quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 13

Aldeia de Sambade - 2012
António Rodrigues Mogadouro. Uma das irmãs de Manuel Fernandes Vila Real chamou-se Isabel Henriques e foi casada com António Rodrigues Mogadouro. A este, o sobrenome ficou-lhe da terra onde terá nascido ou passado a infância, pois que o filho mais velho indicou a aldeia de Sambade como a terra natal de seu pai. Mogadouro  e Sambade eram então duas terras relativamente próximas e complementares, na medida em que Mogadouro produzia muitas lãs e Sambade era o grande centro da indústria têxtil do Nordeste Trasmontano. Nascido por volta do ano de 1598, António Rodrigues cedo começou a viajar e a mercadejar por terras de Castela onde tinha cópia de familiares, nomeadamente em Madrid, cidade pujante em termos de construção civil e seu tio António Álvares dominava a produção e venda de tijolos (“ladrillos”). Madrid era então a jovem capital de Espanha unificada e a função pública ganhava respeito e dignidade. E António tinha dois primos empregados em organismos do Estado, altos funcionários, como hoje se diria. Facto é que, aos 22 anos, ele decidiu fixar-se em Madrid, ali permanecendo por 5 anos. Regressou a Trás-os-Montes e foi casar a Vila Real, com Maria Lopes, a qual faleceu pouco depois, sem lhe dar descendência. Voltou a Madrid mas… em 1933 regressou definitivamente a Portugal, estabelecendo-se em Lisboa, com casa de comércio, na Rua das Mudas. E logo voltou a casar, com Isabel Henriques, como atrás se disse. Poucos anos depois, aquando da revolução de 1640, já a casa comercial do Mogadouro tinha nome, a ponto de “ganhar o concurso” para o fornecimento de géneros aos exércitos estacionados em Trás-os-Montes. Certamente ajudaram nisso as relações com a família dos Távoras, senhores de Mogadouro e com o Conde de castelo melhor que naquela mesma família estava casado. E ainda mais ajudariam seus numerosos irmãos e irmãs estabelecidos por Mogadouro, Sambade, Chacim, Miranda do Douro… todos trabalhando em rede. E em rede trabalhava com outros irmãos, primos e sobrinhos que ele tinha em Madrid, Bordéus, Livorno… Em simultâneo cresciam os filhos e com estes metidos na empresa desde cedo, alargavam-se os negócios, em termos geográficos e na diversificação de produtos comerciados: especiarias e diamantes da Índia, escravos de Angola, açúcar e tabaco do Brasil, sal, vinho e azeite de Portugal, tecidos e metais do Norte da Europa… Entretanto o poder político mudou de mãos, com o rei Afonso VI a ser encarcerado e a ver a mulher casar-se com o irmão Pedro, este aclamado rei nas Cortes Gerais da Nação cujos membros eram na grande maioria Familiares da Inquisição. E com o “partido da inquisição” a tomar as rédeas do poder, as primeiras vítimas foram, naturalmente, os mercadores marranos apoiantes do regime e que, respondendo ao apelo do padre António Vieira, entraram com seus capitais na fundação da Companhia das Índias. E assim António Rodrigues Mogadouro foi preso em 29 de Julho de 1672, juntamente com os dois filhos varões mais velhos, seguindo-se os outros todos, à excepção de uma filha casada com o primo Diogo Rodrigues Marques que conseguiu fugir para Inglaterra. Ao cabo de 7 anos o velho patriarca morreu na cadeia. Mas o seu processo na inquisição não terminou. Apenas foi encerrado no auto de fé de 26.11.1684, em que os seus ossos foram desenterrados, metidos em um caixão e queimados na fogueira, juntamente com um boneco de palha que o representava. Na cadeia também morreram duas filhas, uma delas pouco depois de ser presa e lavando um filho no ventre prestes a nascer e que também morreu. O filho mais velho, António Rodrigues Henriques, que à data da prisão era já o gestor executivo das empresas Mogadouro, esse foi queimado vivo no auto de fé de 10.5.1682. No mesmo auto saiu penitenciada a filha mais nova, Brites Henriques e os filhos Francisco e Pantaleão. Este acabaria por reconstruir a sua vida e, anos depois, aparecia em Lodres como um dos 5 líderes da comunidade judaica que assinaram o contrato para construção da sinagoga de Bevis Marks.
António Júlio Andrade

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