domingo, 14 de outubro de 2012

Descendentes de Francisco Rodrigues Brandão Faro entre Viseu e Londres

por: António J. Andrade
       Maria F. Guimarães
MONCORVO .1974

No dia 26 de Maio de 1779, na cidade de Londres, fazia seu testamento um indivíduo que se identificava como mercador, natural de Viseu e se assinava Joshua Rodrigues Brandão. Anos antes, em 25.1.1768, na mesma cidade, um outro mercador, chamado Abraham Rodrigues Brandão tinha feito testamento semelhante. Para além da identificação, do expresso desejo de ser sepultado no cemitério dos Portugueses, das disposições sobre a herança dos bens, Abraham deixava 20 libras/ano para a sua irmã Mariana, casada com Mateus Oróbio Furtado, residente em Viseu. E contemplava ainda seus sobrinhos, filhos de sua irmã Isabel, casada com João Pereira Dias, residente em França. 
Sem dúvida que os nomes judaicos de Abraham e Joshua não foram os recebidos no baptismo cristão feito em Portugal, antes foram adoptados depois da fuga para o estrangeiro e ingresso na comunidade judaica, porventura no acto da sua circuncisão. Sabemos, porém, que Abraham e Joshua eram irmãos e ambos deixaram descendência directa. Alguns de seus descendentes continuaram vivendo em Inglaterra e outros emigraram para o continente americano, ganharam notoriedade e são bem conhecidos.
E foi a seu pedido que nós partimos à procura dos ascendentes de Mariana, Abraham, Joshua e outros seus parentes. Naturalmente que, por se tratar de gente cristã-nova, a procura começou pelos arquivos da Inquisição Portuguesa. E logo verificámos que Mariana e seus 7 irmãos foram quase todos hóspedes daquele tribunal, como, aliás, muitos mais parentes seus. Possivelmente também o terão sido Joshua e Abraham que então teriam os nomes de João e Lopo Rodrigues Brandão, segundo pensamos, se bem que não tenhamos ainda provas concretas desta identidade. Mas temos a certeza de que ambos eram filhos de Francisco Rodrigues Brandão Faro e de Guiomar Rodrigues Portelo, estes nascidos por 1662 e que também conheceram as masmorras do Santo Ofício.
Fiquemos então em Viseu, na Rua Nova, na morada de Francisco e Guiomar, ao início do mês de Novembro de 1698, quando a Inquisição o foi prender. Antes de mais, diga-se que ele suspeitava que poderia ser preso já que, antecipadamente ele tratara de enviar uma pequena fortuna (quase de 3 contos de réis, em “250 ducatões de ouro”!) para Londres. E, no próprio dia da prisão, entrando ele em casa, uma criada lhe dissera que fora ali procurado pelo padre António Chaves, vizinho da Rua Nova, que até entrou no seu escritório e se pôs a mexer-lhe nos papéis. E ao ouvir isto, Francisco foi direito aos papéis, ripou da folha comprovativa do envio dos 250 ducatões para Londres e rasgou-a atirando os pedacinhos pela janela para a rua. Só que o mesmo padre estava de vigia e mandou um rapazito apanhar os pedaços de papel e reconstituiu a folha. Era realmente um conhecimento (tipo nota de recibo) da remessa daquele dinheiro, uma prova de que ele estava colocando no estrangeiro os seus recursos financeiros e talvez preparando a fuga.
Bom, vejamos agora a situação económica do casal. Antes de mais, diga-se a casa onde moravam era muito boa pois foi avaliada em 250 mil réis. O casal era ainda proprietário de uma casa sita numa das 4 esquinas da mesma rua, vendida por 140 mil réis, de 2 outras na mesma rua que serviam de tulha para recolha do cereal e mais uma pegada às tulhas, que arrematara um ano antes por 120 mil réis no Juízo do Fisco. Em Viseu ainda, na Rua da Carvoeira, era co-proprietário de mais 2 casas. Do seu património imobiliário constava ainda uma casa sita em Lisboa, junto à igreja de Santa Engrácia, a qual era dotada de uma atafona que, pensamos, serviria para moer os fardos de tabaco vindos do Brasil. Aliás, a casa e atafona tinham o formidável valor de 750 mil réis!
E vale bem a pena dizer que o imóvel pertencera em tempos ao chantre da Sé de Viseu, o licenciado João Saraiva de Carvalho. Foi dada como hipoteca de uma dívida de 600 mil réis a um seu parente que morava no Brasil – Francisco Rodrigues, o Temeroso, de alcunha – e, talvez por não ter filhos, chegou ás mãos de Brandão Faro e de sua tia por afinidade, Leonor Mendes, viúva de João Rodrigues Portelo.
E estes são 3 elementos da rede familiar de negócios de Francisco Brandão Faro. E se do Brasil recebia fardos de tabaco e caixas de açúcar descarregadas em Lisboa, para aquela colónia, enviava em troca remessas de vinho, tecidos, ferramentas… A título de exemplo, diremos que, tempo antes da prisão, ele remetera para o Brasil 35 almudes de aguardente, carregados no Porto por seu primo Diogo Vaz Faro que, por sua vez, recebia 3 arrobas de “pau cravo”. A aguardente, porém, era fabricada na Sabugosa, termo de Tondela, onde Francisco tinha montado um alambique de cobre. E ali tinha também um celeiro onde recolhia o cereal proveniente das rendas que trazia arrematadas à Mitra de Viseu.
Mas, se no Porto era Diogo Vaz que tratava dos negócios de Francisco com o Brasil, já com a praça de Londres era Rodrigo Álvares da Fonseca o intermediário privilegiado. Por suas mãos transitaram os 250 ducatões, como transitavam as pipas de vinho, os açúcares ou os tabacos. E em Londres o parceiro comercial de Francisco era o seu parente Luís de Castro, que antes em Portugal se chamava Nuno Rodrigo Portelo e que, em troca, lhe despachava predominantemente tecidos. E não era só a cidade do Porto o palco dos negócios entre Luís de Castro e Brandão Faro. Não, que os ovos não devem meter-se todos no mesmo cesto. Por uma questão de segurança, algumas operações de embarque / desembarque de mercadorias negociadas eram efectuadas no porto de Viana do Castelo, por exemplo, onde o seu representante era um tal João Reimaste, estrangeiro.
Por esclarecer estará ainda a questão do nome Faro, mas que terá sido acrescentado ao apelido por alguma ligação à cidade capital do Algarve e por ali passariam certamente alguns de seus negócios.
Na rede comercial de Brandão Faro entrariam provavelmente muitas mais pessoas, geralmente ligadas por laços familiares, como era o caso de seu cunhado Domingos Pereira, marido de Isabel Gomes Brandoa, em Bayonne, França, país de onde importava muitos coiros de vaca para solas. E também haveria alguns outros parentes e amigos que asseguravam as parcerias comerciais em praças de mais negócio, como Amesterdão na Holanda, Livorno em Itália e outras.
Mas não se pense que o mundo empresarial de Brandão Faro girava apenas em volta da cobrança de rendas e dos grandes negócios de importação / exportação. Não: ele deitava a mão a tudo, como se depreende do inventário de seus bens, onde aparece quantidade de objectos de ouro e prata (avaliados em 235 500 réis), muito linho e algodão, em rama ou fiado, muitas dívidas de pão fornecido ou dinheiro emprestado a juros, de solas vendidas a sapateiros, pipas de vinho fornecidas a vendeiros.
E também ia a Bragança cobrar dívidas da mão do abade de Rossas e negociar sedas com o “industrial” Tomás Rodrigues da Silva ou na real fábrica que existia na cidade. De igual modo se metia no monopólio das “cartas de jogar e solimão”, em parceria com Luís Rodrigues Ferreira, da cidade da Guarda.
Voltemos ao momento da prisão de Francisco para dizer que, em casa, em dinheiro vivo, ele tinha a extraordinária quantia de 3 contos, 50 e tantos mil réis metidos “em um caixotinho fechado com um cadeado, metido numa arca e outro pouco de dinheiro em dois taleigos…” Sinal de vitalidade e força empresarial? Ou mais uma prova de que ele se preparava para abandonar o país e estabelecer em terra alheia a sede da sua empresa?
A verdade é que, metido a ferros nas masmorras da Inquisição de Coimbra, Francisco Brandão Faro, desde logo se declarou culpado de práticas de judaísmo e delas pedia misericórdia e perdão. Aliás, confessou que desde há meio ano que andava pensando vir apresentar-se de livre e espontânea vontade e se o não fez foi porque João Lopes da Mesquita e seu irmão Francisco Lopes da Mesquita lhe disseram que não se admitiam apresentações. Este último, aliás, sendo seu compadre e pessoa de grande intimidade é que o terá induzido no erro e doutrinado, uns 15 anos atrás. Este seu compadre dizia-se mesmo judeu, tal como um outro irmão, o dr. António Lopes da Mesquita, médico de profissão. Para além destes e entre muitas outras pessoas denunciadas por Francisco Brandão Faro como seus cúmplices em práticas de judaísmo, fixemos o nome de seu primo Francisco Marcos Ferro, advogado, natural de Torre de Moncorvo, morador em Viseu e que, dois anos antes, transferiu a sua residência para o Porto. Daquele médico e deste advogado haveremos de falar em outra ocasião.
Resta agora dizer que o processo levou dois anos a ser despachado, acabando o réu por ser condenado em hábito e penas espirituais, saindo no auto-de-fé de 18 de Dezembro de 1701. Em Agosto seguinte seria autorizado a despir o sambenito que remeteu para Coimbra, juntamente com 3 vinténs. E terminamos transcrevendo uma pequena oração que Francisco Brandão Faro rezava “para os mortos, a qual dizia sexta-feira ou sábado, por estarem as almas em folgança”:
Folgança composta
Assentamento de altura,
Dá Senhor claridade dos céus
Para a vida em o mundo virá,
Venha sobre a alma do meu pai
E da minha mãe. (Ou da pessoa de quem se pedir – acrescentou).
Fonte – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo nº 8867, de Francisco Rodrigues Brandão Faro.
NOTA – Este trabalho foi publicado no jornal Terra Quente

4 comentários:

  1. Fica muito bem o doutor Leite e o tribunal num tema de injustiças e persiguições.Texto espantoso de informação.Lamento que o outro blog do Lelo Demoncorvo tenha acabado.Este texto devia ser lá divulgado.Ainda agora tem 204 leitores, só hoje.
    Um Leitor

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  2. Alguma achega aos Faro de Bragança ?

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  3. Não posso responder pois ainda não seguimos a investigação desta família para além dos elementos que a ligam de Portugal à Jamaica. J. Andrade

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  4. O desaparecimento de Bragança é algo estranho.

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