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segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 12
Manuel Fernandes Vila
Real. Seus pais eram
de Vila Real e emigraram para Lisboa, terra onde Manuel Fernandes nasceu, em
1608. O início da sua vida activa foi na loja de fancaria de seu pai mas, aos
14 anos, foi com o governador Jorge de Mascarenhas para Ceuta, seguindo a
carreira militar e ali atingiu o posto de capitão. Voltou a Portugal e foi com
cobrador das rendas do Priorado do Crato e corretor dos reais de Lisboa que seu
pai arrematara. Os negócios da família estendiam-se também ao Brasil, ao trato
do açúcar e do tabaco. Para o transporte destes produtos do Brasil para Lisboa
e para os portos do Mediterrâneo e do Báltico, Manuel Fernandes decidiu-se pela
compra de um barco e com esse objectivo se dirigiu a Sevilha, Málaga, Ruão e
Havre onde conseguiu efectuar a compra e a partir dali trabalhar na marinha
mercante, com seus cunhados Manuel e João de Morais. Falecendo o João, Vila
Real necessitou de ir a Paris. E levaria boas recomendações, a ponto de cair
nas boas graças do chefe do governo, o poderoso Cardeal Richelieu. Sucedeu entretanto
a revolução do 1º Dezembro de 1640 que colocou no trono de Portugal o rei D.
João IV, da Casa de Bragança, que teve desde logo o apoio da generalidade da
nação sefardita que vivia em Portugal mas também no resto do mundo,
nomeadamente na Holanda, França e Inglaterra. Durante alguns anos, Manuel
Fernandes foi uma espécie de embaixador itinerante, acompanhando altos
dignitários da monarquia portuguesa em negociações diplomáticas e de apoio
militar, bem como na compra de armas e mobilização de voluntários para o
exército que, durante uns 18 anos, enfrentaria uma guerra com Espanha. Por tudo
isso ele se terá constituído em alvo prioritário da inquisição que, nas artes
da espionagem, tinha óptimos executantes, normalmente recrutados entre frades,
como foi o caso. E vindo a Lisboa, em 1647, na companhia do Conde de Vidigueira
que chefiara uma embaixada a Paris, Manuel Fernandes Vila Real foi preso pela
inquisição, acusado de judaísmo e de ler livros proibidos. Recordemos que
naqueles tempos se travava uma tremenda luta política entre a inquisição e o
rei D. João IV que fora excomungado pelo Papa de Roma e por este via recusada a
nomeação de bispos para Portugal. E o clímax desta luta política foi atingido
no dia 1º de Dezembro de 1652. Com efeito, para comemorar os 12 anos da
revolução que colocou no trono o rei D. João IV, a inquisição preparou uma
festa magnífica com um grandioso auto de fé em que foi sentenciado e queimado
na fogueira o embaixador Manuel Fernandes Vila Real. A presidir às cerimónias
estava o próprio rei que, por disposição legal e obrigação política, não podia
escusar-se a esta tremenda humilhação – presidir à festa de imolação de um dos
seus maiores e mais desinteressados apoiantes! Resta, finalmente, dizer que
Manuel Fernandes Vila Real foi também um homem de letras, escritor de tratados
de diplomacia e política, o mais conhecido dos quais será El Político
Christiano ó Discursos políticos sobre Algunas Acciones de la Vida del
Eminentíssimo Señor Cardenal Richelieu, editado em França em 1641 e em 2005
reeditado pela Ed. Caminho com introdução biográfica e notas do Prof. Borges
Coelho, também ele um ilustre trasmontano e grande historiador da inquisição e
cristãos novos, a quem devemos uma grande homenagem. A publicação daquele livro
terá sido uma das causas próximas e directas da prisão e condenação à morte do
embaixador Vila Real, pois que os inquisidores de Lisboa consideraram que tal
livro continha matéria perigosa, ideias influenciadas pela doutrina judaica.
António Júlio Andrade
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Está a pedir um dicionário de ILUSTRES.Com este rigor e sem a tropa fandanga que aparece em várias edições de um editado não sei por quem mas que é levado muito a sério.Não apaguem esta memória.É a nossa história.
ResponderEliminarBem hajam
António N.
Fazer um dicionário é tarefa muito complicada e implicaria várias pessoas a trabalhar em equipa. Isto é apenas uma colecção de nomes para mostrar que a história de Trás-os-Montes está por fazer e que há muitos ilustres desconhecidos. Ainda bem que parece despertar algum interesse. De qualquer modo, muito obrigado pelo incentivo. J. Andrade
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