segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 28


Terreiro do Paço
Gaspar Lopes Pereira, aliás, Gaspar Dias de Aguilar. Nasceu em Mogadouro por 1642. Era filho de Francisco Lopes Pereira e de Maria Dias, aliás, Maria del Angel. Aos 10 anos foi levado pelos pais para Castela, residindo em Madrid por algum tempo e dali passando a Granada onde fixaram residência definitiva. Não sabemos que estudos terá feito Gaspar mas ele aparece com um homem muito culto e inteligente e que inspirava confiança. Terá sido mesmo uma espécie de preceptor dos filhos de António Mogadouro, cuja casa, em Lisboa, frequentava. Isto porque ele se diz mercador, mas não mercador de loja, antes um homem de negócios, em constantes deslocações e viajando não apenas para Lisboa mas também para as bandas de Itália e França. Por isso mesmo, depois que o padre António Vieira saiu penitenciado da inquisição de Coimbra e se dirigiu para Roma onde, juntamente com outros vultos da ordem dos Jesuítas e mercadores marranos de Lisboa, na década de 1670, se lançaram numa verdadeira batalha diplomática para obter do papa de Roma um perdão para os cristãos-novos presos e a alteração dos estatutos da inquisição, Gaspar Lopes Pereira foi escolhido para servir de correio entre Lisboa e Porto. E costumando fazer esta viagem em 20 dias, daquela vez gastou 43 dias, chegando a Roma com as cartas de Lisboa em 10.10 de 1673. Tinha expirado o prazo que a Santa Sé havia concedido e assim se haviam gorado as negociações. Foi recebido com raiva e insultos pelo chefe da embaixada dos marranos em Roma, o padre jesuíta Francisco de Azevedo, que o acusava de ter atraiçoado os seus amigos, familiares e toda a gente da nação. Desculpou-se Gaspar dizendo que adoecera no caminho, mas não aceitou que o padre Azevedo remetesse contra ele e ambos se engalfinharam em luta. Regressou a Portugal onde o esperava, naturalmente, um ambiente de desconfiança por parte dos seus irmãos de raça. Para além disso, as inquisições de Castela e Portugal andariam há muito tempo a seguir o seu rasto, pois também elas tinham espiões por terras de França e de Itália. Efectivamente em 16.3.1675, em Lisboa foi recebida uma carta da inquisição de Valladolid dizendo que fora buscado em Espanha para ser preso, mas não foi encontrado e solicitando que o fizessem prender em Lisboa, por constar que ali residia. Juntamente enviavam 14 folhas cheias de acusações de judaísmo. Foi preso em  8 de Abril de 1675. Metido na cadeia, confessou que efectivamente fora levado para o judaísmo por um tio seu, Diogo Henriques do Vale e que fizera práticas judaicas. Acrescentou que estava arrependido e que já há bastante tempo abandonara a lei de Moisés. Por mesmo os da sua nação eram todos seus inimigos e as acusações que lhe faziam era ditadas por ódio e não por espírito de justiça cristã. Terá chegado à conclusão de que esta táctica de defesa não adiantava e, por isso, mudou de atitude. Passou a afirmar-se judeu e a dizer que na verdade só havia salvação na lei que Deus deu a Moisés”e que isso defenderá até onde o seu entendimento alcançar”. Teve debates teológicos com os inquisidores e qualificadores do santo ofício e quando estes lhe colocavam alguma questão bíblica mais complicada, ele respondia: - “Se na igreja católica há doutores e bispos e outros mestres que ensinavam a sua doutrina, também nós temos mestres e professores nas sinagogas, que sabem responder a todas as coisas da lei de Moisés”. A sentença só podia ser a condenação à morte, sendo queimado na fogueira do auto-de-fé celebrado no Terreiro do Paço em 10 de Abril de 1682.
António Júlio Andrade

2 comentários:

  1. Eugenio Marcos ·escreveu:
    Hello. Lelo Moncorvo. !!!!!!
    Estou ao vosso lado. Para ajudar o estudo do Povo "Judaico" em Tras-os-Montes e Beira Alta. Na lingua INGLESA e Portuguesa. Feliz Natal.

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  2. Seja bem-vindo, mande notas, escreva, publique. Todos somos poucos. J. Andrade

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