quinta-feira, 4 de outubro de 2012

MOISES MENDES PEREIRA – baptizado em Bragança e circuncidado em Londres

Por: António J. Andrade
       Maria F. Guimarães


José Rodrigues foi notificado por João Gonçalves, familiar do Santo Ofício para se apresentar novamente em Coimbra até ao dia 24 de Abril de 1728. A ordem foi cumprida e ele foi recebido em mais uma audiência. Confirmou as declarações quer antes fizera e acrescentou mais algumas denúncias, nada de importante para o desfecho do processo.
Domus Municipalis
E foi um dos 79 penitenciados no auto-de-fé celebrado no Terreiro de S. Miguel, em 9 de Maio seguinte. Neste auto não houve gente condenada à morte, como aliás não havia desde há uns 10 anos em Coimbra. Apenas em Lisboa se decidiam então os processos considerados mais graves.
O tecelão brigantino foi condenado em penas espirituais e no confisco de todos os seus bens. Entre esses bens incluía-se uma parte de uma casa da Rua Direita, onde moravam seus pais e irmãos, como consta do inventário.
Regressou a Bragança e… a vida não seria fácil, complicando-se o seu relacionamento não apenas com os cristãos-velhos mas também com os cristãos-novos, nomeadamente com os seus amigos e familiares. Com efeito, ninguém sabia ao certo as denúncias que ele teria feito na Inquisição e as desconfianças avolumavam-se.
Ele bem tentaria normalizar a sua vida e nada melhor do que sair de Bragança a negociar por essas terras afora, em vez de ficar ali a lamber as feridas e remoer as mágoas…

Seria o mês de Setembro e, regressando ele de uma dessas viagens de negócios por Castela, o pai ter-lhe-á negado a entrada em casa e fechado a porta. E indo ele a sair da cidade, pelas “portas para S. Miguel”, saiu-lhe ao caminho o seu tio segundo, Gabriel Rodrigues Gabriel, que era administrador das alfândegas e depois viria a ser também preso pela Inquisição. E o tio ter-lhe-á dito que escrevesse uma carta, como datada de Valladolid e enviada para Bragança, para ele. Nessa carta deveria escrever que todas as denúncias que fizera na Inquisição de Coimbra contra aquele seu tio e contra outras pessoas de Bragança, eram falsas.
A princípio, José ter-se-á negado mas o tio ripou da espada e ameaçou matá-lo. Acabou por escrever a carta e, em paga, o tio ter-lhe-á pago com “6 moedas de ouro e uma vestia de limiste e algumas camisas”, dizendo-lhe que se fosse embora para fora do Reino e nunca mais voltasse, que o matava.
Ter-se-ão as coisas passado mesmo assim? Não temos razão para duvidar desta história que José contou mais tarde aos inquisidores.
Naquela altura, porém, saiu de Bragança e meteu-se a caminho de Castela, indo ter a Zamora. Aí bateu à porta do paço episcopal e pediu para falar com o Bispo, dizendo que tinha coisas importantes a confessar, relativas ao Santo Ofício. E sendo recebido e ouvido por Sua Exª Revª, este mandou que fosse levado ao tribunal da Inquisição de Valladolid, fazendo-o acompanhar por dois guardas.
Em Valladolid contou aquela e outras histórias, fazendo mais denúncias de cristãos-novos de Bragança, entendendo os inquisidores que o melhor era despachá-lo de volta ao tribunal do Santo ofício de Coimbra, onde tinha “ficha aberta”. Foi ali entregue no dia 27 de Outubro de 1729.
Desta vez não ficou em liberdade, antes foi logo metido a ferros. É que, ao mesmo tribunal, já antes tinham chegado outras informações de Bragança, nomeadamente uma carta de um comissário local da Inquisição, dizendo que José Rodrigues afirmara perante várias pessoas que “ele queria morrer pela lei de Moisés, o que repetira duas vezes (…) que ele cagava na Inquisição e que queria morrer queimado para ir para o Céu”. Nesta carta, datada de Bragança, 3 de Abril de 1729, referiam-se os pormenores da cena e indicavam-se 4 testemunhas que presentes estavam.
Era o início de um doloroso calvário, num processo cheio de contradições. Recordam-se que no primeiro processo ele tinha dito que foi levado para o judaísmo 8 anos antes, pelo seu parente Pedro Rodrigues Mendes? Pois, agora disse que era mentira, porquanto há mais de 20 anos que ele era observante da lei de Moisés e que quem o catequizou foi um judeu francês que esteve em Bragança.
E a circuncisão? Agora diz que foi propositadamente a Inglaterra circuncidar-se, porque queria ser judeu e que foi ele que conscientemente escolheu o nome de Moisés Mendes Pereira para usar.
Este era o seu estado de espírito em 12 de Outubro de 1731 e estas foram as declarações que fez na audiência daquele dia perante o inquisidor Bento Pais do Amaral. Porém, 8 dias depois, voltou a ser ouvido. E, começando por lhe ser lida a acta da sessão anterior, com as declarações por si proferidas e assinadas, respondeu da seguinte forma:
- Que não duvidava ter dito o que nela se contém, porém que era falso o que dissera, por estar privado do seu juízo, e que sempre fora verdadeiro católico romano e vivera na lei de Cristo Nosso Senhor. E que nunca tivera crença na lei de Moisés (…) e que se circuncidara por dinheiro, porque lhe deram 100 moedas de ouro e lhe queriam dar muito mais se não tornasse a este Reino…
Mas não durou muito esta postura. Logo voltou a confessar-se adepto da lei de Moisés e a fazer cerimónias e rezas judaicas e, em certa ocasião, apresentou-se em Mesa, dizendo aos inquisidores que vinha fazer um requerimento para que o metessem sozinho em um cárcere porque os companheiros se aborreciam e o insultavam por lhe verem fazer cerimónias e rezas judaicas. E justificava o pedido em termos bem concludentes e incisivos:
- Os senhores inquisidores não lhe podiam tirar os meios conducentes para a sua salvação!
E para além do isolamento do cárcere, outro pedido que fazia era que lhe dessem um livro das Escrituras para poder argumentar com os inquisidores, em defesa da lei mosaica.
Em determinada altura do processo, José Rodrigues, aliás, Moisés Mendes Pereira, foi transferido para a Inquisição de Lisboa, também a seu pedido. E à medida que o processo crescia a postura de Moisés ganhava contornos de mártir. Apresentava-se como que investido da missão de propagar a fé judaica. Dizia que, afinal, se veio da Inglaterra propositadamente para enfrentar a Inquisição e antes tivera o cuidado de visitar e deixar o seu nome escrito em 9 sinagogas: 5 em França, 2 em Londres, 1 em Roterdão e outra em Amesterdão. Queria que o seu martírio fosse um exemplo para toda a nação sefardita cá dentro e na diáspora e dizia-se desejoso “que o mandassem para o campo de lã e que não pede outra coisa a Deus senão que lhe abrevie a vida”.
Mártir ou não do judaísmo, Moisés Mendes Pereira foi queimado vivo na fogueira ateada no auto-de-fé realizado em Lisboa a 6 de Julho de 1732.
Terminamos estas notas com uma declaração que ele fez perante o inquisidor António Ribeiro de Abreu, em 23 de Abril de 1732:
- Disse que pediu a audiência para constar neste reino e nas terras do Norte e em todo o judaísmo e nas 10 sinagogas onde está assinado que ele, com quanta força teve, defendeu e professou a lei de Moisés nesta Inquisição, até se oferecer a morrer queimado vivo por ela; e afirmou na mesma Inquisição que a lei e a doutrina de Cristo Senhor Nosso não é certa, nem podia ser, e só era de salvação a de Moisés, como perpetuada por Deus, na qual nunca teve dúvida alguma de 20 anos a esta parte; e só ele senhor inquisidor o tem feito vacilar, com as muitas perguntas que lhe tem feito e por ele não lhe querer dar as escrituras que tem pedido, em língua vulgar, e em lugar de lhe dar um livro que diz que só é boa e verdadeira a lei de Cristo Nosso senhor e que a lei de Moisés acabou; e não pôde emendar como possa ser o Deus de Israel Cristo Nosso Senhor e circuncidado o Deus de Israel prometido Rei para sustentar a lei de Moisés ou dada a Moisés por deus; e o tempo há-de vir em que tudo o prometido se cumpra e que sucedam os prodígios da mesma Lei. Bem aventurados os Israelitas, outra vez bem aventurados os israelitas e os judeus que morrem pelo Deus de Israel. E por os Israelitas serem povo escolhido por Deus e saber que só eles se salvam é que os inquisidores os castigam e todo o mundo os aborrece por ser o povo Amado e Ilustre!
FONTE
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 4939, de José Rodrigues Mendes.
Nota – Artigo publicado no Jornal Terra Quente

2 comentários:

  1. Sigo ente magnífico blog desde início mas lamento o tempo que esteve inativo.Publiquem tudo que tenham,partilhem.Os transmontanos sabem pouco da sua história.Bem hajam todos que tornam esta página possível
    Luía Afonso Guardado.

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  2. gostaria de saber historias dos duques de tra os montes, pois fiquei sabendo que meu tataravo era um dos duques, seu nome era Antonio }Rafael, Ou Manuel Antonio Rafael
    Grata

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