quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Marranos de Lagoaça no Tribunal da Inquisição

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães

- Próximo da minha terra natal há uma povoação – Lagoaça – onde as famílias indicadas por judias são numerosas e formam o grosso da população, considerando-se, desde tempos imemoriais, separadas de qualquer consanguinidade ou afinidade com a outra parte, que é especialmente agrícola e mesteiral, enquanto aquela se dedica ao comércio quase absolutamente e, até há poucos anos, exclusivamente às recovagens e ao contrabando; afastados completamente da vida pública, em que nem tentavam intrometer-se, com costumes e usos muito diferentes dos do resto da população, com a qual porém se confundiam nas práticas externas do catolicismo.
Estas palavras escreveu, por 1879, o Dr. Bernardo Teixeira Leite Velho, de Mogadouro, em umas notas que deixou manuscritas e de que o Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado publicou alguns excertos. [1]
Muitas referências foram também feitas pelo Abade de Baçal aos criptojudeus de Lagoaça, assim retratados:
- Diz-nos o ilustre abade de Carviçais que o tipo de judeu do sul do distrito é sardento, olhos penetrantes, nariz adunco e que são chamados Cházaros em Lagoaça.[2]
No mesmo volume, página LX, das suas memórias, acrescenta:
- Segundo me informa o erudito abade de Carviçais José Augusto Tavares, também no sul do distrito de Bragança, principalmente nas povoações de Lagoaça e Vilarinho dos Galegos, há abafadores, que são conhecidos pelo nome de encalcadores e ainda massagistas.
Esta informação tem despertado muita controvérsia, sobretudo depois da publicação do conto de Miguel Torga – O Alma Grande – descrevendo a morte provocada de um moribundo, por asfixia. A verdade é que, nunca se provou tal prática e o comportamento das famílias marranas perante os seus moribundos seria idêntico ao das famílias católicas: prestar-lhes assistência e dar-lhe o conforto espiritual para bem morrer, na graça de Deus.
Diz uma tradição popular que os judeus expulsos de Espanha, que atravessaram a fronteira por Miranda do Douro, seguiram três destinos diferentes: os mais pobres, que vinham a pé, ficaram-se por Carção e Argoselo, os que eram remediados e vinham de burro, seguiram para as terras de Mogadouro e Vilarinho dos Galegos, enquanto os mais ricos, donos de possantes machos e mulas, se foram fixar em Lagoaça. De contrário, refere-se outra tradição dizendo que a terra de fixação dos judeus ricos era Freixo de Espada à Cinta e que para Lagoaça foram os judeus pobres.
Certamente que nenhuma das afirmações encerra toda a verdade, até porque a principal característica da gente da nação hebreia era exactamente a sua permanente mobilidade e o estabelecimento de redes comerciais familiares descentralizadas. Estavam onde podiam estar e aproveitavam todas as oportunidades que lhe eram proporcionadas. Como quer que seja, são indiscutíveis as tradições judaicas e marranas de Lagoaça e há um rifão popular que diz:


 

Morcegos na Adeganha

Em Fornos batateiros;

Judeus na Lagoaça

Em Açoreira pepineiros.

 
Vamos então a Lagoaça, olhar as casas e falar com as pessoas, à procura das suas raízes judaicas e da sua ambiência cultural marrana.
Desde logo, não cremos que ali tenha existido qualquer judiaria, ou seja, um espaço próprio e delimitado onde os judeus habitassem. No entanto, o facto de uma das ruas mais antigas e centrais da povoação ter o nome de Rua Nova, deixa adivinhar que o elemento hebreu seria predominante neste arruamento. Na verdade, na generalidade das terras portuguesas, as antigas judiarias foram baptizadas com aquele nome, depois da promulgação do decreto de expulsão dos judeus pelo rei D. Manuel.
Também na Rua da Costa predominava a gente da nação, dizendo-se que, até há bem poucos anos, quando se encontrava um morador daquela na Rua da Argana (esta era dos cristãos), havia confusão, de certeza.
Infelizmente são poucos entre nós os estudos de arqueologia judaica e nenhum especialista se terá debruçado sobre Lagoaça.[3]  No entanto, até mesmo para leigos, é fácil descobrir ali marcas de cristianização, que o mesmo é dizer, sinais de afirmação marrana, em casas da Rua da Costa (nº 2 e nº 27, por exemplo) com ombreiras e padieiras de portas e janelas decoradas com cruzes. O mesmo na Rua Nova e na Rua da Quintinha. E em plena Praça se apresenta a porta principal da casa nº 7 com a padieira bem iluminada por uma rosa / cruz - um símbolo judeu e cabalístico. [4]
Mas se o património arqueológico marrano surpreende em Lagoaça, mais significativo é o seu património imaterial: usos e costumes, crenças e orações judaicas. Não vamos aqui falar deste património, pois isso nos faria alongar demasiado o texto e desviaria do objectivo que nos impusemos. Remetemos, no entanto, os interessados para as obras já citadas do Abade de Baçal, de Casimiro Machado e muito especialmente de Amílcar Paulo. [5]
E se nos impressiona o facto de, por mais de 400 anos se terem mantido no seio de algumas famílias de Lagoaça semelhantes tradições, cerimónias e rezas da religião mosaica, mais impressionante será o reconhecimento da indómita vontade de tal gente em perseverar na mesma crença, por séculos afora, apesar de todas as perseguições e esforços de extermínio por parte dos poderes constituídos, da Inquisição à Igreja Católica e ao Estado Novo. E assim, quando em Portugal foi concedida alguma liberdade religiosa e em Lisboa se construiu a primeira sinagoga dos tempos modernos, houve gente de Lagoaça presente no acto da sua inauguração, em 1904. E depois, por 1932, quando no Porto renasceu das cinzas a comunidade israelita, com a Obra do Resgate, logo apareceram mancebos de Lagoaça que se fizeram circuncidar, publicando-se até em letra de jornal os nomes de alguns:
* Adriano Augusto Lopes, que tomou o nome de Abraham.
* Manuel Lapo, que recebeu o nome de David.
* António Ferreira, que passou a chamar-se Arão
* Armando Augusto Horta…[6]
Desse período ficou também o registo da celebração da festa do Hanucah – em 30 do Kislev de 5693 (29 de Dezembro de 1932, na era cristã), - no Porto, com récitas feitas pelos talmidim (alunos do seminário judaico), entre os quais se contou a de Judah Lopes, de Lagoaça, com o título de “Rocha”, como noticiava o jornal Ha-Lapid nº 51.
E apareceu também Amílcar Paulo integrando a mesma comunidade marrana do Porto, também ele vizinho de Lagoaça. E apareceu mais gente a dar a cara pela crença de seus antepassados, como foi o caso da família de Albino José de Castro cuja fotografia foi publicada na revista Douro Litoral, ilustrando o texto de Amílcar Paulo sobre “Os Marranos de Trás-os-Montes”, em 1956, fotografia que aqui reproduzimos. [7]
Mas se a herança judaica e marrana foi guardada em segredo no seio das famílias, a grande fonte para o seu estudo são os processos da Inquisição os quais se conservam no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A sua consulta é obrigatória e imprescindível. E aqui surge a primeira desilusão: efectivamente são muito poucos os processos que ali existem referentes a pessoas de Lagoaça!
Com explicar que uma terra de tantas memórias e tradições marranas apresente um historial de perseguições inquisitoriais assim reduzido? Pensamos que o fenómeno se explicará pelo facto de ser uma terra fronteiriça, um ponto de passagem entre os dois países ibéricos, em zona inóspita, de íngremes ladeiras e desabitada, de um lado e outro da raia. A fuga era sempre muito fácil! Aliás, também por aquele ponto do rio Douro (sítio da Barca de Vilvestre) passavam os contrabandistas e davam o salto os emigrantes modernos.
Por outro lado, sendo uma terra pequena, de passagem constante, sem um poder político instalado e nele incluindo Familiares da Inquisição, esta não teria quem espiasse e “bufasse” informações. Aliás, do ponto de vista político e administrativo Lagoaça viveu sempre alguma instabilidade, sendo concelho autónomo em algum tempo, integrando-se em Mogadouro noutras épocas e finalmente no de Freixo, sendo que sempre o seu relacionamento económico e comercial sempre terá sido mais com Torre de Moncorvo.
Poderá até acontecer que, sendo maioritária a população marrana em Lagoaça, eles impunham as regras e ordenavam o viver colectivo. Assim se compreenderá que, até os poucos processos inquisitoriais que foram instruídos a gente de Lagoaça tivessem todos início em informações vindas de outras terras vizinhas, nomeadamente de Chacim.
NOTA: Esta é a introdução de um texto publicado no livro Trás-os-Montes e Alto Douro Mosaico de Ciência e Cultura, editado pela Comissão de festas de Nª Sª das Graças 2011, de Lagoaça, concelho de Freixo de Espada à Cinta, pg. 271 - 282


[1] CASIMIRO HENRIQUES DE MORAES MACHADO, Mogadouro um olhar sobre o passado, edição de Herdeiros de C. H. M. M., pg. 98, Mogadouro, 1998.
 
[2] FRANCISCO MANUEL ALVES, Memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança, vol. V, pg. LIV, Bragança, 2000.
 
[3] Sobre este tema consultar  “Arqueologia Judaica do Concelho de Moncorvo ( Novos Elementos) - Carmen Ballesteros , Universidade de Évora – CIDEHUS – Dra. Carla Santos.
Caderno de Estudos Sefarditas n.º 4 de 2004.
 
[4] ANTONIO LULIO ANDRADE, Lagoaça notas de arqueologia judaica, in: Jornal Terra Quente, de 1 de Outubro de 2004.
 
[5] AMILCAR PAULO, Os marranos em Trás-os-Montes, in: Douro Litoral, boletim da Comissão de Etnografia e História, sétima série, V-VI e VII-VIII, Porto, 1956. Deste trabalho, páginas 531 – 532, extractamos:
- Em Lagoaça e em Vilarinho dos Galegos vigora o costume de se não comer, na Semana Santa, pão fermentado, mas sim bolos cozidos entre duas telhas (…) Quando morre alguém é uso iluminar a câmara mortuária com muitas luzes durante 9 dias; a família enlutada manda fazer a cama e espalhar farinha em volta da mesa, sobre a qual coloca alguns alimentos, como se o defunto estivesse vivo e, em seguida, vestem um indigente com a roupa dele para que ocupe à mesa o seu lugar, ao mesmo tempo que dão esmolas aos pobres e colocam sob o leito todo o pão cozido que houver em casa, dizendo: - “Pega leão; deixa a alma deste defunto enquanto passa o rio Jordão”. Todas as noites, durante nove dias, os familiares vão ao quarto que pertenceu ao defunto e dizem: - “Boa noite te dê Deus / Tu já foste como nós / E nós seremos como vós”.
 
 
[6] Jornal HA-LAPID, nº 45 e seguintes.
 
[7] Seria interessante juntar as orações recolhidas em Lagoaça nos tempos modernos, por Amílcar Paulo e outros investigadores e comparar com as que são apresentadas nos processos da Inquisição. A título de exemplo, vejam esta, recolhida por A. Paulo e publicada na página 539 do trabalho citado: - Adonay comigo / e eu com Ele / Ele adiante / e eu atrás dele. E ainda esta, publicada na página 551:
 
- Bendito tu Adonay, nosso Deus,
Rei do mundo que nos santificaste
nas santas encomendanças,
benditas e santas, santas e benditas,
nos recomendaste pelos teus profetas
para distinguir o teu santo dia
e nele repousar, e escolheste
em terras de Israel. Amén.
 

tivessem todos início em informações vindas de outras terras vizinhas, nomeadamente de Chacim.

NOTA: Esta é a introdução de um texto publicado no livro Trás-os-Montes e Alto Douro Mosaico de Ciência e Cultura, editado pela Comissão de festas de Nª Sª das Graças 2011, de Lagoaça, concelho de Freixo de Espada à Cinta, pg. 271 - 282

2 comentários:

  1. Vivo em Setubal e gostava que me informassem como posso comprar o livro?

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  2. Maria Adelaide Madeira escreveu: Pode saber-se alguma coisa sobre judeus em Freixo? SE sim, onde? Obrigada

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