domingo, 28 de outubro de 2012
CARÇÃO APRESENTAÇÃO I- UMA HISTÓRIA DE RESITÊNCIA À INQUISIÇÃO
Carção é uma aldeia do concelho de Vimioso,
no mais profundo Trás-os-Montes, afastada das rotas comerciais e turísticas.
Seus habitantes, porém, sempre tiveram arte e engenho para quebrar o isolamento
da terra e sair a mercadejar por toda a parte. Sobre eles escreveu, há cerca de
um século, o douto Abade de Baçal:
- Percorrem o distrito de Bragança com
venda ambulante de bacalhau, arroz, azeite e outros géneros, comprando ao mesmo
tempo peles ovinas, bovinas e caprinas (…) Encontram-se estabelecidos nos
povoados principais, aldeias ricas e férteis do reino, colónias e até do
estrangeiro, onde entram à formiga, sem eira nem beira, nem ramo de figueira,
apenas com dois centos de sardinhas em cima de um burro podre e dentro de uma
dúzia de anos chegam a preponderar pela fortuna adquirida no negócio. [1]
Muito semelhante é o retrato feito por
outros historiadores, literatos e etnólogos que escreveram sobre o génio
mercantil e empreendedor das gentes de Carção. E todos associam esta qualidade
à sua herança judaica. Leite de Vasconcelos, por exemplo, usou estas palavras:
- A gente de estirpe judaica destas últimas
povoações (Carção e Argozelo) vivia, até há pouco, sobretudo do comércio e da
indústria dos curtumes. Com suas mulas de carga, era vê-los de casa em casa de
terra em terra a vender bacalhau, arroz e azeite e outros géneros alimentícios
ou a ajustar as peles para o fornecimento da sua indústria. Dizia-se até que a
um judeu de Carção ou Argozelo nada mais faltava para fazer fortuna do que uma
libra e uma mula. E, a respeito dos de Carção, que, quando nascia algum, logo
nascia uma mula, tão habitual era neles a ocupação de almocreves e recoveiros. [2]
Trindade Coelho, famoso escritor de
Mogadouro, esse ia mais longe escrevendo:
- Nos meus sítios, a mula como meio de
locomoção é quase exclusiva dos judeus. Por isso já dizia em Cortes, in illo tempore, um deputado trasmontano
– que de 10 em 10 anos se deveria confiscar toda a fortuna aos judeus, e deixar
só, a cada um, uma mula e 10 moedas. Daí a 10 anos voltavam outra vez a estar
ricos, e ia-se-lhes para cima com novo confisco.[3]
Nos últimos 150 anos, com a abertura das
modernas estradas e linhas de caminho de ferro, houve um particular movimento
migratório das gentes de Carção para a nossa vila e depois para a cidade de
Macedo de Cavaleiros que conheceu um progresso notável, absorvendo vários
concelhos da região. E esse movimento migratório foi registado pelo nosso povo
na seguinte quadra:
Para cá do Marão
Mandam os que cá
estão;
Mas em Macedo
Mandam os de
Carção.
Vindos dos lados da
Arábia
E de balança na mão
Vieram os de Carção
Que com grande
lábia
Invadiram a Estação
[4]
De certo aquela é uma herança judaica e
marrana, uma herança que as gentes de Carção souberam preservar. E é fantástico
que eles tenham perseverado em sua crença na lei mosaica apesar de todas as
perseguições inquisitoriais e eclesiásticas. Vejam, a propósito, o que o pároco
de Carção dizia em carta de 2.6.1852, para o bispo de Bragança:
- Neste povo grassa desde tempo imemorial
uma seita que em tempo da Inquisição era muito oculto, mas de 34 (1834) a esta
parte é isso muito divulgado, quero dizer que não se escondem os sectários como
outrora; assim há muita gente, que pelo menos in confuso sabem disso … O erro é
a seita, ou Lei Mosaica. [5]
De como eles se comportavam, guardando os
sábados, celebrando no “vinhago” a festa do Kipur, jejuando de estrela a
estrela, cumprindo rituais próprios do casamento, baptizado e óbito e rezando
suas orações, nos dá também conta o já citado Abade de Baçal. E o mais curioso
é que estas informações ele as recolheu de gente que, mais de 400 anos depois da
expulsão dos judeus, continuava, em Carção, a guardar esta herança marrana!
Como ele fez questão de frisar, omitindo, naturalmente o nome do informador,
quando escreveu:
- Foram-me ditadas por uma pessoa deste
povo, convicta praticante da “Lei mosaica” e até director religioso, espécie de
sacerdote. Pelo que ela nos disse, conclui-se que a liturgia mosaica já está
ali muito adulterada, mas seguem-na no que sabem e há muitos adeptos. [6]
Como se vê, por 1920, a comunidade marrana
de Carção continuava mantendo as suas celebrações religiosas e tinha “até o seu
director religioso, espécie de sacerdote” – como ele dizia – espécie de rabi –
diremos nós. [7]
Esta é uma herança fantástica, de um valor
cultural inexcedível e que merece ser estudada e divulgada. E como há cada vez
mais pessoas desejosas de conhecer e fruir este tipo de bem cultural, imperioso
se torna inscrever a aldeia de Carção na Rota dos Judeus e Marranos que vimos
ajudando a traçar desde há anos nas cartas de turismo de Trás-os-Montes.[8]
Viajemos então no tempo e vamos até Carção,
aos últimos anos do século de 600. Na aldeia de Carção habitavam então menos de
150 famílias. Não sabemos quantas delas seriam cristãs-velhas e quantas seriam
cristãs-novas, pois nesse tempo já não havia judeus em Portugal. Temos é sinais
de que havia uma clara separação entre as duas comunidades e sabemos que,
naquela década (1690 – 1700) a Inquisição ali prendeu, pelo menos 130 pessoas,
todas acusadas de judaísmo. Espantoso: 130 prisões num povoado de menos de 150
fogos! – poderá depreender-se destes números que a comunidade cristã-nova era
predominante na terra? Certamente que sim.
Do que temos a certeza é que a generalidade
dos cristãos-novos de Carção tinham ofícios de cardadores, tecelões,
sapateiros, surradores e, muito especialmente, de curtidores de peles, para
além de andarem metidos no negócio destes e doutros produtos. Aliás, eles
ganharam o epíteto de caninéus, exactamente porque, na preparação das peles,
usavam a canina, que era o excremento dos cães, a qual apanhavam na rua. E
ficou na boca do povo cristão esta quadra que o rapazio gritava, em tom
insultuoso:[9]
Caga perro, caga
cão,
P´ra curtir o
cordovão;
Caga cão, caga
perro,
P´ra curtir o
bezerro.[10]
Em primeiro lugar, diremos que as
comunidades de Carção, Argozelo e Vimioso estão umbilicalmente ligadas,
parecendo formar uma única grande família, quase sempre com casamentos
endogâmicos. E também nos parece que as origens da comunidade remontam ao tempo da expulsão dos judeus de Espanha,
pois não existe qualquer documento que nos fale de judeus em Carção antes
daquela época. Aliás, os processos mostram que muitos deles tinham casa montada
cá e lá, declarando-se frequentes vezes “moradores em Carção e assistindo em
Castela” e vice-versa.[11]
Uma segunda nota para dizer que é
impressionante a capacidade de resistência desta comunidade à Inquisição. Eles
chegaram a roubar os sambenitos que estavam pendurados na igreja matriz por
ordem daquele tribunal! Onde é que isto se viu?[12]
Uma última referência às cerimónias e ritos
tipicamente marranos praticados nesta comunidade e que deixarão igualmente
espantados um rabi judeu e um padre católico: chegaram a rezar missa judaica na
capela de S. Estêvão, procedendo à elevação de um pedaço de pão, como se de uma
hóstia consagrada se tratasse! E, para ridicularizar o dogma católico da
virgindade de Maria, colocavam uma donzela (ou já mulher, mas “formosa”) em um
pedestal, fazendo de Nossa Senhora![13]
Feita esta breve introdução, vamos estudar
alguns dos cerca de 228 processos instaurados pela Inquisição a cristãos-novos
de Carção.
II
CONSEGUIU
ILUDIR OS INQUISIDORES
Ao início do mês de Dezembro de 1637, foi
deliberado em Mesa da Inquisição de Coimbra, mandar prender uns 19
cristãos-novos de Quintela de Lampaças, acusados de práticas judaicas e
desrespeito pelo tribunal do Santo ofício. A ordem de prisão foi enviada para o
comissário de Bragança, Lucas Fernandes de Andrade que, em 13 daquele mês, um
domingo, se apresentou em Quintela, para a executar. Porém… a maioria dos réus
tinha fugido e poucos foram feitos prisioneiros. [14]
Não
sabemos qual foi a reacção do comissário, mas temos o depoimento do padre
António Rodrigues da Costa, abade de Sendas, prestado mais tarde e do seguinte
teor:
Nesse dia estava ele em Quintela e
Lampaças, em casa de um cristão-novo chamado Francisco Róis Sancho, casado com
Lucrécia Nunes. E então estes terão feito o seguinte comentário: - “Luís da
Serra e os mais que prenderam foram pouco venturosos e acautelados, pois se
deixaram prender e não fugiram, sendo que haviam tido aviso de Coimbra, de como
vinha ordem para os prender”. Parece, aliás, que este Luís da Serra se terá
atrasado, pois tinha também tudo preparado para fugir.
Acrescentou ainda o padre Costa que, logo
naquele dia, ele se dirigiu ao comissário Lucas contando-lhe o que ouvira e
aconselhando-o a que, como tinha em Coimbra um irmão que era inquisidor –
Cristóvão de Andrade Freire – o informasse do caso para averiguar se algum
funcionário menos diligente daquele tribunal teria dado o aviso. [15]
Começaram as especulações e as suspeitas
logo recaíram sobre um indivíduo de Carção que, na sexta-feira anterior, pelas
10 horas da manhã, chegara a Quintela de Lampaças, montado em uma mula castanha
escura e se plantara à porta de Martim Rodrigues. A mula foi depois metida na
loja e o forasteiro entrou para casa daquele e ali “jantou”, comendo bacalhau
assado. De tarde, viram-no ainda com Pêro Fernandes e com Baltasar Dias,
deixando Quintela já de noite.
O abade de Quintela, padre Paulo Peixoto de
Sá, também logo começou a indagar e escreveu para a Inquisição de Coimbra a dar
conta de suas suspeitas. De Coimbra responderam em 9 de Fevereiro, passando-se
ordem ao abade para que, chamando para secretário um padre cristão-velho,
ouvisse em segredo e sob juramento, as testemunhas que entendesse e de seus
depoimentos fossem lavrados os respectivos autos e enviados para Coimbra.
Recomendavam ao abade que agisse “com a cautela e miudeza que pede negócio tão
grave” e louvavam o zelo demonstrado. [16]
Não vamos aqui reproduzir os vários
depoimentos colhidos, que todos foram mais ou menos concordantes com o de Melchior
Martins, alfaiate, de 35 anos que “disse que vira um homem pequeno já barbudo,
de 30 anos, em casa de Martim Rodrigues, sendo seu hóspede e diziam ser parente
de sua mulher, o qual hóspede ele viu, dois dias antes da prisão da gente da
nação, e fora voz pública ser ele o que trouxera carta de aviso e logo naquele
dia todos se ausentaram e outros mudaram fato para Castela e andavam
inquietos”.
Um dos depoentes acrescentou que o tal
homem fora bem pago pelos cristãos-novos de Quintela, que se quotizaram e
“ajuntaram bastante dinheiro”.
Em 14 de Março de 1638, remeteu o abade os
autos para Coimbra e uma carta onde anotou algumas impressões pessoais e
acrescentou outras informações. Vamos resumir esta carta:
- É certo que houve aviso e que quem os
avisou foi o tal Jorge Lopes.
- O dito “Martim Rodrigues é da nação e
ainda está neste lugar e cuido estar ainda por ser curtidor e ter couros em
pelames (…) e se não fosse isso já teria ido, visto ter sua fazenda toda
vendida”. O mesmo se passa com um outro que se chama André Dias. E também
ficaram vivendo ainda em Quintela um tal Gaspar Álvares e um Manuel Dias. Todos
os outros se foram residir para o lado de lá da raia de Castela e “em um lugar
chamado Travanca devem estar muitos dos que foram porque os filhos vêem aqui às
feiras tratar dos negócios”.[17]
No dia 1 de Abril de 1638, pelo comissário
da Inquisição de Bragança, Miguel de Sousa Correia, que se fazia acompanhar de
seu irmão e de um meirinho foi Jorge Lopes Henriques preso em Carção. Dali foi
levado a Bragança e na madrugada do dia seguinte remetido para Coimbra, com uma
carta do comissário explicando que “ao preso não fiz sequestro dos bens
(porque) me disse que levava dinheiro para gastos de seu caminho com sua
pessoa”.
Sim, que o prisioneiro tinha que pagar
também o aluguer da cavalgadura em que seguia e os ferros com que ia algemado e
a jeira ao homem que o levava preso – 140 réis por dia. Assim, a viagem custou
a Jorge Lopes um total de 5236 réis, assim discriminados no processo:
Da cavalgadura que o trouxe – 2 400 rs
Ao homem que veio com ele 2 260 rs.
Gastos de seu mantimento 400 rs.
Diversos – 176 rs.
Enquanto isto, em Quintela se prendeu
também Gaspar Álvares e também o cura da aldeia, padre Matias Pereira, escrevia
para Coimbra acrescentando informações fresquinhas “acerca de quem avisou a
gente da nação antes da prisão que se fez a 13 de Dezembro de 1637”. Vejam:
- Sábado pela manhã, véspera da Páscoa, 3
de Abril de 1638, saindo eu da igreja, se veio a ter comigo um filho que ficou
de Francisco Róis Sancho, gente da nação, por nome Diogo, de 18 anos, e como
vizinho meu, e por motivo de vizinhança, me disse: - “Saberá VM que agora
prenderam a meu tio Gaspar Álvares e a Jorge Lopes, de Carção!” –
Perguntando-lhe eu porquê, ele respondeu simplesmente: -. “Ao de Carção o
prenderam por dar aviso à gente da nação”. E perguntei se isso era mesmo
verdade, e disse “que sim”. E que este Jorge Lopes viera a este lugar com uma
carta de aviso a Quintela, aviso em que se nomeavam 19 pessoas culpadas, a qual
carta trouxera um irmão de Jorge Lopes, de Lisboa, o qual viera dela em 6 dias
e por chegar enfadado, logo mandara a este seu irmão Jorge Lopes com a carta. E
não me soube dizer o nome do irmão…
Metido na cadeia, logo Jorge Henriques foi
chamado à Mesa. E então contou uma história deveras saborosa e que bem
convenceu os inquisidores. Relatou que, ao início de Dezembro do ano próximo
passado, ele estava em sua casa, em Carção e recebeu uma carta de Lisboa,
enviada por Baltasar Lopes de Leão, cristão-novo, fanqueiro, natural de
Mogadouro, morador na rua da Fancaria de Cima, seu amigo e companheiro em
alguns negócios, encarregando-o de proceder à cobrança de 100 mil reis, da mão
de Francisco Rodrigues, o sinal, de alcunha, morador em Quintela de Lampaças,
dinheiro proveniente das rendas de uma comenda de que era comendador um fidalgo
de Lisboa, um “fulano Correia”.
Essa a razão da sua deslocação a Quintela,
na tal sexta-feira. E, ali chegado, soube que o Francisco “sinal” tinha ido a
Bragança, mas que viria naquele dia. Resolveu, pois, esperar até à noite. Como
não viesse, decidiu voltar para sua casa, aonde só chegou no dia seguinte,
vendo-se obrigado a dormir a meio caminho, em Izeda. Por acaso, veio depois a
saber que Francisco Rodrigues era um dos tais 19 que estavam para ser presos e
fugiu, certamente por ter sido avisado.
Claro que a história era convincente, mas
os inquisidores também eram desconfiados e matreiros. Por isso fizeram mil e
uma pergunta sobre o modo como ele conheceu e ficou “a servir” o fanqueiro de
Lisboa. E aqui entra um fulano Carvalho de Mogadouro, família que aparece mais
vezes referida neste trabalho, pelas suas ligações a Carção.
Perguntaram-lhe também pela carta, dizendo
ele que a entregara a Baltasar Dias, cunhado do “sinal”. Foi questionado sobre
o motivo por que, naquele dia, se encontrou também em Quintela com Pêro
Fernandes, cristão-novo, respondendo ele que “foram ver um aparelho de curtir,
coisa que tinha que ver, e por lho terem gabado”.
A muitas outras perguntas insidiosas ele
respondeu satisfatoriamente. E saiu-se tão bem que, dias depois, em 15 de Abril
de 1638, os inquisidores o mandaram embora, concluindo “que não havia culpa
para ser preso o réu nos cárceres… que nos autos não resulta culpa alguma
contra ele”.
Tinha então Jorge Lopes Henriques 28 anos.
Nascera em Miranda do Douro, na rua da Costanilha, onde residiam seus pais,
Luís Lopes e Beatriz Henriques. E a história de seus pais e avós e bisavós e
tetravós na Inquisição era já nessa altura mais comprida que a linha do comboio
e leva-nos até ao tempo em que ainda havia judeus em Portugal, ou seja, antes
que o rei D. Manuel publicasse o decreto de expulsão (ou melhor: de conversão
forçada), em 1496. Vejamos um pouco dessa história:
* Seus pais, Luís Lopes e Beatriz
Henriques, naturais e moradores em Miranda do Douro, foram presos pela
Inquisição de Coimbra em 18.12.1618, saindo penitenciados no auto-de-fé de
29.11.1621. Anos depois, esta voltou a ser presa e foi queimada na fogueira no
auto de 25 de Junho de 1645. [18]
* Sua avó paterna, Catarina Vaz, foi presa
pela Inquisição de Coimbra em 1582 e foi penitenciada no auto de 25.11.1584. [19]
* Seus Bisavós paternos, Francisco Vaz e
Leonor Fernandes, naturais e moradores em Mogadouro, foram presos pela
Inquisição de Évora em 1544, saindo penitenciados no auto-de-fé de 27.10.1548. [20]
Conjugando os dados destes e de outros
processos, chegamos àqueles tempos em que, oficialmente ainda havia uma nação
judaica em Portugal, convivendo com a nação católica. E eram judeus, certamente
“baptizados em pé”, os tetravós de Jorge Lopes Henriques: Diogo Fernandes e
Isabel Fernandes (pais de Francisco Vaz) e João Fernandes e Branca de Rua (pais
de Leonor Fernandes), todos moradores em Mogadouro.
Acerca de Diogo Fernandes, diremos que ele
tinha um irmão chamado João Fernandes, que casou em Torre de Moncorvo com
Beatriz Nunes e uma irmã, Branca Pires, igualmente casada em Torre de Moncorvo
com Gaspar Dias.
Ainda sobre este Diogo Fernandes (Xave), há
notícias de que ele substituía algumas vezes o mestre António de Valença no
ensino da lei de Moisés aos marranos de Mogadouro, como consta do processo
deste último, o qual “possuía uns livros em hebraico”. [21]
Pelo testemunho de Cristóvão de Castro,
sabemos também que em casa de Francisco Vaz, o mestre António de Valença
pregava e lia em hebraico que depois traduzia. E o próprio A. Valença confirma
o facto ao afirmar que aquela “he casa honde se mais conversava, na dita vila,
alguma cousa de judaysmo que em nehuma outra casa”.
Costumavam participar em tais encontros e
cerimónias Diogo Fernandes Xave, pai de Francisco Vaz, João Fernandes, seu
irmão e Pero Martins, filho do tamburilheiro. Estes últimos “ficavam em baxo
embuçados como discípulos escondydos que ouvyão ho que ele doutor mestre
António dizya” – mas os embuçados estavam também presentes – como explica Maria
José Ferro Tavares, que tratou o processo e acrescenta:
- Juntavam-se duas e três e às vezes uma
vez por semana e nestas reuniões mestre António dizia-lhes quando calhavam os
jejuns judaicos, assim como as festas e a razão delas e entre outras coisas
ensinava-lhes como se fazia a festa do pão ázimo e como se amassava o pão sem
levedar (…) A mulher de Diogo Fernandes Xave, quando adoeceu, viu na doença um
castigo por não jejuar os jejuns dos judeus.
E a história da família de Jorge Lopes
Henriques na Inquisição haveria de continuar a fazer-se. Seu irmão Belchior
Lopes, por exemplo, morador em Miranda do Douro, seria preso em 1644, saindo
reconciliado no auto-de-fé de Coimbra de 25.1.1647. De suas declarações,
retiraram os inquisidores esta nota interessante: - Toda a gente da nação
daquela cidade (Miranda do Douro) guarda a lei de Moisés. [22]
Sendo assim comprida a história da família
de Jorge Lopes na Inquisição, estranhar-se-á como os inquisidores se deixaram enganar
por ele. Pensamos que isso ficou a dever-se a uma falha na troca de informações
entre os tribunais de Coimbra, Lisboa e Évora, aliada à situação política que
então se vivia, com as atenções concentradas na chamada revolta do manuelinho,
em Évora. O que não deverá estranhar-se é que Jorge Lopes Henriques logo se
tenha posto em fuga para Castela e dali para Livorno.
Aliás, a história desta família é
verdadeiramente exemplar, do ponto de vista da mobilidade. Enquanto Jorge
seguia para Livorno, seu irmão Francisco ficava em Carção e dois outros irmãos
em Miranda do Douro. Em Zamora, vivia seu irmão Manuel, que tinha uma filha ali
casada com médico, Dr. . Manuel Fernandes.
A irmã Joana, essa fixou-se noutro extremo da Castela, em Múrcia e a irmã
Antónia estabeleceu sua casa em Medina del Rio Seco. [23]
Voltando a Jorge Lopes, diremos que ele foi
o primeiro cristão-novo de Carção a ser importunado pelo tribunal do Santo
Ofício. Se foi bem ou mal julgado, se foi ou não ele que avisou os outros para
fugirem, não o sabemos. O que sabemos é que, logo de seguida, ele deixou Carção
e a Pátria e se foi para a cidade de Livorno, em Itália, onde livremente podia
praticar o judaísmo. Voltaremos a falar dele, como falaremos de outros Carçonenses
que foram para Livorno.
[1] FRANCISCO MANUEL ALVES,
Memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança, vol. V, p. LI
[2]J. LEITE DE VASCONCELOS, Etnografia Portuguesa, vol.
IV, p. 197-198.
[3] TRINDADE COELHO, O Senhor Sete, p. 66
[4] Foi em volta da estação de
caminho de ferro de Macedo de Cavaleiros que os de Carção se fixaram
preferencialmente e ainda hoje a generalidade dos moradores da Avenida da
Estação tem raízes carçonenses.
[5] – ALVES… Memórias… VII - 698.
[6] Alves...
Memórias...VII-698
[7] Para além das recolhas feitas por Francisco Manuel
Alves, Leite Vasconcelos e outros, vejam-se as seguintes publicações referentes
ao assunto , editadas pela câmara municipal de Vimioso, ou com o seu apoio:
FRANCISCO
MANUEL ALVES e ADRIÃO MARTINS AMADO, Vimioso – Notas Monográficas – 2002.
SERAFIM
DO ROSÁRIO, Terras de Vimioso – Retalhos de Literatura Oral – edição sem data.
FRANCISCO
ANTÓNIO FERNANDES RODRIGUES, Carção – Suas gentes – Usos e Tradições – 2002.
SERAFIM
JOÃO, Festas e Capelas de Carção – 2002.
[8] ANTÓNIO JÚLIO ANDRADE e MARIA FERNANDA GUIMARÃES,
Caminhos Nordestinos de Judeus e Marranos, in: jornal Terra Quente. Trata-se de
uma página quinzenal iniciada em 15.4.1999 e que continua
[9] As profissões mais referidas nos processos são as
seguintes:
curtidores 38
sapateiros 23
cardadores 11
lavradores 7
tendeiros 5
surradores 4
[11] Diz-se em Trás-os-Montes que, dos judeus expulsos de
Espanha que atravessaram a fronteira por Quintanilha, os mais pobres, que
vinham descalços, se ficaram por Carção e Argoselo, os que
vinham calçados seguiram até ao Azinhoso e Vilarinho dos Galegos e os mais
afortunados, que vieram a cavalo demandaram terras mais ricas para se fixar,
como eram Mogadouro e Lagoaça.
O
que parece certo é que nas proximidades de Vimioso e Carção, no chamado Prado
das Cabanas, foi então estabelecido um acampamento de refugiados judeus
castelhanos, para pagamento do imposto estabelecido por D. João II para obterem
o “visto de entrada e residência” em Portugal. E esta terá sido a origem da
comunidade marrana de Carção entre outras.
[12] A significar este espírito de resistência à
autoridade, há em Carção um monumento singular: a pedra lavrada. Trata-se de
uma pedra de granito plantada no largo da aldeia onde está escrito o seguinte
texto:
-
Neste sítio estavam as casas da morada de Francisco Mendes que foi condenado à
morte pela de Gaspar Gonçalves, que foi juiz neste lugar, na alçada em que
procedeu o Doutor Cristóvão Pinto de Paiva, Desembargador da Casa da
Suplicação, no ano de 1651. El-Rei Nosso Senhor assim as mandou arrasar e
salgar, pela impiedade com que ele se ouve na dita morte e pouco respeito aos
sacramentos.
Refira-se
que este “pouco respeito” consistiu em ele ter decepado com uma foice roçadora
uma imagem do Cristo Crucificado.
[13] Significativo que na comunidade se registou a
existência de pelo menos 3 livros judaicos, proibidos por lei. E registaram-se
também ligações bastante estreitas à comunidade judia de Livorno, Itália.
[14] Quintela de Lampaças foi
uma das terras trasmontanas que mais cedo foi alvo das investidas da Inquisição
por causa da Confraria do Burraço. O tema foi tratado pelos autores no jornal
Terra Quente de 1.6.1999.
[16]
A secretariar esteve o padre Matias Ferreira,
cura da mesma igreja de Quintela.
IANTT,
inquisição de Coimbra, processo 3271, de Jorge Lopes Henriques.
Impressionante
a descrição do tormento a que foi submetido Luís Lopes. Depois de levantado e
ter partido ossos, com os médicos a dizer que parassem pois corria “notável
perigo de vida”, os inquisidores fizeram deitá-lo no potro e aplicaram-lhe o
garrote de água. Veja-se a descrição por eles feita no processo:
-
Foi atado perfeitamente e sendo alevantado,
foi outra vez admoestado (…) e novamente começado a alevantar e por dizer que era quebrado e os cirurgiões depois de
visto, decidiram que não podia sofrer tormento de polé sem notável perigo de
sua vida, foi mandado descer e desatado e levado ao potro para nele ter o
tormento correspondente, com um trato esperto e outro corrido e começado a alevantar, como era seu pulso tomado,
sendo lançado no dito potro, lhe foi dada uma volta com um garrote de água e
admoestado dissesse a verdade e por dizer que era bom cristão, lhe foi dada
outra volta com outro garrote de água e admoestado dissesse a verdade e por
tornar a dizer que era bom cristão e vir o cirurgião à Mesa e dizer que estava
satisfeito o assento que neste pulso estava tomado, foi mandado desatar e tirar
do dito potro.
[20] IANTT, Inquisição de
Évora, processo 8776; processo 11213 de
Leonor Fernandes.
[21] IANTT, Inquisição de
Évora, processo 8232 de António de
Valença. Sobre o assunto ver:
MARIA JOSÉ FERRO TAVARES - Para o Estudo dos Judeus em Trás-os-Montes –
sec. XVI, in: Cultura, História e Filosofia - 1985, p. 297.
ANTÓNIO JÚLIO ANDRADE E MARIA FERNANDA GUIMARÃES,
Maese António de Valença, in: Jornal Terra Quente, de 1 e 15 de Outubro de
2000.
[22] IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 1916, de Belchior
Lopes.
Em
15.12.1646, Belchior Lopes foi submetido a tormento, o qual durou “quarto e
meio de hora”, sendo “alevantado até
ao libelo e lhe foi dado um trato esperto e por dizer que sempre fora bom
cristão foi dado outro trato esperto e por não confessar foi-lhe dado terceiro
trato esperto”. Registe-se que os dois inquisidores que dirigiram a sessão do
tormento eram de Bragança: Cristóvão de Andrade Freire e António Leitão Homem.
[23] O Dr. Manuel Fernandes Garcia era natural de
Miranda do Douro e estudou Artes e Medicina na universidade de Salamanca nos
anos de 1626 a 1633. – ANGEL MARCOS DIÓS, Índice de Portugueses en la
Universidad de Salamanca (1580-1640(), in: Brigantia, XIX, 1-2, 1999, p. 141.
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Joao Rocha de Aragao escreveu: verdade,desde há muitos anos!
ResponderEliminarJoaquim Silva escreveu :sem dúvida !,, conheço uma ínfima parte da história destas gentes
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