quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 23

André Nunes. Nasceu em Torre de Moncorvo por 1518. Estudou em Salamanca, tendo-se licenciado em cânones. Por mais de 40 anos foi o advogado de mais prestígio na comarca de Torre de Moncorvo onde trabalhou com muitos corregedores e com eles despachou causas por metade da província de Trás-os-Montes. E representou nos foros judiciais pessoas ou instituições tão importantes como o arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o conde de Sampaio ou o marquês de Távora. Homem público, concorreu à eleição para o cargo de provedor da misericórdia de Torre de Moncorvo e terá sido, na área da comarca, o “mandatário” de D. António, prior do Crato na sua “campanha” para a nomeação como Rei de Portugal. E isso lhe terá granjeado muitas inimizades e vinganças políticas por parte do regime saído da nomeação de Filipe II de Espanha para o trono de Portugal, regime que albergava todos os familiares da inquisição. De tal modo que, na sequência de informações recolhidas em torre de Moncorvo e Vila Flor pelo abade desta última terra e inquisidor de Évora (dr. Jerónimo de Sousa) e mandadas para Coimbra, a inquisição fez prender o dr. André Nunes, os irmãos, as filhas e os genros. E a mulher, apesar de morta e enterrada há anos, foi também alvo de um processo, para que a memória dela ficasse também assinalada com o ferrete de judia. Uma filha e um genro (Luís Álvares da Silva, médico) foram presos em Viana do castelo, terra para onde mudaram sua residência à época da “campanha” para a nomeação do rei de Portugal e à derrota do Prior do Crato. Curiosamente, por ali andou o escondido em conventos de frades e freiras, o malogrado pretendente, antes da sua fuga para o estrangeiro. E também curiosamente foi a um convento de Viana do Castelo se recolheu frei Bartolomeu dos Mártires que, nomeio daqueles acontecimentos políticos e por sua causa, renunciou ao cargo de arcebispo de Braga e o depositou nas mãos do novo rei. O outro genro de André Nunes era irmão do médico Luís Álvares e chamou-se Francisco Rodrigues da Silva. Era um jovem advogado mas já com nome feito. Acabou queimado nas fogueiras da inquisição. A atestar o carácter político desta perseguição inquisitorial, estes advogados, em nome da comunidade hebreia de Torre de Moncorvo, apresentaram uma longa e bem fundada exposição. E um dos argumentos era o seguinte: - Sempre o senhor arcebispo de Braga visitou esta terra, de 2 em 2 anos. A última visita foi o ano passado. Nessas visitas sempre procurou saber se havia “judeus” na terra e lançava excomunhão sobre as pessoas que tivessem conhecimento de alguma prática judaica e não a denunciassem. E ninguém se apresentou a fazer qualquer denúncia desse género. Como é possível que, um ano depois, venha o abade de Vila Flor e descubra e mande prender 36 pessoas em Torre de Moncorvo, sob a acusação de judaísmo? Das duas uma: ou as pessoas que agora juram o fazem com falsidade, ou andaram durante toda a vida a enganar os seus confessores e o reverendo arcebispo, o que equivale a perjúrio e consequente excomunhão da igreja católica... Nem com argumentos desta natureza os inquisidores se deixaram convencer… Na Casa da Memória de Torre de Moncorvo o dr. André Nunes bem merece figurar da galeria dos grandes advogados e homens de leis e o nome do dr. Francisco Rodrigues da Silva ser escrito em monumento a construir dedicado às vítimas da inquisição, juntamente com o de sua sogra, Leonor da Mesquita, cujos ossos foram desenterrados e levados de Torre de Moncorvo para Coimbra para serem queimados com a sua “estátua” nas fogueiras da inquisição.
António Júlio Andrade

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