ocupam um lugar de relevo na galeria dos tipógrafos e livreiros da Europa. Em Portugal um dos primeiros tipógrafos chamou-se Rodrigo Álvares. Era um homem da nação hebreia, trasmontano, natural e morador em Vila Real. Na última década do século de Quatrocentos transferiu-se para o Porto e ali instalou uma das primeiras tipografias que houve em Portugal. A fazer fé no dr. João de Barros, seria até a primeira que existiu entre nós. Com efeito, aquele autor, no seu “Livro das Antiguidades e Cousas Notáveis de Entre Douro e Minho”, publicado em 1540, escreveu o seguinte:
- De Villa Real que he junto desta comarqua foi natural hum Rodrigo Alvares que depois viveo no Porto, e foi o primeiro que a este Reyno trouxe a Impressão, em tempo que valia hum breviário seis e sete mil reis e este os imprimio a dois cruzados.
De onde trouxe ele a sua tipografia é coisa que não sabemos, mas terá sido de Salamanca, pois à sua morte veio para ela a trabalhar um tal Juan Porres, de Salamanca. Da tipografia deste marrano trasmontano, chegaram até nós duas obras impressas:
- Constituições que fez ho Senhor don Diogo de Sousa bispo do Porto – editadas em 24 de Agosto de 1496, conforme o registo final: - Impressum in porto civitate. Rodericum Alvares artes impressorie magistrum.
- Evangelhos e Epistolas com suas exposições em romance. Também ao final se diz: - E foy a suso dicta obra emprimida e traladada em linguagem português em há mui nobre e sempre leal cidade do Porto por Rodrigalvares. Anno do Senhor Mil CCCCLXXXXII, xxv dias do mês de Outubro. E estas notas são interessantes porque foram as primeiras que nos ficaram mostrando “um mestre das artes impressoras” escrevendo o seu nome na própria obra.
António Júlio Andrade

Nota. Sobre o assunto pode ver um trabalho publicado no nº 233, de 2001-05-01, do jornal Terra Quente, da autoria de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Cristãos-novos trasmontanos Pioneiros nas Artes Tipográficas.

 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 35


 Freixo de Espada à Cinta
João de Castilho. Foi um dos mais celebrados arquitectos portugueses. O seu nome está ligado a várias das mais grandiosas e emblemáticas obras de arquitectura nacionais, como sejam: o mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, o convento de Cristo em Tomar, a sé de Viseu, a fortaleza de Marzagão em África… Menos conhecida é a sua ligação à gente da estirpe hebreia e a Trás-os-Montes. A terra de seu nascimento, porém, foi Santander, em Espanha, por 1490. Dois anos depois, foi promulgada a lei de expulsão dos judeus de Espanha e os seus pais tê-lo-ão trazido para Portugal e mais concretamente para a vila de Freixo de Espada à Cinta. Nesta terra viria a casar, com Maria Fernandes Quintanilha, filha de um outro fugido da inquisição espanhola chamado Garcia Fernandes que, por sua vez, tinha casado na família Varejão, porventura uma das mais ricas e poderosas do burgo. E estes Quintanilha – Varejão aparecem-nos ligados à fundação da Misericórdia de Freixo. E não seria por acaso que um grande “milagre” aconteceu exactamente na igreja da Misericórdia onde os pés de uma estátua de Cristo Crucificado entraram repentinamente a largar gotas de suor, em tempo de verão e de uma prolongada seca, logo se seguindo uma enorme chuvada, que encheu de alegria os lavradores. E de gratidão aos céus. E também na mesma igreja se conserva ainda hoje o retrato de António Francisco Varejão que, por esses tempos, foi missionário em terras do Oriente e o povo de Freixo elevou a “santo”.
Temos, pois, o arquitecto João de Castilho casado em Freixo de Espada à Cinta, na família dos Quintanilha – Varejão que certamente esteve na vanguarda do movimento para a construção da belíssima igreja da Misericórdia. E também da extraordinária igreja matriz, que tem a dignidade de uma sé episcopal e que os estudiosos da arte apelidam como os “Jerónimos de Trás-os-Montes”. E também as famílias promoveram a construção de belas casas, umas mais solarengas que outras, mas todas casando-se em harmoniosos arruamentos, em típico estilo manuelino, o estilo em que João de Castilho foi o expoente maior. E a minúscula e pobre terra adoptiva deste grande mestre de arquitectura, situada no mais recôndito dos lugares do reino, para além da fronteira duriense e para trás dos montes, tornou-se na mais emblemática das terras Manuelinas de Portugal. E torna-se hoje imperioso dar a conhecer e rentabilizar este património, fazer de Freixo de Espada á Cinta um ponto de partida (ou de chegada) para uma Rota do Manuelino. E torna-se igualmente imperioso fazer de Freixo de Espada à Cinta um ponto obrigatório de passagem numa Rota de Judeus e Marranos, promovendo-se o estudo da simbologia judaica que ornamenta portas, janelas e muros de casas, bem como a leitura e estudo dos processos que a inquisição moveu contra os Marranos de Freixo de Espada à Cinta. Estas duas Rotas de Turismo Cultural serão essenciais para o desenvolvimento da terra.
António Júlio Andrade
Nota – Sobre este assunto pode ver um conjunto de 4 textos publicados no jornal Terra Quente (nº 227, de 2001-03-01 e seguintes) de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Os Judeus e a Renascença Manuelina em Freixo de espada à Cinta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 34



Tomás da Fonseca. Terá nascido em Freixo de Espada à Cinta, cerca de 1521. Ainda pequeno seria levado para as Índias Ocidentais por seu pai, que foi um dos primeiros descobridores de minas na América espanhola. No México viveu Tomás cerca de 50 anos, sendo mineiro do ouro em Tlalpujahaua. Nunca casaria mas foi pai de 5 filhos naturais. Em 1596 foi preso pela inquisição do México, acusado de práticas de judaísmo. Saiu no célebre auto de fé celebrado em 25 de Março de 1601, condenado em cárcere e hábito perpétuo, 100 açoites pelas ruas da cidade e confisco de bens. Tinha 80 anos de idade.
No mesmo auto foi queimada a estátua de um outro sefardita natural de Freixo de Espada à Cinta, primo de Tomás da Fonseca, o qual havia morrido na cadeia, chamado Pelayo Álvares.
Conhecemos também um pouco da história de uma irmã deste, nascida e baptizada em Freixo de Espada à Cinta com o nome de Branca Rodrigues. Certamente com medo da inquisição portuguesa, fugiu para Ferrara, em Itália, ali tomando o nome judeu de Isaque Rodriga. Mudou-se depois para a cidade de Sevilha, em Espanha, onde passou a chamar-se Branca Lourenço. Naquela cidade portuária abriu uma pensão. E esta passou a ser a pensão de referência para os sefarditas Trasmontanos que demandavam Sevilha para se embarcar para terras de Marrocos e das Índias de Castela. Muitas vezes hospedava os migrantes de graça e até lhes arranjava merenda para a viagem. Temos conhecimento de dois que ali foram hóspedes gratuitos durante 3 meses. Bem merece esta valorosa mulher ser recordada com uma lápide em uma rua de Freixo de Espada à Cinta.
António Júlio Andrade


 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 33


Feliciano de Valência. Nasceu em Bragança, por 1561, sendo filho de Oliveira Nunes e Guiomar da Costa, originários de Benavente, Espanha. Concluídos os estudos preparatórios em Bragança, no Colégio da Companhia, transitou para a universidade de Salamanca, onde estudou Cânones e Leis, entre 1581 e 1584. Jurista, ligou-se a homens de negócio de Madrid e Sevilha, nomeadamente a Pedro Gomes Reinel e João Rodrigues Coutinho que tiveram o assento dos negros de África entre 1593 e 1603. E terá sido exactamente o negócio de escravos africanos que o levou para as Índias Ocidentais. Com efeito, ali o encontramos em 1593, a negociar no Peru e de passagem por Acapulco onde terá conhecido António Dias de Cáceres. No ano seguinte, porém, estava já em Espanha, na cidade de Cartagena, com um barco carregado de mercadorias a zarpar para o México, levando como feitor um Manuel Gil, da Guarda. No México entraria em contacto com a família de António Cárceres e muito em especial com Luís de Carvalhal, o Moço. E como ele se afirmava judeu ortodoxo. Porém, considerava que, embora só uma das 3 religiões monoteístas fosse verdadeira, as outras duas deviam ser respeitadas, pois se deviam a Deus. E contava que o rei D. João III tinha um grande amigo, cristão-novo, muito rico, que dispunha de 200 mil cruzados. E dizendo-lhe o rei que até simpatizava com a lei de Moisés mas que o melhor seria converter-se ele à lei de Cristo, que era a verdadeira, o outro lhe respondeu com esta parábola: um homem rico tinha 3 filhos e tinha só uma pedra preciosa para lhes dar. E para os contentar a todos, mandou fazer outras duas pedras falsas, que não se distinguiam da verdadeira. Juntou as três e disse aos filhos que tirassem cada um a sua, rogando a Deus que desse a verdadeira a quem fosse servido, pois só Ele sabia qual era. O mesmo se passa com as 3 religiões monoteístas, que nasceram por graça e inspiração divina. Esta parábola foi contada no tribunal da inquisição do México em Novembro de 1598 e a partir de então nada mais sabemos sobre este Trasmontano, Sefardita e Marrano que foi casado com Maria Fonseca.
António Júlio Andrade

sábado, 5 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 32


Foto de autor desconhecido

Jacob de Castro Sarmento. Nasceu em Bragança em 1691 e ali foi baptizado com o nome de Henrique de Castro Almeida. Andava pelos 6-7 anos quando os pais o levaram para o Alentejo, fixando residência em Mértola, depois de uma breve passagem pelo Alvito. Entrou para a universidade de Évora a estudar Artes, ao mesmo tempo que seu pai era levado para as masmorras da inquisição da mesma cidade, acusado de judaizar. Licenciado em Artes, transitou para a universidade de Coimbra onde concluiu o curso de Medicina, em 1717. Foi exercer a profissão para o Algarve e Alentejo, nomeadamente na cidade de Beja. Em 1720 a inquisição lançou ali uma vaga enorme de prisões e o dr. Henrique mudou-se para Lisboa. Casou logo de seguida com sua prima Isabel Inácia e no ano seguinte embarcaram Inglaterra, em fuga da inquisição. Efectivamente o seu nome constava de uma lista de 92 cristãos novos (advogados, médicos, grandes mercadores…) da região de Beja denunciados como judaizantes pelo seu colega, também médico, originário de Bragança, o famigerado dr. Francisco de Sá da Mesquita. Em Londres foi bem acolhido na comunidade judaica, nomeadamente pelo rabi David Neto. E logo se fez circuncidar, aderindo abertamente ao judaísmo. Mudou então o nome de Henrique para Jacob e o sobrenome Almeida para Sarmento. Teve iguais artes de se introduzir nas altas esferas da sociedade inglesa, através de Lady Montagu que acabara de chegar da Turquia onde seu marido cumprira a missão de embaixador. Davam-se então os primeiros passos na descoberta da vacina contra a varíola, processo que aquela dama seguia com interesse, pois que uma filha sua contraíra aquela doença e acabou por ser a primeira pessoa no mundo ocidental a experimentar o novo método da inoculação. Com todo o interesse o dr. Sarmento se meteu no estudo e investigação da vacina e logo naquele ano de 1721 publicou um trabalho sobre a matéria. Era o início de uma brilhante carreira que lhe dava o cargo de médico da “hebrá”, em substituição do dr. David Chaves e lhe abria as portas do aristocrático Royal College of Physicians, onde nenhum judeu fora até então admitido. Meteu-se entretanto a estudar e aperfeiçoar um novo remédio contra as febres, à base da quina, produto farmacêutico cuja patente registou com o nome de Água da Inglaterra, que ao longo da décadas lhe deu largos proventos financeiros e prestígio universal, pois que era largamente consumido na Inglaterra e exportado para outros países europeus. Em 1736 matriculou-se no famoso Marischal College of Aberdeen e ali alcançou o doutoramento, sendo o primeiro judeu a ser doutorado por uma universidade britânica. Fervoroso adepto das doutrinas de Newton e do experimentalismo de Francis Bacon, Jacob de Castro planificou a tradução e publicação das suas obras na língua portuguesa, o que não chegou a concretizar. Em 1746 faleceu sua mulher e depois de alguns anos de viuvez, casou de novo, com uma senhora inglesa, Mrs Elisabeth. Nessa altura abandonou o judaísmo e converteu-se à religião anglicana. Em boa verdade, há muito tempo que ele se vinha distanciando da lei de Moisés e o caso deste grande médico será bem um exemplo de como o diálogo entre a fé e a ciência não é fácil. Henrique Almeida foi um trasmontano que nasceu cristão-novo, que na diáspora se fez judeu-novo, com o nome de Jacob Sarmento e que acabou membro da igreja anglicana, certamente porque o ateísmo ainda não era tolerado em nenhuma sociedade da Europa e o deísmo era condenado por todas as religiões instituídas. Faleceu em 29 de Setembro de 1762, deixando uma vasta obra publicada. Destacamos alguns de seus livros:
- Dissertationes in novam, ac utilem methodum inoculationis, seu transplantationis variolarum.
- Materia medica physico-historico-mechanica, reino mineral…
- Do uso e abuso das minhas Águas de Inglaterra…
- Dissertation sur l´origine de la Maladie Vénérienne…
- Proposições para imprimir Obras Filosóphicas de Francisco Baconio…
- Teoria verdadeira das marés, conforme a filosofia do incomparável cavalheiro Isaac Newton.
- Sidero-hidrologia: ou discurso prático das Águas Medicinais Minerais Espadanas ou Chalybeadas…
António Júlio Andrade
Nota: Mais informações ver o livro - Jacob de Castro Sarmento – de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, editado por Nova Veja Lda em 2010.

 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013