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domingo, 7 de julho de 2013

Subsídios para a criação de uma Rota dos judeus em Trás-os-Montes

 Bragança
 Igreja de Santa Maria
A fundação da capela da senhora dos Prazeres
Começamos a traçar esta rota pela cidade de Bragança e pelo mais antigo monumento cristão da cidade – a igreja de Santa Maria, também designada de senhora do Sardão, sita na cidadela, ao lado do castelo e da domus municipalis.
A construção do templo primitivo ter-se-ia efectuado logo em seguida à reconquista da terra pelos cristãos aos mouros, em estilo romântico. Mas terá sido ampliado e reconstruído entre 1700 e 1715, nomeadamente ao nível do seu alçado frontal, que apresenta um pórtico barroco ladeado por colunas salomónicas.
Pelo interior a igreja é dividida em 3 naves, separadas por 6 pilares em que assentam 6 longos arcos.
Na nave da esquerda, abre-se a chamada capela dos Figueiredos, da invocação de Nª Senhora dos Prazeres. Acerca do assunto, o ilustrado Abade de Baçal, dá-nos a seguinte informação:
- Esta capela, à mão direita de quem entra, é muito elegante, em estilo da renascença, com motivos ornamentológicos nos pés direitos e arco. No fecho deste, há um escudo composto de 5 folhas de figueira em aspa e na arquitrave a seguinte inscrição de letras conjuntas e inclusas que quer dizer: Esta capela mandou fazer Pedro de Figueiredo alcaide-mor. 1585.[1]
O mesmo autor, em outro passo das suas Memórias – tomo VI, pg. 747 - deixou copiado o referido brasão. E ainda no mesmo tomo, em outra página, ao apresentar as origens da família Figueiredo, a outorga do barsão e a fundação do morgadio, acrescenta a seguinte informação:
- Pedro de Figueiredo casou com D. Violante Sarmento, sua prima, filha do alcaide-mor Lopo Sarmento (…) e de D. Maria de Morais Pimentel. Instituiu um morgadio em 1585, com capela na igreja de Santa Maria, de Bragança e nomeou para primeiro administrador sua mulher D. Violante Sarmento.[2]
Pois é exactamente aqui que começa a nossa Rota dos Marranos. É que esta capela será um caso verdadeiramente exemplar de como se pode alterar a história e apagar a memória.
Na verdade esta capela da Senhora dos Prazeres não terá sido mandada construir por Pedro Figueiredo. Tão pouco ele era alcaide em 1585 e não era então casado com D. Violante Sarmento. A verdade exige que esta história seja reescrita.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

FREIXO DE ESPADA À CINTA

LOURENÇO ALVARES – seguiam-no como a um rei

Corria o mês de Junho de 1513 quando um junco ido de Malaca aportou em Ta-Nang, na costa da China. Era o barco capitaneado por Jorge Alvares, que naquele sítio fez logo erguer um padrão assinalando o extraordinário feito, que foi a chegada, por mar, a tão longínquas paragens do primeiro homem branco.
Jorge Alvares era o feitor da Casa Real portuguesa em Malaca e natural de Freixo de Espada à Cinta, terra aonde não terá voltado, pois veio a falecer em 8.7.1521, no mesmo sítio de Ta-Nang, sendo enterrado junto ao mesmo padrão da descoberta. (1)
Enquanto isso, naquele mês e ano de 1513, na pequena e remota vila de Freixo de Espada à Cinta, as autoridades locais prendiam um Lourenço Álvares, com base em uma denúncia chegada do vizinho reino de Castela em que era acusado de ter mandado fazer um “cunho de tostão” para fabricar moeda falsa. O crime, se é que o houve, foi perdoado por alvará do rei D. Manuel. (2)
Ignoramos se havia algum parentesco entre o navegador Jorge Alvares e o incriminado falsificador de moeda castelhana, Lourenço Álvares, os quais, para além do apelido, da terra de origem e da época em que viveram, tinham em comum o facto de ambos serem altos funcionários do Estado.
Com efeito, são vários os documentos oficiais referentes a Lourenço Álvares, de Freixo de Espada à Cinta, desempenhando então importantes funções no domínio da arrecadação dos impostos do almoxarifado de Torre de Moncorvo, nomeadamente:
1503-01-18 – Carta do ofício de recebedor das sisas de Freixo de Espada à Cinta passada a Lourenço Álvares. (2’)
1513-08-03 – Conhecimentos de recibos de Lourenço Álvares, recebedor dos portos, por que recebeu de várias pessoas as parcelas que nos mesmos se declaram (3)
1513-10-18- Procuração que fez Lourenço Álvares, almoxarife dos portos de Trás-os-Montes, a Gabriel Álvares, seu irmão, para cobrar de todos os mercadores das ditas comarcas de Entre Douro e Minho, todo o dinheiro que ficaram devendo (4)
1514-05-16 – Carta do ofício de recebedor dos portos de Trás-os-Montes passada a Lourenço Álvares, com o ordenado de 4 mil reis (4?)
1514-08-26 – Rol do dinheiro que recebeu Lourenço Álvares (5)
1515-03-09 – Procuração de Lourenço Álvares para Diogo Vaz, seu genro, receber do escrivão dos portos de Trás-os-Montes todos os dinheiros que tiver feito, que são devidos à Fazenda Real, da dízima dos panos e mercadorias dos 3 anos passados (6)
1517-01-15 – Requerimento de Lourenço Álvares, recebedor dos portos das comarcas de Trás-os-Montes para João Mendes, rendeiro principal dos ditos portos, dar fiança à dita renda. (7)
1518-02-11 – Carta de recebedor das sisas de Freixo de Espada à Cinta passada por Lourenço Álvares a Diogo Vaz, seu genro. (7´)
1520-06-27 – Diligências da conta de Lourenço Álvares, recebedor dos portos de Trás-os-Montes. (8)
Para além do mais, estes e outros documentos oficiais deixam antever uma ligação muito forte e um jogo de interesses em volta da cobrança de impostos na região do Nordeste Trasmontano, com dois homens a ganhar protagonismo, ao lado de Lourenço Álvares: Diogo Vaz, seu genro e João Mendes, rendeiro. De ambos haveremos de falar.
Não sabemos como evoluiu nos anos seguintes, a cobrança dos mesmos impostos. Sabemos é que, em 20.9.1526, foram citados, como devedores à Fazenda Real “da conta do arrendamento dos portos de Trás-os-Montes” Diogo Vaz, Brites Álvares, João Álvares e Leonor da Paz. Será que esta citação aconteceu algum percalço com o almoxarife Lourenço Álvares e aqueles eram os seus familiares/herdeiros e nessa qualidade foram citados?
Certamente que estas e outras pistas precisarão de ser investigadas. E também os processos de outros Freixenistas que, como ele, conheceram então as masmorras da Inquisição, como sejam os de Jerónimo Reinoso, que foi casado com Maria Álvares, preso em 1558; Pedro Álvares, preso em 1563; António Fernandes, preso em 1550 “acusado de levar mercadorias às terras dos mouros”; João Garcia, filho de João Garcia e Isabel Álvares, preso em 1554…
Voltando a Lourenço Álvares, diremos que ele nasceu por 1478 e certamente foi circuncidado, como todos os meninos judeus. Tinha já uns 17-18 anos quando foi baptizado, pela Páscoa de 1597, como ele próprio confessou aos inquisidores, acrescentando que foi o cura da vila de Mós (actualmente uma aldeia do concelho de Torre de Moncorvo) que o baptizou e que foram seus padrinhos o fidalgo Diogo de Sampaio e sua mulher Inês Doutel. (9)
E são estes os dados biográficos que o seu processo nos fornece. Outros mais, também muito escassos, colhemo-los nos processos de Diogo Vaz, seu genro e de Diogo Mendes, filho do rendeiro João Mendes, que igualmente conheceram as cadeias da Inquisição de Évora. Por eles sabemos que Lourenço era casado com Ana Fernandes, de Freixo de Espada à Cinta e que tinha uma filha chamada Isabel Fernandes, a qual casou com o dito Diogo Vaz, tabelião.
Não sabemos se foi em Freixo que prenderam Lourenço Álvares, o qual foi levado para Évora e metido “dentro do aljube do cardeal nosso senhor” onde foi interrogado pelo “doutor Domingos Álvares, vigário geral nomeado pelo infante nosso senhor”, em 17.7.1533. E esta nota é interessante, se nos lembrarmos que a Inquisição portuguesa só foi criada em 1536. Significa isto que antes de ser já o era e que, em vez de tribunal da Igreja, mais parece um tribunal da Corte.
Vejamos agora os pontos essenciais do interrogatório, que a isso se resume o processo de Lourenço Álvares. Pelo teor das perguntas que lhe foram feitas, adivinham-se as culpas que lhe imputavam e pode intuir-se do seu comportamento religioso e elevada cultura bíblica. (10)
O denunciante seria o padre da aldeia do Larinho, concelho de Torre de Moncorvo e a cena ter-se-á passado no dia da festa de Nossa Senhora dos Montes Ermos. Aí, o pregador, Luís Álvares de seu nome, terá falado sobre a virgindade de Nossa Senhora e Lourenço Álvares terá comentado que ela não podia engravidar e parir e continuar virgem. E ter-se-ia alongado na conversa dizendo que os santos não deviam ser adorados, mas apenas Deus. E este é único e não constituído por três pessoas.
Claro que ele negou tais acusações e disse que já o profeta Isaías pregava que Maria havia de conceber e ficar virgem – citando a passagem correspondente do Velho Testamento. E disse que, em seu entender, os santos deviam “ser adorados como advogados para que roguem por nós “ a Deus.
Acusavam-no também de ser mau cristão e não se confessar e comungar. Respondeu que, nos últimos anos se fora confessar em Barrueco Pardo e em Vilvestre, duas localidades castelhanas próximas de Freixo.
Mas se estas faltas respeitavam a uma esfera mais íntima e pessoal, outras havia que interferiam com a vivência pública da comunidade cristã-nova e, por isso mesmo, de maior gravidade. E assim, acusavam-no de ter livros proibidos e de os divulgar e comerciar de Espanha. Defendeu-se afirmando que ele tinha era uma “Confessionário Romano” por onde lia e que efectivamente mandara para o notário de Vila Real, Preto de seu apelido, um livro. Porém esse livro não era proibido, era uma “Bíblia de Alcalá” que tinha o Velho e o Novo Testamento. E não fora ele a comprá-la a Espanha, antes foi um sobrinho do dito Preto que estudava em Salamanca que lha fizera chegar a Freixo para ele enviar para Vila Real, conforme o seu conhecido e amigo, o notário Preto, lhe pedira.
Lourenço Álvares era também acusado de dizer que Cristo não era o Messias prometido, que o verdadeiro Messias estava ainda para vir. Porém, os inquisidores não terão aprofundado muito o tema, aceitando facilmente a resposta negativa do réu, acaso porque o problema messiânico ainda não ganhara o relevo que, poucos anos depois, viria a ter. Deste assunto falaremos a seguir. Por agora vejam apenas este curtíssimo excerto do interrogatório:
- Perguntado que amizade é a que ele tem tão estreita com os cristãos-novos e porque o seguem como a Rei (…) disse ele dito Lourenço Álvares (…) que o não seguem como a Rei mas antes fogem dele por ser oficial d´el-rei.
Nada mais que o interrogatório se contém no processo de L. Álvares. Nem sabemos se ficou preso e houve sentença. E não mais lhe pegamos o rasto, ignorando se voltou a Freixo ou se meteu por Castela ou outra qualquer pátria.
Porém, 10 anos depois, em 1543, na mesma Inquisição de Évora, perante o licenciado Álvaro paredes, o tabelião e escrivão de Miranda do Douro, Diogo Mendes, dele disse muitas coisas que ajudam a compor o seu retrato, começando por identificá-lo, nos seguintes termos:
- Haverá 6 ou 7 anos, estando ele declarante em Miranda, veio ter com ele um cristão-novo que se chama Lourenço Álvares, morador em Freixo de Espada à Cinta, o qual foi recebedor dos portos e do almoxarifado de Torre de Moncorvo com o qual ele declarante tinha conhecimento por ser casado com uma parente dele chamada Ana Fernandes, o qual Lourenço Álvares lhe parece que é homem de 70 anos, pouco mais ou menos.
A fazer fé nas declarações de Diogo Mendes, Lourenço Álvares era um grande pregador do messianismo judaico e um verdadeiro cabalista. Tinha uma Bíblia em hebraico, caldeu e latim e costumava trazer com ele um Saltério (livro de salmos). Dizia que estava próxima a vinda do Messias, que “a falsidade de Cristo” acabaria em 1542. E isto com base no salmo 32 que diz: “falax est equus ad salutem” (falso é o cavalo para a saúde). Então o que têm a ver estas palavras com a afirmação de que o Messias viria no ano de 1542? É que, segundo os especialistas da ciência da Cabala, as letras hebraicas têm correspondências numéricas e o conjunto daquelas letras faz a soma de 1542.
Será que estamos em presença do último cabalista conhecido em Portugal? Neste caso o processo de Lourenço Álvares ganha um interesse único, apresenta uma descoberta fantástica e vem colocar Freixo e Miranda do Douro nas rotas do estudo da Cabala judaica, conforme o parecer do dr. Hugo…..
Mas deixemos estas coisas para os entendidos. Fiquemos com as declarações de Diogo Mendes, sem qualquer hesitação, falava de Lourenço Álvares como um homem “sábio e letrado na lei de Moisés”. Confessava, aliás, que foi ele que o levou para o judaísmo e o catequizou, depois da morte de seu pai, altura em que o dito Lourenço Álvares lhe terá feito a seguinte declaração formal:
- Ora, olha e tem ponto que agora que teu pai é falecido te quero desenganar porque nunca em sua vida to ousei dizer porque ele era muito grande cristão e agora para que não percas a tua alma, te faço saber que (…) a lei de Moisés é que vale porque a de Cristo é falha e enganosa.
Explicava o tabelião que se deixara levar pela conversa de Lourenço Álvares, que “por ele ser amigo dele declarante e homem velho e sábio na lei o induziu e o enganou”.
Iludido ou não, Diogo Mendes parecia confiar plenamente naquele homem “velho e sábio” e contava-lhe até os seus sonhos, que mais pareciam visões proféticas. Vejam este caso:
Em certa altura Diogo ficou doente, muito doente, às portas da morte, com febres altíssimas e delirando. E pareceu-lhe mesmo que fora ao outro mundo e que lá viu uma dezena de homens “com suas lobas vestidas e capelos e que um o tomava e que outro o deixava e que lhe parecia que falavam hebraico”. Diogo contou a Lourenço Álvares a visão que tivera e este lhe asseverou:
- Te faço saber que o que viste do outro mundo eram judeus e não há outra coisa nem se fala outra língua no céu senão o hebraico.
Argumentou Diogo dizendo que não podia provar tal coisa, ao que Álvares retorquiu:
- Crê no que te digo, porque quero que te salves e não te percas.
Outros pormenores acrescentou Diogo Mendes sobre o “sábio e letrado” mestre “que o induziu e trouxe à crença na lei de Moisés”. Assim, disse “que há muito tempo que lhe mostrou uma Bíblia que tinha, em hebraico, caldeu e latim” Foi também ele que lhe ensinou a fazer ritos e cerimónias judaicas como guardar os sábados, acender as candeias, celebrar a Páscoa comendo pão asmo e mandando fazer de comer em louça nova, a jejuar do “dia das perdonanças”… mas também lhe disse que a lei tinha muitas mais cerimónias que lhas não podia ensinar…”

 António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – LUIZ KEIL, O Primeiro Português que foi à China, Lisboa – 1933.
2 – HIRONDINO DA PAIXÃO FERNANDES, Bibliografia do Distrito de Bragança, tomo I, Bragança – 1996, cit. PEDRO DÁZEVEDO, Miscellanea archeologica, in: Archivo Historico Portuguêz, VIII: 95, Lisboa – 1903 – “Carta de perdão dada por D. Manuel a “um falsificador do cunho de tostão (…) Manuell do Porto, morador em Freixo d´Espada Cinta e criado do chantre da Guarda, nos enviou dizer per sua petiçam, que estando elle e outro em a dita villa de Freixo, hum Pêro Estevez e outro Martin Afonso, juízes hordenairos em a dita villa, prenderom a hum Lourenço Alves, por se achar culpado por huns autos que de Castela vierom que ele mandara fazer o cunho de tosta…”
3 – IANTT, corpo cronológico, parte II, maço 41, nº 124.
4 – IANTT, cc, p. II, mç. 42, nº 193
5 – IANTT, cc, p. II, mç. 51, nº 9
6 – IANTT, cc, p. II, mç. 55, nº 153
7 – IANTT, cc, p. II, mç. 68, nº 30
8 – IANTT, cc. P. II, mç. 90, nº 63
9 – Diogo de Sampaio, senhor de Vila Flor, era também alcaide dos concelhos de Mós, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta.
10 – IANTT, Inquisição de Évora, processo, de Lourenço Álvares.
 A leitura do processo foi feita pelo dr. Hugo…

domingo, 18 de novembro de 2012

BRAGANÇA - Uma rota de turismo cultural

É inegável o contributo do povo judeu na construção da Europa e da cultura ocidental. Reconhecendo este facto, o Conselho Europeu de Cultura decidiu inscrever nos seus roteiros de turismo cultural uma Rota dos judeus. E esta rota tem-se revelado bem atractiva e capaz de cativar um nicho de mercado bem definido, de grande capacidade económica e elevado interesse cultural.
Por toda a Europa, muitas cidades e vilas procederam à elaboração de estudos de arqueologia e urbanismo judaico, com vista à definição das suas próprias rotas dos judeus.
Também em Portugal isso vem acontecendo e podem referir-se os casos de Coimbra, Viseu, Castelo de Vide, Belmonte…
Bragança é, sem qualquer dúvida, uma das terras portuguesas onde sobreleva o património judaico. A começar pelos homens que de Bragança partiram e foram em chãos estranhos fazer obras valorosas e erguer-se entre aqueles em quem poder não teve a morte – para usarmos a linguagem do autor de Os Lusíadas.
Mas há também monumentos de arquitectura que em Bragança nos falam da gente da nação hebreia que importa assinalar. E há gestos banais, usos e costumes… uma culinária que deles recebemos como herança.
E certamente que as dezenas de homens e mulheres que morreram nas cadeias da Inquisição e as centenas de outros que nelas sofreram a fé mosaica bem merecem ser recordadas em monumento a construir pela actual geração. Sim, as terras, tal como as pessoas, não podem perder a memória, porque a perda da memória é a mais terrível das doenças.
E se Bragança é uma cidade que hoje se está tornando famosa e procurada pela sua Rota dos Museus, porque não haverá também de criar-se um museu ou, ao menos, um centro de documentação judaica?
Foi a pensar nestas coisas que os autores, embora não sejam naturais nem moradores em Bragança, mas tão só estudiosos do fenómeno marrano e sefardita, decidiram dar o seu modesto contributo que, a partir de hoje, encontrará também materialização em coluna deste jornal. E o nosso contributo será essencialmente baseado no estudo dos processos da Inquisição, existentes da Torre do Tombo.
E vamos começar esta Rota dos Judeus exactamente pelo mais antigo monumento cristão da cidade de Bragança que será a igreja de Santa Maria, também designada de Nª Sª do Sardão, sita na Cidadela, ao lado do castelo e da domus.
A construção do templo primitivo ter-se-á efectuado logo em seguida à reconquista da terra pelos cristãos e em estilo românico. Mas terá sido ampliado e reconstruído entre 1700 e 1715, nomeadamente ao nível do alçado frontal, que apresenta um pórtico barroco, ladeado por colunas salomónicas.
Pelo interior, a igreja é dividida em 3 naves separadas por 6 pilares em que assentam 6 longos arcos.
Na nave da esquerda, abre-se a chamada capela dos Figueiredos, da invocação de Nª Sª dos Prazeres. Acerca do assunto, no tomo I, p. 325 das suas Memórias Arqueológicas… escreveu o ilustrado Abade de Baçal a seguinte informação:
- Esta capela, à mão direita de quem entra, é muito elegante, em estilo Renascença, com motivos ornamentológicos nos pés direitos e arco. No fecho deste há um escudo composto de cinco folhas de figueira em aspa e na arquitrave a seguinte inscrição de letras conjuntas e inclusas que quer dizer: Esta capela mandou fazer Pedro de Figueiredo alcaide-mor. 1585.
O mesmo abade, no tomo VI, p. 747 das mesmas Memórias, deixou copiado o referido brasão. E no vol. VI, p. 132, ao apresentar as origens da família Figueiredo, a outorga do brasão e a fundação do morgadio, acrescentou o seguinte:
- Pedro de Figueiredo casou com D. Violante Sarmento, sua prima, filha do alcaide-mor Lopo Sarmento (…) e de D. Maria de Morais Pimentel. Instituiu um morgadio, em 1585, com capela na igreja de Santa Maria, de Bragança e nomeou por primeiro administrador sua mulher D. Violante Sarmento.
Aquela primeira informação é também corroborada no Guia de Portugal, vol. 5, tomo II, p. 948, editado em 1970, pela Fundação Calouste Gulbenkian, sob a direcção de Santana Dionísio, nos seguintes termos:
- Na nave esquerda abre-se a capela dos Figueiredos, ornada com um portal da renascença, de linhas decadentes. O tímpano desta capela patenteia o brasão da família. O friso contém a seguinte inscrição: “Esta capela mandou fazer Pêro de Figueiredo, alcaide-mor. 585”.
Pois é exactamente aqui que começa a nossa Rota dos Judeus. É que esta capela será um caso verdadeiramente exemplar de como se pode alterar a história e apagar a memória.
Na verdade, esta capela da Senhora dos Prazeres não terá sido mandada construir por Pedro Figueiredo. Tão pouco este era alcaide-mor de Bragança em 1585 e nesta data casado com D. Violante Sarmento.
Muito embora ali fosse esculpido o brasão daquela família e a legenda referida, podemos mostrar que:
A capela da Sª dos Prazeres da igreja de Santa Maria, de Bragança, foi mandada construir por um cristão-novo chamado Rodrigo Lopes, em 1585. E nesta data Pedro de Figueiredo estava casado com Maria Lopes, uma mulher da nação hebreia. Vejamos:
Rodrigo Lopes terá nascido em Bragança por 1535, sendo filho de Diogo Lopes e Florença Manuel, ambos de origem hebreia. Tornou-se um grande empresário e um homem de peso, do ponto de vista social, pois conseguiu casar a sua filha (Maria Lopes) com um homem da nobreza de Bragança – Pedro de Figueiredo.
Seria também um homem de peso ao nível político e na crise dinástica que se seguiu à morte do rei D. Sebastião, terá seguido o partido do Prior do Crato. Isto porque o seu nome consta da pequena lista de moradores de Bragança que foram considerados indignos do perdão geral decretado pelo rei Filipe de Espanha.
Como quer que seja, Rodrigo Lopes foi preso pela Inquisição de Coimbra, em Fevereiro de 1591, por culpas de judaísmo. O seu processo tem o nº 2095 e no auto que contém a sessão da genealogia, pode ler-se o seguinte:
- Disse que tem uma filha única chamada Maria Lopes, que casou e tem casada com um homem muito principal, cristão-velho, que se chama Pêro de Figueiredo, filho de António de Figueiredo (…) o qual está de portas adentro com ele réu, de 18 anos a esta parte, comendo e bebendo todos a uma mesa.
Entremos então em casa de Rodrigo Lopes e vejamos quem nela está de portas adentro, verificando que se trata de um agregado familiar bem reduzido: ele próprio, a mulher Águeda Martins, a filha Maria Lopes e o genro Pedro Figueiredo, com ela casado há uns 18 anos.
Rodrigo Lopes foi então preso e, de seguida, foram mandadas prender a sua mulher e a filha. Esta não chegou a sê-lo porque estava prestes a parir e morreu de parto. – Pº 2987, de Maria Lopes.
A mãe, certamente transtornada e avisada de que ia ser presa, ter-se-á escondido, acabando, no entanto, por se meter a caminho de Coimbra para se apresentar no tribunal. - Pº 1712, de Águeda Martins.
Entretanto e por constar que o genro é que a mandara esconder e estaria tratando da sua fuga, foi também mandado apresentar-se na Inquisição de Coimbra onde foi ouvido e mandado regressar à terra. – Pº 480, de Pedro de Figueiredo.
Temos assim Pedro de Figueiredo em Bragança na casa do sogro e como único administrador dos seus teres e haveres.
Meses depois, a sogra morreu nos cárceres da Inquisição. Restava apenas o sogro que, depois de sair em auto-de-fé condenado em penas espirituais com cárcere e hábito perpétuo, ficou por Coimbra para ser bem instruído na religião cristã e a cumprir a sua penitência, aguardando ordem de regresso a casa.
E foi então que Pedro Figueiredo escreveu ao Rei Filipe e este enviou para a Mesa da Inquisição uma carta dizendo que a sua família era a mais nobre de Bragança e seria uma vergonha se mandassem para sua casa um homem que fora condenado em tribunal como judeu. Para bem da honra e fama de sua família e da religião cristã, seria conveniente que o mandassem a viver para outra terra, ao menos para uma aldeia do termo ou que fosse internado em uma ermida ou convento. Mas vejam a própria carta que foi transcrita para o processo:
- Diz Pêro de Figueiredo, morador na cidade de Bragança que ele foi casado com uma filha de Rodrigo Lopes, outrossim da dita cidade, o qual Rodrigo Lopes foi preso e penitenciado pelo Santo Ofício no auto passado que se fez na cidade de Coimbra e lhe mandaram que fosse cumprir a dita penitência à dita cidade de Bragança; E por isso se seguirá mui grande escândalo entre os seus parentes, que são muitos e dos mais nobres da cidade, como é Lopo Sarmento, irmão da mãe do suplicante, o qual é alcaide-mor da dita cidade, e os mais como são seus tios, irmãos e cunhados e primos, todos são os que governam a dita cidade; E além disso haverá e resultará da tal ida muitas brigas e dissenções, por haver bandos; E tomarão motivo seus inimigos de murmuração, vendo o dito Rodrigo Lopes diante dos ditos seus parentes; O que, vendo ele suplicante, fez petição a Sua Alteza pedindo-lhe haja por bem que o dito Rodrigo Lopes possa cumprir a dita penitência em qualquer lugar fora da dita cidade, o qual senhor remeteu o caso a esta Mesa.
Pede a V. A., havendo respeito ao sobredito, haja por bem o que dito tem, ou pelo menos nos arrabaldes da dita cidade, como são os lugares de Samil, S. Pedro, Alfaião, Cabeça Boa, Vila Nova, Vale de Lamas, que todos são arrabaldes, ou em uma ermida que está junto à dita cidade, que se chama Nossa Senhora do Loreto, que foi casa dos estudantes colegiais, ou em uma casa que está dos muros adentro que tem uma ermida, em que possa ouvir missa mandando-a dizer, ou que possa estar no mosteiro de S. Francisco da dita cidade…
Certamente que não se ficou pela carta, antes terá metido empenhos e cunhas, que também as haveria já naquele tempo e naquele tribunal.
E a verdade é que os inquisidores despacharam favoravelmente a petição de Pedro de Figueiredo e Rodrigo Lopes regressou a Bragança vestindo um saco amarelo (o sambenito) por cima da roupa e foi metido no mosteiro de S. Francisco.
Voltando a Rodrigo Lopes e à capela da Senhora dos Prazeres, vejamos agora o que consta do seu processo:
- Provará que por ele ser como é bom cristão, zeloso das coisas da Santa Madre Igreja de Roma e da Lei Evangélica, ele fez uma capela na igreja de Nossa Senhora da cidade de Bragança, a qual capela é da invocação de Nossa Senhora dos Prazeres e custou a ele réu mil e quinhentos cruzados, com um pontifical muito rico de brocado, a qual tem muito ornada e aparamentada de todo o necessário, com um capelão e obrigação de uma missa cada semana às quartas-feiras.
Não sabemos quanto tempo viveu Rodrigo Lopes no mosteiro de S. Francisco de Bragança, local estipulado como seu cárcere perpétuo. Imaginamo-lo recolhido em uma cela, fazendo vida de monge forçado e aos domingos descer à igreja, para assistir à missa, mas vestido com o desprezível e infamante saco amarelo. Imaginamos como os frades se sentiriam ofendidos por ter de albergar um judeu. Aliás, acabaram mesmo por escrever uma carta para a Inquisição, queixando-se que isso era moléstia e opressão que dava aos religiosos a presença de um sentenciado como judeu. Além de que, vivendo em uma cela no convento, podia ali fazer contratos e outras coisas indecentes. Pediam que fosse mandado cumprir a sua penitência em uma casa dentro da cidade, fora do mosteiro, indo às missas e mais pregações, como os mais penitenciados do Santo Ofício e que então eram muitos na paisagem humana da cidade.
Não cremos que a petição fosse atendida. E devemos dizer que revela alguma ingratidão dos mesmos frades, já que não sentiram moléstia e opressão quando o mesmo Rodrigo Lopes pagou 28 mil réis para o douramento de um altar na mesma igreja ou quando ofereceu uma dalmática de damasco verde para as celebrações litúrgicas no dito templo.
Deixemos, porém, R. Lopes no convento. Voltemos a Pedro de Figueiredo, que em 1593 ficou viúvo, usufrutuário único dos bens do sogro. Contava então 32 anos. Viúvo e rico, não lhe seria difícil arranjar pretendente para novo casamento. E a eleita foi exactamente uma das filhas de seu tio, o alcaide-mor D. Lopo, Violante Sarmento, de seu nome. Acrescente-se que duas outras irmãs de Violante foram metidas a freiras, o que bem convinha para acrescentar bens ao casal.
O enlace de Pedro e Violante ter-se-á realizado depois da morte do velho alcaide, a qual sucedeu por 1597. Ao menos é isso que se depreende de um documento existente no arquivo de Simancas, em Castela (Secretarias Provincilaes 1457, fl. 30) de que Francisco Manuel Alves nos dá notícia nos seguintes termos:
- Pedro de Figueiredo, morador em Bragança. No Conselho Real de 27 de Julho de 1600 foi apresentada uma petição do duque de Bragança a fim de ser feita mercê do hábito de Cristo a Pedro de Figueiredo “que he pessoa das qualidades necessárias, e a que elle tem obrigação por casar com D. Violante, filha de Lopo Sarmento, defunto, seu alcaide-mor da dita cidade”.
Como se vê, ao menos o hábito de Cristo alcançou-o Pedro Figueiredo em virtude deste segundo casamento. E também terá sido herdeiro do mesmo sogro no cargo de alcaide-mor, para que terá sido nomeado por carta do duque de Bragança de 24 de Agosto de 1603 – como também informa o Abade de Baçal no tomo I, p. 442 das suas Memórias, acrescentando que já antes, porém, fora agraciado pelo mesmo duque D. Teodósio II com uma tença de 20 mil réis anuais, a ter efeito a partir de 13 de Fevereiro de 1600.
Resta agora explicar como se colocou o brasão dos Figueiredos e se escreveu na capela da Sª dos Prazeres a legenda dizendo que esta capela mandou construir Pedro de Figueiredo, alcaide-mor. 1585.
Certamente que não foi em sua vida que tal se fez, já que a memória do construtor da capela era ainda fresca e ele próprio não reclamaria para si o título de alcaide-mor naquela data.
A verdade é que não temos qualquer documento que prove exactamente quando o brasão e a legenda foram esculpidos na capela. Mas temos uma explicação muito plausível.
Recordam-se de termos dito que a igreja era em estilo românico e que foi ampliada e remodelada entre 1700 e 1715? E que os elementos então acrescentados à igreja eram em estilo barroco? E que também a talha metida na capela dos Figueiredos era de estilo barroco?
Acrescentemos agora que, nessa altura, o dono da capela e alcaide-mor do castelo era Lázaro Jorge de Figueiredo Sarmento, neto de Pedro Figueiredo.
Naturalmente que, procedendo-se a obras de tal envergadura na igreja, seria também uma óptima oportunidade, ou até uma exigência social a realização de obras na capela. E seria também a oportunidade ideal para se proceder à limpeza no nome do judeu fundador da capela, esculpindo na madeira então colocada o brasão dos Figueiredos e a legenda sobre o seu pseudo construtor.
Aliás, foi também nessa altura que seu primo, António de Figueiredo Sarmento conseguiu do rei D. João V a carta de brasão e fidalguia e a aprovação do morgadio de Santo António do Toural a que estava vinculada a Quinta da Rica Fé.
De resto tudo seria bem esclarecido se alguém apresentasse também a carta de fundação do morgadio dos Figueiredos cuja cabeça era a capela da Sª dos Prazeres. Acaso datará da mesma época.
Acresce ainda que todas as informações sobre a família que chegaram até nós foram coligidas duas décadas depois das mesmas obras, por um membro da mesma família – José Cardoso Borges que, naturalmente, não tinha qualquer interesse, antes pelo contrário, em revelar qualquer nódoa em sua nobreza e fidalguia.
Bom, mas estas são questões que os genealogistas e historiadores devem deslindar. Por nós procuramos apenas ler os processos da Inquisição e deles aportar elementos para ajudar a definir uma Rota dos Judeus em Bragança.
Fernanda Guimarães
António Júlio Andrade

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

GENOME PROJECT-From Jamaica to Vancouver to Portugal-part 1

This article first appeared in Portuguese on February 1, 2011 in Terra Quente, a bi-monthly newspaper in Tras-os-Montes, Portugal (insert link), and in English at www.ladina.blogspot.com
Richard George Henriques, A Canadian architect in search of his roots.
Antonio J. Andrade and M. Fernanda Guimaraes
Translated and revised by mlopesazevedo and M. Fernanda Guimaraes
(the authors assert copyright)

Henriquez Partners is a prestigious architectural firm in Canada. Their most emblematic work is found in Vancouver where they are located. Some of their highrise projects form part of the panoramic of the city. Other noteworthy projects are part of urban renewal, sometimes constituting a set of buildings or even an entire block. There are also significant buildings in the arts, medicine, and scientific research. There are innovative projects, from the boldest modernism to Gothic and Neo-Classical re-creations. The firm enjoys an international reputation and has won more than a dozen awards, in particular, the Governor General's gold medal, the highest distinction in Canada, which the firm has received twice.
The firm has about 30 functionaries, headed by architect Alfred George Henriquez whose mentor and thesis advisor was the celebrated architect and historian Alberto Perez-Gomes, professor of architecture and engineering at the University of Montreal. But the founder and builder of the firm is his father, the architect Richard George Henriquez. It is the latter that is at the heart of our story, which will lead us to multiple references of a Sephardic family that left its mark in many parts of the world during several centuries. We are restricting our research to Portugal, especially the Inquisition trial records (“processos”) that can be found at the Torre do Tombo archives in Lisbon.
First, we wish to point out that the surname Henriquez was Hispanicized at the turn of the last century during the construction of the Panama canal. Therefore, for the purposes of our work, we will adopt the Portuguese spelling, Henriques, the name which connects this Jewish family to Portugal since the 15th century. Other branches of the family kept the Portuguese spelling in the diaspora.
We would also like to relate how this adventure began, yes this project, not the architectural one! Richard had been trying for two years to obtain processos from the Torre do Tombo but lack of knowledge of the Lusitanian language of Camoes hindered him, so he decided to attend in person at the archives. Richard has been making many such trips over the last 20 years to places such as the USA, Antilles, England, France, Spain, Amsterdam, wherever his ancestors led him. By chance, a Luso-Canadian lawyer referred him to Fernanda Guimaraes who practically lives at the Torre.
It was in the summer of 2008 when Richard and his wife arrived in Lisbon. There is an old saying in Portuguese, when hunger calls, the appetite strikes. In other words, at precisely the same time that Richard was looking for the processos, Fernanda was researching them. Unkowingly, Fernanda had been studying Richard`s ancestors in such dispersed places as Torre De Moncorvo, Vila Flor, Trancoso, Celorico da Beira, Mirandela, and Viseu, all places with a significant Jewish population before the forced baptism of 1497. ( All Portuguese Jews were forcibly baptized in 1497, thereafter called New Christians). Fernanda was also aware that some members of the family had fled Portugal to such places as Madrid, Bordeaux, Amsterdam and then London to escape the clutches of the Inquisition. Fernanda offered her services and Richard was pleased.
Richard George Henriques was born on February 5, 1941 in Annotto Bay on the north coast of Jamaica, within the limits of the city of Saint Mary, baptized Puerto de Santa Maria by the first Spanish colonizers. His mother's name was Essie Adeline Silvera, also Hispanicized (Silveira in Portuguese), and his father Alfred George Henriques was born in 1916. They were a typical agricultural family working on their father's estate, however Richard's father was soon drafted into the British army to help boost agricultural production during wartime. The British naval base in Kingston played a leading role in patrolling the Caribbean basin and ensuring that the Panama canal remained open.
During his tender years, Richard remembers a particularly violent storm, almost a hurricane, which destroyed the family home in which his sister, Kathleen Maye Henriques also lived. At about the same time Richard learned that his 25 year father, now a fighter pilot in the British air force had been shot down by an enemy plane over Warsaw. The death of his father coincided with the uprising of the Warsaw ghetto and must have contributed to Richard's destiny of becoming the family genealogist.
Without a father and the family home in ruins, Richard and his sister went to live with his paternal grandparents, Alfred St. Elmo Henriques, and Linda Maye Cohen Henriques, at Greenwood. Richard has fond memories from his time at Greenwood, frequent trips to the beach supervised by his aunt Rita, moonlight filled nights on the house porch with his grandfather unravelling the mysteries of life and the world, and tales of the eternal wanderings of the Jewish people, especially the Iberian Jews of Sepharad (literally land's end, ie, Portugal and Spain). Perhaps it was these nostalgic evenings and the absence of a father killed in a distant land that ignited Richard's interest in discovering his roots.
Later, Richard's mother married Francis Roy Henriques, his grandfather's brother. The family settled in Buff Bay, a small seaside city, 40 kilometres from their previous home. Richard started primary school when he was seven and has some unpleasant memories of being bullied. When he was about ten years old he decided to become an architect like his uncle Rudolph Daniel Cohen Henriques whom he got to know during summer vacations. Uncle Dossie, as Richard called him was a talented self-made man, architect, sculptor and painter. He served an architectural apprenticeship at a New York engineering firm and was soon helping build the Panama canal. Richard has fond memories of uncle Dossie's trip home to see his brother, building, sculpting, and painting, all the while doting on the young Richard. Uncle Dossie married Gwendolyn Cohen Henriques, Linda's sister and Richard's paternal grandmother. Their son, Maurice Karl Cohen Henriques graduated from architecture and engineering in 1957 from the University of Manitoba in Canada. Richard soon followed in his footsteps, and the rest is history as it is said.
Source
Howard Shubert, Geoffrey Smedley, Robert Enright, Richard Henriques, Selected Works, 1964-2005, Douglas & McIntyre, Vancouver, Toronto, 2006

RICHARD GEORGE HENRIQUES

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domingo, 12 de setembro de 2010

MIRANDA DO DOURO

Presos em Miranda do Douro em 1556
 quando cozinhavam uma panela de carne.


21 de Fevereiro de 1556. Caiu nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6 irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484. Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6 homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos “baptizados em pé”.

Voltemos agora a Miranda do Douro onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.

Estamos pois em Miranda do Douro no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho (antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este. Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556, foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro de 1557, juntamente com os respectivos processos.
E se em Miranda do Douro ele tudo negava e nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi mandado de regresso a Miranda do Douro.

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

VINHAIS E O TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO

NOTAS SOBRE A COMUNIDADE MARRANA 
 1 . Inquisição e Judaísmo

Numeramento de 1530. Assim ficou conhecido o primeiro recenseamento geral da população feito em Portugal. Veja-se o que, acerca da vila de Vinhais, nele foi registado:
- A vila de Vinhais é cercada e a cerca em partes derribada; D. Afonso de Ataíde leva direitos e rendas dela e chama-se senhor dela; e vivem na dita vila e seus arrabaldes 84 moradores.
O Numeramento não diz quantos desses moradores seriam de ascendência judaica. Mas, certamente, era uma boa percentagem, talvez a maioria, a avaliar por algumas informações que chegaram até nós. Vejam uma delas, retirada dos livros das denúncias da Inquisição:
- No dia 30 (de Maio de 1543) compareceu Rodrigo Bernardes, morador em Tuizelo, termo de Vinhais e disse (…) que em Vinhais há, dos muros para dentro, 50 moradores e desses só 3 ou 4 são cristãos-velhos…
Esta informação aparece corroborada, logo de seguida, por duas outras pessoas, moradoras na mesma vila.
Por mais dúvidas que tenhamos sobre os números apresentados, uma conclusão se impõe: a comunidade marrana de Vinhais era muito forte, possivelmente mais numerosa e mais instruída e rica do que a comunidade dos cristãos-velhos.
E naturalmente que uma tal situação despertava a animosidade destes, especialmente dos homens do clero e da nobreza da terra, aqueles que costumavam assegurar o governo da câmara e controlar a execução da justiça e da política fiscal.
E entre as duas comunidades entrou de desenvolver-se uma intensa luta política cujo palco se estendeu até ao governo do reino e ao tribunal da Inquisição.
A liderar a comunidade cristã-velha encontrava-se o ouvidor (representante do senhor da terra) – João de Morais, o velho, homem de mui nobre geração, fidalgo de cota de armas, com filhos e filhas casados nas mais nobres famílias de Bragança, Vimioso, Miranda do Douro… como eram os Madureira, Sapico, Ferreira, Sousa…
Um dos episódios dessa luta consistiu em afastar os cristãos-novos dos empregos públicos e dos cargos de chefia e governança da terra. A começar pela câmara municipal.
A comunidade marrana, porém, liderada pelo almotacé (oficial da câmara que fiscalizava pesos e medidas, taxava os preços dos géneros e tratava da conservação de pontes, calçadas e caminhos) Nuno Rodrigues fez uma exposição dos factos perante a Corte e conseguiu do rei D. Manuel sentença contra a câmara municipal.
Claro que esta vitória dos marranos não significou o fim da luta e o apaziguar das tensões. Antes pelo contrário, terá contribuído para que ela ganhasse nova intensidade e mudasse de palco. E que melhor maneira podia haver de afastar dos cargos públicos e de governo da terra os marranos do que denunciá-los por judeus? O santo tribunal se encarregaria de os prender, roubando-lhe cargos e empregos e comendo-lhe teres e haveres.
E assim terá o Santo Ofício efectuado, em Maio de 1541, em Vinhais, a sua primeira incursão, fazendo prender e conduzir a Lisboa o almotacé Nuno Rodrigues que, em Março do ano seguinte, foi libertado.
As denúncias, porém, continuaram. E mais incisivas. Como aquela que vimos ao início, feita por Rodrigo Bernardes que, depois de dizer que os 50 moradores da vila só 3 eram cristãos-velhos, acrescentou:
- Os restantes guardam os sábados e, como um deles fosse preso, e se espalhasse a notícia de que a Inquisição os queria prender a todos, esteve a vila despovoada durante 8 dias porque fugiram. É voz pública que a sinagoga é em casa dum Francisco Lopes.
Seguiu-se nova leva de prisioneiros, desta vez para as cadeias da Inquisição de Évora. Entre esses prisioneiros lá foi, de novo, o mesmo almotacé Nuno Rodrigues. Desta vez a estadia nas masmorras prolongou-se por 4 anos e ele e os outros foram libertados por graça e mercê de um perdão geral decretado pelo Papa que ordenou a libertação de todos os prisioneiros da Inquisição portuguesa.
Há, porém, um facto estranho no meio desta luta político – religiosa. É que o primeiro homem que nos aparece a ser denunciado como herege na Inquisição foi exactamente João de Morais, o escudeiro fidalgo cristão-velho. Foi ele o primeiro a ser denunciado (em Março de 1541) e mais repetidamente (em 1543 e 1546). E denunciado como autor de crimes da maior gravidade e mais concretos como dizer que não havia céu nem inferno nem vida para além da morte; que era tolice ir em romaria à Senhora da Serra; que não havia excomunhões; que comia carne às sextas-feiras mesmo de Quaresma…
Acresce que a primeira denúncia foi feita por alguém de muito prestígio – Martim Trigueiro, capelão da rainha e abade de Vinhais!
Estranhamente e apesar de toda a gravidade dos factos e a acumulação de testemunhos, não o prenderam. Ou melhor: foi preso, mas 30 anos depois, em 1573, quando contava já uns 100 anos de idade!
Não podemos explicar as razões que terão determinado o desenrolar deste caso, pois não estudámos o processo de João de Morais, o Velho, patriarca da poderosa família trasmontana dos Morais Sarmento.
Voltemos atrás, ao ano de 1554, em que Nuno Rodrigues foi levado pela 3ª vez para o tribunal da Inquisição, de novo para Lisboa, de companhia com outros Vinhaenses, sendo todos libertados em Março do ano seguinte, condenados em penas espirituais, cárcere e hábito.
Nas duas décadas seguintes, aliviou-se a pressão inquisitorial sobre os marranos de Vinhais, como de resto em todo o país. Mas, a partir de 1583, depois de uma visita do inquisidor Jerónimo de Sousa, abade de Vila Flor, parece que todos os poderes do inferno se abateram sobre esta terra do Alto Trás-os-Montes, destruindo famílias, comendo haveres, liquidando empresas. Cerca de 164 homens e mulheres de Vinhais foram presos, em levas sucessivas, por década e meia, para as cadeias da Inquisição.
Alguns encontraram a morte nas bolorentas masmorras. Outros pereceram queimados nas fogueiras acesas para glória de Deus e diversão do povo, em festivos autos-de-fé. Muitos voltaram doidos, estropiados, cheios de doenças e os corações desfeitos. E dos que voltaram, apesar de tudo, os mais fortes, de corpo e espírito, conseguiram ganhar novas forças e fugir para o estrangeiro, aí reconstruindo suas vidas. E assim se arruinou a vila de Vinhais naquele findar do século XVI.
Tal como a Fénix, porém, a nação marrana de Vinhais haveria de renascer das cinzas das fogueiras da Inquisição. E de novo as forças do mal haveriam de conjurar-se contra ela, em renovadas e mais ferozes perseguições, em nome de um Deus a quem os inquisidores usurpavam o papel de juiz das consciências.
Numa terra em que o Numeramento de 1530 assinalava 84 moradores e onde o autor da Corografia Portuguesa contava, em 1706, 150 vizinhos, a Inquisição portuguesa (em Espanha se contarão mais alguns) instruiu uns 484 processos que se encontram na Torre do Tombo à espera de ser estudados para que se possa reescrever a história da vila e do povo de Vinhais e para que os Vinhaenses tomem verdadeira consciência das suas raízes e reclamem finalmente a herança de seus ancestrais e a transformem em uma rota de turismo cultural.
Este será o caminho do progresso, verdadeiro e sustentado. E por monumento primeiro dessa rota devem eleger a emblemática igreja de São Fagundo, porque era no seu adro que os marranos preferiam enterrar os seus mortos porque ali havia terra virgem, beijada pela sombra de um enorme sardão.

                                                 2. Inquisição e maçonaria.

Não entrando em académicas análises, podemos afirmar que a Inquisição portuguesa foi criada como um tribunal religioso para defender a pureza da doutrina católica contra as heresias e comportamentos escandalosos.
Cedo se transformou, porém, em instrumento do poder político, detido pelas classes da nobreza e do clero, voltado contra a classe mercantil e burguesa, essencialmente constituída por marranos.
Com a ascensão do marquês de Pombal à chefia do governo do rei D. José, a Inquisição virou polícia política muito motivada contra as ordens religiosas, em especial os Jesuítas.
Caído em desgraça o Marquês, a Inquisição foi colocada na dependência do Intendente Geral da Polícia, Diogo Inácio Pina Manique e o alvo privilegiado do mesmo tribunal passou a ser a Maçonaria, o clube dos livres-pensadores.
Por uma estranha casualidade, o último processo instruído pela Inquisição a gente de Vinhais foi ao cónego D. André de Morais Sarmento, por ser membro da seita dos pedreiros - livres.  
Quando o prenderam e revistaram a casa, no dia 31 de Outubro de 1791, encontraram –lhe dentro de um pequeno baú encoirado um manuscrito com o título seguinte: Explicação da maçonaria aos recém recebidos, o qual será o mais antigo texto maçónico português – segundo afirma o historiador Oliveira Marques.
No auto de apreensão do manuscrito, incluído no processo, pode ainda ler-se:
- E igualmente lhe foram achados no dito baú quatro embrulhos, em cada um dos quais se achava um pedaço de peliça branca à maneira de pequeno avental, com umas fitas azuis nas pontas, tendo todos os ditos quatro aventais as insígnias e dísticos seguintes estampados nos mesmos, a saber:
De um lado a figura do sol e do outro a lua e no meio um compasso e um triângulo e por baixo o dístico: lux mundi.
E da outra parte nas costas dos mesmos aventais, a figura de uma caveira com dois ossos que demonstra a morte e por baixo o dístico: memento mortis…
Nas comemorações do centenário da fundação da República, acto que muitos atribuem à Maçonaria e à Carbonária, terminamos este texto com a seguinte afirmação produzida pelo principal denunciante de André de Morais e seus companheiros de Loja:
- E disse o dito José Inácio que desconfiava que a revolução de França principiara na Grande Loja de França da dita seita, porém que cá não sucederá porque os portugueses não eram capazes para isso.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

FONTES:
IANTT, Inquisição de Lisboa, processo 5321, de Nuno Rodrigues.
IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 8725, de João de Morais, o Velho.
IANTT, Inquisição de Lisboa, processo de D. André de Morais Sarmento.

Fotos cedidas pela Câmara de Vinhais

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

-JOSÉ ANTÓNIO PINTO

                                             Originário de Torre de Moncorvo,
circuncidado em Livorno e judaizante em Tetuão
Livorno é uma cidade da costa ocidental da península itálica. Ao findar do século XVI, quando os judeus e os cripto-judeu eram escorraçados de Portugal e Espanha e mal aceites na maioria dos restantes estados europeus, o grão-duque Fernando I convidou os perseguidos a fixar-se em Livorno. E, por lei promulgada em 1593, concedeu e esses imigrantes alargados privilégios entre os quais a isenção de taxas e impostos e a mais absoluta liberdade religiosa. No caso dos judeus permitia-lhes até a criação de tribunais próprios para resolver os processos surgidos entre eles.
Naturalmente que, abrindo-se-lhe uma tal porta, um grande número de cristãos-novos portugueses escolheram Livorno para viver. Este fluxo migratório acentuou-se a partir da queda do conde de Olivares, famoso ministro de FilipeIV, em 1643 e da bancarrota da Coroa espanhola em 1647, altura em que as inquisições redobraram o seu ímpeto persecutório, primeiro em Espanha, depois em Portugal. Como testemunho deste movimento migratório, ficou célebre o comentário feito pelo embaixador de Veneza naquela cidade quando, em 4.6.1655, assistiu à chegada de um navio que ali desembarcou 40 novos imigrantes: - São uma espécie de cristãos que quando aqui chegam imediatamente se tornam judeus.
E foi assim que, por 1670, a comunidade sefardita de Livorno rivalizava com a de Amesterdão, não havendo outra que se lhe comparasse, tanto no cômputo populacional (cerca de 300 membros), como do movimento comercial. Amesterdão era a grande praça comercial no Norte da Europa e Livorno desempenhava idêntico papel na bacia do mar Mediterrâneo, destronando Veneza. A Livorno chegavam os produtos que os barcos traziam da Índia, da China, da África e das Américas (escalando ou não os portos de Lisboa e Sevilha) e os comerciantes Livornenses os encaminhavam depois para os países da Europa central e meridional e também para o império Otomano e mais partes do Médio Oriente. Segundo António Carlos Carvalho, foram os Livornenses “os primeiros europeus a apreciar o sabor do café, o gosto do chocolate e o prazer do tabaco”. E nos trilhos da emigração de cristãos-novos portugueses para Livorno, ficou famosa a nau Jerusalém e a família Mogadouro, sua proprietária, de que alguns membros foram processados e mortos pela inquisição como “passadores de judeus”.
Ao contrário das outras cidades italianas, em Livorno não existia qualquer “ghetto” e os judeus misturavam-se livremente com o resto da população e ostentavam com orgulho seus brasões nos documentos. A comunidade era dirigida por um colégio de 60 membros hereditários e as actas das suas reuniões eram redigidas em português, mantendo-se esta língua como oficial da “nação hebreia” de Livorno até 1787.
No sentido de controlar o comércio da região do Magrebe (Norte de África), a “nação” de Livorno cedo abriu uma sucursal em Tunes e, em 1685, estavam ali registadas umas 50 famílias, num total de 300 indivíduos. Filippini calcula que entre 83% e 94% das exportações de Livorno para o Norte de África estivessem então nas mãos dos judeus.
Também com o Império Otomano Livorno conseguiu estabelecer relações privilegiadas e aceder ao comércio do Levante. E para fortalecer essa posição, estabeleceu também uma sucursal em Alepo, no Noroeste da Síria, ponto de partida das caravanas na famosa rota da seda e entreposto das mercadorias do Oriente. O mesmo Filippini calcula que os judeus de Livorno tinham entre 11% e 35% das exportações para o Levante.
De entre as firmas comerciais dos sefarditas de Livorno, destacava-se a da família Mogadouro – Vila Real, liderada por Gabriel Medina. De resto, predominavam as pequenas e médias empresas e a família era a base da organização social e empresarial entre a “gente da nação”, o que mantinha a confiança entre eles e permitia a tomada de decisões em tempo oportuno, condições essenciais para o sucesso no mundo dos negócios.
Vamos então até Livorno, ao ano de 1660, onde acabou de chegar Jorge Pinto, homem de seus 35 anos, originário de Torre de Moncorvo, com sua família que era constituída pela mulher (Beatriz Gonçalves, 6 anos mais velha que ele, natural da cidade da Guarda) e dois filhos, ambos nascidos em Cótimos, termo de Trancoso. O mais velho chamava-se Luís e tinha uns 15 anos e o mais novo, António, nascido em 14.4.1647.
Estes não viajaram na nau Jerusalém, mas em um navio inglês (ou seria holandês?) que apanharam em Alicante, Espanha, pagando 2 mil pesos pelo frete. À chegada a Livorno foram recebidos por seus parentes Daniel França e Jacob França, em cuja casa ficaram alojados.
Contaram que, depois de casar, foram residir em Cótimos e dali saíram por 1650 com destino a Málaga, em Espanha, onde já morava o pai e um irmão de Jorge. Aí, este e o pai acabaram por ser presos pela inquisição de Granada. Despachado o seu processo e cumprida a pena, Jorge dirigiu-se com a mulher e os filhos para Orihuela, uma terra do sul de Espanha, próximo de Alicante, onde permaneceram cerca de 4 meses “valendo-se da confiança e amizade de Jerónimo Fernandes, um português que tem sua mulher e filhos em Livorno onde são públicos judeus”, antes de embarcarem também para ali.
Em Livorno, os novos imigrantes fizeram-se “imediatamente” judeus , sendo circuncidados e adoptando nomes hebreus: Isaac Pinto, o pai; Sara Pinto, a mãe; Jacob Pinto o filho Luís e David Pinto, o mais novo, que em Cótimos fora baptizado com o nome de António e que, a partir de agora, vamos chamar de José António Pinto. Este é o protagonista do processo que estamos seguindo da inquisição de Lisboa, registado com o nº 2583.
É um processo deveras interessante para o estudo da vivência religiosa da comunidade sefardita de Livorno. Além da descrição pormenorizada da sua própria circuncisão, (berit-milá), José António fala das orações (shemá, amidá…) que rezavam na sinagoga onde iam 3 vezes ao dia, dos objectos ali usados e vestidos (kippa, taled, tefelin…), das cerimónias e dos oficiantes, dos jejuns (da rainha Ester, do dia grande, da guedalia…), dos rituais da matança dos animais e fabrico do pão ázimo, da celebração da Páscoa, etc…
Em Abril de 1668, José António saiu de Livorno para Argel, dali passou a Tânger “a tratar de negócios de seu pai” e a Tetuão “onde reside um irmão deste, Luís de Saldanha, com o qual o pai tinha negócios”. E este é um exemplo prático do que atrás dissemos sobre a estrutura empresarial familiar dos sefarditas. Refira-se também que a comunidade judaica de Tetuão vivia em um bairro próprio que chamavam Melaj (Salgadeira, acaso pelo tratamento de salga que ali faziam de couros e peles) e possuía 16 sinagogas.
Ficou por uns tempos em casa do irmão, que já era casado e em Tetuão tinha a família. E depois, de acordo com este, partiu novamente em viagem de negócios, rumo a Cádis e Antequera, cidades do sul de Espanha. Àquela parece que ia com ideias de comprar tecidos que remeteria ao irmão e a esta disse que ia cobrar “um vale de 8 mil e 500 réis”.
Estranhamente (ou talvez não), de Cádis dirigiu-se a Sevilha e, no dia 8 de Janeiro de 1670, foi apresentar-se ali no tribunal da inquisição. Contou a história da sua vida (com algumas mentiras) dizendo que era “judeu de sinal” em Livorno, mas que “resolveu passar-se a Espanha para ser cristão e baptizar-se”.
Pensaria ele que assim o aceitariam e lhe dariam qualquer documento para livremente poder andar por Espanha, sem receio de possíveis denúncias, já que era fácil, em qualquer esquina, encontrar quem o conhecesse de garoto ou o tivesse visto por Itália ou pelo Norte de África a entrar nas sinagogas e a assumir-se publicamente como judeu. Para que a história ganhasse consistência, mentiu quanto ao local de seu nascimento e nome de baptismo, disse que de Cádis escreveu ao irmão contando-lhe o seu propósito de “redução” ao cristianismo e que este reagira dizendo que “gastaria a sua vida e fazenda para o matar” se levasse avante seu intento. Esta informação fora-lhe dada em Tânger por um primo.
Claro que os inquisidores tinham muito calo já, disseram que iam estudar o seu caso e mandaram que podia ir em Paz e negociar à vontade, mas que não saísse de Sevilha sem ordem do tribunal até o seu processo de redução ser despachado. E por Sevilha andou ele alguns meses e várias vezes ele se terá dirigido ao tribunal em busca do despacho que… nunca mais vinha.
Desconfiado de que alguma coisa se passaria, abandonou a cidade de Sevilha e o reino de Espanha e foi-se a Lisboa. Ali, ao cabo de 22 dias, em 29 de Agosto de 1670, foi preso e “posto em custódia nos cárceres da penitência”. Era uma espécie de detenção ou prisão preventiva – como hoje dizemos. Efectivamente não havia denúncia alguma de qualquer crime cometido contra a fé cristã. Na base desta detenção estará o édito que, de imediato, a inquisição de Sevilha pôs a circular e onde se avisava:
- Foi determinado que o réu fosse buscado com diligência e fosse castigado por inobediente e transgressor dos mandatos deste tribunal o qual manda que se escreva a todos os portos para que se buscasse este réu.
E logo depois de preso, colhidas as primeiras declarações e detectadas algumas contradições, começou a organizar-se o processo contra José António Pinto que, em 28 de Fevereiro de 1671, foi formalmente entregue ao alcaide dos cárceres secretos da inquisição, onde foi metido. Vejamos agora as provas testemunhais que depois apareceram contra ele:
* Jacome Assucar, natural de Ishafan, na Arménia, disse que viveu em Tetuão e ali conheceu José António Pinto e o irmão, este nascido no Porto e aquele em Málaga – segundo diziam. E que em Tetuão sempre os viu frequentar as sinagogas e viver como judeus. Que depois se encontrou com José António em Salé em Tânger, em negócios, ali se apresentando igualmente como público judeu “posto que não mudava de traje como não costumam mudar os que vão só negociar” Que o encontrou depois em Lisboa e que até lhe deu novas de seu irmão que vira há 2 meses. E estranhou que, dando-lhe a morada em Lisboa, numa estalagem “junto aonde faziam as comédias” ali o não tenha já encontrado dias depois quando o foi procurar, depreendendo ele “que andava disfarçado, com receio de ser conhecido, porque nesta cidade não se trata como judeu público, antes o encobre”. Em prova de seu testemunho, ele indicou Toros Minos, também mercador da Arménia, um Monsieur Vicente, francês de nação e dois homens de Faro que estiveram cativos dos Mouros em Salé.
* Toros Minos, aliás, Teodoro Inácio, que por Tetuão e Salé andou negociando com Assucar, confirmou tudo e acrescentou que, ao vê-lo em Lisboa, lhe perguntou como se atrevia a vir a esta terra sendo judeu. Ele respondeu que viera fazer umas cobranças e comprar umas fazendas para enviar ao irmão e “se aqui soubessem que ele era judeu, havia de dizer que era filho de pai judeu e que se queria fazer católico (…) e que por isso fugira ao seu pai (…) quando o procurasse na estalagem (ao beco das Comédias) fosse com o nome de Joseph, dizendo que era sargento (…) se lhe perguntassem quem ele era dissesse que o não conhecia porque era italiano.
* Dos homens de Faro cativos em Salé não se achou rato. Mas em Lagos residia temporariamente (“por ocasião do contrato dos atuns”) o tal Vicente David, mercador francês da cidade de Marselha, cuja vida se repartia ainda por Tetuão e Lisboa. Também ele disse conhecer os irmãos Pinto como judeus que frequentavam as sinagogas.
* João Pires Rodrigues estava preso em Lisboa e foi na cela onde ele estava que, às tantas, meteram o José António. E depois de falarem, João concluiu que, afinal, conhecia os seus pais. E, confiado na sua amizade e discrição, o moço com ele desabafou, contando-lhe tudo e de como foi de Sevilha para Madrid e dali passou à Guarda, cidade onde esteve em casa de seu tio Belchior Mendes, antes de vir para Lisboa e ser preso. Acrescentou que ao sair da prisão haveria de levar uma prima, filha daquele seu tio, para Itália e com ela casar e havia de tornar a viver na lei de Moisés “que quem era judeu não tornaria a ser bom cristão” e que à religião cristã “não havia mais que mamá-la e calá-la”. Como era de esperar, João Pires não demorou a pedir audiência e a contar tudo aos inquisidores.
De posse do relatório da inquisição de Sevilha que entretanto viera e destes depoimentos, fácil foi aos inquisidores fazer o José António cantar tudo, explorando muito bem as suas contradições, de modo a clarificar a sua posição de judeu circuncidado que se queria “reduzir” ou de cristão baptizado que virou judeu e pretendeu “enrolar” a santa inquisição, “mamar e calar” os ensinamentos da igreja.
Na primeira audiência, em 1 de Setembro de 1670, ainda ele estava muito confiante, continuou a dizer que queria sinceramente “reduzir-se” ao cristianismo e se abandonou Sevilha foi por pouco tempo, por necessitar muito de vir a Lisboa fazer um negócio mas logo voltaria para Sevilha, até porque deixara em depósito no santo ofício uma caução de 11 mil “reales” que esperava lhe fossem devolvidos, com o despacho do seu processo de “redução”.
Mais tarde diria que em Sevilha ganhou estreita amizade com o capitão Don Henrique de la Torre que lhe dava “dinheiro, vestidos e cavalos em que andava” a quem foram dizer que ele era judeu e a inquisição o iria prender e o mesmo capitão ficou desapontado, considerando-se desonrado por antes o apresentar como seu parente. E foi essa intriga o motivo por que fugiu e rumou a Lisboa, com ânimo de embarcar para o Brasil.
Correu o processo e, provada a acusação de judaísmo, os inquisidores estavam também interessados em recolher o máximo de informações sobre outros cristãos-novos portugueses que andavam por Itália, Magrebe e outras terras fugidos da inquisição e a viver como judeus. E neste particular o processo de José António é bem interessante, dando informações como estas:
*Gabriel Medina é em Livorno o homem forte da empresa dos Mogadouro, de Lisboa e são todos passadores de cristãos-novos portugueses para Itália onde se fazem judeus e, como passadores, usam falsos nomes de mercadores italianos.
* Entre as famílias saídas da região de Torre de Moncorvo para Livorno e que ali vivem como judeus praticantes contam-se as de Simão Henriques Pimentel, aliás, Abraão Henriques Pimentel e sua mulher Brites Guterres, pais de António, aliás, Isaac Pimentel, de Manuel, aliás, Jacob Pimentel e de Ana e Brites Pimentel; Cristóvão Vaz França, aliás, Jacob Vaz França, casado com brites Nunes, pais de Jorge, aliás, David França e Daniel França; Rafael de Sousa; um homem que em Portugal era conhecido por Santilhano e que em Livorno se chama Aaron Franco de Albuquerque…
* Também em Veneza ele referenciou cristãos-novos de Torre de Moncorvo, processados pela inquisição e dela fugidos e que por lá são judeus: Jacob de Carvalho e seu irmão Daniel de Carvalho.
Bem espremido foi José António Pinto pelos inquisidores que, para acabar de deitar tudo cá para fora, o sujeitaram a duplo tormento – um trato esperto e outro corrido. Finalmente e depois de mil juras de arrependimento e pedidos de misericórdia e  perdão, o seu processo ficou concluído, saindo no auto-de-fé de 10.12.1673, condenado a cárcere e hábito perpétuo, confisco de bens e desterro por 3 anos para o Brasil.
Em Abril de 1674, ainda ele esperava embarque e encontrava-se doente, tolhido dos braços e das mãos. Mandado para o hospital de Todos os Santos, os médicos que o atenderam logo informaram que não conseguiriam curá-lo e pô-lo em condições de proximamente embarcar para o degredo. Doente e sustentado por misericórdia, escreveu aos inquisidores uma carta muito sofrida em que desabafava “ser melhor que o embarquem nas naus e no mar morra por doença, que de fome em terra” o matem. Acabou por ser-lhe comutada a pena, sendo desterrado para Almeida onde se apresentou em 13.6.1674.
Refira-se, finalmente, que José António Pinto era um poliglota que sabia ler e escrever em espanhol, francês, português. Italiano e hebraico e tinha 27 anos quando saiu da inquisição de Lisboa, certamente com ânimo de refazer sua vida. 

António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães