sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ANTÓNIO HENRIQUES – o bacharel de V. N. Fozcôa que em Coimbra hospedou o correio do Messias

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães

O estabelecimento da Inquisição deixou muito perturbados os cristãos-novos. E esta perturbação naturalmente que desencadeava ondas de emoção colectiva. Escusado será dizer que, face a uma tal situação de amargura e desespero, as pessoas procuravam alívio, refugiando-se na religião de seus pais e avós. Extremamente fragilizados e tornados vulneráveis, sentiam-se como náufragos e tentavam desesperadamente agarrar-se a qualquer tábua de salvação.
Não admira, pois, que em tal ambiente de tragédia e desespero, tenha brotado com força a ideia de um salvador do povo judeu. E foram vários os Messias que surgiram e os Profetas que os anunciavam, um pouco por toda a parte: na Turquia, na Itália, na Alemanha ou na África.
De entre esses movimentos messiânicos que surgiram na primeira metade do século de 500, realce para o que foi protagonizado por Reubeni, o qual foi, aliás, levado muito a sério, mesmo em círculos estranhos ao judaísmo, a ponto de ser, inclusivamente, recebido com todas as honras na Cúria Romana e nas Cortes de Portugal e Castela. E, de entre os pregadores desse movimento messiânico, destacou-se o cripto-judeu Diogo Pires, nascido em Évora, formado em Medicina pela universidade de Salamanca e falecido em Itália em 1607.
Dia 30 – 18H30
Apresentação do livro “Os Isidros”
por António Júlio Andrade
Em Portugal surgiram, entretanto, dois estranhos personagens e trágicos: Bandarra, o poeta , sapateiro de Trancoso, cristão-velho e Luís Dias, o alfaiate de Setúbal, cristão-novo. E se o primeiro se apresentava como um adivinhador e profeta, o segundo considerava-se o Messias prometido aos judeus. E nele acreditavam até pessoas de elevada cultura e prestígio social, como fossem:
* O dr. Francisco Mendes, médico do irmão do inquisidor mor e futuro rei de Portugal – o cardeal D. Henrique.
* O dr. Dionísio, outro médico, ou físico da Corte que depois fugiu para Londres.
* Mestre Gabriel, apresentado como físico e também como procurador de causas (advogado) que “andava por Lisboa pregando aos cristãos-novos, de casa em casa, a lei de Moisés e se provou que circuncidou muito número deles”.
* Um Lente de Medicina da universidade de Coimbra cuja identidade permanece desconhecida.
* João Fernandes, um cristão-novo que era sapateiro em Évora e se transferiu para Lisboa tornando-se vendedor de calçado e foi celebrizado com “o bedel do Messias”, espécie de contínuo ou porteiro.
* Pêro Álvares, um conceituado mercador de Évora que em Lisboa frequentava casas da nobreza, como eram as do duque de Bragança e do conde de Portalegre. Foi pelos historiadores apelidado como o “diplomata” ou embaixador do Messias de Setúbal.
* Diogo Montenegro, esse é apresentado como “astrólogo e mago” mas também como “vagabundo e tão calaceiro e de má e leve opinião que antes que fosse preso, andava pelas ruas e casas de cristãos-novos de Lisboa pedindo esmola, sob ameaça de denunciar à Inquisição, como heréticos, os que lha não davam”.
Mais estranho ainda é que, entre os “apóstolos” do Messias de Setúbal, se contasse um cristão-velho, licenciado, alto funcionário de Estado, que foi juiz de fora em Portalegre, Évora e Santarém, antes de assentar em Lisboa, como Desembargador do Paço. Era o dr. Gil Vaz Bugalho, e em sua casa faziam sinagoga os membros do movimento.
Por Trás-os-Montes, de entre os divulgadores dos movimentos messiânicos da época e do Messias de Setúbal, foram citados dois primos, residentes em Miranda do Douro, ambos com o nome de Diogo de Leão, um deles morador na rua da Costanilha e o outro na rua Nova.
Apresentamos, por fim, o homem que era tido como o “correio do Messias”, acaso o seu maior propagandista – Jorge Fernandes, o Labaredas, de alcunha. Era um homem que pouco parava, que levava a vida negociando por qualquer parte e levando a qualquer canto a mensagem do Messias. E seria o homem que estabelecia a ligação entre os grupos ou células de judaizantes seguidores do alfaiate de Setúbal.
E terá sido com esse espírito que, a certa altura, empreendeu uma deslocação a Coimbra. Aí o seu contacto foi um tal Jorge Vaz que tinha umas casas de aluguer na rua de Santa Sofia funcionando como “repúblicas” de estudantes. Em uma dessas casas ou “repúblicas” ficou alojado, dormindo em um quarto partilhado com o bacharel António Henriques.
Jorge Fernandes acabaria exactamente por ser preso nesse quarto e conduzido para o tribunal da Inquisição de Évora, acabando por ser queimado na fogueira. No decurso do processo e entre as muitas declarações produzidas, disse que, naquela estadia em Coimbra, se declarou seguidor da lei de Moisés, com António Henriques e com ele praticou cerimónias da mesma lei. Seguiu-se, naturalmente, a prisão de António Henriques, acusado daqueles crimes e ainda de ter alojar e encobrir hereges. Antes de continuarmos, vejamos ligeiramente os traços biográficos deste homem.
Nasceu em Vila Nova de Foz Côa, por volta de 1517, sendo filho de Gabriel Henriques, juiz das sisas e de sua mulher Brites Fernandes. Tinha uma irmã chamada Francisca da Silva que casou com o mercador Manuel Henriques e moravam em Foz Côa. Francisca da Silva foi também presa pela Inquisição, muitos anos depois, em 1604, quando contava já uns 80 anos. Isabel Henriques se chamou outra sua irmã, a qual casou com o dr. Henrique Dias, famoso advogado de Torre de Moncorvo, terra onde moravam, na rua do Cano. Um filho destes, sobrinho do bacharel, Francisco da Silva, de seu nome, seria igualmente processado pela Inquisição, em 1603, juntamente com sua mulher, Guiomar Rodrigues.
Teria uns 16 anos e “sabia já Gramática” quando os pais de António Henriques o mandaram de Foz Côa para Salamanca, a estudar. Frequentou aquela Universidade durante 6 ou 7 anos, saindo formado bacharel em Cânones e Leis. Porém, regressando a Portugal, e por entretanto ter saído legislação que obrigava a frequentar a universidade de Coimbra para poder exercer a profissão e validar o diploma, o nosso bacharel teve de rumar à cidade do Mondego, onde foi depois denunciado e preso, em Março de 1541, como já se disse. Saiu condenado ao pagamento das custas do processo e 30 cruzados para obras pias e abjurando “de vehementi” em 1.7.1541, pedindo perdão “por agasalhar, recolher e encobrir em minha pousada a um Jorge Fernandes (…) sabendo dele que era herege e apóstata da nossa santa fé católica”.
A primeira versão dos factos, apresentada pelo bacharel Henriques no decorrer do processo foi, no entanto, bem diferente e contrária a esta confissão. Não curando agora de saber qual a inteira verdade, vejamos a versão inicial apresentada, pois contém pormenores deveras interessantes. Comecemos por ver o retrato que António Henriques fez de Jorge Fernandes, o Labaredas:
- É filho de um feneiro (casa de recolha de cavalgaduras a que se fornece feno) de Lisboa e que sempre se criou em Lisboa e lá se criou e na corte (…) pessoa bem vestida, homem mancebo e ao parecer mais homem de paço do que herege.
Não o conhecendo de parte alguma, A. Henriques disse que foi o filho do dono da casa que veio pedir-lhe para que o alojassem na “república” durante 5 ou 6 dias que era o tempo que necessitava para efectuar os seus negócios. E dispondo-se ele a auscultar os outros estudantes que ali moravam, o mesmo filho do dono lhe argumentou que tal não era necessário, pois sendo ele o mais velho e mais antigo na casa e já bacharel formado, os outros estudantes não iriam contra.
Acrescentou o prisioneiro que, tendo passado os 5 ou 6 dias, e o Labaredas não parecendo disposto a ir-se embora, ele se queixava do intruso “à ama” que arrumava a casa e fazia o comer, bem como aos seus companheiros. Até que um dia, regressando dos estudos, encontrou o Labaredas “lendo uma brivia (bíblia) de Toscano” e vestindo uma espécie de colete tecido de lã e com uns fios pendentes e a meter conversa com ele, começando a falar-lhe do Messias que não era Jesus Cristo, mas um outro, o verdadeiro Messias prometido nas Escrituras “e que estava em Lisboa”. Aí, António Henriques terá concluído que era perigoso viver com tal companhia e expulsou-o do quarto.
Posto na rua e andando “desagasalhado” por Coimbra, o Labaredas procurou Nuno Rodrigues, um outro estudante da “república” pedindo-lhe que o alojasse no seu quarto. E este estaria disposto a isso mas… “sabendo isto o réu (António Henriques) tomou o Nuno Róis perante a ama e mais companheiros e disse que nas casas onde ele réu morasse não havia de entrar tão perro danador das honras e famas dos homens”.
Durante um mês e tal viveu Jorge Fernandes em outra casa da rua do Corpo de Deus e depois foi de novo hospedar-se na rua Sofia em casa de um António Gomes, vizinho, de paredes-meias. E em sua casa estava quando vieram as justiças para o prender.
Parece que aquelas casas comunicavam todas umas com as outras por portas interiores, conforme testemunhou o nosso bacharel: - “Há um mui grande lanço de casas feitas de uma parte, logo afeiçoadas para estudantes, as quais entram umas pelas outras, de uma parte até outra (…) e todas as casas daquela rua e daquele lanço são passadiças umas das outras de um cabo até ao outro”.
E o Labaredas, sentindo-se apertado, bateu a uma dessas portas interiores, que lha abriram e por onde ale se meteu no edifício da “república” que ele bem conhecia, indo esconder-se exactamente debaixo da cama do bacharel Henriques.
Estava este na rua com os vizinhos a assistir à cena, quando viu as justiças regressar da casa de António Gomes com as mãos a abanar e dispondo-se a ir embora sem efectuar a prisão. Aí, ele desconfiou e, subindo ao seu quarto, ali encontrou o Labaredas. De imediato armou um alvoroço e o expulsou de casa fazendo que o prendessem e atirou pela janela os papéis e ornamentos que com ele trazia para fazer as suas práticas judaicas, nomeadamente “uma vestidura de fímbrias e uns tefelins”.
FONTES E BIBLIOGRAFIA:
ANTT, Inquisição de Évora, processo 2161, de António Henriques
ANTT, Inquisição de Coimbra, processo 1362, de Francisco da Silva
ANTT, Inquisição de Coimbra, processo 43, de Francisca da Silva.
ELIAS PIPINER, O Sapateiro de Trancoso e o Alfaiate de Setúbal, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1993.
Nota – Este texto foi originalmente publicado no jornal Terra Quente
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