terça-feira, 27 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 24


Luís de Carvajal, o Moço. Um sobrinho de D. Luís de Carvajal y la Cueva, filho de sua irmã Francisca Nunes de Carvajal e de seu marido Francisco Rodrigues de Matos, recebeu o nome do tio. Por isso ficou conhecido por Luís de Carvajal, o Moço, enquanto aquele é apelidado de o Conquistador. Tal como a mãe, já viúva, e todos os seus irmãos e irmãs, embarcou com o tio na aventura colonizadora em terras mexicanas. E com o tio, a mãe e os irmãos foi preso pela Inquisição e saiu condenado em penas espirituais no auto de fé realizado na cidade do México em 25 de Fevereiro de 1590. Mas isso não o fez mais cristão, antes pelo contrário. Espírito brilhante e profundamente religioso, era tido como um farol da fé, irradiando a luz da sabedoria, razão por que foi apelidado de Lumbroso. Luís apresentava-se publicamente como judeu e criticava os seus familiares e amigos por terem um comportamento exterior católico e esconderem as suas convicções judaicas. E sempre procurava catequizá-los na lei de Moisés. Foi novamente preso e morreu afirmando o seu judaísmo no auto de fé celebrado em 8 de Dezembro de 1596. Por isso mesmo é considerado um dos mártires do judaísmo. O padre Contreras que o acompanhou até ao último momento, daria dele o seguinte e eloquente testemunho:
- Foi sempre tão bom judeu, conciliou o seu conhecimento, que era muito profundo e de grande sensibilidade, com a sua fé, o que fez dele um grande lutador e intransigente defensor da sua fé. Não tenho dúvidas de que, se tivesse vivido antes da encarnação de Cristo Redentor, ele teria sido um herói e o seu nome teria ficado célebre na Bíblia, como o nome daqueles que morreram em defesa da fé.
Na vila de Mogadouro, de onde era originário, que bem ficaria uma simples placa em sua recordação, nela se escrevendo o seguinte poema de Shumamith Chavaheveley:

El Lumbroso.

Naquela noite estava tão radiante,

Que mal se podia ver pela luz que emitia.

Agora na incandescente aurora,

Estou exposto diante do teu olhar

Sem esperança.

A fogueira está alta bastante,

Para que possa ver o meu anjo chorar.

Padre Contreras frágil e vulnerável

Murmura: - Porquê?

Ouçam as chamas crepitar,

Escutem os seus lamentos.

A minha carne arde no fogo.

Juntos testemunhamos

A sua transformação em cinzas.

Juntos vemo-las voar,

Tu e eu, como dançamos,

Cada vez mais perto as chamas,

Para a minha carne

Para a minha morte.

A sua velha alma sabe

Que eu não podia morrer.

Mas o espírito é jovem,

Ainda não pode ler os sinais do céu.

Preso ao meu rasto,

Protegido por mim,

Ficaste em oração

Para que a luz em que me tornei

Te ilumine.

O meu coração eleva-se,

Transportado nos seus sonhos.

Quatrocentos anos no abismo

Não podem apagar a marca.

As nossas memórias chamam,

Posso ainda abraçar,

Posso ainda entrar em ti,

Respirar a minha eternidade

Em tua alma pura.

 António Júlio Andrade

 

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