quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 10

 Sinagoga de Bevis Marks
Manuel Nunes de Miranda. Nasceu em Torre de Moncorvo, por 1645. Era filho de Francisco Nunes Ramos, médico, originário de Vila Flor e de sua mulher Ana Henriques, de Torre de Moncorvo. Seus pais, perseguidos pela inquisição, abandonaram Moncorvo e foram para a Galiza, fixando-se em Verin. Ali faleceu o dr. Ramos e a mulher e os filhos foram para Madrid. Tempos depois, contando 18 anos de idade, Manuel Nunes encontrava-se já em Toulouse, cidade capital da região francesa do Languedoc, a trabalhar com o primo José, na casa comercial do pai deste e seu tio materno, o banqueiro Manuel Fernandes de Miranda, sediado em Bordéus. Em 1675, casou com Francisca Fernandes Gomes, nascida em Bordéus em 1654, filha de pais trasmontanos aparentados com os Miranda. Entretanto, em Madrid, seriam presos 3 irmãs e 2 irmãos de Manuel, que saíram penitenciados em 1680, posto o que, alguns deles se refugiaram também na França, nomeadamente em Toulouse, cidade para onde foi sua irmã Branca e o marido, Francisco de Queirós. Porém, na capital do Languedoc, os ventos da intolerância religiosa, aliados à crise financeira por que passavam comerciantes cristãos e gente da nobreza da terra, sopravam ainda mais fortes do que os provocados pela inquisição em terras de Portugal e Castela. E Manuel Nunes de Miranda e sua mulher viram-se assim ser presos por práticas de judaísmo e fizeram parte daquele grupo de 18 mercadores sefarditas condenados a morrer na fogueira, na praça de S. George, em 1685. Como em outra ocasião já escrevemos, eles dispunham de contactos ao mais alto nível da sociedade de França, gente que ficou horrorizada por ver anunciar a celebração de um auto de fé na pátria do Iluminismo e os ajudou a fugir, na véspera de lhes ser atada uma corda ao pescoço e serem levados à fogueira, tendo-se queimado em seu lugar 18 bonecos de palha. Foi para Londres que Manuel Nunes fugiu com a mulher e os filhos, certamente porque ali estava já o tio banqueiro que igualmente abandonara a cidade de Bordéus com sua família, teres e haveres, numa fuga em massa que então se registou de sefarditas, muito em especial homens de negócio, banqueiros e armadores de barcos. Em Londres toda a família (5 filhas e 1 filho) abraçou abertamente o judaísmo, tomando nomes hebreus. Rapidamente os negócios de Jacob e Abigail (os novos nomes de Manuel e Francisca) cresceram e ele ganhou prestígio no seio da comunidade judaica de Inglaterra. Em prova disso está o facto de ele ter sido um dos fundadores do Banco de Inglaterra, em 1694, aparecendo na lista dos maiores accionistas em 15º lugar, com a subscrição de 2000 acções, no montante de 25 000 libras. Outro momento importante na vida deste sefardita nascido em torre de Moncorvo aconteceu em 12 de Fevereiro de 1699. Ele foi um dos 5 membros da comunidade que assinaram com a empresa de Joseph Avis um contrato no valor de 2 650 libras para a construção da sinagoga de Bevis Marks na capital de Inglaterra, com o qual se abriu uma nova era na construção do mundo moderno, sob o influxo e por acção pioneira dos judeus novos.
Igreja Matriz de Torre de Moncorvo.
António Júlio Andrade
 
 

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