AS FAMÍLIAS HENRIQUES JULIÃO E LOPO MACHADO NA INQUISIÇÃO DE COIMBRA.
QUESTÃO RELIGIOSA OU LUTA POLÍTICA?
II - JULIÃO HENRIQUES, MÉDICO EM VILA FLOR
Julião Henriques pode ser considerado o patriarca de uma importante família de cristãos-novos de Vila Flor cujos membros forneceram fartura de carne aos inquisidores - para usar uma expressão que terá ganho foros de escândalo entre alguns cardeais da Cúria de Roma horrorizados com as notícias de abusos que lhe chegavam praticados pela Inquisição espanhola e preocupados com a determinação e teimosia do rei D. João III no estabelecimento do tribunal do Santo ofício em Portugal. (1)
Da sua biografia pouco sabemos. Apenas o nome de seus pais e irmãos e que era casado com Branca Coutinho, filha de Leonel Fernandes, rendeiro, que foi preso pela Inquisição de Coimbra em 1558 (2)
De seus filhos, muito haverá que dizer, especialmente de Pêro Henriques Julião que casou em Torre de Moncorvo com Francisca Vaz e ambos tiveram hospedagem nas masmorras do Santo Ofício. Ele era, de certeza, um dos homens mais ricos e mais considerados da região trasmontana e só assim se compreende que fosse escolhido pelo “governo da comarca” (corregedor, provedor e almoxarife) para o cargo de “depositário do dinheiro das obras públicas do reino”. E também foi escolhido pelos seus confrades para repartidor da finta lançada entre “a gente da nação” para a compra do perdão geral concedido pelo rei Filipe e pelo Papa aos cristãos-novos portugueses; em 1605, que estavam presos nas cadeias das Inquisições de Espanha e Portugal.(3)
Voltando ao patriarca, diremos que ele é apresentado como físico e médico e que a sua vida se repartia entre Castela e Trás-os-Montes, sobretudo entre as localidades de Vilvestre e Vila Flor, indicadas como terras de sua residência. E sabemos que foi denunciado como judaizante na visitação que fez a Torre de Moncorvo o dr. Jerónimo de Sousa, em Março de 1583, enviado pela Inquisição de Coimbra. (4)
Estando então o dr. Jerónimo de Sousa em Torre de Moncorvo, na “casa da Inquisição”, no dia 23 daquele mês e ano, aí compareceu um tal Bartolomeu Fernandes, cristão-velho, de 35 anos, casado, porteiro, que fez a seguinte declaração: (5)
- Disse que haverá onze anos pouco mais ou menos, morando ele com Álvaro Vaz, cristão-novo, mercador, morador nesta vila, que ora está casado com uma irmã de Julião Henriques (…) morando assim com ele vindo uma vez de Castela no dito tempo com panos, passaram a barca de Silvestre de noite e se vieram agasalhar em Freixo de Espada à Cinta, em casa de uma viúva que se chamava a de Burgos chama-se Branca Francisca Rodrigues cristã-nova, estalajadeira e aí veio ter com o dito seu amo Julião Henriques, físico, que então morava em Silvestre e agora mora em Vila Flor e dois filhos da dita estalajadeira (…) e depois de terem ceado, já muito de noite, ele denunciante se foi deitar em cima de uma carrega (sic) na mesma casa onde estavam e depois de ele denunciante se deitar, fez que dormia, e o dito seu amo com os mais cristãos-novos e a estalajadeira e duas filhas suas, mulheres, se ajuntaram junto do fogo e mandaram pôr uma mesa com um lambel por cima e puseram duas velas em dois castiçais, acesas na dita mesa, e entre estas velas puseram um livro de quarto que poderia ter duas mãos de papel, e o abriram e cada um deles lia pelo dito livro; e o primeiro que começou a ler foi Julião Henriques e o segundo foi o amo dele denunciante, e assim corria todos, e cada um lia seu pouco; e acabando cada um de ler, dava uma palmada no livro e o passava a outro; e ele denunciante não entendeu nem pode entender a língua do dito livro, somente entendia algumas vezes, mexiam, levantavam as mãos dando palmadas e que as mulheres não liam, mas iam tocar no dito livro e se tornavam a sentar; e depois se levantaram e estiveram todos em pé um grande pedaço, sem ele denunciante entender o que eles diziam; e acabando isto, cerraram o livro e a velha estalajadeira o foi meter em um cortiço em que tinha sal, a um canto do lar, em entrando à mão esquerda; e enquanto estiveram na dita cerimónia, um neto da dita estalajadeira ia a ver se dormia ele denunciante…(6)
NOTAS
1 – HERCULANO, Alexandre – História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, tomo III, p. 268.
2 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2182, de Leonel Fernandes.
3 – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 5814, de Pêro Henriques Julião. Processo 5022, de Francisca Vaz.
4 – Antes de entrar ao serviço da Inquisição de Coimbra, o dr. Jerónimo de Sousa foi prior da igreja de Vila Flor. E já então revelava um extraordinário zelo inquisitorial, como se vê das actas dos interrogatórios que lhe mandavam fazer. A este respeito é exemplar o relatório que anexou no processo nº 458 da Inquisição de Coimbra, referente a Manuel Lopes, de Vila Flor. Nesse relatório, datado de 23.10.1577, ele permitia-se dizer que não interrogou algumas testemunhas, como lhe fora ordenado, “por não serem da terra, como também por não fazer estrondo (…) e eu porque trazem o olho em mim, não ouso de perguntar isto miudamente, somente noto o que acaso ouço sem perguntar”.
E permitia-se até aconselhar os inquisidores escrevendo que “ deviam vossas mercês usar um pouco mais de rigor neste caso porque estão aqui casas que tiveram mãe e filha escondidas e ainda se presume que está a filha; se estas pessoas fossem presas diriam a verdade; e também a mulher do alcaide de que há culpas de fautoria não deixa com o poder do marido de contar tudo o que pode porque os dias passados morreu aqui um cristão-novo paralítico e começava de falar; morreu uma noite e subitamente; disseram que o mataram com peçonha”.
E não bastando o relatório com tantas insinuações e conselhos, Jerónimo de Sousa escolheu então uma pessoa de toda a sua confiança para ir pessoalmente a Coimbra explicar todos os pormenores do processo – Gaspar da Rosa (tabelião, inimigo figadal dos cristãos-novos) e sua mulher.
5 – Sobre esta visitação ver: ANDRADE, António Júlio e GUIMARÃES, Maria Fernanda – Subsídios para a História da Inquisição em Torre de Moncorvo.
6 – IANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 662.
A mulher de Álvaro Vaz chamava-se Catarina Henriques. E eles foram os pais de Filipa Henriques, que casou com Vasco Pires Isidro e de Francisca Vaz, que casou com Pêro Henriques Julião, todos moradores em Torre de Moncorvo.
(foto da Junta de Freguesia de Vila Flor)


Parabéns pelo objectivo deste Blogue!
ResponderEliminarParabéns ao António Júlio pela sua rica produção literária acerca dos judeus em Trás-os-Montes. Desejo-lhe a ele e a quantos consigo colaboram a continuação de um bom trabalho.
um abraço,
Isabel Mateus
Amigos:
ResponderEliminarComecei do primeiro texto aqui publicado e estou convencida que, nesta área, é um espaço extraordinário. Quiçá único.
Um grande abraço e obrigada pelo que nos dão a conhecer.
Obrigada também ao Lelo pela publicação dos textos.
Júlia
Sobre um episódio da vida de Francisco da Fonseca Henriques, o da publicação do seu Aquilegio Medicinal, há um romance editado pela Sopa de Letras em 2009, intitulado O Segredo da Fonte Queimada.
ResponderEliminarNORDESTE
ResponderEliminarArquivo: Edição de 28-04-2009
Secção: Cultura
Manuel Cardoso lança novo livro
“O segredo da Fonte Queimada”
A Fundação Os Nossos Livros, em Bragança, acolheu o lançamento do livro “O segredo da Fonte Queimada”, da autoria de Manuel Cardoso.
A apresentação da obra, que decorreu na noite da passada quinta-feira, ficou a cargo de Gonçalo Portocarrero de Almada.
O enredo da história passa pela biblioteca de um velho capitão solitário, onde figura um livro raro escrito por um médico de D. João V.
Que segredos encerrará esse Aquilegio Medicinal sobre as fontes de água em Portugal? E que águas e fontes serão verdadeiramente aquelas a que se refere o seu autor? É o que nos propõe descobrir Manuel Cardoso nesta aliciante viagem no tempo até ao Portugal do século XVIII.
De referir que o livro, editado pela Principia, através da Sopa das Letras, conta com o apoio da Câmara Municipal de Bragança.
Para saber mais: http://marranosemtrasosmontes.blogspot.com/2010/07/vultos-judaicos-bragancanos.html
http://www.cm-mirandela.pt/index.php?oid=2887
M.de marrano