sábado, 17 de novembro de 2012

Manuel da Silveira, mercador de sedas, com loja aberta na Rua Nova em Lisboa

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
 

 Por 1650, na Rua Nova, em Lisboa, ganhava alguma relevância a loja dos Silveira, originários de Abrantes. Eram dois irmãos os proprietários da loja: Manuel e Estêvão. Um terceiro irmão era já falecido e a irmã Violante estava casada com um cristão velho, de boa linhagem, contador na Mesa da Consciência – um tribunal superior que funcionava na Corte, criado pelo rei D. João III e que tratava dos assuntos relacionados com as ordens religiosas e militares, capelas, mosteiros, universidade, etc. Tinham uma segunda irmã, Isabel Soares, que era casada com o mercador Marcos Dias Brandão. A vida matrimonial destes é que não corria lá muito bem, havendo notícias de infidelidade de Isabel ao marido. Não sabemos se foi por causa disso que ele a deixou e se abalou para o Brasil, fixando morada na Baía de Todos os Santos. E porque se tratava de uma família da boa sociedade burguesa, embora cristã nova, Isabel terá sido obrigada a meter-se no Recolhimento de S. Cristóvão, sendo o filho único do casal enviado para casa da avó em Abrantes. Em defesa do bom nome da família, parece mesmo que os dois irmãos tentaram apagá-la “mandando dar-lhe peçonha dando para isso dinheiro” – a fazer fé no testemunho de Manuel da Silveira.
A verdade é que, vivendo hospedada no Recolhimento, Isabel foi presa pela Inquisição, em Setembro de 1656, acusada de seguir a lei de Moisés. O processo é deveras interessante para o estudo deste tipo de instituições especialmente destinadas a recolher, em regime de clausura, mulheres da nobreza que, em defesa da unidade das heranças das famílias, não deveriam casar mas que também não estavam dispostas a aceitar os rigores de um convento de freiras, nem davam garantias de um viver em sociedade sem cair nos braços de algum Romeu. A avaliar pelo mobiliário, roupa e outros objectos de uso pessoal que ali tinha, fica-se com a ideia de que o apartamento de Isabel do Recolhimento era uma verdadeira suite em hotel de luxo, contando até com uma criada privativa. No processo também sobrelevam as pequenas tricas entre as recolhidas, “as cizânias e enredos, de parte a parte, como ordinariamente sucede entre mulheres”.
Mas não é o processo de Isabel Soares que agora nos interessa, mas o impacto da sua prisão na vida dos mercadores seus irmãos, em especial na de Manuel da Silveira que nos parece ser o líder do grupo empresarial. Certamente que a prisão ficou pesando como uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça. Mais cedo ou mais tarde, as razões que levaram a irmã à cadeia podiam levá-lo a ele.
E também preso nas cadeias da Inquisição de Lisboa se encontrava então o mercador Diogo Álvares, de quem se falou num dos últimos textos deste jornal. E também ele representava um sério risco para Manuel da Silveira. Sim, também ele o podia denunciar, até mesmo por vingança. Recordam-se os leitores que Diogo era viúvo? Pois foi ele próprio que matou a mulher, dando-lhe uma dose de veneno? E matou-a porque ela o atraiçoara metendo-se em relações amorosas com Manuel da Silveira? Dizia-se até que um filho que ela dera à luz não era do marido mas do Silveira.
E outras prisões tinham sido feitas por aquele tampo no círculo de amigos e conhecidos de Manuel da Silveira, nomeadamente um Gonçalo Rodrigues da Cunha, com sua mulher e filhos. E havia quem dissesse “que esta gente do Gonçalo Rodrigues não havia de deixar nem os postes da Rua Nova que não trouxesse à Inquisição”. Quer isto dizer que a generalidade dos moradores daquela rua eram judaizantes e todos corriam o risco de ser presos.
Contudo, o perigo maior espreitava de outro lado e tinha outro rosto: o de Manuel Cordeiro, um denunciante da pior espécie, um verdadeiro espia, metido entre os da sua nação. Estagiara anos antes na mesma cadeia, mas puseram-no em liberdade sem ir a qualquer auto de fé e declarando-o inocente.
Pois, este homem ter-se-á sabido insinuar e obtido a confiança de Manuel e Estêvão da Silveira, que o tinham por “conhecido e amigo há tantos anos” e com ele desabafavam e tinham conversas íntimas. Como aconteceu naquela tarde de 24 de Outubro de 1657, depois que fecharam a loja. Os irmãos Silveira contaram-lhe que, no último auto de fé que houvera em Lisboa, em Outubro do ano anterior, saíra processada uma mulher que estivera presa com sua irmã. E que essa mulher trouxera um recado que viera dar-lho ultimamente. E o recado era que a sua irmã os não tinha denunciado aos inquisidores e se mantinha negativa. Mas que não sabia se poderia aguentar até ao fim. Por isso, os aconselhava a que fugissem. E em prova de que a mulher falava verdade, trouxera um “gibão ou colete” que Isabel lhe confiara e ela trouxe vestido da prisão.
Manuel Cordeiro bem tentou arrancar-lhe o nome da tal mulher mas não conseguiu. Mas haveria de continuar a tentar, junto de outras pessoas das relações dos Silveira que estes… não demorariam a ser por ele denunciados e mandados prender pelo tribunal do Santo Ofício, como se verá.
Por agora continuemos a escutar aquela conversa dos Silveira com o Cordeiro e este a insinuar que o perigo era real e eles tinham dois caminhos à escolha. Um deles era a fuga para o estrangeiro, tal como a irmã aconselhava, no caso de terem culpas. O outro era apresentarem-se na Inquisição e provar que estavam inocentes, que os senhores logo os mandariam embora, como, aliás, acontecera consigo próprio.
Responderam os Silveira que não lhes convinha ausentarem-se do reino, pois que tudo tinham empenhado em fazendas que esperavam chegassem do Brasil na próxima frota – entre 40 e 50 mil cruzados, 25 a 30 contos de réis, o correspondente ao orçamento da câmara de Lisboa por alguns anos!
Além de que, por “uma negra lei que no tribunal do Santo Ofício se tinha feito havia pouco tempo” se fugissem, todos os seus bens seriam sequestrados. Depois… “haveria de meter-se o diabo no corpo de sua irmã” para os denunciar?! – terá comentado o Manuel, com alguma incredulidade e espanto.
Por outro lado, Manuel da Silveira era o maior benemérito da sua paróquia e espantou meia Lisboa quando mandou vir de Milão, Itália, um dossel para o altar do Santíssimo Sacramento da matriz, a igreja da Conceição, um dossel “de brocado de três altos, o mais rico que há nesta cidade”. E isto entre muitas outras ofertas pias que os irmãos Silveira faziam. E alguém poderia duvidar da religião de um homem que todos os dias do ano fazia rezar missas na paróquia, como era o caso de Manuel da Silveira?!
Seria mesmo por devoção que Manuel da Silveira fazia tudo isto? Ou seria “para ir assim vivendo com o mundo”? Ele acreditaria mesmo no Santíssimo Sacramento ou mandava rezar missas “contra a vontade a festejar um bocado de pão”?
Estas últimas são palavras que Manuel Cordeiro disse ter ouvido da boca de Manuel da Silveira naquela conversa de que vimos falando e que ele, poucos dias depois, foi contar aos inquisidores e consta do processo instaurado a Manuel da Silveira, que, duas semanas depois, em 7 de Novembro de 1657, decidiu seguir o conselho do denunciante e apresentar-se no tribunal do Santo Ofício e ali ficou preso.
FONTES
Inquisição de Lisboa, processos de Manuel da Silveira e de Isabel Soares.
 

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