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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sabores Judaicos - Trás-os-Montes,por Graça Sá-Fernandes, Naomi Calvão

Na recolha de material sobre a tradição oral, ainda mantida pelos cripto-judeus, em Trás-os-Montes, deparámos com várias orações, práticas religiosas, alimentares e outras.
Estes costumes eram, e são, transmitidos essencialmente pelas mulheres.
Com perigo, até da própria vida, os cripto-judeus transmontanos tiveram que, ao longo do tempo, esconder, e mesmo evitar, todos os costumes e preceitos que os comprometiam.
São disso exemplo o abandono sucessivo da Circuncisão, da Festa das Cabanas, da Delegação Ritual, da Preparação do Vinho, do Uso dos Livros Sagrados e utensílios pertencentes ao culto.
Por outro lado, é muito interessante ver como, passados cinco séculos, persistiu a consciência religiosa em vários campos e como conseguiram, disfarçadamente, continuar com a prática do culto judaico, iludindo a vigilância inquisicional.
Podemos, ao longo deste livro, tomar contacto com alguns desses hábitos.
A alimentação foi, desde sempre, como em todas as comunidades judaicas, um dos traços mais fortes da sua tradição e simbologia características.
Usámos uma cronologia litúrgica para facilitar a leitura das receitas.
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

-OS MARRANOS EM TRÁS OS MONTES de AMÍLCAR PAULO

A GUISA DE ABERTURA

O éxodo israelita e sua fixação na Iberia iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o territorio peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tena­cidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportuna­mente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacio­nalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a pro­vincia trasmontana, facto deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dali pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçada­mente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores.
Estacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoa­ções, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase totalidade, por habitual mister ou obrigatória disposição, às artes, aos ofícios mecânicos, ao comércio de toda a espécie, à usura e contrabando, mas obri­gados ao pagamento de pesados impostos, além da antiga sisa judenga.
O povo oriundo, católico, de rudimentar preparação mental e precária economia, como lhes invejava a prosperidade, odiou-os sempre, mas os réprobos, intelectualmente superiores e voluntariosos, resistiram estoicamente a impostas conversões, a todos os vexames e ataques, suportando sucessivos roubos e extorsões, com impressionante persistência e resignação. Nem os bárbaros processos de Santo Oficio, perpetrados nas pavorosas masmorras, nem os ferinos autos-de-fé, executados com lúgubre publicidade, conseguiram obliterar, no ânimo perseverante dos pei seguidos, a obstinada ideia religiosa, mantida com custo constante e doloroso, com a oferta suplicante da própria e preciosa vida, em verdadeiro holocausto.
Apesar de tamanhas perseguições e desgraças, conseguiram sobre­viver, e ainda hoje, em algumas dessas localidades, Bragança, Vimioso, Carção, Argozelo, Asinhoso, Vilarinho dos Galegos, Lagoaça... se apontam muitas pessoas, como portadoras da ominosa mácula e, mesmo, como devo­tados praticantes da antiga fé.
Seus usos privados, práticas O éxodo israelita e sua fixação na Iberia iniciaram-se em recuados tempos, e os audaciosos imigrantes conseguiram coexistir com os diferentes povos que, sucessivamente, e no decurso de séculos, ocuparam o territorio peninsular, sem nunca se fundirem na amalgama de vencedores e oprimidos, mantendo intacta e sempre viva a antiga crença de Adonai.
Portentosa acção, reveladora de singulares qualidades, de argucia, tena­cidade, sacrificio, de inquebrantável poder de adaptação, com que oportuna­mente os dotara a adversidade, que desde o principio, em todos os tempos, os perseguira sem indulgencia.
Não causa estranheza que, com tais atributos, ao fundarse a nova nacio­nalidade lusitana, o importante elemento se evidenciasse na constituição do agregado populacional e os primeiros monarcas, seguindo sensata e tolerante politica, lhe concedessem certas garantias de estabilidade, privilegios e isenções.
Na região bragançana, naquela época de liberalidade religiosa, existiram judiarias em terras de alguma importância, como foram as de Bragança, Bemposta, Mogadouro e Moncorvo, chegando o Rabino da sinagoga desta última comuna a ter jurisdição sobre os sequazes residentes em toda a pro­vincia trasmontana, facto deveras significativo da sua densidade e influência, nesse período, no recôndito e afastado rincão.
No entanto, foi, possivelmente, quando os reis católicos, Fernando e Isabel, escorraçaram os judeus dos seus estados, que inúmeras familias de raça hebreia se disseminaram por toda a faixa fronteiriça, da estrema norte até ao Douro e dali pela Beira além, avizinhados da saudosa terra forçada­mente abandonada, onde haviam já nascido e prosperado seus maiores.
Estacionaram em diferentes lugares, estabeleceram-se em diversas povoa­ções, formaram a par da população autóctone, núcleos diferenciados de relativa importância, cujos adestrados componentes se dedicavam, na quase
e rezas, mantêm-se vivos, na actualidade, em muitas famílias onde a indiferença ou a apostasia não puderam vencer; modificadas pelo tempo, deturpadas pelo receio do ouvido atento de pro­fanos delatores, transmitem-se, quase sempre, de uns a outros, por tra­dição verbal.
O conhecimento destes e outros pormenores interessa fundamentalmente aos estudos etnográficos e folclóricos, constituindo precioso material de difícil aquisição, pela manifesta relutância, que os adeptos sentem em transmiti-las, para pública revelação.
Assunto interessante, mas pouco versado, bem merece a atenção dos entendidos, para que possa narrar-se a verdadeira acção deste povo estranho, sempre malquisto e atacado, na colectividade nacional.
O consciencioso e vasto trabalho, que Amílcar Paulo conseguiu elaborar, ê muito curioso e útil, e abrange, em grande parte, o leste trasmontano, onde nasceu e a que muito quer.
Mostra, claramente, inteligente e penoso esforço de investigação oral, realizado em ambiente fechado e receoso, em diferentes e distanciadas povoa­ções, que nem sequer possuem os indispensáveis recursos para regular estadia, ião necessária a fatigado peregrinador.
Trata-se de valioso estudo monográfico, que o Autor completou com esclarecedoras notas e citações, comprovativas de vincada origem hebraica, de preceitos e orações, ainda em uso naqueles núcleos de provecta idade, mas de feliz lembrança e memória pronta.
Um boa hora, o apreciável jornalista se inclinou para esta especialidade, e tesolveu revelar, a todos aqueles a quem agrada o conhecimento da nebulosa matéria, o resultado das suas indagações.
Afinal, quero anotar o facto invulgar de, com a publicação destas «novas achegas», se ter realizado o voto do erudito escritor, distinto polígrafo, Doutor Eugénio da Cunha e Freitas, expresso em artigo publicado neste acolhedor «Boletim», e manifestar o desejo de que o Autor continue a árdua tarefa de salvar do esquecimento o copioso manancial de noticias ainda existente na nossa região.

Porto, 1956.
Casimiro de Moraes Machado

segunda-feira, 12 de julho de 2010

-CARÇÃO A CAPITAL DO MARRANISMO


PREFÁCIO

Sinto-me lisonjeado por poder manifestar a minha opinião acerca deste trabalho singular, que de um modo particular é de extrema importância para ultimar a história de Carção e no geral, mais um tributo enriquecedor para a História de Portugal.
Até à presente data, existia pouca documentação fundamentada acerca do povo sefardita de Carção, podendo, apenas, verificar-se algumas menções instrutivas por Francisco Alves (Abade de Baçal), Amílcar Paulo, Leite Vasconcelos, Francisco Rodrigues entre outros.
Esta obra vai ao encontro da nossa história, enriquecendo-a pela grande quantidade de factos passados do quotidiano dos populares entre o século XVII e metade do século XVIII que, até ao momento, eram do desconhecimento de todos nós.
O título da obra “Carção – a capital do marranismo” evidencia bem a importância da comunidade judaica/cristã-nova no nordeste transmontano, tanto em termos económicos (possuidores das indústrias de curtumes, cola, destilação de aguardente e outros ofícios) como pela sua convicção/fervor religioso, que no mínimo é surpreendente.
Apesar de ser um povo severamente massacrado no decorrer dos séculos pelo Tribunal do Santo Ofício, podendo mesmo apelidar-se de holocausto, proveniente do que se passou, principalmente, entre 1691 e 1701 (130 presos!!!), conseguiram resistir, superar todas as atrocidades e mesmo as fugas e muitas condenações à fogueira nos Autos-de-Fé de Coimbra e Lisboa, surpreendendo-nos a preservação e evolução dessa cultura no decorrer dos séculos pelas gerações seguintes.
Uma frase parafraseada pelos autores no início deste projecto “…a história da comunidade judaica de Carção está para lá de tudo o que se possa imaginar…” elucida bem a importância da ocorrência de factos marcantes na história desta comunidade, a exemplo do rabi que vai a Livorno à procura de mais informações religiosas para doutrinar a restante comunidade, a audácia da usurpação dos sambenitos da Igreja Matriz, a crença e fervor religiosa, assim como o “modus vivendi” da época desde a alimentação, ofícios, mentalidades, etc.
A comunidade é tão forte e importante que o Padre António Vieira chega a referir que existiam no seu tempo povoações inteiras constituídas exclusivamente por cristãos-novos, e a esse número devia
pertencer a aldeia dos Carções, no Distrito de Bragança, cuja personalidade «de judeus» ainda hoje é apontada pelos vizinhos.
Esta obra poderá ser também, o embalo para Carção se tornar num lugar central na rota do Turismo Judaico de Trás-os-Montes, que do meu ponto de vista, foi um dos núcleos mais importantes. Por conseguinte, é uma ajuda preciosa na reposição da verdadeira história de Carção, que de alguns anos a esta parte tinha vindo a ser deturpada e desviada em detrimento de outras.
Felicito os autores pela originalidade desta investigação, podendo tornar-se num importante e valiosíssimo suporte e ponto de partida para futuros estudiosos.
Paulo José Fernandes Lopes
(Mestrado em História da Arte;
Lic. em Ensino Básico, v. E.V.T.;
Presidente de Associação Almocreve)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

-Uma Família de Cristãos-Novos em Bragança

Filipe Pinheiro de Campos
Edição: 2007
3 vols.
Sinopse:
O presente conjunto de três volumes corresponde a uma aturada investigação de Filipe Pinheiro de Campos em torno de uma família de cristãos-novos estabelecidos em Bragança nos finais do século XV, consagrando um elevado número de casas com relevância na cidade e na região, assim como nas cidades de Lisboa e do Porto.
Com prefácio do Professor Doutor António de Sousa Lara, esta obra genealógica é de grande relevância histórica e social para o estudo do percurso dos cristãos-novos transmontanos e da sua inserção social e cultural na sociedade Portuguesa, abrange um grande número de personalidades e ramos familiares …

sexta-feira, 2 de julho de 2010

-VULTOS JUDAICOS BRAGANÇANOS

Francisco da Fonseca Henriques (Dr. Mirandela)






· Al Alimentação, qualidade do ar, higiene e descanso são alguns dos temas desta obra. Sua primeira edição é de 1721, mas o texto traz diversas recomendações surpreendentemente atuais para manter uma vida saudável. A obra teve apenas três reedições, todas no século XVIII, e ressurge agora com glossário. A linguagem foi atualizada pelos professores Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, Leônidas Querubim Avelino (UFMT), Sílvio de Almeida Toledo Neto e Heitor Megale (USP).
Sumário

Prefacio –
Dr. Cássio Ravaglia

O Primeiro Tratado de Nutrição em Língua Portuguesa –
Dr. Sérgio de Paula Santos

âncora medicinal

Ao Excelentíssimo Senhor
Excelentíssimo Senhor
Ao Leitor
Licenças do Santo Ofício
Antelóquio
Seção I – [do ar ambiente]
I. O que Seja Ar e que Poderes Tenha no Corpo Humano. II. Da Eleição do Ar
Seção II – [dos alimentos em comum].I. O que Seja Alimento, como se Coza no Estômago e Quais Sejam os Melhores Alimentos para as Pessoas que Têm Saúde.II. Da Quantidade de Alimento. III. Qual Seja mais Saudável, a Mesa que Consta de um só Alimento ou a que se Compõe de Muitos.
IV. Da Ordem com que se Hão de Usar os Alimentos
V. Quantas Vézes e em que Horas se Há de Comer Cada Dia
VI. Se o Almoço Há de Ser Maior que o Jantar, se o Jantar Maior que o Almoço
VII. Se os Alimentos do Jantar Devem Ser Diferentes dos do Almoço?
VIII. Se é Melhor Comer Assado ou Cozido?
IX. Do Alimento Próprio para Cada Idade e Temperamento
X. Do Alimento Próprio de Cada Témpo do Ano
Seção III – [dos alimentos em particular]. I. Do Pão de Trigo.II. Do Pão de Centeio, de Milho, de Cevada e Aveia. III. Dos Animais Quadrúpedes em Comum. IV. Das Carnes dos Quadrúpedes em Particular. V. Das Entranhas e Extremidades dos Animais Quadrúpedes.VI. Das Partes Líquidas dos Quadrúpedes que Servem de Alimento .VII. Dos Animais Voadores. VIII. Dos Ovos (Ova Gallinae).IX. Dos Peixes em Comum. X. Dos Peixes em Particular. XI. Dos Legumes. XII. Da Hortaliça Sativa e Esculenta. XIII. Das Raízes Sativas. XIV. Das Raízes que se não Semeiam e dos Cogumelos. XV. Dos Frutos Sativos. XVI. Dos Frutos das Árvores. XVII. Dos Frutos Lenhosos. XVIII. Dos Condimentos. XIX. Dos Aromas
Seção IV – da água, do vinho e de outras bebidas alimentares e medicamentosas que no presente século se frequentam.I. Da Água e suas Diferenças. II. De que Água se Há de Usar, em que Quantidade, em que Tempo e com que Ordem se Há de Beber.III. Se se Há de Beber Água Fria, se Quente, Crua, ou Fervida; e das Utilidades e Danos de Cada uma Delas.IV. Da Água Nevada, Sorvetes, Limonadas de Neve; e da Água Fria nos Poços e ao Sereno, e de Outras Bebidas.V. Do Vinho e suas Diferenças.VI. Qual Seja o Melhor Vinho; se Devem Usar Dele as Pessoas que Têm Saúde; em que Quantidade se Há de Beber e das Utilidades e Danos que Causa.VII. Se o Vinho se Há de Beber Puro, se Linfado.VIII. Propõem-se Algumas Advertências que se Devem Observar no Uso do Vinho.IX. Da Aguardente, do Espírito de Vinho, da Água-da-rainha-da-Hungria e do Arrobe de Vinho.X. Da Cerveja.XI. Do Chocolate.XII. Do Chá.XIII. Do Café.XIV. Do Licor a que Chamam Sidra.XV. Do Hidromel Vinoso e do Mulso

Seção V – do sono e vigília; do movimento e descanso; dos excretos e retentos e das paixões da alma
I. O que Seja Sono e que Utilidades e Danos Cause no Corpo Humano. II. Em que Tempo, Quantas Horas e com que Decúbito se Há de Dormir.III. Que Coisa Seja Vigília e Quais os seus Efeitos no Corpo Humano.IV. Do Movimento, ou Exerácio. Mostra-se o que Seja Exercício e as Utilidades que dele se Seguem.V. Do Descanso. Mostra-se o Muito que Ofende a Falta de Exercício.VI. Dos Excretos e Retentos.VII. Das Paixões da Alma
Glossário
Índice das Coisas que se Contêm neste Livro
Autor: Francisco da Fonseca Henriquez
Biografia: Francisco da Fonseca Henriquez:
Nasceu em Mirandela, em 6.10.1665 e faleceu em Lisboa, em 17.4.1731. Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra e foi médico de el rei D. João V Foi autor de vários tratados científicos que o Abade de Baçal menciona no Tomo VII das suas Memórias, p.p. 239/241. Enalteceu-o também Francisco da Fonseca Henriques, médico de D. João V falando das águas de caldas, fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do reino de Portugal dignos de particular memória em 1726: "o barro he de tal natureza que do muy fino, não só se fazem púcaros e quartos de boa forma, mas também figuras e brincos que servem de adorno e compostura de casas, no que se tem aprovado muyto o primor dos Artifícios, com utilidade sua".
Fontes: Ateliê Editorial e C.M.M.

terça-feira, 29 de junho de 2010

-SABORES JUDAICOS


Sabores Judaicos — Trás-os-Montes
Graça Sá-Fernandes
Naomi Calvão
Colecção: Coração, Cabeça e Estômago / Sabores Exóticos
Assírio & Alvim -
Sinopse:
Na recolha de material sobre a tradição oral, ainda mantida pelos cripto-judeus, em Trás-os-Montes, deparámos com várias orações, práticas religiosas, alimentares e outras.
Estes costumes eram, e são, transmitidos essencialmente pelas mulheres.
Com perigo, até da própria vida, os cripto-judeus transmontanos tiveram que, ao longo do tempo, esconder, e mesmo evitar, todos os costumes e preceitos que os comprometiam.
São disso exemplo o abandono sucessivo da Circuncisão, da Festa das Cabanas, da Delegação Ritual, da Preparação do Vinho, do Uso dos Livros Sagrados e utensílios pertencentes ao culto.
Por outro lado, é muito interessante ver como, passados cinco séculos, persistiu a consciência religiosa em vários campos e como conseguiram, disfarçadamente, continuar com a prática do culto judaico, iludindo a vigilância inquisicional.
Podemos, ao longo deste livro, tomar contacto com alguns desses hábitos.
A alimentação foi, desde sempre, como em todas as comunidades judaicas, um dos traços mais fortes da sua tradição e simbologia características.
Usámos uma cronologia litúrgica para facilitar a leitura das receitas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

-JACOB DE CASTRO SARMENTO II


No auditório do centro cultural de Bragança, no decorrer da feira do livro, realaizou-se no domingo passado, 15 de Junho a apresentação do livro - Jacob de Castro Sarmento. A sessão foi presidida pelo sr. presidente da câmara municipal, engº Jorge Nunes que manifestou muito interesse em que se faça o estudo da importância que os judeus e os marranos tiveram na história da cidade de Bragança e em todo o distrito. Sobre o livro e o trabalho dos autores falou a drª Carla Vieira, da cátedra de estudos sefarditas da universidade de Lisboa.

Seguiu-se a intervenção de Fernanda Guimarães que realçou o papel dos marranos fugidos de Bragança na fundação da sinagoga e da comunidade judaica de Londres. Júlio Andrade referiu-se à urgência que há em desenvolver uma rota dos judeus em Trás-os-Montes. Na assistência destacava-se um grupo de pessoas idas expressamente do Porto e outro grupo de gente de Carção. Ficou a promessa de em breve haver uma edição inglesa do livro, a qual está a ser preparada

Prefácio
“Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou.”
Álvaro de Campos, Opiário
Na dedicatória da sua obra Matéria Médica, physico-historico-mechanica, dirigida a Marco António de Azevedo Coutinho, então secretário de Estado e enviado extraordinário e plenipotenciário à corte britânica, Jacob de Castro Sarmento ousou fazer uma sugestão a tão ilustre figura da corte portuguesa:
“[...] quisera eu humildemente propor a Vossa Excelência e à Real Academia de História que sem sair, a meu ver, da instituição dela, seria um grande brasão da nossa Nação Portuguesa, o deputar alguns dos sapientíssimos académicos para escreverem uma história de todos os sábios lusitanos que floresceram em todos os tempos passados, dando relação de seus escritos, assim dos que escreveram dentro dos domínios próprios, como dos que floresceram e escreveram entre os estranhos. Esta história, não faltando o material para compô-la, prognostica dois grandes benefícios a Nação Portuguesa: o primeiro consiste em que olhando as nações para a nossa história literária e vendo aos nossos ali juntos florescer em casa e fora dela, esse semblante com que agora, por falta desta noticia, nos olham como superiores se mudaria no de veneração para os nossos antepassados que os excederam a eles; o segundo consiste em que vendo nós mesmos na história dos sábios literários lusitanos tantos incentivos para sermos grandes entre as gentes quantos são os gloriosos exemplos de nossos predecessores, deixando o ócio que nos fez perder um pouco de vista à nossa antiga proeminência, nos aplicaremos com mais cuidado que Nação alguma para que a nossa diligência, em imitação da antiga, venha a produzir o material para uma nova historia literária [...]”
A obra foi publicada em 1735. Então, Castro Sarmento contava já com um currículo admirável: tinha escrito uma memória sobre a inoculação da varíola, um tratado dedicado às virtudes de certos tipos de águas minerais, três sermões sobre a celebração do Quipur, uma paráfrase ao Livro de Ester e um elogio fúnebre em memória do rabi David Nieto, da congregação de Londres, cidade onde se encontrava a viver desde os anos 20 do século XVIII. Sobretudo, era membro da Royal Society, tendo sido, assim, um dos primeiros judeus a integrá-la.
Portanto, bem vistas as coisas, Jacob de Castro Sarmento inseria-se já na categoria de que ele próprio fala na dita dedicatória, a dos “sábios lusitanos” que “floresceram e escreveram entre os estranhos”. E ainda estava apenas no início da sua carreira. Afinal, a Materia Medica abre um período de produção científica altamente profícua que apenas cessaria com a sua morte, com cerca de 70 anos de idade. A química, a física newtoniana, a cirurgia, a farmacologia e até a astronomia foram alvo do interesse de Castro Sarmento e áreas nas quais deixou a sua marca indelével.
Porém, séculos passados, este “sábio lusitano” da diáspora tem sido tratado com semelhante incúria a que foram sujeitos os outros “sábios” aos quais fez menção na dedicatória da Materia Medica. Peca por defeito a bibliografia portuguesa dedicada a Jacob de Castro Sarmento. Salvemos algumas excepções, nomeadamente os opúsculos escritos por Augusto Isaac d’Esaguy, ou o mais recente trabalho desenvolvido por José Pedro Sousa Dias relativo à introdução e uso da água de Inglaterra em Portugal. Fora isso, Sarmento surge apenas de uma forma pontual na historiografia nacional. É uma lacuna lamentável não existir uma única tese de mestrado ou doutoramento em Portugal dedicada à vida e obra de uma das figuras mais proeminentes da diáspora sefardita em Inglaterra e da ciência setecentista escrita em português (e se existe, deixo já aqui as minhas desculpas e as minhas esperanças numa maior divulgação de tal trabalho).
Por outro lado, esse olvido não deixa de ser uma infeliz ironia do destino.
Afinal, o percurso de Jacob de Castro Sarmento foi marcado por uma relação quase bipolar com a terra e a gente que o viu nascer. Sai de Portugal sob o encalço da Inquisição, ameaçado pelas prisões efectuadas no seio da sua família e da sua esfera de relações. Em Londres, é acolhido pela comunidade sefardita estabelecida na cidade, não sem gerar desconfianças e acusações que o perseguiriam durante toda a sua vida. Como membro da Royal Society, Castro Sarmento serve de intermediário entre esta instituição e a sua congénere portuguesa, a Academia Real de Lisboa. É frequentemente consultado pela embaixada portuguesa em Londres, quer nas suas funções de médico, quer de cientista. Torna-se, assim, próximo de Marco António de Azevedo Coutinho e do seu sucessor, Sebastião José de Carvalho e Melo. É com Sarmento que o futuro Marquês de Pombal se aconselha a respeito da reforma da Universidade de Coimbra. Também é por seu intermédio que chegam a Portugal as mais recentes inovações técnicas, como o microscópio ou o termómetro Fahrenheit. A sua permanente ligação a Portugal manifesta-se igualmente na sua obra. É o caso da Materia Medica, na qual Sarmento disserta sobre as propriedades das águas das Caldas da Rainha e as riquezas minerais do Brasil. Isto já para não falar no seu trabalho de introdução da água de Inglaterra em Portugal.
Em 1755, ao ter notícia do terramoto que abalara o seu país natal, Castro Sarmento escreveu a Diogo de Mendonça Corte Real, lamentando a calamidade e prontificando a sua ajuda “pois sabe muito bem, que uma grande parte do meu tempo e melhor da minha vida o tenha interessado no bem público e benefício da minha Pátria”. A resposta da pátria é que nem sempre foi a desejada. Sarmento planificou a tradução para português da obra de Francis Bacon. O financiamento não chegou. Sarmento empenhou-se na composição de um dicionário de português-inglês. A sua sorte foi a mesma. Sarmento propôs a criação de um jardim botânico à Universidade de Coimbra e à Academia Real de História. Nenhuma das instituições aceitou a proposta e a oferta de ajuda de Sarmento e de Hans Sloane, então presidente da Royal Society. A história natural não era uma prioridade. Em suma, Sarmento queria introduzir em Portugal a vanguarda da ciência europeia mas a sua pátria não partilhava as mesmas aspirações.
A pátria não valeu a Jacob de Castro Sarmento. E a religião também não. Baptizado como Henrique de Castro, viveu como católico até à sua chegada a Londres. Então, converteu-se ao judaísmo e ingressou na congregação de Londres, sob a protecção de David Nieto. A sua ligação à Bevis Marks começaria a esvanecer-se a partir da morte do rabi. Os laços romper-se-ia definitivamente em 1758, quando se casa com uma mulher cristã e escreve à congregação a comunicar as razões do seu afastamento. Jacob morre como anglicano.
Matt Goldish, autor de um interessante artigo sobre a adesão de Sarmento às teorias newtonianas (“Newtonian, Converso and Deist: the Lives of Jacob (Henrique) de Castro Sarmento”, Science in Context, vol. 10, n.º 4, Inverno 1997), refere que a adesão de Sarmento ao judaísmo não exprimiu um profundo sentimento religioso mas antes a conveniência de se encontrar ligado à comunidade sefardita de Londres e que, após a morte do seu patrono, o rabi Nieto, a sua vivência religiosa passou para um plano secundário. Como refere o autor, Sarmento ganhou então um “novo herói”, Isaac Newton, e a sua permeabilidade ao pensamento newtoniano deveu-se muito ao facto de não possuir uma ligação profunda a nenhuma confissão religiosa.
Afinal, Sarmento viveu toda a sua vida sob a sombra da perseguição religiosa: em Portugal pela Inquisição, em Londres, vítima da desconfiança de alguns membros da congregação. Olhando para trás, vemos como a opressão religiosa passou de geração para geração na sua família.
Apenas compreendemos o homem, compreendendo essa funesta herança. E é sobretudo a este nível que o presente estudo, levado a cabo por Maria Fernanda Guimarães e António Júlio de Andrade com afinco e dedicação, representa um contributo inestimável para o conhecimento não só da vida, como também do passado geracional de Jacob de Castro Sarmento.
Sigamos, assim, a história de uma família que acompanha a história de uma instituição, arquétipo da intolerância religiosa. Encontremo-nos com Francisco Rodrigues, tabelião de Bragança, um baptizado em pé, preso em 1531, nos primórdios do estabelecimento do Tribunal da Inquisição em Portugal, e perscrutemos as vidas dos seus descendentes até aos primos de Jacob de Castro Sarmento que, ao longo da primeira metade do século XVIII, vão povoando os cárceres do Santo Oficio. Mais de dois séculos de medo, de calabouços, de evasão.
É um cenário de cativeiro aquele que Jacob de Castro Sarmento deixa atrás de si quando embarca rumo a Inglaterra. O que encontra ao chegar às margens do Tamisa? Uma resposta a esta pergunta é igualmente delineada no presente estudo, abordando a constituição da comunidade sefardita de Londres e, sobretudo, da sua sinagoga, a Bevis Marks, com particular destaque para os bragantinos que encontraram nesta cidade a liberdade religiosa posta em xeque na sua terra natal.
Uma geração notável de sefarditas de origem portuguesa povoava a cidade de Londres no momento em Sarmento ali chega. Recordemos apenas alguns nomes. Issac de Sequeira Samuda, também médico formado em Coimbra, chega a Inglaterra aquando de Sarmento e foi igualmente membro da Royal Society, assistiu a embaixada portuguesa e recebeu o título de médico extraordinário do Príncipe Regente de Portugal. Benjamim Mendes da Costa, Solomon da Costa Athias e Joseph Salvador integraram o comité destinado ao envio de colonos judeus para a Carolina do Sul. Emanuel Mendes da Costa, originário de uma família com raízes portuguesas, foi bibliotecário da Royal Society, dedicou-se à História Natural, em particular nas áreas da conchologia e do estudo dos fósseis, onde deixou uma obra muito relevante. São apenas alguns nomes de judeus portugueses ou descendentes de famílias portuguesas que se notabilizaram em Londres, muito para lá da comunidade sefardita ali estabelecida.
Com uma tão marcante presença de portugueses na cidade que o acolheu, poderíamos supor que Jacob de Castro Sarmento se tenha sentido em casa em Londres. Mas, e as desconfianças entre os seus congéneres? E as acusações de conluio com o Santo Ofício português (acusação extraordinária, tendo em conta a perseguição inquisitorial de que a sua família foi alvo!)? E as rivalidades dos seus colegas de profissão? A determinado momento, talvez Jacob de Castro Sarmento se tenha sentido tão desamparado pelos seus quanto se sentiu a sua prima Mariana Santiago, obrigada a pedir esmola porta a porta das famílias cristãs-novas de Lisboa, recebendo em troca a denúncia em vez do pão. A sorte de um e de outro foi bem diferente. Os contextos em que viviam também o eram. Porém, a sombra da perseguição sempre acompanhou esta família. A presente obra demonstra-o habilmente.
Carla da Costa Vieira
(Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste»)
Lisboa, 22 de Março de 2010