Tinha-se o sol já posto e a noite começava a cerrar-se sobre Vila Flor, naquele dia primeiro de Setembro de 1644. O tempo mantinha-se morno e, apesar do escuro, muitos moradores seroavam na rua, sentados nos poiais e soleiras das portas.quarta-feira, 4 de agosto de 2010
-Retalhos da História de Vila Flor V
AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLITICA?
A PRISÃO DO FAMILIAR DA INQUISIÇÃO
Tinha-se o sol já posto e a noite começava a cerrar-se sobre Vila Flor, naquele dia primeiro de Setembro de 1644. O tempo mantinha-se morno e, apesar do escuro, muitos moradores seroavam na rua, sentados nos poiais e soleiras das portas.
Lopo Machado Pereira atrasou-se um pouco lá pelos cabeceiros da Vilariça onde tinha ido ver a vinha, que as vindimas estavam à porta. Regressava a casa, montado no seu esplêndido cavalo castanho. Vinha pela rua da Fonte e entrou na vila pela porta sul, seguindo pela rua Direita, também chamada rua Nova desde a altura em que a sinagoga dos judeus se fechou.
Aquela não era a rua mais direita para sua casa, sita lá para as bandas da Portela. Mas vinha por ali com intenção de deitar um olho a ver como as coisas andavam. É que ele, além do estatuto de nobreza e do rendoso ofício de juiz dos órfãos, ostentava o colar de familiar da Inquisição e sentia-se investido na santa obrigação de zelar pela pureza da fé e dos costumes, numa terra que todos sabiam estar infestada de cristãos-novos judaizantes.
Vinha por aquela rua, que era onde morava a maioria dos marranos da vila. E, muito em especial, queria manter apertada vigilância sobre a família de Julião Henriques que ele despachou há quase um ano para a cadeia de Coimbra, assim como a seu filho Diogo Henriques Julião.
Aliás, ele andava um tanto intrigado desde há uns tempos, pois lhe constara que os cristãos-novos de Vila Flor se quotizaram, dizendo-se que cada um entrou com 5 mil reis. Constava que esse dinheiro se destinava a conseguir em Lisboa um bom advogado ou alguém poderoso que fosse capaz de lhes alcançar da corte d´el-rei D. João IV um despacho favorável. Que despacho e que favor tão importante seria esse?! – perguntaria Lopo Machado a si próprio naquele momento.
E também lhe vinham à memória as ameaças proferidas contra ele por Julião Henriques e seus filhos e parentes de que o haviam de destruir e não havia de prender mais gente. E muitos amigos lhe estranhavam que, dadas as inimizades com os Juliões, ele lhe andasse sempre a passar à porta, em nítida atitude de provocação.
De repente, saídos de uma esquina, um grupo de homens, todos cristãos-novos, saltaram-lhe à frente e, segurando-lhe as rédeas do cavalo, derrubaram o cavaleiro. E apareceu uma mulher, com um archote de palha, a alumiar-lhe bem a cara e a gritar-lhe insultos:
Ladrão! Agora pagarás pela prisão do meu homem e do meu filho, que foi injusta!
Chamava-se Branca Rodrigues e, enquanto proferia insultos, chegava a luminária bem à frente da cara do fidalgo. E continuava despejando insultos:
Ladrão! Mostra bem essa cara de malvado! Deixa-me ver esses olhos de maroto! Agora pagarás pelo meu homem e pelo meu filho, que mos tens presos, falsamente!
Acorreu gente, destacando-se entre todos o alcaide António do Sil, o juiz ordinário e presidente da câmara Agostinho Valente Pinto e o ouvidor do conde de Sampaio, Manuel Correia da Fonseca – as autoridades maiores da terra – naturalmente seguidos pelos quadrilheiros ou homens do regimento, que cumpriam as tarefas de policiamento da vila. E acorreram também familiares e amigos de Lopo Machado, gritando “aqui d´el-rei, que matam D. Lopo!”
Fotografia do vale da Vilariça, que une Vila Flor e Torre de Moncorvo.LB
Branca Rodrigues não se amedrontou com a chegada das autoridades e dos “polícias! E muito menos o seu filho Luís Henriques, que capitaneava os agressores. Antes, orgulhoso, face à intimidação do alcaide que lhe dava ordem de prisão, ele levantou a vara da justiça que todos reconheceram pertencer ao meirinho da correição de Torre de Moncorvo enquanto tirava do bolso um pergaminho que deu a ler ao juiz, declarando:
- Veja vossa senhoria que isto é um mandato de prisão e que, como aí se diz, tem vossas senhoria e todas as autoridades o dever de me ajudar a meter este homem na cadeia e guardá-lo até ser entregue ao meirinho da correição. Juntamente com o juiz, o ouvidor e o alcaide debruçaram-se sobre o escrito e leram, com Branca Rodrigues a fazer luz com o archote. A letra era bem familiar àqueles homens da governança da vila, bem como a assinatura e o selo que a autenticava. E a ordem era bem clara:
- Eu, André Barreto Ferraz, corregedor desta comarca de Torre de Moncorvo, por este meu escrito e assinado, dou poderes a Luís Henriques Julião, morador na vila de Vila Flor, para que, como meirinho desta correição, possa prender a Lopo Machado, morador na dita vila, por culpas mui graves que dele há neste juízo e preso o trará à cadeia desta vila e poderá o dito Luís Henriques, com este mandato, requerer para isso todo o favor e ajuda às justiças desta comarca, a qual lhe darão da maneira que ele requerer, sob pena de suspensão de seus ofícios; e feita a dita prisão não poderá o dito Luís Henriques usar o dito mandato em outra diligência porque só por esta vez lhe dou este poder, por assim convir ao serviço de Sua majestade; e para o trazer preso á cadeia desta vila poderá pedir ajuda às pessoas que lhe convier, à custa do dito Lopo Machado. Dado nesta vila de Torre de Moncorvo, feito e assinado por mim, de minha letra e sinal, aos 30 dias de Agosto de 1644. Ferraz.
E assim se procedeu. O juiz mandou buscar as chaves da cadeia e para lá seguiram. E mandou também chamar o tabelião António Borges de Castro, para que lavrasse o competente auto de prisão. No auto queria ele anexar o mandato de prisão, mas Luís Henriques pediu-lhe que o deixasse ficar com ele, para sua própria defesa. O juiz concedeu. E porque não houvesse carcereiro ou ele não garantisse a segurança da prisão, o juiz ordenou que ficasse Luís Henriques e seu irmão Rodrigo Fernandes de guarda à cadeia durante a noite. Entretanto, já o filho de Lopo Machado tinha ido ter com Francisco de Sampaio intercedendo com ele para que acudisse a seu pai. E também o seu ouvidor tinha ido contar-lhe o sucedido e dizer-lhe que a prisão fora executada por ordem do corregedor e com aviso de Sua Majestade. E Luís Henriques, por seu turno, teria já despachado um amigo para Torre de Moncorvo a informar o corregedor e o meirinho que o homem estava preso aguardando transferência para a cadeia da sede da comarca.
Efectivamente, ao outro dia, apareceu o meirinho com 3 ou 4 homens e, também na presença do juiz Agostinho Valente Pinto, o preso foi colocado em cima de um jumento, com grilhões nos pés. Queriam também prender-lhe as mãos atrás das costas e arrematá-lo com cordas à albarda do jerico. Porém, e por insistência do capitão de milícias Jerónimo de Morais e do fidalgo Gregório Montes Botelho, foi poupado a esse vexame.
Imagine o leitor a multidão de mirones à porta da cadeia e pelas ruas da vila e os comentários que correram a terra sobre o caso. Um homem da nobreza, juiz dos órfãos e familiar do Santo Ofício feito prisioneiro de um cristão-novo e judaizante, insultado e vilipendiado pelos “judeus” da terra!
Para além do mais, era um golpe tremendo no prestígio de uma instituição tão sagrada e temida como o Santo Ofício, que tinha o poder do papa e de Deus para julgar não apenas os actos mas até a consciência das pessoas! O caso vinha minar a sua autoridade e enfraquecer a segurança dos familiares e comissários da Inquisição, que de futuro, se esquivariam a executar as prisões e outras ordens vindas de Coimbra.
Sigamos agora para o Torre de Moncorvo onde Lopo machado foi metido na prisão, esta dotada já de carcereiro que garantia a segurança e às ordens do corregedor. Porém e estranhamente, não foi longa a sua estadia no cárcere, que logo na primeira noite fugiu, certamente ajudado e por intervenção de alguém muito poderoso.
Aqui fazemos um parêntese para dizer que em Portugal se travava então uma feroz luta pelo poder, entre o rei D. João IV e a Inquisição, com a nobreza, o povo e a própria igreja católica completamente divididos. Na verdade, por detrás da capa da religião e dela se servindo, assistia-se a uma verdadeira guerra política e a sociedade agrupada em dois blocos: o partido dos cristãos-novos e o partido da Inquisição. A prisão do Inquisidor Mor e a morte na fogueira do capitão Manuel Fernandes Vila Real foram os dois episódios mais marcantes dessa luta cujos efeitos se sentiam também na Torre de Moncorvo e particularmente em Vila Flor. (1)
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
NOTAS
1 – ANDRADE, António Júlio e GUIMARÃES, Maria Fernanda, A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa
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Boa Noite,
ResponderEliminarTenho muito interesse em falar com os autores destes textos. Sou descendente de Gregório Montes Botelho, da família Montes de Almeida, e existe uma relação interessante entre um neto deste e Lopo Machado.
Aguardo contacto: j.a.e.ramos@iol.pt
João Ramos