quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 6

Sambade -2012
Roque de Leão. No dia 14 de Abril de 1685, a Corte de França, atendendo à súplica do Conselho Municipal da cidade de Toulouse, proferiu uma estranha sentença ordenando que 18 pessoas de origem portuguesa, mercadores ali estabelecidos e que estavam presos, acusados de práticas de judaísmo, fossem conduzidos pelas ruas da cidade em cima de uma carroça com uma corda ao pescoço até à praça de S. George e ali, sobre uma pira de lenha, fossem queimados vivos e as suas cinzas espalhadas ao vento. Desde há mais de 300 anos que tal coisa não se via na pátria do rei-sol e das luzes da sabedoria. Este episódio deixou em estado de choque todo o mundo civilizado. Já nem as inquisições de Portugal e Espanha agiam com tanta crueldade. Em simultâneo, em Inglaterra, a mais conceituada instituição de ensino, o Magdalene College foi entregue aos Jesuítas pelo rei Jaime II que o transformaram em seminário católico. Os dois factos, acrescentados a muitos outros de natureza semelhante, fizeram os Sefarditas e Anglicanos e Asquenazes e os governantes da Holanda, Alemanha, Suécia e outros países no Norte pensar que havia uma aliança entre a França e a Inglaterra e um dos pontos do programa comum era estabelecer a inquisição nos dois países. E todo o mundo sefardita e a finança internacional se mobilizou e a Inglaterra foi invadida e o rei apeado e substituído por Guilherme de Orange, enquanto o rei sol entrava em declínio, com a França a apagar-se na cena internacional e o império inglês a expandir-se. Voltando a Toulouse, diremos que aquele verdadeiro auto de fé se realizou dois dias depois mas em vez das pessoas foram queimados 18 bonecos de palha. É que, quase misteriosamente, eles conseguiram fugir para Amesterdão. À cabeça deste grupo de 18 condenados à morte encontrava-se Roque de Leão, juntamente com a mulher e um filho. Roque era acusado de ser o Rabi dos judeus de Toulouse e a sua casa de ser a sinagoga. As origens de Roque de Leão eram de Sambade, no concelho de Alfândega da Fé. Não sabemos se ele nasceu na cadeia, quando a sua mãe, Francisca Lopes, foi presa, ou se nasceu depois de ela sair da cadeia e regressar a Sambade. Ou mesmo se nasceu quando os pais se encontravam a morar na Galiza, antes de rumar a Madrid e a França. De qualquer modo a sua memória deve ser perpetuada em Sambade. Não vou aqui falar mais deste grande trasmontano e sefardita. Breve contamos que sairá um livro sobre os Marranos de Sambade, da minha autoria e da investigadora da cátedra de estudos sefarditas Alberto Benveniste da universidade de Lisboa, Maria Fernanda Guimarães, editado pela câmara municipal de Alfândega da Fé. Aí o leitor poderá ver muitas mais coisas da grande epopeia desta gente, de cujo sangue todos nós teremos uma gota e disso devemos orgulhar-nos.
António Júlio Andrade

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário