quarta-feira, 7 de novembro de 2012

FREIXO DE NUMÃO - O DIA A DIA DO MERCADOR ANTÓNIO DIAS FERNANDES.Por: António Júlio Andrade


- Mariana Soares, casada com Manuel Rodrigues, natural de Freixo de Numão, disse que, haverá 5 anos, por Janeiro ou Fevereiro de 1720, se achou em casa de Brites Pinheiro, com ela e com o marido António Dias Fernandes e os três se declararam seguidores da lei de Moisés… Verdade ou mentira que isto aconteceu?
Este é o género de perguntas que os inquisidores não faziam nunca. O réu é que tinha de adivinhar o sítio concreto, as circunstâncias e o nome da testemunha. Por isso a pergunta a Dias Fernandes, na mesa da inquisição de Lisboa, foi-lhe colocada nos seguintes termos:
- Em que lugar de Freixo de Numão e com que pessoas se achou há 5 anos e se declararam seguidores da lei de Moisés?
Vamos transcrever a resposta, não pelo interesse que ela tem para a descoberta da verdade, mas pelo que ela revela sobre a vida deste mercador de Freixo de Numão que, no texto anterior, encontrámos a exportar aguardente para o Brasil e a Inglaterra a partir de uma destilaria em Alijó. Vejam:
- No dito tempo foi ele réu à feira de Mirandela que se faz a 3 de Janeiro e dali foi para a Torre de D. Chama para assistir à feira que ali se faz no dia 5 do dito mês. Dali foi para o trato da cidade de Chaves onde ele réu tem uma comenda que se chama de S. Pedro da Veiga de Lila e por ter umas cobranças a fazer (…) e se dilatou na cobrança até dia 13 de Janeiro no qual dia se achou na feira de Murça de Panóias e desta foi para a feira de Vila Flor que se faz aos 15 do dito mês de Janeiro. E assim mais, desta feira de Vila Flor se partiu para a de Alfândega da Fé que é aos 17…
Não vamos continuar seguindo a marcha de António Dias neste périplo pelas feiras da região naqueles dois primeiros meses de 1720. Vamos antes ver outra culpa que lhe apontam como tendo sucedido em freixo de Numão “há 3 anos e 5 meses” ou seja, em Março de 1722. Vejam a sua defesa:
- É falso o que diz a testemunha porque ele réu partiu de sua casa a 3 de Fevereiro do dito ano para a feira de Mirandela que naquele mês foi a 4, dia em que ajustou com Luís Bernardo de Morais Sarmento a jornada para virem ambos a esta Corte de Lisboa a tomar juramento de corregedor de Pinhel, que está servindo e na noite de 9 do dito mês se recolheu ele a sua casa onde esteve até dia 11 em que partiu para Vila Flor e dali foi para Alfândega da Fé onde esteve até dia 18 em que se recolheu a sua casa da qual partiu no dia 20 de Fevereiro com o dito corregedor para esta Corte e no dia de S. Matias se dilatou ele réu e mais companhia na cidade de Coimbra, para lançar em uma comenda do colégio de S. Pedro, que se rematou no mesmo dia. E assim mais, a 1 de Março do dito ano de 1722 chegou ele a esta Corte a vários negócios que nela tinha e juntamente para rematar o assento do mantimento da gente da guerra na província da beira que com efeito rematou e nesta Corte assistiu até meados do mês de Julho do dito ano…
Escusado será dizer que de tudo isto apresentou testemunhas. E não interessa aqui saber se ele, os denunciantes e as testemunhas falavam ou não verdade. O importante é chamar a atenção para o dia a dia deste mercador que tudo comprava e vendia e em qualquer parte arrematava a cobrança de rendas ou o fornecimento de géneros às tropas, negócios fabulosos, de muitos contos de réis. Vejamos ainda mais uma contradita, defendendo-se de uma acusação que lhe fizeram e cuja cena se teria passado na cidade do Porto, ao início de Junho de 1716:
- Ele réu não foi à cidade do Porto senão em 18.1.1716 onde entregou uma parcela de dinheiro, de 3 000 cruzados a João Antunes Guimarães (…) e da dita cidade partiu a 21 ou 22 do dito mês de Janeiro para esta de Lisboa, em companhia do ilustríssimo bispo de Lamego, que encontrou no lugar do sardão e a ela chegou no último dia do dito mês de Janeiro para haver de embarcar seu filho António Dias Correia para o Rio de Janeiro (…) e aqui assistiu até 15 de Abril do dito ano em que partiu para Freixo de Numão sem que fosse pela cidade do porto e a maior parte da jornada a fez em companhia do chantre de Lamego de quem se apartou na cidade de Coimbra. E à dita cidade do Porto não tornou senão nos fins de Novembro de 1718, por notícia que teve de estar seu cunhado Francisco Gabriel Pinheiro gravemente doente.
Como os leitores já terão percebido estamos em presença de um homem de extrema importância, um grande e moderno empresário. Contamos em próximos textos mostrar um pouco mais da dimensão das suas empresas.
FONTE – ANTT, Inquisição de Lisboa, pº 1437, de António Dias Fernandes
Este texto foi publicado no jornal Terra Quente em 2012-11-01
Nota do editor: foto do pelourinho de Freixo de Numão em:http://fozcoajer.planetaclix.pt/index2.htm

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