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| Vila Flor - 1951 |
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 9
Tomás Rodrigues Pereira. Nasceu em Vila Flor por 1605 e
faleceu em Amesterdão em 1699. Depois de casar com Beatriz Gomes, o casal
deixou Vila Flor e foi para Madrid. Em Espanha começou por trabalhar no negócio
da distribuição do sal e nos anos 30 tornou-se conhecido como exportador de lãs
para França. Em tais negócios usava o pseudónimo de Francisco de Gurre, o que
deixa adivinhar alguma margem de ilegalidade ou fuga aos impostos. Por 1640,
seguiu com a mulher, os filhos e a sogra para Amesterdão, abraçando claramente
o judaísmo e tomando o nome de Abraão Israel, ao circuncidar-se, naturalmente.
Mercador abastado e influente no seio da comunidade, conseguiu autorização para
instalar uma refinaria de açúcar, a primeira que houve em Amesterdão. O tempo
era de angústia para os sefarditas, com o “auto de fé” de Toulouse, em França e
a Inglaterra a abrir-se aos católicos. Tomás Rodrigues Pereira não podia ficar
indiferente e colocou-se desde logo ao lado de Guilherme III na luta contra o
rei de Inglaterra Jaime II, tomando o encargo do abastecimento das tropas,
juntamente com Álvaro machado. Esta operação terá sido coordenada pelo seu
filho Jacob e terá envolvido 28 padeiros, 700 a 800 cavalos e 300 a 400 vagões.
Não era coisa fácil dar de comer a exércitos estacionados, quanto mais em
manobras de invasão de um país estranho. Para além de mercador, Tomás era
também banqueiro e foi um doa 20 fundadores do Banco de Hamburgo, o primeiro
que existiu. E era também um homem de letras e o seu nome está ligado à
fundação do primeiro jornal impresso a nível mundial – a Gazeta de Amesterdão.
Tal como aparece entre os fundadores da célebre Academia dos Floridos, cujo
membro mais brilhante foi Oróbio de Castro. Quando em 1666 chegou a Amesterdão
a notícia de que o Messias havia aparecido e estava na Terra Santa, pronto a
tomar a liderança da nação hebreia, Tomás meteu-se logo a caminho da Palestina
ao encontro do Messias. Descobriu-se o logro quando Tomás Pereira ia já em
Veneza e terá sofrido uma tremenda desilusão. Mas isso não o fez esmorecer na
fé mosaica e não impediu que ele custeasse a criação de uma escola talmúdica,
espécie de seminário, em hebron, na Terra Santa. E quando faleceu, deixou 46
000 florins à Talmud Totah de Amesterdão. De entre os seus escritos religiosos,
destacam-se dois livros: Certeza del Camiño e Espejo de la vanidad del Mundo.
Será que nas escolas de Vila Flor o nome deste grande sefardita foi alguma vez
citado, como exemplo para as gerações mais novas?
António Júlio Andrade
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