sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 7

Pavillon Du Chateau Raba
Abraão Raba. A história dos Raba, de Quintela de Lampaças, Vila Franca e Bragança na inquisição é mais comprida que a linha do comboio. Os últimos a serem penitenciados foi no auto de fé de Coimbra de 1751, posto o que a família abalou para França, dirigida pela matriarca e pelo filho mais velho, José Henriques Nunes. Aportados a Bordéus aderiram abertamente ao judaísmo, tomando José o nome de Abraão. Com eles seguiu a prima Catarina que, desde criança fora destinada a casar com José. O casamento realizou-se pouco depois da chegada a França, por 1763. 4 anos depois Abraão Raba era já um homem respeitado e influente, a ponto de ser eleito síndico da comunidade. Nessa qualidade, em 22 .3.1768 convocou uma assembleia dos notáveis destinada a desfazer equívocos e mexericos sobre o seu casamento, pois corria o boato de que ele não pagara o imposto sobre o dote recebido da noiva. Ele então mostrou o contrato de casamento e provou que nada recebeu em dote, pelo que não tinha qualquer taxa ou imposto a pagar. Estranhou, porém, que aos seus pares não bastasse a sua palavra honrada e fosse preciso chegar a esta devassa da sua vida. E anunciou com toda a solenidade que decidira fazer uma oferta aos pobres da comuna, depositando, acto contínuo, 90 libras nas mãos do adjunto do síndico. Se antes era já um homem respeitado e influente, mais ficou sendo e seus negócios e de seus irmãos, que todos trabalhavam em rede, cresceram rapidamente, girando em volta do comércio marítimo, para o que adquiriram uma frota de barcos e da importação de açúcar das Antilhas. Aliás, dois dos irmãos foram fixar-se naquelas paragens, abrindo uma sucursal da firma Raba em Port-au-Prince. Na cidade de Bordéus moravam em um palacete na Rue des Fossés mas, à moda da época, em sinal de riqueza e prestígio, os Raba construíram em Talence, arredores de Bordéus “uma das mais belas casas de campo existentes em França” – como era apresentada no famoso guia turístico de Mr Bernadau. Nele se descrevem com inusitado pormenor, os salões do palácio e o jardim povoado de estátuas e inscrições, onde se davam famosos concertos musicais e promoviam elegantes recepções, frequentadas por personalidades da primeira linhada aristocracia de França, como foi o caso de Beaumarchais e mesmo de Napoleão Bonaparte. Conta-se que as tropas de Napoleão quando invadiram Portugal pelo Norte não seguiram o caminho mais direito entrando por Bragança, antes foram dar uma volta bastante grande e entraram por Chaves, exactamente porque os Raba terão pedido ao imperador e à imperatriz Josephine, que estavam hospedados no seu palácio, que poupassem a sua terra natal. Creio que existem descendentes directos dos Raba, mantendo este sobrenome. Não sei é se o palácio de Talence, hoje transformado em hotel de 4 estrelas ainda se mantém na posse da família. Bem gostaria de ir lá em viagem de turismo cultural. E também não sei se os Brigantinos e Trasmontanos ainda iremos a tempo de saldar uma dívida de gratidão a sefarditas que bem prestigiaram a terra que lhes foi madrasta, mas que foi a terra onde viram a luz.

 António Júlio Andrade

Sem comentários:

Enviar um comentário