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| Freixo de Numão |
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
ANTONIO DIAS FERNANDES UM GRANDE EMPRESÁRIO MARRANO DE FREIXO DE NUMÃO NOS ANOS DE 700.Por: António Júlio Andrade
Quando foi preso pela inquisição
de Lisboa, em 5 de Janeiro de 1725, contava uns 50 anos. Nascera em Pastrana, uma
célebre vila de Espanha, a NE de Madrid para onde seu pai – Diogo Dias
Fernandes – terá fugido, depois de uma investida da inquisição de Coimbra em
Muxagata, sua terra de origem e ali casara com Joana Correia da Silva, de uma
ilustre família de cristãos-novos da Beira.
António tinha 10 filhos, todos
ainda solteiros. Os dois mais velhos contariam então 14 e 16 anos e apesar
desta tenra idade encontravam-se já estabelecidos no Brasil, viajando entre a
Baía, as Minas e o Rio de Janeiro, dirigindo os negócios da família.
Eram dois os irmãos inteiros de
António Dias: Fernando Dias Fernandes, o mais velho, que fora casado com Maria
Pinheiro, de Freixo de Numão, o qual esteve preso por 3 anos nas masmorras da
inquisição de Lisboa, juntamente com os dois filhos mais velhos e a mulher.
Esta acabaria por ser queimada nas fogueiras do auto de fé de 12 de Setembro de
1706, posto o que Fernando e os filhos se escaparam para a Inglaterra.
Gaspar Dias Fernandes se chamou o
outro irmão, formado em medicina, estabelecido no Porto à data de sua prisão.
Meses depois também ele seria preso pela inquisição de Coimbra, juntamente com
a mulher e duas filhas.
De referir que António Dias
Fernandes e seus dois irmãos foram casar em Freixo de Numão, com três irmãs, na
família Pinheiro, uma família numerosa e igualmente perseguida pelo santo
ofício.
Foi por 1680 que Diogo Dias e
Joana da Silva deixaram Pastrana, porventura receosos da inquisição espanhola
em cujas cadeias, no tribunal de Lerena, Diogo estadiara. Em Portugal, fixaram
residência na cidade do Porto. E ali formaram uma grande empresa, que logo
passou a ser dirigida pelo filho mais velho, Fernando Dias Fernandes. Por 1697,
numa informação chegada ao tribunal do santo ofício tomava-se o seguinte
depoimento de uma testemunha:
- Também presume que em casa de
Fernando Dias Fernandes fazem sinagoga porque também concorrem para a mesma
casa os homens da nação e porque são particularmente amigos (de Manuel de
Aguilar) e parciais no negócio que trazem muito grande.
Nesta empresa familiar liderada
por Fernando, dois vértices ganham particular importância. Um deles é
representado pelo seu filho mais velho, Diogo, que era capitão de navios, assim
assegurando o transporte das mercadorias exportadas e importadas. Muito
especialmente viajava entre Portugal e o Brasil, capitaneando o navio S. Miguel.
O outro vértice do triângulo era
representado por António Dias Fernandes de quem vimos falando e que foi
estabelecer sua casa em Freixo de Numão, com assistências temporárias na
povoação de Rio Torto, no termo de Chaves, onde estabeleceu uma segunda
residência por 10 anos, negociando por terras de Trás-os-Montes e das Beiras,
em toda a parte criando laços de convivência com gente importante. Veja-se, a
título de exemplo, o seu modo de estar e o seu relacionamento em Mirandela,
onde aparecem mais tarde a testemunhar em sua defesa os cavaleiros fidalgos e a
gente da governança da terra, a começar pelo capitão-mor:
- Servia nas irmandades,
principalmente a das Almas, na vila de Mirandela, onde fez oferta das 40 horas,
sendo seu companheiro o excelentíssimo marquês de Távora e nesta irmandade tem
feito grandes dispêndios…
Uma outra testemunha de defesa, o
capitão-mor e juiz da vila de Muxagata, diria mesmo que “teve notícia que o
dito António Dias Fernandes fora conselheiro do marquês de Távora”.
Ao início do século XVIII a rede
familiar de negócios dos Dias Fernandes estaria bem implantada e muito
desenvolvida, com a sede instalada na capital do reino, para onde o seu líder,
Fernando Dias Fernandes, se transferiu com a mulher e os filhos, estabelecendo
sua morada na Casa dos Degolados, ao Rossio. Em Outubro de 1703, tudo se
alterou com a sua prisão, de sua mulher e de seus dois filhos mais velhos,
entre eles o capitão do navio S. Miguel. Todos quatro seriam sentenciados em
1706, com a mulher a ser queimada, como atrás se disse. E no seguimento destes e de outros processos,
Fernando Dias fugiu com os filhos para a Inglaterra.
Mas não se pense que a rede
familiar de negócios se desfez. Ao contrário, eles descobriram oportunidades
novas, promovendo ainda mais a internacionalização de suas empresas. E em
Portugal, sob a liderança de António Dias Fernandes, para além de prosseguirem
compra e venda directa de mercadorias e na exportação e importação de produtos,
especializaram-se na arrematação da cobrança de rendas eclesiásticas em
comendas, reitorias e bispados e no abastecimento de géneros e abono dos
vencimentos às tropas estacionadas na Beira e do Minho. E isto só era possível
ser garantido por gente de muito capital. Imagine o leitor as ingentes tarefas
de pagar os ordenados a um exército, providenciar a compra e confecção de
géneros alimentares a toda aquela gente. Imagine só a dificuldade em comprar
tantos alqueires de cereal em anos de escassez e sua condução às tulhas,
aluguer de fornos e contratação de forneiras para o fabricar, providencias a
lenha para os fornos, etc. E também adquirir palha e cevada para alimentar os
cavalos… e tratar com inúmeros lavradores a condução destes produtos em lentos
carros de bois.
Na verdade, era necessário muito
trabalho, muita organização empresarial e muitos cabedais, que o Estado sempre
se atrasou nos pagamentos e em Lisboa, só depois de muitos carimbos é que o
dinheiro saía dos cofres das repartições.
Porém… eram também esses
contratos os mais apetecidos e os que mais rendiam. No processo de António Dias
Fernandes fala-se em um recibo de 724 contos de réis (uma loucura, se nos
lembrarmos que o orçamento anual da cidade de Lisboa, por exemplo, não ascendia
a então a 20 contos) de pagamento de serviços prestados às tropas estacionadas
no Alto Minho.
Muito gostaria de lhes apresentar
o inventário dos seus bens, mas torna-se de todo impossível no âmbito de um
artigo de jornal, pois que ele ocupa mais de 200 páginas do seu processo. Vou
apenas levantar uma pontinha do véu.
Assim, direi que as casas em que
morava, em Freixo de Numão, com 3 ou 4 dependências anexas, para animais, foram
avaliadas em mais de um conto de réis – o preço de um palacete! Mas em Freixo
de Numão tinha ainda mais 4 ou 5 casas arrendadas. E em Fozcôa, em Alfândega da
Fé e em Mós do Douro tinha outras mais casas. Nesta última povoação era também
co-proprietário de um lagar de azeite.
De suas propriedades agrícolas,
espalhadas por muitas terras, vamos apenas referir duas, sitas no temo de
Fozcôa. Uma situava-se no Vale da Quinta e andava repartida por 8 lavradores
que a cultivavam de meias. A outra era no vale dos Olmos e tinha 3 casas que
serviam para acomodação dos caseiros e dos gados e tinha de circuito coisa de
uma légua, o que nos dá uma área de mais de 20 hectares.
A avaliar pela quantidade de
olivais inventariados, o azeite seria a principal das produções das suas terras
mas como se estava em vésperas de nova colheita que, aliás, se anunciava de
abundância, não ficaram números registados. Mas sabemos que tinha em sua casa
uns 600 almudes de azeite da última colheita, os quais renderiam uns 100 mil
réis. E três vezes mais valeriam as cerca de mil arrobas de sumagre arrecadado.
Da sua actividade de rendeiro,
direi apenas que ele trazia arrematadas, entre outras, as comendas das igrejas
de Torre de Moncorvo, Almendra, Longroiva, Izeda, Veiga de Leda, Reves… estas
últimas em terras de Bragança e de Chaves e que entre os devedores se contavam
Diogo Monteiro de Melo e Bernardino Pereira de Arosa, dois homens da mais alta
nobreza de Torre de Moncorvo, o feitor dos Távoras em Mirandela, o alcaide do
castelo de Bragança António Gomes da Mena e seu cunhado Lázaro Jorge de
Figueiredo Sarmento.
FONTE – IANTT, Inquisição de
Lisboa pº 1437, de António Dias Fernandes
NOTA – Este texto foi publicado
no jornal Terra Quente de 2012-11-15.
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