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quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 21
António Gabriel Pissarro. Pelos anos de 1747, na cidade de Bragança
impunha-se uma florescente e laboriosa geração de cristãos-novos. Do ponto de
vista da economia, nunca como então crescera o fabrico e o comércio das sedas,
com a Rua Direita transformada em um autêntico formigueiro de micro e, pequenas
unidades industriais, extraordinariamente competitivas e geradoras de riqueza.
No seio dessa comunidade, brilhou a estrela de António Gabriel Pissarro. A
ponto de um seu contemporâneo ter proferido o seguinte testemunho:
- Acorriam a ele como filhos a pai!
Nascido em 1716, era filho de
Pedro Álvares Pissarro e Luzia Nunes, que ambos conheceram as prisões do santo
ofício, sendo ele acusado de ser dogmatista e rabi. Em Bragança fez António os
estudos preparatórios no colégio dos Jesuítas, posto o que ingressou na
universidade de Coimbra onde se licenciou em direito. Regressado a Bragança,
abriu um escritório de advogado, assim iniciando uma brilhante carreira.
Na terra, havia mais de uma dúzia
de advogados e padres formados em cânones, que nesses tempos existia uma
ligação muito grande entre as varas judiciais eclesiásticas e civis. E uma
grande parte desses profissionais juntou-se na promoção de um processo perante
o juiz de fora da cidade, visando impedir o dr. António Pissarro de exercer a sua
profissão nos tribunais da comarca, baseados em argumentos de natureza ética.
Parece que o instigador dessa demanda e da campanha de contestação ao dr.
Pissarro foi o padre/advogado António Carlos Vilas Boas que tinha sido seu
colega na universidade de Coimbra e em Bragança conseguiu o estratégico emprego
de notário do fisco e do santo ofício, por ele passando o registo de todas as
penhoras e confiscos de bens aos processados pela inquisição. Se bem que
perdessem o processo no juízo de Bragança, os inimigos de Pissarro recorreram
para a Relação do Porto, onde voltaram a perder e foram condenados a pagar as
custas. E a aura do nosso advogado mais cresceu, medrando em paralelo as
invejas e os ódios recalcados. E fatal seria que acabasse preso pela inquisição,
acusado não apenas de práticas judaicas mas ainda de ser, tal como o pai,
entretanto falecido, o rabi da sinagoga que os “judeus” de Bragança faziam em
casa de António Rodrigues Gabriel, seu parente.
Não vamos aqui falar do seu
processo. Apenas diremos que foram dois longos anos de sofrimento. E uma nota
interessante: em sua defesa, acorreu o comissário da inquisição de Bragança,
padre Morais Antas, que fez uma informação para Coimbra falando das invejas do
padre Vilas Boas e outros e que a acusação partia apenas do facto de o dr.
Pissarro ser de origem hebreia e não de qualquer infracção às leis da igreja.
Finalmente, refira-se que na
família deste ilustre advogado de Bragança viria a nascer, em 1831, em St.
Tomas, uma das Antilhas, um dos maiores pintores do século XIX, aquele a quem
Henry Matisse chamava o “Moisés da pintura contemporânea” e acerca de quem Paul
Cézanne dizia:
- Todos descendemos de Pissarro!
Estamos falando, naturalmente, de
Camille Pizarro, o famoso mestre do impressionismo que faleceu em Paris em
1903.
António Júlio Andrade
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Uma bela descrição que nos leva a uma melhor compreensão do que somos hoje.
ResponderEliminarA inveja, impera neste Reino.
Já Miguel Torga dizia que o que mais florescia em Portugal era a inveja!!!!
Os cristãos novos deram um grande contributo para os locais onde se estabeleciam, nós encarregámos-nos de destruí-los sem que os soubéssemos continuar!!!!.
Parece-me que hoje se passa o mesmo com os nossos mais qualificados, seja na área em que for!!!!!!!