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domingo, 7 de julho de 2013

Subsídios para a criação de uma Rota dos judeus em Trás-os-Montes

 Bragança
 Igreja de Santa Maria
A fundação da capela da senhora dos Prazeres
Começamos a traçar esta rota pela cidade de Bragança e pelo mais antigo monumento cristão da cidade – a igreja de Santa Maria, também designada de senhora do Sardão, sita na cidadela, ao lado do castelo e da domus municipalis.
A construção do templo primitivo ter-se-ia efectuado logo em seguida à reconquista da terra pelos cristãos aos mouros, em estilo romântico. Mas terá sido ampliado e reconstruído entre 1700 e 1715, nomeadamente ao nível do seu alçado frontal, que apresenta um pórtico barroco ladeado por colunas salomónicas.
Pelo interior a igreja é dividida em 3 naves, separadas por 6 pilares em que assentam 6 longos arcos.
Na nave da esquerda, abre-se a chamada capela dos Figueiredos, da invocação de Nª Senhora dos Prazeres. Acerca do assunto, o ilustrado Abade de Baçal, dá-nos a seguinte informação:
- Esta capela, à mão direita de quem entra, é muito elegante, em estilo da renascença, com motivos ornamentológicos nos pés direitos e arco. No fecho deste, há um escudo composto de 5 folhas de figueira em aspa e na arquitrave a seguinte inscrição de letras conjuntas e inclusas que quer dizer: Esta capela mandou fazer Pedro de Figueiredo alcaide-mor. 1585.[1]
O mesmo autor, em outro passo das suas Memórias – tomo VI, pg. 747 - deixou copiado o referido brasão. E ainda no mesmo tomo, em outra página, ao apresentar as origens da família Figueiredo, a outorga do barsão e a fundação do morgadio, acrescenta a seguinte informação:
- Pedro de Figueiredo casou com D. Violante Sarmento, sua prima, filha do alcaide-mor Lopo Sarmento (…) e de D. Maria de Morais Pimentel. Instituiu um morgadio em 1585, com capela na igreja de Santa Maria, de Bragança e nomeou para primeiro administrador sua mulher D. Violante Sarmento.[2]
Pois é exactamente aqui que começa a nossa Rota dos Marranos. É que esta capela será um caso verdadeiramente exemplar de como se pode alterar a história e apagar a memória.
Na verdade esta capela da Senhora dos Prazeres não terá sido mandada construir por Pedro Figueiredo. Tão pouco ele era alcaide em 1585 e não era então casado com D. Violante Sarmento. A verdade exige que esta história seja reescrita.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

OS ISIDROS EM MADRID - Banqueiros e homens de negócio

CONVITE- os "ISIDROS" na Casa do Infante
Em língua castelha, um autor anónimo, à época residente em Madrid, deixou registadas em um pequeno caderno, entre outras, as seguintes notas:
* 22 de Agosto de 1654 – Ninguém mais confia nos banqueiros portugueses. Estão falidos e fogem da Inquisição. Asseguram-me que, depois do auto-de-fé de Cuenca, mais de 200 famílias fugiram durante a noite. Isso é o que o medo pode fazer.
* 18 de Setembro de 1654 – Desde sábado último, a Inquisição prendeu em Madrid 17 famílias portugueses… Diz-se com muita certeza que não há um português com elevada categoria que não seja cripto-judeu.
* 17 de Maio de 1655 – Em Sevilha, no começo de Abril, quatro ricos mercadores portugueses foram presos pela Inquisição.
* 29 de Maio de 1655 – Os ricos irmãos Cardoso que geriam os impostos de várias províncias, fugiram porque um chantagista ameaçara depor afirmando que eles eram judaizantes, a menos que pagassem pelo seu silêncio. Face à impossibilidade de terem que provar tratar-se de falso testemunho, preferiram fugir ao castigo a permanecer na prisão até que se restabelecesse a verdade.
* 22 de Julho de 1655 – Os Cardoso fugiram para Amesterdão, levando consigo 200 000 ducados em lãs e 250 000 em ouro. Diz-se que foram fugidos à inquisição. Eles procuram uma terra para viver em liberdade.
O texto é bem elucidativo e leva-nos à casa comercial de Don Juan Rodriguez Cardoso – como todos o tratavam e ele gostava que se dissesse – e à sua residência de Mósteles, nos arredores de Madrid. E ele e sua mulher, Maria Henriques, terão nessa altura partido para Bayonne. Tê-los-ão acompanhado outros familiares, entre os quais o filho mais velho, Manuel Rodrigues Cardoso, nascido em Torre de Moncorvo em 1625 e que casara com sua prima co-irmã, Maria de la Peña, como atrás se disse.
Elucidativa é também a seguinte denúncia então chegada à Inquisição espanhola:
- Disse que este (D. Juan R. Cardoso) também era muito bom biscainho e muito observante da lei do Todo Poderoso Deus de Israel e que estava retirado em Mósteles e que era muito astuto porque se por acaso diziam algo contra ele na Inquisição, tinha consigo Don Fulano Belásquez, cavaleiro da ordem de Santiago e que havia sido cavaleiro do Condestável de Castela, para que este senhor servisse de defesa, ao qual pagava a renda para que informasse que não era judeu.
Mas nem toda a família Isidro abandonou Castela e na casa de Mósteles ficaria um outro filho de Don Juan, o Luís Marques Cardoso que já vimos em Sevilha, casado com sua prima Aldonça Cardoso Velasco. Dele falaremos no capítulo seguinte. Agora vamos apenas contar um episódio protagonizado por sua mulher e que mostra bem como os cristãos-novos viviam em permanente clima de medo e sujeitos a contínuos actos de chantagem.
Encontrava-se D. Aldonça, em certa ocasião, numa rua de Madrid, em um aparatoso coche, bem ataviada, com um gibão de veludo verde, quando se aproximaram quatro mulheres embuçadas e se lhe dirigiram nos seguintes termos:
- Melhor te ficaria o sambenito que te puseram na Inquisição do que esse gibão de veludo. Nós sabemos quem tu és e podíamos denunciar-te.

In: Os Isidros, a epopeia de uma família de marranos de Torre de Moncorvo.

RECEBIDO :
For the book on the Isidros of Torre de Moncorvo
Fernanda .
Congratulations.this is very important work .
I am descended from one Jacob Lopes Torres who was in Jamaica before 1700.
I wouldn't be surprised if he was from Torre de Moncorvo .
You said last time you wrote that you were not feeling well.
How are you
feeling now?
Best regards

Richard Henriques

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ANTONIO DIAS FERNANDES UM GRANDE EMPRESÁRIO MARRANO DE FREIXO DE NUMÃO NOS ANOS DE 700.Por: António Júlio Andrade

Freixo de Numão
Nos textos anteriores falámos de um António Dias Fernandes, de Freixo de Numão, proprietário de uma destilaria de aguardente em Alijó e que passava a maior parte do tempo em feiras e operações de contratação de rendas e serviços, em repartições governamentais e câmaras eclesiásticas.
Quando foi preso pela inquisição de Lisboa, em 5 de Janeiro de 1725, contava uns 50 anos. Nascera em Pastrana, uma célebre vila de Espanha, a NE de Madrid para onde seu pai – Diogo Dias Fernandes – terá fugido, depois de uma investida da inquisição de Coimbra em Muxagata, sua terra de origem e ali casara com Joana Correia da Silva, de uma ilustre família de cristãos-novos da Beira.
António tinha 10 filhos, todos ainda solteiros. Os dois mais velhos contariam então 14 e 16 anos e apesar desta tenra idade encontravam-se já estabelecidos no Brasil, viajando entre a Baía, as Minas e o Rio de Janeiro, dirigindo os negócios da família.
Eram dois os irmãos inteiros de António Dias: Fernando Dias Fernandes, o mais velho, que fora casado com Maria Pinheiro, de Freixo de Numão, o qual esteve preso por 3 anos nas masmorras da inquisição de Lisboa, juntamente com os dois filhos mais velhos e a mulher. Esta acabaria por ser queimada nas fogueiras do auto de fé de 12 de Setembro de 1706, posto o que Fernando e os filhos se escaparam para a Inglaterra.
Gaspar Dias Fernandes se chamou o outro irmão, formado em medicina, estabelecido no Porto à data de sua prisão. Meses depois também ele seria preso pela inquisição de Coimbra, juntamente com a mulher e duas filhas.
De referir que António Dias Fernandes e seus dois irmãos foram casar em Freixo de Numão, com três irmãs, na família Pinheiro, uma família numerosa e igualmente perseguida pelo santo ofício.
Foi por 1680 que Diogo Dias e Joana da Silva deixaram Pastrana, porventura receosos da inquisição espanhola em cujas cadeias, no tribunal de Lerena, Diogo estadiara. Em Portugal, fixaram residência na cidade do Porto. E ali formaram uma grande empresa, que logo passou a ser dirigida pelo filho mais velho, Fernando Dias Fernandes. Por 1697, numa informação chegada ao tribunal do santo ofício tomava-se o seguinte depoimento de uma testemunha:
- Também presume que em casa de Fernando Dias Fernandes fazem sinagoga porque também concorrem para a mesma casa os homens da nação e porque são particularmente amigos (de Manuel de Aguilar) e parciais no negócio que trazem muito grande.
Nesta empresa familiar liderada por Fernando, dois vértices ganham particular importância. Um deles é representado pelo seu filho mais velho, Diogo, que era capitão de navios, assim assegurando o transporte das mercadorias exportadas e importadas. Muito especialmente viajava entre Portugal e o Brasil, capitaneando o navio S. Miguel.
O outro vértice do triângulo era representado por António Dias Fernandes de quem vimos falando e que foi estabelecer sua casa em Freixo de Numão, com assistências temporárias na povoação de Rio Torto, no termo de Chaves, onde estabeleceu uma segunda residência por 10 anos, negociando por terras de Trás-os-Montes e das Beiras, em toda a parte criando laços de convivência com gente importante. Veja-se, a título de exemplo, o seu modo de estar e o seu relacionamento em Mirandela, onde aparecem mais tarde a testemunhar em sua defesa os cavaleiros fidalgos e a gente da governança da terra, a começar pelo capitão-mor:
- Servia nas irmandades, principalmente a das Almas, na vila de Mirandela, onde fez oferta das 40 horas, sendo seu companheiro o excelentíssimo marquês de Távora e nesta irmandade tem feito grandes dispêndios…
Uma outra testemunha de defesa, o capitão-mor e juiz da vila de Muxagata, diria mesmo que “teve notícia que o dito António Dias Fernandes fora conselheiro do marquês de Távora”.
Ao início do século XVIII a rede familiar de negócios dos Dias Fernandes estaria bem implantada e muito desenvolvida, com a sede instalada na capital do reino, para onde o seu líder, Fernando Dias Fernandes, se transferiu com a mulher e os filhos, estabelecendo sua morada na Casa dos Degolados, ao Rossio. Em Outubro de 1703, tudo se alterou com a sua prisão, de sua mulher e de seus dois filhos mais velhos, entre eles o capitão do navio S. Miguel. Todos quatro seriam sentenciados em 1706, com a mulher a ser queimada, como atrás se disse.  E no seguimento destes e de outros processos, Fernando Dias fugiu com os filhos para a Inglaterra.
Mas não se pense que a rede familiar de negócios se desfez. Ao contrário, eles descobriram oportunidades novas, promovendo ainda mais a internacionalização de suas empresas. E em Portugal, sob a liderança de António Dias Fernandes, para além de prosseguirem compra e venda directa de mercadorias e na exportação e importação de produtos, especializaram-se na arrematação da cobrança de rendas eclesiásticas em comendas, reitorias e bispados e no abastecimento de géneros e abono dos vencimentos às tropas estacionadas na Beira e do Minho. E isto só era possível ser garantido por gente de muito capital. Imagine o leitor as ingentes tarefas de pagar os ordenados a um exército, providenciar a compra e confecção de géneros alimentares a toda aquela gente. Imagine só a dificuldade em comprar tantos alqueires de cereal em anos de escassez e sua condução às tulhas, aluguer de fornos e contratação de forneiras para o fabricar, providencias a lenha para os fornos, etc. E também adquirir palha e cevada para alimentar os cavalos… e tratar com inúmeros lavradores a condução destes produtos em lentos carros de bois.
Na verdade, era necessário muito trabalho, muita organização empresarial e muitos cabedais, que o Estado sempre se atrasou nos pagamentos e em Lisboa, só depois de muitos carimbos é que o dinheiro saía dos cofres das repartições.
Porém… eram também esses contratos os mais apetecidos e os que mais rendiam. No processo de António Dias Fernandes fala-se em um recibo de 724 contos de réis (uma loucura, se nos lembrarmos que o orçamento anual da cidade de Lisboa, por exemplo, não ascendia a então a 20 contos) de pagamento de serviços prestados às tropas estacionadas no Alto Minho.
Muito gostaria de lhes apresentar o inventário dos seus bens, mas torna-se de todo impossível no âmbito de um artigo de jornal, pois que ele ocupa mais de 200 páginas do seu processo. Vou apenas levantar uma pontinha do véu.
Assim, direi que as casas em que morava, em Freixo de Numão, com 3 ou 4 dependências anexas, para animais, foram avaliadas em mais de um conto de réis – o preço de um palacete! Mas em Freixo de Numão tinha ainda mais 4 ou 5 casas arrendadas. E em Fozcôa, em Alfândega da Fé e em Mós do Douro tinha outras mais casas. Nesta última povoação era também co-proprietário de um lagar de azeite.
De suas propriedades agrícolas, espalhadas por muitas terras, vamos apenas referir duas, sitas no temo de Fozcôa. Uma situava-se no Vale da Quinta e andava repartida por 8 lavradores que a cultivavam de meias. A outra era no vale dos Olmos e tinha 3 casas que serviam para acomodação dos caseiros e dos gados e tinha de circuito coisa de uma légua, o que nos dá uma área de mais de 20 hectares.
A avaliar pela quantidade de olivais inventariados, o azeite seria a principal das produções das suas terras mas como se estava em vésperas de nova colheita que, aliás, se anunciava de abundância, não ficaram números registados. Mas sabemos que tinha em sua casa uns 600 almudes de azeite da última colheita, os quais renderiam uns 100 mil réis. E três vezes mais valeriam as cerca de mil arrobas de sumagre arrecadado.
Da sua actividade de rendeiro, direi apenas que ele trazia arrematadas, entre outras, as comendas das igrejas de Torre de Moncorvo, Almendra, Longroiva, Izeda, Veiga de Leda, Reves… estas últimas em terras de Bragança e de Chaves e que entre os devedores se contavam Diogo Monteiro de Melo e Bernardino Pereira de Arosa, dois homens da mais alta nobreza de Torre de Moncorvo, o feitor dos Távoras em Mirandela, o alcaide do castelo de Bragança António Gomes da Mena e seu cunhado Lázaro Jorge de Figueiredo Sarmento.
FONTE – IANTT, Inquisição de Lisboa pº 1437, de António Dias Fernandes
NOTA – Este texto foi publicado no jornal Terra Quente de 2012-11-15.

sábado, 17 de novembro de 2012

Manuel da Silveira, mercador de sedas, com loja aberta na Rua Nova em Lisboa

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
 

 Por 1650, na Rua Nova, em Lisboa, ganhava alguma relevância a loja dos Silveira, originários de Abrantes. Eram dois irmãos os proprietários da loja: Manuel e Estêvão. Um terceiro irmão era já falecido e a irmã Violante estava casada com um cristão velho, de boa linhagem, contador na Mesa da Consciência – um tribunal superior que funcionava na Corte, criado pelo rei D. João III e que tratava dos assuntos relacionados com as ordens religiosas e militares, capelas, mosteiros, universidade, etc. Tinham uma segunda irmã, Isabel Soares, que era casada com o mercador Marcos Dias Brandão. A vida matrimonial destes é que não corria lá muito bem, havendo notícias de infidelidade de Isabel ao marido. Não sabemos se foi por causa disso que ele a deixou e se abalou para o Brasil, fixando morada na Baía de Todos os Santos. E porque se tratava de uma família da boa sociedade burguesa, embora cristã nova, Isabel terá sido obrigada a meter-se no Recolhimento de S. Cristóvão, sendo o filho único do casal enviado para casa da avó em Abrantes. Em defesa do bom nome da família, parece mesmo que os dois irmãos tentaram apagá-la “mandando dar-lhe peçonha dando para isso dinheiro” – a fazer fé no testemunho de Manuel da Silveira.
A verdade é que, vivendo hospedada no Recolhimento, Isabel foi presa pela Inquisição, em Setembro de 1656, acusada de seguir a lei de Moisés. O processo é deveras interessante para o estudo deste tipo de instituições especialmente destinadas a recolher, em regime de clausura, mulheres da nobreza que, em defesa da unidade das heranças das famílias, não deveriam casar mas que também não estavam dispostas a aceitar os rigores de um convento de freiras, nem davam garantias de um viver em sociedade sem cair nos braços de algum Romeu. A avaliar pelo mobiliário, roupa e outros objectos de uso pessoal que ali tinha, fica-se com a ideia de que o apartamento de Isabel do Recolhimento era uma verdadeira suite em hotel de luxo, contando até com uma criada privativa. No processo também sobrelevam as pequenas tricas entre as recolhidas, “as cizânias e enredos, de parte a parte, como ordinariamente sucede entre mulheres”.
Mas não é o processo de Isabel Soares que agora nos interessa, mas o impacto da sua prisão na vida dos mercadores seus irmãos, em especial na de Manuel da Silveira que nos parece ser o líder do grupo empresarial. Certamente que a prisão ficou pesando como uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça. Mais cedo ou mais tarde, as razões que levaram a irmã à cadeia podiam levá-lo a ele.
E também preso nas cadeias da Inquisição de Lisboa se encontrava então o mercador Diogo Álvares, de quem se falou num dos últimos textos deste jornal. E também ele representava um sério risco para Manuel da Silveira. Sim, também ele o podia denunciar, até mesmo por vingança. Recordam-se os leitores que Diogo era viúvo? Pois foi ele próprio que matou a mulher, dando-lhe uma dose de veneno? E matou-a porque ela o atraiçoara metendo-se em relações amorosas com Manuel da Silveira? Dizia-se até que um filho que ela dera à luz não era do marido mas do Silveira.
E outras prisões tinham sido feitas por aquele tampo no círculo de amigos e conhecidos de Manuel da Silveira, nomeadamente um Gonçalo Rodrigues da Cunha, com sua mulher e filhos. E havia quem dissesse “que esta gente do Gonçalo Rodrigues não havia de deixar nem os postes da Rua Nova que não trouxesse à Inquisição”. Quer isto dizer que a generalidade dos moradores daquela rua eram judaizantes e todos corriam o risco de ser presos.
Contudo, o perigo maior espreitava de outro lado e tinha outro rosto: o de Manuel Cordeiro, um denunciante da pior espécie, um verdadeiro espia, metido entre os da sua nação. Estagiara anos antes na mesma cadeia, mas puseram-no em liberdade sem ir a qualquer auto de fé e declarando-o inocente.
Pois, este homem ter-se-á sabido insinuar e obtido a confiança de Manuel e Estêvão da Silveira, que o tinham por “conhecido e amigo há tantos anos” e com ele desabafavam e tinham conversas íntimas. Como aconteceu naquela tarde de 24 de Outubro de 1657, depois que fecharam a loja. Os irmãos Silveira contaram-lhe que, no último auto de fé que houvera em Lisboa, em Outubro do ano anterior, saíra processada uma mulher que estivera presa com sua irmã. E que essa mulher trouxera um recado que viera dar-lho ultimamente. E o recado era que a sua irmã os não tinha denunciado aos inquisidores e se mantinha negativa. Mas que não sabia se poderia aguentar até ao fim. Por isso, os aconselhava a que fugissem. E em prova de que a mulher falava verdade, trouxera um “gibão ou colete” que Isabel lhe confiara e ela trouxe vestido da prisão.
Manuel Cordeiro bem tentou arrancar-lhe o nome da tal mulher mas não conseguiu. Mas haveria de continuar a tentar, junto de outras pessoas das relações dos Silveira que estes… não demorariam a ser por ele denunciados e mandados prender pelo tribunal do Santo Ofício, como se verá.
Por agora continuemos a escutar aquela conversa dos Silveira com o Cordeiro e este a insinuar que o perigo era real e eles tinham dois caminhos à escolha. Um deles era a fuga para o estrangeiro, tal como a irmã aconselhava, no caso de terem culpas. O outro era apresentarem-se na Inquisição e provar que estavam inocentes, que os senhores logo os mandariam embora, como, aliás, acontecera consigo próprio.
Responderam os Silveira que não lhes convinha ausentarem-se do reino, pois que tudo tinham empenhado em fazendas que esperavam chegassem do Brasil na próxima frota – entre 40 e 50 mil cruzados, 25 a 30 contos de réis, o correspondente ao orçamento da câmara de Lisboa por alguns anos!
Além de que, por “uma negra lei que no tribunal do Santo Ofício se tinha feito havia pouco tempo” se fugissem, todos os seus bens seriam sequestrados. Depois… “haveria de meter-se o diabo no corpo de sua irmã” para os denunciar?! – terá comentado o Manuel, com alguma incredulidade e espanto.
Por outro lado, Manuel da Silveira era o maior benemérito da sua paróquia e espantou meia Lisboa quando mandou vir de Milão, Itália, um dossel para o altar do Santíssimo Sacramento da matriz, a igreja da Conceição, um dossel “de brocado de três altos, o mais rico que há nesta cidade”. E isto entre muitas outras ofertas pias que os irmãos Silveira faziam. E alguém poderia duvidar da religião de um homem que todos os dias do ano fazia rezar missas na paróquia, como era o caso de Manuel da Silveira?!
Seria mesmo por devoção que Manuel da Silveira fazia tudo isto? Ou seria “para ir assim vivendo com o mundo”? Ele acreditaria mesmo no Santíssimo Sacramento ou mandava rezar missas “contra a vontade a festejar um bocado de pão”?
Estas últimas são palavras que Manuel Cordeiro disse ter ouvido da boca de Manuel da Silveira naquela conversa de que vimos falando e que ele, poucos dias depois, foi contar aos inquisidores e consta do processo instaurado a Manuel da Silveira, que, duas semanas depois, em 7 de Novembro de 1657, decidiu seguir o conselho do denunciante e apresentar-se no tribunal do Santo Ofício e ali ficou preso.
FONTES
Inquisição de Lisboa, processos de Manuel da Silveira e de Isabel Soares.
 

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

TORRE DE MONCORVO – TURISMO CULTURAL - ROTA DOS JUDEUS


O património de uma terra é constituído não apenas pelos monumentos de arqueologia e de arquitetura, mas também pelas artes tradicionais, culinária, costumes… e muito especialmente pelos homens, pelas gerações e gerações de homens e mulheres que       nela habitaram e deixaram em herança um outro património, ainda mais valioso – o património genético.
E quem, entre nós, poderá dizer que em suas veias não corre uma gota de sangue judeu? Parafraseando Jorge Luís Borges, diremos:
      Nada ou muy poco sé de mis mayores
    Portugueses, los marranos: vaga gente
    Que prosigue en mi carne, oscuramente
   Sus hábitos, rigores e temores.

Sem dúvida que a herança judaica e marrana é muito forte em Torre de Moncorvo. E nós não podemos desprezar esse património. Trata-se de um ato de respeito por nós próprios e de gratidão pelos nossos antepassados.
E é também um património cultural que devemos promover, com vista ao fomento do turismo. E foi também com esse objetivo que nós escrevemos este livro e nele incluímos uma espécie de Rota dos Judeus. Vamos percorrê-la:
1. A Casa da Sinagoga

. Até 1496 os judeus viviam em Torre de Moncorvo separados dos cristãos, num arruamento próprio a que chamavam judiaria e que em Torre de Moncorvo se situava nas traseiras da igreja da Misericórdia. E por esse espaço pagavam uma renda que os reis de Portugal concessionaram aos Senhores de Sampaio. Depois que a religião judaica foi proibida, as judiarias extintas e as sinagogas encerradas, aquele espaço tomou o nome de Rua Nova. Nessa rua ainda hoje existe uma casa daqueles tempos que a tradição popular sempre identificou como sendo a sinagoga dos judeus.
 2. A Casa da Inquisição
 
                                             
. Chamam-lhe a casa da inquisição por nela ficarem instalados os inquisidores e os comissários do santo ofício quando se deslocavam a Torre de Moncorvo em visitação, a inquirir testemunhas, fazer devassas e outras diligências. É Também conhecida por Casa dos Jesuítas pois que na fachada principal ostenta o emblema desta ordem religiosa, esculpido em pedra de granito. Porventura terá em tempos funcionado como colégio onde os frades daquela ordem e responsáveis pela reitoria da igreja matriz ensinavam gramática, filosofia e latim.
  3. A Casa dos Navarros
 
 
Ao findar do primeiro quartel do século XX, foi lançada, a partir do Porto, pelo capitão Barros Basto, a chamada Obra do Resgate, com o objetivo de promover o regresso dos marranos ao judaísmo. Tal movimento teve particular desenvolvimento na região de Trás-os-Montes e também na vila de Torre de Moncorvo. E seria no rés do chão da casa da família Navarro, ao Rossio, que a comunidade judaica se reunia em sinagoga, razão por que também lhe chamam,a sinagoga nova
4. A Casa da Pelicana 
 

É assim conhecida esta casa sita na rua do Prior do Crato, porque nela terá nascido Violante Gomes, a Pelicana, de alcunha, a qual foi mãe de D. António, o malogrado pretendente ao trono de Portugal. Acerca do assunto, escreveu Carvalho da Costa, em 1706, que “ainda de presente se apontam as casas em que nasceu e se conhecem pessoas que lhe são conjuntas em sangue”. A alcunha de Pelicana tê-la-á ganho pelo facto de usar um lenço na cabeça com a pintura daquela ave mítica para judeus e marranos
    5. A Igreja da Misericórdia
  
Vasco Pires do castelo, cristão-novo preso pela inquisição de Lisboa “foi o recebedor do dinheiro que se dava de esmola quando se fez a casa da misericórdia”, por meados do século XVI, conforme contou aos inquisidores. E o dr. André Nunes, advogado, igualmente prisioneiro da inquisição, terá sido um dos primeiros provedores daquela santa casa. E seria também o líder do movimento de apoio ao prior do Carto para Rei de Portugal, na área da comarca de Torre de Moncorvo, razões por que incluímos esta edificação na Rota dos Judeus, no traçado urbano da vila.
 6. A Rua dos Sapateiros
 
. Rua de S. Bartolomeu ou Rua dos Sapateiros? O mesmo arruamento aparece com os dois nomes. Seria o primeiro mais antigo e terá cedido lugar ao segundo, devido à concentração de sapateiros e curtidores de couros naquela rua? Facto é que, pelos anos de 600, a Rua dos Sapateiros era praticamente toda povoada por gente da nação. E Manuel Rodrigues Isidro teria a maior e mais opulenta casa da rua, recebida em dote de casamento, avaliada em 200 mil réis. Seria aquela mesma casa que dois séculos e meio depois, foi adquirida por D. Antónia Adelaide Ferreira, “o melhor solar de Moncorvo”, destruída por um incêndio em 1904?
 7. O Tríptico da Santa Parentela
 
. Manuel Rodrigues Isidro, um destacado mercador Portuense, era também um dos grandes importadores nacionais de arte da Flandres. Quando foi preso, tinha em armazém 18 ou 24 (ele não sabia ao certo) painéis de madeira importados de Bruxelas. Terá sido por seu intermédio que o famoso tríptico da santa parentela veio para a igreja matriz de Torre de Moncorvo? Não sabemos. Mas temos informação que o mercador Pero Henriques Julião, antes e 1618, “à sua custa, em um retábulo que se fez na igreja matriz de Torre de Moncorvo no altar de nossa senhora do Rosário, mandou fazer um painel do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo”. Por estas e outras muitas razões, pensamos que o dinheiro dos marranos foi de fundamental importância para a construção do grandioso templo e aquisição do seu mobiliário e por ele deve, naturalmente, passar a Rota dos Judeus
8. A Praça do Município
 
 

Espaço comercial por excelência, a praça do município apresentava-se em Torre de Moncorvo, como o espaço mais desejado por judeus e marranos para a realização de feira. O caso terá mesmo originado uma luta política entre o poder municipal e os mercadores judeus liderados por Juça Marcos, rendeiro do almoxarifado de Torre de Moncorvo, reivindicando estes que a feira se fizesse na praça e os vereadores dentro das muralhas da vila. Além de que, a generalidade das lojas comerciais em redor da praça pertenciam a mercadores da nação hebreia. E sabemos também onde eras as casas da doceira e do ferrador, por 1640, ambos daquela gente, em lugar estratégico da praça.
 9. Cobrideiras de Amêndoa
                                      
 
Da culinária judaica e marrana é farta a herança e variada, nomeadamente ao nível das iguarias. E muito em particular, a doçaria E nenhuma é mais típica e genuína do que as celebradas amêndoas cobertas de Torre de Moncorvo. E também temos fortes indícios de que os chamados canelões de Moncorvo, especialmente confecionados para os casamentos, serão outra especialidade herdada da doçaria judaica e marrana. E facto é também que hoje, nas pastelarias de Torre de Moncorvo continuam a fabricar-se bolos de amêndoa e farinha em tudo iguais aos fartéis que os descobridores portugueses ofereceram aos indígenas na chegada ao Brasil e eles aprenderam a fazer e também continuam com idêntica receita.
10. Chafariz de Horta.
 
 
Bordejando a vila de Torre de Moncorvo, pelo nascente, a Quinta do Montezinho e o Olival das Bolas constituíam, no século XVII, um complexo agrícola muito interessante. E o chafariz que se apresenta terá sido construído pela família de Manuel Rodrigues Pereira e para além de regar aquele mimoso pedaço de terra, alimentava um lagar de azeite, o primeiro de que há notícia nesta terra. E tudo era propriedade da industriosa gente da nação hebreia.
  11. O Lagar da Cera de Felgueiras
 
 
A Rota dos Judeus deverá prosseguir pelas aldeias do termo, que em várias existem marcas judaicas. Provado está também que os marranos dominavam a indústria moageira e de panificação no concelho de Torre de Moncorvo, sendo proprietários da maioria dos moinhos existentes na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho). O mesmo na indústria da tecelagem do linho e da seda, ou do fabrico do sabão. E o lagar da cera de Felgueiras é o testemunho vivo dessa gente que herdou dos almocreves marranos o conhecimento dos trilhos mercantis de Trás-os-Montes e das Beiras e os manteve transitáveis até aos nossos tempos.
Bem vindos a Torre de Moncorvo!
 
In  OS ISIDROS – A epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

“Os Isidros – A Epopeia de uma Família de Cristãos-novos de Torre de Moncorvo”

António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães apresentam novo livro em Torre de Moncorvo
Terça, 06 Novembro 2012 11:54
“Os Isidros – A Epopeia de uma Família de Cristãos-novos de Torre de Moncorvo” do moncorvense António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães foi o livro apresentado no passado dia 3 de Novembro, Sábado, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.
Esta obra conta a história da família Isidro, uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo, que acompanha a história da inquisição portuguesa desde o seu início, em 1536 até ao final da distinção entre cristãos–novos e cristãos-velhos, em 1773. História esta que “se desenrolou um pouco por todo o mundo acompanhando as rotas migratórias, a expansão marítima dos povos europeus e a implantação de colónias e feitorias comerciais à escala mundial.” O Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Eng.º Aires Ferreira, deu início à sessão referindo que o judaísmo é uma área de estudo muito importante da história de Torre de Moncorvo, que ainda não tinha sido explorada até à data. O editor do livro, António Lopes, falou também ao público presente explicando as motivações que o levaram a publicar esta obra. Maria Fernanda Guimarães abordou algumas personagens do livro e descreveu o ambiente vivido naquela época em Torre de Moncorvo segundo vários processos da inquisição.
António Júlio Andrade, apresentou uma rota dos judeus que percorre os monumentos e lugares relacionados com os judeus a visitar em Torre de Moncorvo. Exemplo disso é a Casa da Sinagoga, a Casa da Inquisição, a Casa dos Navarros, a Casa da Pelicana, a Igreja da Misericórdia, a Rua dos Sapateiros, o Triptico da Igreja Matriz, a Praça do Município, o Chafariz da Horta, as Cobrideiras de Amêndoa, o Lagar da Cera de Felgueiras e os simbolos existentes em algumas aldeias do concelho como Açoreira e Castedo. O público aderiu em força à apresentação do livro estando presentes nesta sessão cerca de 80 espectadores.
No final, o Município de Torre de Moncorvo ofereceu um exemplar do livro aos participantes, que os autores fizeram questão de autografar.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

OS ISIDROS - Amanhã na Biblioteca de Torre de Moncorvo


Excerto do livro:
Caíram sobre ele às estocadas mesmo à porta se sua casa, sita ao fundo da rua dos Sapateiros, na vila de Torre de Moncorvo. Eram três contra um e, embora valente e destemido, nada mais pôde fazer do que aparar com a espada as primeiras estocadas e rapidamente meter-se em casa cuja porta a mulher lhe abrira e ainda mais depressa fechou, atrás dele. Da mão esquerda escorria sangue, que lhe abriram um lenho bem fundo e no chão da rua ficou o dedo mindinho, que lho cortaram com uma espadeirada. Antes de prosseguirmos, convirá que apresentemos os contendores:
De um lado, Manuel Rodrigues Isidro, 24 anos, cristão-novo, comerciante e rendeiro, certamente o homem mais endinheirado da terra, um exportador e importador que anualmente pagava mais de 100 mil reis de impostos alfandegários e contava com a protecção de D. Francisca de Aragão, uma das damas de mais consideradas e influentes na Corte de Madrid.