domingo, 30 de setembro de 2012

CHACIM ANOS DE 1620


O PROCESSO DE ANTÓNIO LOPES REDONDO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA
 
Por: António Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães


Era um dia de Outubro, do ano de 1620, a horas do meio dia. Vindo da aldeia de Lagoa, onde residia, Pêro de Matos tinha acabado de entrar na vila de Chacim, pela rua dos Sapateiros, a seguir á ponte, montado em cima de um macho. De repente, por detrás, caíram-lhe fortes estocadas na cabeça e no ombro, que o lançaram por terra e o deixaram a sangrar. Reconheceu o agressor, que até era seu primo, e pôs-se a gritar:
- Aqui d´el-rei! Acudam que me mata! Em nome da santa Inquisição, ajudem-me!

Foto de Marta
António Lopes, o Redondo, de alcunha, se chamava o agressor. Enquanto batia, este soltava injúrias:
- Ah! Cão! Ainda te atreves a vir aqui! Vou-te matar, cão nojento!
Acudiram pessoas e os comentários eram unânimes: António Lopes jurou que se vingaria do Matos por este ter denunciado seu pai na Inquisição de Coimbra, onde então se encontrava preso.
Pêro de Matos, por seu turno, saíra meses antes da mesma cadeia e estava cumprindo a penitência que lhe fora imposta. E como penitente, estava, de certo modo, protegido pelo Santo Ofício. Fazer-lhe mal, por motivos relacionados com a sua passagem pelo tribunal da fé, era o mesmo que afrontar aquela sagrada instituição.
Embora ferido e a sangrar, Pêro de Matos dirigiu-se para casa do juiz da vila de Chacim, João da Mesquita, mas ele não estava, segundo respondeu sua mulher. E como ele não estava, o queixoso rumou a casa do padre Manuel Mendes, que morava em frente, a quem “requereu publicamente fizesse autos” dizendo que António Lopes o agredira “por se dizer que ele culpara a seu pai no santo ofício”.
Claro que o padre, na falta do juiz, deveria atender à solicitação do queixoso, ou encaminhá-lo, pois que ninguém podia escusar-se a colaborar, em matéria relacionada com a Inquisição. Era crime. Além disso… parece que este padre não morria de amores pela família Redondo, antes pelo contrário. E o padre e o ferido se dirigiram a casa do tabelião Francisco Borges, que era pessoa indicada para escrever e autenticar o auto que, em seguida, o padre se encarregaria de enviar para Coimbra.
Enquanto isso também o António Lopes se mexeu, dirigindo-se a casa de um outro tabelião, Diogo Machado, para que autuasse as suas declarações, dizendo que fora o Matos que o provocara e se gabava de ter denunciado o seu pai na Inquisição e ele apenas tratou de se defender. Era uma acusação muito grave. A ser provada significaria que Pêro Matos violou o juramento que fizera de nada contar sobre o que aconteceu e o que dissera, vira e ouvira dentro do sagrado tribunal da Inquisição. Certamente pensando nisso, o tabelião ter-se-á escusado de autuar as declarações de A. Lopes.
Não sabemos que mais informações e outros documentos chegariam a Coimbra e que diligências se fizeram. Sabemos é que, em 20 de Março de 1621, os inquisidores mandaram um António Dias, familiar do Santo Ofício, que fosse a Chacim e levasse preso o Redondo, com cama, cozinha e roupa necessária para estadiar na cadeia, bem como 30 mil réis para a compra de alimentos.
Em simultâneo escreveram para o comissário regional da Inquisição, o dr. Gaspar de Morais, abade da igreja de Sendas, do vizinho concelho de Bragança, que foi a Chacim a inquirir as testemunhas, nomeadamente o juiz e a mulher, o tabelião Francisco Borges e o padre António Mendes. Todos eles testemunharam contra António Lopes, sendo o mais vigoroso depoimento prestado pelo juiz ordinário, João da Mesquita.
Claro que em Coimbra o prisioneiro contou a história como se de uma simples briga se tratasse, pois que eram inimigos de há muito tempo, mas nada que envolvesse matérias relacionadas com a Inquisição. Naturalmente que isso contradizia os testemunhos referindo que a causa da briga foi por ter o outro denunciado seu pai como judaizante. E o que era grave era a fuga de informação! Trataram, por isso os inquisidores de saber como João Lopes tivera tal informação. E ele respondeu:
- Que lho dissera o juiz João da Mesquita quando prenderam Pêro de Matos pelo Santo Ofício havia ameaçado o pai dele confidente.
Certamente que os inquisidores não acreditaram nisso, se bem que o prisioneiro apresentou contraditas tentando justificar que as testemunhas eram suas inimigas e por isso não mereciam crédito. E estando ele preso e tendo o seu pai saído já em liberdade e voltado a Chacim, enviou para Coimbra uma carta do teor seguinte:
- Diz João Lopes que (…) estando preso nesses cárceres dessa cidade de Coimbra, prenderam a seu filho António Lopes Redondo por culpas que devia ter ao tempo de sua prisão. Que o prendeu o padre Manuel Mendes e o padre Domingos Fernandes, desta vila, e por ser o dito padre Manuel Mendes inimigo capital dele João Lopes e de seu filho e é público e notório fizera um auto de resistência do dito seu filho, não sendo assim, chamando as testemunhas e mandando-lhe assinar um papel sem lho ler nem dizer o que era, nem o dito padre Domingos Fernandes fazer o tal auto nem ser sabedor, pede a Vs Senhorias mandem perguntar ao dito padre Domingos Fernandes se lhe fez a tal resistência e a Belchior Rodrigues, o Mostarda, e a Martim Nunes que declarem a verdade de como os mandou assinar sem lho ler…
Não terá este requerimento influenciado o desenrolar do processo de António Lopes que, depois de submetido a tormento, levando um “trato esperto e outro corrido” acabou por ouvir sua sentença no auto de fé realizado em Coimbra em 4 de Maio de 1625, abjurando de leve, com uma vela acesa na mão e “pelo excesso de atrevimento que cometeu contra o respeito do santo ofício no ferimento que fez, seja açoitado pelas ruas públicas desta cidade e seja degredado por 3 anos para as galés, onde servirá ao remo, sem soldo”.
Antes de ser levado pelas ruas e açoitado, António Lopes interpôs recurso da sentença, nos seguintes moldes:
- Conforme direito e ordenação do Reino, os juízes e vereadores de qualquer cidade ou vila estão escusados de haver e se lhes dar pena alguma vil como é de galés e açoites (…) e isso mesmo seus pais e avós que tiveram servido os tais cargos são escusados do mesmo privilégio os ditos seus filhos e netos…
Queria isto dizer que, provando-se o exercício do cargo de juiz ou vereador pelo réu ou por seu pai ou avô, ele não poderia ser açoitado pelas ruas da cidade e a servir nas galés.
Do recurso constava ainda um outro argumento, de acordo com o qual os mercadores que anualmente pagassem imposto nas alfândegas do Reino mais de 200 mil réis de mercadorias importadas ou exportadas estariam igualmente abrangidos por uma lei que os protegia das tais penas vis dos açoites e galés.
A primeira parte do recurso foi aceite, a segunda não, pois a ordenação régia contemplava apenas os mercadores com rendas e contratos fixos e registados na fazenda real e não os importadores / exportadores ocasionais.
Aceite o recurso, tratou-se de proceder à inquirição de testemunhas em prova de que o pai e o avô tinham sido vereadores na câmara de Chacim, processo que foi conduzido pelo já referido abade de Sendas e se provou ser verdade.
E dessa inquirição transcrevemos parte de um depoimento onde se refere a actividade mercantil de António Lopes Redondo, filho de João Lopes, o Rico:
- Disse que tratava para Castela em lenços finos e linha fina e seda em rama que tratava e tomava em pagamento de suas dívidas e no dia em que o embargante foi preso, levava 6 cargas de lenço para Castela pela alfândega de Miranda e de Castela trazia sedas para o Reino onde as vendia…
Conseguiu o Redondo livrar-se dos açoites e das galés, regressando a Chacim ao cabo de 5 anos de cadeia.
Breve abandonariam Chacim e o Reino indo refazer suas vidas em Madrid.
FONTES:
IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5405, de João Lopes, o Rico; processo 4071, de António Lopes Redondo.
MARkUS  SCHREIBER, Marranen in Madrid 1600 – 1670.
Nota: Este texto foi publicado no jornal Terra Quente

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Judeus Novos de Trás-os-Montes na Construção do Mundo Moderno


 António Rodrigues Marques - (Miranda do Douro c.1637 – Londres – 1688)
António J. Andrade
Maria F. Guimarães

Chamava-se Francisco Rodrigues, mas era conhecido pela alcunha de marquês, certamente por ser filho de Marquesa Rodrigues. Nasceu em Miranda do Douro e aí casou com Maria Lopes e nesta cidade, na rua da Costanilha, residiram e tiveram dois filhos machos. O mais novo, nascido por 1637, recebeu o nome de António Rodrigues Marques.
Francisco Rodrigues que, entretanto rumara a Lisboa onde abrira uma loja comercial, faleceu pouco tempo depois. Não sabemos se, nessa ocasião, Maria Lopes e os dois filhos ainda estavam em Miranda do Douro ou residiam em Lisboa. Como quer que fosse, a partir dessa altura, os órfãos ficaram sob a protecção de António Rodrigues Mogadouro, irmão do falecido, cujos negócios prosperavam. Sobre Maria Lopes deixamos de ter notícias. Acreditamos, porém, que tivesse emigrado, tal como seu irmão Jorge Henriques que foi para Livorno, Itália. Encontrá-la-emos mais tarde em Londres.
Porta da Costanilha (1949)
Chegados os anos da juventude e da entrada na vida activa, António foi pelo tio enviado para a cidade da Baía, no Brasil, como agente comercial da firma. E com ele foi também o primo Francisco Rodrigues Mogadouro que, anos mais tarde, no tribunal da inquisição de Lisboa, haveria de confessar:

- A pessoa que lhe ensinou a crença na lei de Moisés foi António Rodrigues Marques, cristão novo, homem de negócio, primo e cunhado dele confidente, viúvo de sua irmã Leonor Rodrigues (…) haverá 14 anos, na cidade de S. Salvador, estado do Brasil, em sua própria casa, onde ele confidente também assistia…

Regressou a Lisboa uns 6 anos depois e esposou a prima Leonor, que logo veio a falecer, sem deixar descendência. António nunca mais casou, ficando a viver em casa do irmão e da cunhada, que todos trabalhavam nas empresas Mogadouro que então se constituíam num forte grupo comercial organizado em rede familiar, pelos quatro cantos no mundo.

Em 19 de Julho de 1672, a roda da fortuna mudou, quando a inquisição de Lisboa prendeu António Mogadouro e os seus dois filhos mais velhos. Curiosamente as primeiras denúncias e essenciais para estas prisões, foram feitas por 2 escravos negros que serviam na casa de António R. Marques e este era incluído nas mesmas, como o mais culpado. E outras denúncias contra ele foram feitas, nomeadamente por Jorge Coelho Henriques que, em 29.11.1673, disse aos inquisidores que 9 anos e 4 meses atrás, em Lisboa, na rua Nova, António Rodrigues Marques, contratador, casado com uma filha do Mogadouro, se tinha com ele declarado judeu.

A prisão dos Mogadouro não seria isolada, antes estaria enquadrada num esquema bem montado pelos inquisidores de decapitação das empresas que, em seu entender, protegiam os judeus. Na verdade, nunca em Portugal a luta política entre o “partido da inquisição” e o “partido dos judeus” seria tão intensa como naquela época. E António Rodrigues Marques assumiu-se como um dos rostos da contestação aos métodos e ao poder da inquisição. A ponto de, juntamente com Pedro Álvares Caldas e D. José de Castro (outros grandes capitalistas) “contratarem” os serviços do padre Francisco de Azevedo, da Companhia de Jesus para em Roma, negociar com a Santa Sé um perdão geral para os que estavam prisioneiros da inquisição. Naturalmente que o “embaixador” Francisco de Azevedo começou exactamente por conseguir salvos condutos para os 3 homens, assim se explicando porque António Rodrigues Marques não foi preso com o tio, os primos e as primas. Nos arquivos da Torre do Tombo, colecção Armário Jesuítico (maço 4, nº 19), encontra-se uma carta escrita e assinada por aqueles três homens, dando conta daquelas negociações e garantindo o pagamento de 6 mil escudos de despesas feitas pelo “embaixador” com “prendas” a dignitários da Santa Sé.

Um homem que levava e trazia as cartas de Roma era conhecido e parente afastado, originário de Mogadouro, chamado Gaspar Lopes Pereira. Acabou também por ser preso e queimado na fogueira pela mesma inquisição.

Acerca destas negociações e das notícias de abusos escandalosos da inquisição portuguesa que chegavam a Roma, deve dizer-se que não foi conseguido o perdão geral pretendido mas tão só se conseguiu que a inquisição estivesse parada durante 5 anos, entre 1676 e 1681, não se efectuando novas prisões nem autos de fé, nem sequer diligências burocráticas relacionadas com os processos dos presos. Estes continuaram presos, numa espera que se tornaria angustiante.

Enquanto em Roma se negociava, também por Lisboa promovia António Marques outras diligências visando colher informações sobre os parentes presos e ajudá-los na sua defesa e libertação. Para isso conseguiu “comprar” os serviços do alcaide da cadeia, de modo a este deixar passar cartas e escritos entre ele e o primo Diogo Rodrigues Henriques (o filho mais velho do Mogadouro e líder das empresas) e também dinheiro, essencial para corromper o alcaide e os guardas.

De Roma não vinha o perdão e em Lisboa os inquisidores descobriram o crime do alcaide. António Marques terá feito embarcar para Inglaterra os membros da família que ainda não estavam presos, nomeadamente a sua mãe, o irmão, a cunhada e os filhos destes. E terá diligenciado a transferência de todos os valores possíveis, especialmente dinheiro e diamantes. Ele ficou por Lisboa, munido do salvo-conduto, pegando as pontas dos negócios que restavam das empresas dos Marques/Mogadouro. Inclusivamente há notícia de duas idas dele à sala da inquisição, na qualidade de testemunha, por causa da corrupção do alcaide e da morte de um preso na cadeia, com um tiro que lhe deram, suspeitando-se que os mandantes foram “judeus” por ele ser um traidor e denunciante.

Gorado o perdão geral e entrando de novo a funcionar a inquisição, António Rodrigues Marques sentiu que a sua vida corria perigo e nada havia já que o protegesse, pelo que fugiu para Inglaterra. Documentada está a sua presença em Lisboa em 22 de Fevereiro de 1681 quando assinou a carta de que atrás se falou para o padre Francisco de Azevedo. E sabemos que em 4 de Janeiro do ano seguinte, quando a inquisição foi procurá-lo (a ele e aos 2 escravos referidos), já se encontrava em Londres.

E em Londres estava ainda em 2 de Janeiro de 1688 “na cama doente, mas de perfeito juízo” a fazer seu testamento. E este é uma verdadeira janela que se abre sobre as vivências deste homem. Nele deixa como herdeira e administradora de seus bens a sua mãe, Sara Henriques, encarregando-a de fazer diversas ofertas, a começar pela Congregação Hebraica de Londres. Mas entre as ofertas destacamos duas que bem revelam o ânimo deste “judeu novo”, renascido como a Fénix:

* Deixava 200 libras esterlinas ao dr. Fernando Mendes para comprar uma jóia para a sua filha Catarina. Deve aqui dizer-se que o dr. Fernando Mendes era médico da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança e era casado com uma sobrinha de António Marques. Exactamente porque a rainha de Inglaterra foi madrinha da filha do dr. Fernando Mendes é que esta recebeu também o nome de Catarina. E isto mostra como os irmãos Marques, nascidos em Miranda do Douro, se movimentavam pela Corte de Inglaterra. Eles pertenciam à poderosa classe dos “judeus novos” construtores do mundo moderno capitalista.

* Outro legado era para um segundo filho do mesmo, ainda pequeno. Mas nisso impunha o testador uma condição essencial: - Pretendo que o dr. Fernando Mendes dê o meu nome ao filho e dentro de 2 anos deve estar circuncidado. Se isto não acontecer, excluo o dr. Fernando Mendes e seu filho da minha herança. E do mesmo modo, fez questão de incluir cláusulas semelhantes em legados para outros sobrinhos netos, filhos de David de Medina e Samuel Ximenes, que apenas seriam entregues se tivessem o nome de Marques.  

 

Fontes

A.N.T.T. Inquisição de Lisboa, processos 5412,  8447, 11262.

A.N.T.T. Armário Jesuítico 2.ª caixa n.º 82 maço4  n.º 19

The National Archives – Public Record Office – Catalogue Reference: Prob/11/394 –Image Reference 548.