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| Os Iidros, a epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo – Editora Lema d´Origem |
sábado, 3 de novembro de 2012
Mais de 200 anos nas cadeias do Santo Ofício
A
história da família Isidro, de Torre de Moncorvo, acompanha praticamente toda a
história da inquisição portuguesa. Durante mais de 200 anos, desde que a
inquisição foi criada, em 1536, até que acabou a distinção entre cristãos-novos
e cristãos-velhos, em 1773, elementos desta família estiveram presos nos seus
cárceres. Ao longo de gerações e gerações, a “herança” marrana foi passando de
pais a filhos, como se um destino implacável os conduzisse ao cativeiro.
Dezenas
de processos das inquisições de Lisboa e Coimbra se encontram no Arquivo
Nacional da Torre do Tombo documentando a aventura desta gente, processos que
os autores estudaram e serviram de base a este trabalho.
Mas
houve também muitos membros desta família que foram processados pela Inquisição
espanhola. Por dificuldades financeiras, estes processos não puderam os autores
estudá-los, embora gostassem muito de o fazer. Esperamos que alguém o faça.
E
há também uma história fantástica desta família de que se conhecem apenas
alguns episódios, mas que merecia ser bem investigada, a qual se desenrolou um
pouco por todo o mundo, acompanhando as rotas migratórias, a expansão marítima
dos povos europeus e a implantação de colónias e feitorias comerciais à
escala mundial. Conhecem-se membros
desta família que foram respeitáveis líderes religiosos ou destacados
mercadores e banqueiros em comunidades sefarditas do norte da Europa ou das
Américas.
Vasco
Pires, o do Castelo, nascido nos primeiros anos do século de 500, pertenceu à
primeira geração de cristãos-novos, os que foram homens antes de a Inquisição
ser instituída em Portugal, a geração dos filhos dos judeus que o rei D. Manuel
ordenou que fossem metidos nas igrejas e baptizados à força. No seu processo
reflectem-se todas as dúvidas religiosas, as angústias morais, os medos e os
fantasmas do “tempo em que os cristãos-novos andavam alevantados para se irem deste reino por medo da inquisição”. E
mostra as dificuldades de integração na comunidade cristã da gente que, como
ele, “era judeu em seu coração” mas que ia às missas “à igreja da sua
freguesia, à misericórdia e ao esprital”.
Vasco Pires poderia não inspirar confiança em matéria de fé, mas os seus
concidadãos e as autoridades religiosas de Torre de Moncorvo confiavam nele
pois o elegeram para recebedor e depositário dos dinheiros recolhidos para a
construção da Casa da Misericórdia. E aqui está um ponto que merece especial
destaque: a importância dos processos da inquisição para o estudo da história
local e regional.
A
prisão de Vasco Pires foi, no entanto, precedida da de seu filho Gabriel Pires
e de sua mulher Francisca Fernandes e esta terá sido a primeira vítima mortal
da inquisição, entre os moncorvenses.
Vasco
Pires Isidro e seu irmão Manuel Rodrigues Isidro foram netos daquele primeiro
Vasco. Com outros seus parentes, eles criaram uma poderosa rede comercial que
se estendia de Torre de Moncorvo ao Porto, a Madrid, a Ruão, Amesterdão e
Hamburgo. Vasco foi preso em Madrid pela inquisição espanhola e Manuel passou 5
anos nas cadeias da inquisição de Coimbra e foi depois refazer sua vida para a
Flandres e para Hamburgo. O seu processo constitui um documento extraordinário
para o estudo da vida política e social da comunidade moncorvense do primeiro
quartel do século XVII.Manuel
Rodrigues Isidro se chamou também um sobrinho daqueles, ao qual coube liderar a
delegação do Porto e manter acesa a chama do marranismo na geração seguinte.
Morreu ao fim de um prolongado jejum, ou greve de fome, nas masmorras da
inquisição de Lisboa, em 1660. Merece bem o título de mártir do judaísmo em
Torre de Moncorvo.Presa
esteve também a sua irmã – Branca Henriques – e seu cunhado – Heitor Mendes –
também um mártir do judaísmo, queimado em Coimbra no auto-de-fé de 20.10.1664.
Estes três processos são extremamente importantes para o estudo da sociedade
mercantil portuense daquela época e sua participação na restauração da
independência do país.
Da
geração que se seguiu, temos o processo de Francisco Ferreira Isidro que se
encontrou no combate das Linhas de Elvas com o posto de capitão a comandar duas
companhias de ordenanças recrutadas em terras de Riba Côa.
Lamentamos
não poder seguir o rumo dos membros da família Isidro que entretanto embarcaram
para as Índias de Portugal e de Castela, bem como dos que permaneceram em
Espanha. De um destes – Dom Luís Marques Cardoso – sabemos que esteve preso na
inquisição de Toledo em 1663 e, 40 anos depois, tendo regressado a Portugal,
foi processado pela inquisição de Lisboa, juntamente com sua filha – D. Maria
Marques de Velasco. Estes dois processos são terrivelmente infamantes para o
Santo Ofício, com os inquisidores a manobrarem crianças inocentes e a violar o
segredo da confissão para delas conseguirem provas que incriminassem a mãe e o
avô.Estamos
já no século de 700, altura em que se descobriram minas de ouro no Brasil e,
entre os fundadores da vila de Ribeirão do Carmo, a primeira capital da região
de Minas Gerais, encontrava-se um outro Francisco Ferreira Isidro, neto do capitão
de ordenanças das Linhas de Elvas. Com ele foi ali ter um sobrinho – Luís Vaz
de Oliveira – saído de Freixo de Espada à Cinta com menos de 9 anos de idade,
para empunhar o ceptro dos Isidros em terras brasileiras.
Apresentamos
depois o processo de um Francisco Ferreira Sanches Isidro, irmão de Luís Vaz,
que aos 15 anos foi de “excursão” a Londres, fazendo várias entradas na
sinagoga da City que então começava a ganhar foros de capital mundial do
judaísmo, a par de Amesterdão.
E
foi de Londres que saiu para os Barbados, uma das pequenas Antilhas da América
Central, Abraham Gabay Isidro que ali se distinguiu como chefe espiritual da
comunidade sefardita, regressando a Londres para morrer.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Trabalhos dos autores:
Caminhos Nordestinos de Judeus e Marranos – página do Jornal
Terra Quente de Mirandela desde
15-04-1999 e que continua.
Bragança a Rota dos Judeus – Jornal A Voz do
Nordeste, 11.03.2010 e seguintes.
Poderá a Fenix Renascer? Contributo para
definição de uma “Rota de Judeus” no
Nordeste Transmontano – Tese apresentada
ao III Congresso Transmontano – Bragança- 2002
O Dr. Francisco da Fonseca Henriques e a sua
família na Inquisição de Lisboa - Brigantia – Revista de Cultura – Volume de
homenagem ao Dr. Belarmino Afonso – 2006.
Subsídios para a História da Inquisição de
Torre de Moncorvo
– Câmara Municipal de Torre de Moncorvo 2007.
Os Távoras e os cristãos-novos no progresso
de Mirandela - Actas da IX Jornadas Culturais de Balsamão - Centro Cultural de Balsamão
2007.
Carção – Capital do Marranismo – Edição da
Associação Cultural dos Almocreves de Carção – Associação CARAmigo – Junta
freguesia de Carção – Câmara Municipal de Vimioso – 2008.
Contribuição dos judeus e cristãos-novos no
progresso de Vila Flor – Retalhos da História de Vila Flor – XI Jornadas Culturais de Balsamão – 4 de Outubro de 2008.
A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de
Lisboa
– Editora Nova Veja – Lisboa – Câmara Municipal de Mogadouro – 2009.
Jorge Lopes Henriques de Carção e alguns familiares processados
pela Inquisição.
– Revista Almocreve - Edição da
Associação Cultural dos Almocreves de Carção 2009.
Entre a Sede da Inquisição e o Convento das
Portas do Céu de Telheiras – Cadernos Culturais de Telheiras , 2.ª série, n.º2
Novembro de 2009.
Jacob de Castro Sarmento – Editora Nova
Veja – Câmara Municipal de Bragança - 2010
Tefillah cotidiano – Um caderno de Orações
marranas - Cadernos
Culturais de Telheiras , 2.ª série, n.º 2 Novembro de 2010.
A aguardar publicação:
Os Marranos em
Sambade – Alfândega da Fé.
Os Almeida Castro - Uma família de
cristãos-novos de Izeda.
Quintela de Lampaças - Uma missa judaica.
Vimioso anos de 1650 – Uma rede de
passadores de judeus desmantelada
pela Inquisição de Coimbra – II
Jornadas de História Local – Câmara Municipal de Vimioso – Maio de 2009.
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