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| Foto A.F.P.D.S.J. |
domingo, 17 de fevereiro de 2013
JUDEUS DE TRÁS-OS-MONTES MANTÊM PERFIL GENÉTICO
É a primeira vez que a composição genética dos judeus
portugueses do Norte é analisada e a conclusão aponta para um baixo nível de
contaminação por mistura de sangue e para a preservação de genes judaicos.
Pode falar-se de uma comunidade transmontanas de
proveniência judaica com dupla composição: uma autóctone e outra castelhana,
robustecida pela expulsão dos judeus de Castela, em 1492, e pela fuga à
Inquisição do reino vizinho. Após os decretos de expulsão/conversão forçada
(por D. Manuel I, em 1496) e após três séculos de Inquisição, este estudo
pretende traçar a demografia histórica das comunidades criptojudaicas e da
diáspora sefardita . Ainda não está concluído, mas já foram lançados alguns
resultados preliminares que se relacionam com a zona de Trás-os-Montes: está
feita a caracterização da composição genética da comunidade de judeus do
Distrito de Bragança.
Para a elaboração deste estudo foram analisados 57
indivíduos (das aldeias de Carção e Vilarinho dos Galegos; vila de Argoselo;
Cidades de Bragança e Mogadouro) que se assumiam como possuindo ancestralidade
`judaica`.
De acordo com o coordenador do estudo, António Amorim, foram
detectadas em comunidades do distrito de Bragança “linhagens típicas do Próximo
Oriente dez vezes mais frequentes do que no resto do país que se identificam
como sendo de origem judaica”. Pode dizer-se, continua António Amorim, “que
houve manutenção de uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência
de um perfil genético distinto, mas que não corresponde a um isolamento total”.
Quanto à interpretação destes dados, o investigador prefere “esperar pelos
resultados das linhagens femininas para (re)analisar essas questões”, sendo
que, de
qualquer modo, "o nível histórico e socilógico dessa
análise será feito por especialistas nessas áreas”. O estudo emergiu de uma
análise do cromossoma Y (masculino), passado exclusivamente de pai para filho,
e denunciou uma diversidade muito elevada de linhagem, com uma incorporação de
genes não-judaicos relativamente pequena e a ausência de um acentuado desvio
genético. Falta agora tentar perceber como é que estas comunidades evitaram a
mistura de genes, previsível durante séculos de repressão religiosa.
Este estudo tem, no entanto, uma amplitude mais vasta.
Abraça o crescente interesse, em várias áreas científicas, pela reconstituição
de migrações, nomeadamente das populações judaicas que constituem um paradigma
de comunidades em migração constante. O projecto focou um subconjunto bem
limitado desses movimentos: o das comunidades judaicas da Ibéria depois do
século XVI, quando esta minoria demograficamente importante foi forçada a
escolher entre a conversão e o exílio. Pretende utilizar marcadores genéticos
de populações actuais para inferir a demografia histórica das comunidades que
permaneceram na Ibéria e daquelas que migraram para a Europa do Norte e para o
Novo Mundo.
Foi estabelecido, previamente, o perfil genético das
populações portuguesas actuais e deu-se início à caracterização das comunidades
criptojudaicas (estando a das linhagens masculinas do Noroeste está já
concluída). O próximo passo será investigar as comunidades Sefarditas da Europa
e da América bem como elucidar o impacto da migração forçada de crianças de
origem judia para São Tomé e Príncipe por volta de 1500 (caso tenha existido).
As questões específicas a que tencionamos responder são:
(a) aquando dos decretos de expulsão essas comunidades eram
geneticamente distintas? (b) em que medida as comunidades que permaneceram em
Portugal mantiveram não só a sua identidade cultural, mas também o seu fundo
genético? (c) o isolamento cultural acarretou o empobrecimento da diversidade
genética? (d) o perfil genético das comunidades migrantes é consistente com a
sua fundação por judeus ibéricos ou revela a incorporação de outras
contribuições? e (e) em qualquer caso, as comunidades Europeias e Americanas
revelam o mesmo padrão genético ou é diverso, nomeadamente em termos de género,
como é clássico observar em ambientes coloniais?
Para responder a estas questões vão ser utilizados
marcadores genéticos capazes de distinguir as histórias das linhagens femininas
e masculinas das comunidades estudadas, de traçar os perfis genéticos dos
fundadores e estimar proporções de mistura. Limitando a análise a casos
relativamente simples e contrastantes, poderemos delinear modelos que permitam
a investigação subsequente em situações mais complexas, como as da Diáspora
mediterrânica.Será também possível a esclarecer o tipo e a quantidade de fluxo
genético entre as comunidades judaicas e as suas envolventes
Os resultados preliminares foram publicados recentemente no
American Journal of Physical Anthropology (Revista Norte-americana de
Antropologia Física). O projecto envolve 16 investigadores, 10 dos quais
doutorados, e cinco unidades de investigação: IPATIMUP, Centro de Estudos
Africanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Centro de Estudos
Sefarditas `Alberto Benveniste`, Centro de Investigação em Antropologia da
Universidade de Coimbra e Society of Crypto-Judaic Studies.
Resta acrescentar que a Fundação para a Ciência e Tecnologia
(FCT) reprovou este projecto destinado a traçar pela genética a história dos
judeus sefarditas, alegando que “Um estudo genético deste tipo abre a porta a
toda a espécie de manipulação ideológica”, temendo ainda “danos morais e
intelectuais” de “extensão considerável” em comunidades “rurais e frágeis”. O
coordenador do Projecto afirmou que não iria aceitar nem os argumentos, nem a
decisão da FCT.
AS / REIT + AA / IPATIMUP + ER / FCUP
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