quarta-feira, 25 de julho de 2012

Presos em Miranda do Douro em 1556 quando cozinhavam uma panela de carne.

21 de Fevereiro de 1556. Caiu nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6 irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484. Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6 homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos “baptizados em pé”.
Voltemos agora a Miranda do Douro onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.
Estamos pois em Miranda do Douro no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho (antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este. Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556, foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro de 1557, juntamente com os respectivos processos.
 E se em Miranda do Douro ele tudo negava e nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi mandado de regresso a Miranda do Douro.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão.

Fotografias da Fonte dos Canos e da Ponte de S.Luzía (1957).Enviadas por Arnaldo Firmino


segunda-feira, 16 de julho de 2012

MIRANDA DO DOURO - MARRANOS


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sábado, 14 de julho de 2012

RODRIGO VAZ DE LEÃO – MERCADOR DE VILA REAL

Rodrigo Vaz de Leão nasceu em Vila Real, por 1629. Seu pai era originário de Sambade, Alfândega da Fé e sua mãe, nascida já em Vila Real, provinha de Lamego. Não sabemos em que data seus pais o mandaram para Lamego, para casa de sua tia Gracia Lopes, casada com o mercador Simão Lopes, certamente para estes o introduzirem nos segredos da Lei mosaica e no mundo dos negócios, como era bastante usual entre os cristãos-novos. Também não sabemos em que data, mas terá sido por 1649, ele foi casar a Vila Flor, com Isabel Henriques, 3 anos mais velha do que ele, filha do médico Pêro Dias da Mesquita, natural de Lebução e casado na família Henriques, acaso a mais poderosa da comunidade cristã-nova local.
Por volta de 1655, Rodrigo e Isabel deixaram Vila Flor e foram estabelecer-se em Lisboa, na Rua Nova, com uma loja de venda de tecidos. Mas ele não se ficava pelas vendas na loja, antes frequentava muitas feiras e a longas distâncias, de Norte e Sul do País.
No último dia de Agosto de 1663, Rodrigo de Leão foi preso pela Inquisição de Lisboa e, pouco depois, aconteceu o mesmo à sua mulher. Nessa altura tinham já 3 filhas e com eles morava também um primo de Rodrigo, filho dos tios que o educaram em Lamego, certamente enviado para Lisboa para ser, de igual modo, iniciado na Lei mosaica e no mundo empresarial e destinado, porventura, a casar com alguma das suas filhas.
Quando o prenderam, Rodrigo “vinha das feiras do Alentejo”. E, vejam só o que com ele trazia e lhe foi apreendido:
* Mais de dois mil cruzados em dinheiro, “mas não pode dizer ao certo, porque o não tinha ainda contado”. - Para o leitor fazer uma ideia, refira-se que o cruzado valia 400 reis, perfazendo-se assim 800 000, ou seja: quase um conto de reis! Atente-se que por essa altura o orçamento da câmara de Lisboa andava nos 9 contos, ou que a jorna de um trabalhador era de 100 reis!
* Das mesmas “feiras do Alentejo” trazia mais duas saquetas de dinheiro, metidas em uma canastra, “que eram de António Godinho, mercador de massaria, que lhe pediu a ele declarante que lhe acomodasse as ditas duas saquetas por não ter comodidade para as trazer”. – Qual é o negociante que no final de uma feira não tem comodidade para levar o dinheiro?!
* E trazia ainda uma outra saqueta de dinheiro que disse pertencer a Manuel Pereira Rebelo, também mercador de Lisboa, que lha mandou das mesmas feiras “um sobrinho que ficou doente no Alentejo”.
Será que estas saquetas de dinheiro eram mesmo das referidas pessoas? Ou seriam também de Rodrigo de Leão que, com aqueles estaria concertado e esta seria uma forma de salvar parte do dinheiro?
De resto, o inventário dos seus bens não é mais do que uma extensa lista de pessoas a quem ele dizia dever dinheiro, pois “que não tinha bens de raiz, nem peças de ouro ou prata”. Apenas a sua loja “que constava de sedas, milanesas, baetas, serafinas e duquesas”.
Mas vale a pena espreitar a sua lista de credores, a qual nos permite fazer uma ideia da extensão do seu mundo empresarial. Assim:
* Tinha dívidas com os seguintes mercadores ingleses, derivadas de mercadorias fornecidas: Rogério Bradil, Guilherme Clarck, Samuel Butre, João Polisfin, João Vicent, Lazaro Brandana.
* Devia a Gaspar Paulo e a Abraão Vasnilher, mercadores holandeses “o procedido de 25 peças de milanesas de lã, à razão de 4 600 reis a peça e 24 peças de milanesas de seda, à razão de 7 600 reis a peça”.
* A João Vanciter, hamburguês, devia 14 ou 15 peças de sarja, à razão de 9384 reis a peça e mais 3 peças e meia de macaia “de que ainda não tinha passado escrito”.
* Tinha contas grossas com Lazaro Grandona, mercador italiano, procedidas de “uma partida de chamelotes que não sabe quanto importou” e “setenta e tantos mil reis procedidos de meias de seda de mulher que lhe comprou”. Mas também aquele lhe devia uns “206 mil e tantos reis”.
* A Henrique Pedro, “mercador estrangeiro” devia 14 ou 16 peças de bombazinas que lhe comprou.
* Idem aos ingleses Guilherme Marques, João Robinson, Joseph Ardenque; aos franceses Abraão Sarau, David Godfroy, Pedro Verdet e outros mais.
Refira-se que todos estes estrangeiros tinham escritório e residência em Lisboa e isso dá ideia do cosmopolita mundo empresarial lisboeta em que se movia Rodrigo de Leão.
Não menos sonantes são os nomes dos mercadores portugueses e cristãos-novos presentes no rol de suas dívidas, tais como:
* Henrique Paz Pinto a quem devia um chamelote e umas safiras.
* Diogo Rodrigues Marques (genro de António Rodrigues Mogadouro) a quem devia perto de mil cruzados (400 000 Reis!) de milanesas e tafetás.
* Sebastião Nunes que, entre outras mercadorias, lhe creditara 14 ou 15 peças de milanesas negras, à razão de 7 200 reis a peça.
* Jorge Dias Brandão, do fornecimento de 10 peças de “chamelote de seda de França” e de uns quantos tafetás.
* Francisco Carlos, Jerónimo Gomes Ramos, Jerónimo da Fonseca de Miranda e outros mais constam igualmente do rol.
Por sua vez, olhando a pequena lista de pessoas que lhe devem, vemos que todos são mercadores da província, nomeadamente de Coimbra, Trancoso e Lamego, a quem remetia mercadorias. Funcionaria, assim a sua loja como distribuidora de tecidos a vendedores retalhistas.
Naquele mundo empresarial, avulta o papel desempenhado pelos corretores, pois tudo girava com papéis de crédito. Vejamos dois exemplos:
* Ao corretor Manuel Rodrigues de Sampaio devia 135 000 reis “procedidos do rebate de um escrito que ele declarante tinha feito a Pedro Belismen, inglês”.
* Devia a Pedro Verdet, mercador francês, “uma partida de estremenhas que lhe comprou para a sua loja, não está lembrado de quanto importou, mas constará do escrito dele declarante que lhe passou ao tempo desta venda, a qual se fez com a intervenção do corretor António Lopes”.
Como se vê, o dinheiro de plástico dos nossos dias e os cartões de crédito não são tão originais quanto parece, pois já nesse tempo os mercadores usavam procedimentos semelhantes. Repare-se, por outro lado, neste exemplo, retirado do processo, de relações comerciais extremamente personalizadas e assentes na confiança mútua:
- Indo ele declarante desta cidade para o Alentejo para uma feira, que entende que era a que se faz pelo São Tiago, na vila de Estremoz, lhe pediram Abraão Esvilet e Gaspar Payel, mercadores de Hamburgo, ou de Holanda, que lhes levasse ele declarante, com sua fazenda, duas peças de chamelote de prata cor de cana finos e assim mais outras duas peças de chamelote branco de prata falsa, para lhos vender na mesma feira e ele declarante, em razão da amizade que tinha com os ditos mercadores, aceitou e levou à dita feira e deles se não gastou nem um só côvado e as tornara a trazer a esta cidade assim e na forma que as recebeu e em um mafamede que havia na sua loja se achariam…
E este outro exemplo de como funcionavam as relações dos mercadores cristãos-novos com o poder:
- Um mês antes de ele declarante ser preso por esta Inquisição, foi à sua loja Agostinho Nunes, que servia de solicitador a Sebastião Nunes Chaves e agora entende que assiste em casa do Conde de Castelo melhor (então chefe do governo) e ia em companhia de Domingos Soares, mercador da Rua Nova e levaram da loja dele declarante uma peça de tafetá cor de ouro, dizendo que era para se fazer um gibão de panos e que do Tesouro se havia de pagar e importou a peça em 36 mil e tantos reis; e que ele declarante ficou entendendo que estes tafetás eram para o serviço de el-rei, mas ainda se lhe não pagaram…
Não se pense, porém, que Rodrigo Vaz negociava apenas em panos. Não, como qualquer homem da nação, ele deitava mão ao que podia. Vejam este negócio:
- A Sebastião Nunes Chaves vendeu 50 moios de trigo (41 400 litros) à razão de 9 vinténs o alqueire e 5 moios de centeio à razão de 7 vinténs por alqueire, posto tudo ao pé do Douro por conta dele declarante e as ditas partidas de trigo e centeio se montam 750 000 reis; e além disso deve também o dito Sebastião Nunes a sacaria em que o dito pão veio.
Como ele, comerciante lisboeta, angariava tanto cereal em Trás-os-Montes não o sabemos em pormenor. Mas sabemos que um dos processos seria a arrematação da cobrança de rendas. Como ele declarou, em um caso concreto:
- Tomou de arrendamento as comendas de S. João e S. Salvador de Ansiães, junto a Torre de Moncorvo, por tempo de um ano que acabou em São João deste presente ano, em preço de 580 000 reis… e estas comendas pertencem à filha de D. Leonor de Vilhena que agora está casada com D. Manuel de Melo…
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processos 2842, de Rodrigo Vaz de Leão e 7294, de Isabel Henriques

Vimos, no número anterior, a lista de credores e devedores, reais ou inventados, de Rodrigo Vaz de Leão. Voltemos agora ao momento da sua prisão…

AS ROTAS COMERCIAIS DE RODRIGO VAZ DE LEÃO

Deixemos os negócios e voltemos atrás, à prisão de Rodrigo, que teve por base as seguintes denúncias de prisioneiros da Inquisição:
* João Peres Galvão, médico, natural do Porto, casado com uma senhora originária de Torre de Moncorvo e morador em Lamego – disse que com ele se teria declarado seguidor da lei de Moisés nesta última cidade, haverá 15 anos.
* Jerónimo navarro, natural de Miranda do Douro e morador em Guimarães – declarou que, 10 anos antes (1653) se tinha declarado com ele em braga, no Campo de Santa Ana.
* Pedro Vaz de Castro, natural e morador em Bragança – confessou que foi há 5 anos em Lisboa, na casa de Rodrigo Vaz de leão…
Escusado será dizer que entretanto várias outras pessoas de suas relações eram igualmente denunciadas e presas e novas denúncias de judaísmo eram acrescentadas no seu processo, nomeadamente as produzidas por seu irmão, o dr. Miguel Lopes, médico e a mulher deste, Guiomar Henriques, irmã também de sua mulher, moradores em Lamego.
Rodrigo de Leão, por seu turno, entrou logo a fazer denúncias sobre mais de 30 pessoas que com ele se declararam ou tiveram práticas judaizantes. E se a sua relação de bens é um verdadeiro tratado de relações comerciais, o conjunto das denúncias feitas por ele deixa-nos um seu retrato de verdadeiro andarilho percorrendo o País de lés-a-lés, desenhando rotas de comércio e contrabando, do Minho a Trás-os-Montes, à Beira e ao Alentejo.
Vejamos então um pouco das suas confissões, começando pelas que se referem a episódios mais antigos e determinantes para o seu comportamento religioso. E andou ele muito bem, ao começar por denunciar o seu tio que, pelos 12 anos, o terá iniciado no judaísmo:
- Disse que haverá vinte e tantos anos, então morador em Lamego, na feira de Armedo, em companhia de Simão Lopes, cristão-novo, mercador, casado com Gracia Lopes, tia dele confidente, em cuja casa se tinha criado (...), num lugar que se chama Santo Amaro das Caldas, 5 léguas de Lamego, indo para o Douro, disse Simão Lopes a ele confidente que cresse na lei de Moisés…
Seguem denúncias de outros familiares, como fossem o seu irmão Miguel Lopes e outras pessoas de Lamego que então estavam presas e eram publicamente tidas por judaizantes, nomeadamente o “Manico”, alcunha do avô paterno do dr. Francisco da Fonseca Henriques, mais conhecido por dr. Mirandela, famoso médico do rei D. João V.
Denunciou igualmente a sua mulher, com a qual se teria declarado uns 15 anos atrás, quando ele tinha 19 anos e por altura de casarem. E nisto andou também ele muito avisadamente, ao contrário de sua mulher, como se verá.
Sigamos agora pelas rotas do comércio e do contrabando desenhadas nas confissões de Rodrigo Vaz. Comecemos pela rota que podemos designar de Minho – Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, indo do Porto para Guimarães, em companhia de Jerónimo Navarro, cristão-novo, natural de Miranda, que morava em Guimarães, onde vivia de passar fazendas para Castela …; Haverá 9 anos, indo de Guimarães para Braga, com Vasco de Roxas, cristão-novo, natural de Trás-os-Montes (Chacim), morador em Castela, em um lugar da Galiza e vinha muitas vezes cada ano a Guimarães onde fazia sua assistência vendendo fazendas que trazia e comprando outras para levar…
Agora, a rota de Chaves, também para a Galiza:
- Disse que haverá 12 anos, no caminho de Cisterna (Espanha) para Rebordelo (Vinhais) se encontrou com Vasco Fernandes, o malrasca, de Vila Flor…; Haverá 10 anos, no lugar de Aveleda, Castela, raia de Chaves, se achou com Manuel Mendes, filho de António Correia, morador em Lebução…; Haverá 10 anos, se achou com António Correia, mercador de Lebução, no lugar de Cisterna, em Castela, raia de Chaves…lhe disse que sabia muitas orações judaicas mas que não lhas repetiu…; Haverá 9 anos, em lebução, se achou com António Mendes, mercador, casado com uma parente dele confidente, que vivem na Galiza e depois vieram para Rebordelo, na raia da Galiza…; Haverá 11 anos, na vila de Chaves, em casa de Manuel Mendes, médico…
Depois da rota do Minho e da rota de Chaves, vejamos a rota duriense, de certo a mais percorrida por Rodrigo de Leão quando residiu em Vila Flor. Nesta rota identificam-se dois pontos. Um é junto a Miranda do Douro, “aonde não há povoação alguma”, conforme as suas declarações:
- Disse que haverá 13 anos, na raia de Castela junto ao rio Douro, aonde não há povoação alguma e aonde se juntam para passar fazendas para Castela, se achou com Pêro Guterres, cristão-novo, mercador de Vila Flor…; Haverá 8 anos, junto ao Douro, na raia de Castela, 4 ou 5 léguas acima de Miranda se achou com Francisco Mendes, o sortilho, morador em Vila Flor, para onde tinham ido em ordem a passar fazendas para Castela…
O outro ponto de passagem situava-se junto à povoação de Lagoaça. E este era o ponto da raia mais frequentado e o mais referido nos depoimentos de Rodrigo. Vejamos alguns:
- Disse que haverá 10 anos, no lugar de Lagoaça, 2 léguas ou 3 de Freixo de espada à Cinta, se achou com António Pereira, mercador, morador em Vila Flor e se juntaram em Lagoaça esperando os castelhanos que traziam fazenda pela raia, em ordem a seus contratos …; Em Lagoaça se achou com Manuel Lopes Pereira, de 26 anos, solteiro, filho de Henrique Lopes, de Vila Flor e na ocasião de ambos estarem pousados em uma casa, esperando a vinda dos castelhanos para trocarem suas fazendas…
Mas se todas estas rotas de comércio e contrabando para Espanha se situam a Norte do rio Douro, outras frequentava também Rodrigo Vaz pelas raias da Beira e do Alentejo, conforme resulta de suas confissões:
- Disse que haverá 12 anos, na vila de Estremoz, por ocasião da feira que se faz por S. André, se achou com André Lopes, mercador, natural de Trancoso…; Haverá o mesmo tempo, indo para a feira de S. Tiago em Estremoz se encontrou com Ambrósio Lopes e João Lopes, irmão do sobredito, morador na vila de Longa (Tabuaço) e indo caminhando junto a Castelo Branco…; Haverá 8 anos, no caminho de Lamego para o da Guarda, aonde chamam a Ponte do Abade, se achou com Henrique Fróis, irmão de Jorge Fróis, morador em Idanha…
E a finalizar esta digressão pelas rotas comerciais de Rodrigo de Leão, uma última declaração que desejamos especialmente destacar, por nela se fazer referência aos Lopes Teles, de Vila Flor, que foram grandes “asientistas” em Espanha:
- Disse que haverá 8 anos, caminhando para uma feira no Alentejo, tendo passado o rio Tejo em Abrantes e estando já na banda do Alentejo e começando a jornada às Vendas de Azedo (?), na charneca, em companhia de Manuel Lopes Pereira e de Manuel Lopes Teles e de João Lopes Teles, irmãos, filhos de Bartolomeu Lopes Teles e foram moradores nesta cidade, de onde se ausentaram para Castela e entre práticas que tiveram sobre umas armas de fogo que na vila de Abrantes lhes havia embaraçado a justiça…
Podíamos continuar com as confissões de Rodrigo, judaizando pelos caminhos de Murça, Bragança, Lamego… acrescentando nomes de pessoas que estavam já presas ou o foram depois, excepto alguns que se meteram pelos trilhos da emigração, fugindo da perseguição do Santo ofício.
E porque Rodrigo Vaz se mostrou tão colaborante e denunciou tanta gente e conseguiu convencer os inquisidores de que estava arrependido por ter judaizado e pedia perdão, eles decidiram recebê-lo ao “Grémio da Santa Madre Igreja”, condenando-o a “hábito e cárcere a arbítrio e a ser instruído nos mistérios da fé “. Saiu penitenciado no auto-de-fé realizado em Lisboa no dia 17 de Agosto de 1664, ao fim de um ano de cadeia.
Ficou por Lisboa cumprindo a penitência e recebendo a instrução cristã, sendo-lhe retirado o sambenito um mês depois. Mas haveria de passar mais outro ano e alguns meses para ele se atrever a apresentar a seguinte petição que lhe foi deferida em 13 de Janeiro de 1665:
- Diz Rodrigo Vaz de Leão … que ele em razão de suas culpas lhe foi proibido de comungar, sem ordem deste santo tribunal e porque tem cumprido a penitência que, com misericórdia, se houve com ele, que de presente está muito desconsolado por se não poder confessar e comungar; pede e V. Mercês que, compadecendo-se da sua dor e arrependimento e pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, haverá a Mesa dar licença para se poder confessar e comungar na freguesia onde de presente mora que é a de S. Nicolau ou aonde se oferecer e for mais conveniente para a consolação de sua alma e serviço de N. S. Jesus Cristo.
Presa logo a seguir ao marido, Isabel Henriques continuava nesta altura metida nas masmorras da Inquisição. E continuava a dizer-se inocente e a não denunciar ninguém. Dizia-se era vítima de ódios e invejas de gente de Vila Flor, especialmente de familiares seus despeitados com a herança dos bens que foram de sua avó. E só em 26 de Março de 1888, 2 anos e meio depois de ser presa, confessou que se apartara da fé cristã há uns 18 ou 19 anos, convencida por suas tias maternas com as quais judaizou, em conjunto com suas primas, filhas daquelas. E terminou a sua confissão dizendo:
- E a dita crença lhe durou até se resolver a confessar.
Claro que os inquisidores acharam esta confissão muito “diminuta” e “apertaram” ainda mais com ela, ameaçando-a com a morte na fogueira. Pouco mais informações lhe conseguiram arrancar e, a 2 de Abril de 1666, foram-lhe atadas as mãos e lida a sentença: - Relaxada ao braço secular.
E foi só no decurso do auto-de-fé, no Terreiro do Paço, pelas 2 horas da tarde, que ela denunciou o marido. Os inquisidores não “receberam” esta confissão “por deixar de dizer de sua irmã e de seu cunhado… e a denúncia contra o marido é diminuta”.
Termina o processo de Isabel Henriques com a seguinte declaração:
- Foi-me entregue uma estampa de Isabel Henriques, natural desta Vila Flor, a qual mandei afixar na igreja matriz de S. Bartolomeu, junto aos outros retratos que nela estão.
Por ser verdade e esta me ser pedida a passei, por mim feita e assinada aos 12 de Março de 1667. Padre Álvaro da Fonseca – encomendado da Igreja.

FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processos 2842, de Rodrigo Vaz de Leão e 7294, de Isabel Henriques.

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

terça-feira, 10 de julho de 2012

Na Rota do Comércio de Escravos

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

A OBRA DO RESGATE DOS MARRANOS EM LAGOAÇA, Por: António Pimenta de Castro

 Barros Basto
            Como é sabido de todos, Lagoaça foi sempre terra com muitos judeus e, após o decreto de expulsão, publicado em 1496, em que deixaram de existir oficialmente, judeus em Portugal, o culto manteve-se, sobretudo nas zonas mais afastadas do nosso país, como é o caso de Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta, Vilarinho dos Galegos, Carção, Argozelo, entre muitas outras, só para falar de povoações transmontanas. Começa assim, a época dos criptojudaísmo, ou seja, praticavam o culto judaico às ocultas. Quem não se convertesse “oficialmente” ao cristianismo teria de sair do país, indo assim criar riqueza por esse mundo além. Quem ficou, oficialmente eram os chamados cristãos-novos, praticando, no recato do seu lar, ou no de correligionários, o culto hebraico, em muito segredo. Depreciativamente, começaram a chamar-lhes marranos. Como escreveu o meu amigo João Guerra: “A degradação das comunidades judaicas portuguesas acontece progressivamente, sobretudo a partir de 1536, quando é estabelecida a Inquisição.
Agora, a sobrevivência das comunidades judaicas, enquanto tal, impunha a preservação da sua religião e identidade, enfrentando e adaptando-se às novas circunstâncias de perseguição e terror. Assim, os judeus (marranos) portugueses, vivem o judaísmo possível, observado religiosamente na medida que lhes é possível, com um inequívoco sentido de identidade. Este processo passou por uma atitude de comunidade. Foram inventadas formas subtis e engenhosas de preservar e praticar a religião e tradições judaicas, ocultando essas práticas ao mundo alheio, transmitindo-se entre famílias de geração em geração até aos nossos dias”[1].
 Após séculos de discriminação, perseguição e tortura, em 1821, a Inquisição foi extinta, não querendo isso significar que o preconceito anti-judaico, deixasse de existir, mesmo em Trás-os-Montes, onde eram numerosas os criptojudeus. A mentalidade muda muito lentamente…O liberalismo e mais tarde, a República, aliviaram algum sufoco quer físico, quer sobretudo psicológico em que viveram as nossas comunidades judaicas (marranas), procurando estas afirmarem-se como tal, continuando, no entanto a manter um rigoroso secretismo, marca que ficou gravada na sua memória colectiva, pela Inquisição, até aí sempre omnipresente e omnipresente. Esse medo fez-se sentir muito para lá da sua extinção, e, em certa medida, ainda hoje está presente no subconsciente de muitos descendentes de judeus.
No século XX, deu-se ao crescimento da população judaica em Portugal, não só pela vinda de estrangeiro, à medida que o nazismo e o fascismo se iam instalando, mas, sobretudo, e é isso que mais nos interessa, pela OBRA DO RESGATE, fundada por um judeu português, o capitão Barros Basto (Ben-Rosh). Esta obra, destinava-se a restituir ao judaísmo português a grandeza de outros tempos, ajudando a: “resgatar as suas comunidades do cativeiro físico de dispersão e isolamento do mundo judaico e sobretudo do cativeiro espiritual para onde séculos de perseguições e clandestinidade os haviam atirado (…) A comunidade israelita do Porto foi fundada em 1923 pelo capitão Barros Basto. Também fruto do movimento judaico da “Obra do Resgate” foram constituídas formalmente nos anos 20 e 30 as comunidades judaicas de Bragança, Covilhã e Pinhel, as mais importantes, Macedo de Cavaleiros, Castelo Branco e outras, e ainda numerosas juntas judaicas (como a de Lagoaça, que falarei mais adiante), em aldeias e vilas do Nordeste, Douro e Beiras. (…) O infame processo contra o capitão Barros Basto e a perseguição do “Estado Novo” ao movimento da “Obra do Resgate”, levou a que nos anos 40 as sinagogas de judeu marranos fechassem as suas portas uma a uma, e as comunidades se desagregassem como instituições organizadas[2]”. 

Antes de falarmos especificamente de Lagoaça, não quero esquecer o grande estudioso do judaísmo, nomeadamente nordestino, chamado Amílcar Paulo, com profundas raízes na vizinha freguesia de Fornos. Também o Abade de Baçal, no V volume, fala nos judeus de Lagoaça.

 Para não vos enfadar mais, vamos a Lagoaça.
 Na sinagoga do Porto, situada na rua Guerra Junqueiro, o capitão Barros Basto, criou uma “escola” yechiva, onde vários alunos aprendiam o judaísmo correcto e, após a sua formação, eram distribuídos pelas várias comunidades, sobretudo do interior do pais, para aí ensinarem os judeu marranos o autêntico judaísmo. Para esta zona de Trás-os-Montes veio o Reverendo Moisés Abrantes, natural da Beira (do Fundão ou da Covilhã). Eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente o Moreh Rev. Moisés Brito Abrantes. Foi num encontro histórico, realizado em Trancoso, nos finais dos anos 80, sobre os judeus nas Beiras. Nas apresentações, eu referi que vivia em Mogadouro. Foi então que vi um ancião de cabelo completamente branco que, ao ouvir a minha residência, arregalou os olhos, num misto de espanto e de saudades. Então, num intervalo, ele disse-me “-Sabe? Eu já ensinei em Lagoaça e Vilarinho dos Galegos…”. Fiquei espantado…e, logo trocamos endereços e telefones. Soube, mais tarde que tinha uma livraria no Fundão (onde então residia) e que tinha vários livros publicados. Mandei vir os seus livros, pois pensava que falariam da sua experiência nas nossas terras mas, para desgosto meu eram de poesia…Penso que Deus já o levou para junto de si…

Quero partilhar convosco a noticia do jornal da comunidade judaica do Porto (Ha-Lapid), integrado no movimento da “Obra do Resgate”, publicado em 1934 ”- OBRA DO RESGATE EM TRÁS-OS-MONTES” – No dia 18 de Outubro passado partiu para Trás-os-Montes, como missionário da “Obra do Resgate” o Moreh Rev. Moisés Brito Abrantes.
Em Lagoaça aguardavam a sua chegada muitos marranos (cristãos-novos), apesar de ser dia de trabalho, e entre eles a família dos Talmidim, por estes avisados.
Fez em várias casas de marranos orações e homilias, esforçando-se e conseguindo reavivar a fé dos nossos antepassados já um tanto amortecida. Ali formou uma junta judaica e seguiu para Vilarinho dos Galegos onde criou duas escolas: uma para meninas, frequentadas por cerca de 20 alunas e outra para rapazes, frequentada também pelo mesmo número de alunos.
Às suas orações, parte em português, parte em hebraico, assistiam normalmente cerca de 80 pessoas, em média. As orações eram finalizadas por homilias nas quais fornecia o conforto espiritual.
Fadou em acto solene as seguintes meninas: Lucinda D’Almeida, Raquel Davim, Cândida D’Almeida, Raquel Guilhermina Lopes, Ester Branca Rodrigues e Ernestina Branca.
Na sua qualidade de preceptor israelita visitou as povoações de Vilar do Rei, Vila D’Ala, Mogadouro e Fornos, nas quais falou com vários marranos.
A 23 de Janeiro regressou ao Porto, tendo sido saudosamente sentida a sua partida sobretudo em Vilarinho dos Galegos, lugar em que mais se demorou.

As juntas ficaram assim constituídas:
 LAGOAÇA
Presidente – Acácio D’Oliveira
Secretário- Manoel Augusto Carpinteiro
Tesoureiro- Acúrcio Moreira

VILARINHO DOS GALEGOS
Presidente- Manoel Lopes Rodrigues
Secretário – Francisco José Rodrigues
Tesoureiro- Artur Augusto Rodrigues”

A parte mais importante das habitações da gente judaica (sendo, possivelmente as mais ricas) eram no Bairro de Cima (na zona da Rebola), a da gente mais modesta (mas muitos também eram descendentes de judeus) no Bairro de Baixo, também conhecidos, creio, que por “penicheiros”. Conheço um amigo meu que ia, quando estava em Trás-os-Montes, celebrar o Shabbat a Lagoaça com um seu amigo, que praticava o judaísmo, mas que, infelizmente já faleceu. Espero ter contribuído, com este meu modesto trabalho, para se fazer alguma LUZ sobre a história dos judeu marranos de Lagoaça. SHALOM
  Por: António Pimenta de Castro  

[1] - João Guerra, na Introdução, página 16, ao livro Os Judeus na Obra de Trindade Coelho, de António Pimenta de Castro, Editado pela Câmara Municipal de Mogadouro, 1998.
[2] - Autor e obra citados na nota de rodapé nº1