sexta-feira, 17 de setembro de 2010
MIRANDA DO DOURO
MADALENA GARCIA E A SUA TENDA
Madalena Garcia tinha já uns 80 anos quando foi presa pela Inquisição de Coimbra, em Agosto de 1643. Estava casada, em segundas núpcias, com Luís Fernandes, castelhano de origem. Um de seus filhos estudara em Salamanca entre 1626 e 1633, tendo-se formado em Medicina. Era casado com Margarida Lopes e exercia a sua profissão na cidade espanhola de Zamora, onde o casal fixou sua residência.
Madalena e Luís moravam então em Miranda do Douro, na rua da Costanilha, uma artéria comercial cheia de lojas da gente da nação. A loja de madalena e Luís seria um tanto especial, pois ela se dizia tendeira e o marido é identificado como livreiro. E esta informação é interessante para a história da cultura no Nordeste Trasmontano.
Na origem da sua prisão estariam várias denúncias de declarações de judaísmo como a de André Ramires, marido de uma sua sobrinha que, estando preso, declarou “que madalena Garcia lhe perguntou quando caíam os jejuns da Rainha Ester e do Dia Grande”.
Mas havia já outras denúncias registadas nos livros da Inquisição de Coimbra. E as mais explícitas e comprometedoras vinham do alfaiate Domingos Lopes e do seu ajudante Bento Marques, ambos cristãos-velhos, recolhidas pelo inquisidor Diogo de Sousa em Fevereiro de 1638, “nas casas do seminário”, aquando da sua visitação a Miranda do Douro.
Segundo eles, pelo S. Roque (17 de Agosto) de 1636, faleceu Pedro de Miranda, sobrinho de Madalena Garcia, casado com Ventura Nunes, o qual morava também na rua da Costanilha e também tinha uma loja de tendeiro. Pois, tratando-se do funeral do sobrinho, madalena terá ido buscar uma peça de pano de linho, novo em folha e mandado os referidos alfaiates fazer “umas ceroulas compridas, umas meias e uns escarpins” para amortalhar o defunto. E que recomendou que depois de cortadas, as alinhavassem apenas. E que também ouviram dizer que o mesmo fora “amortalhado com uma camisa de pano de linho cru”.
Esta denúncia é exemplo da ideia geral que então dominava, de acordo com a qual era prova de judaísmo o facto de se amortalharem os defuntos com roupas novas, que não tivessem qualquer uso. De resto, o processo de Madalena Garcia nada tem de especial, para além do inventário de seus bens. E aqui devemos chamar a atenção para alguns aspectos.
Em primeiro lugar, as casas que tem e a sua localização. E isso aportará elementos de interesse para o estudo da toponímia e da evolução urbana da cidade de Miranda do Douro.
Em segundo lugar, as peças de prata que ela tinha em depósito, significando isso que a sua loja era, em certa medida, também uma casa de penhoras.
Finalmente, a descrição dos artigos que tinha para vender na sua tenda ( e que não eram apenas tecidos, como poderia pensar-se) constituirá informação interessante para se fazer ideia dos produtos do comércio naquela época em Miranda do Douro. Vejamos então esse inventário:
Umas casas em que vivia (…) que valem 40 mil réis.
Umas casas na rua Nova (…) nas quais mora de aluguer uma mulher que chamam a Caneda, que lhe pagava 4 cruzados (1 600 réis!) que valem 20 mil réis.
Outra casa na mesma rua Nova (…) que vale 20 mil réis.
Outra casa térrea pequena que está na rua que vai para o Poço do seminário (…) que valerá 10 cruzados.
Mais outra casinha térrea na rua que chamam a caleja, no Poço de João Frois (…) que vale 5 mil réis.
Uma vinha (…) aonde chamam a Cruz da cabreira (…) vale 8 mil réis.
Tinha (…) em um saquinho 15 mil réis, de que seu marido não sabia…
Tinha mais em um saquinho 20 mil réis que tinham para empregar em mercadorias no Porto.
Mais uns 40 mil réis em patacas e moedas de 8 vinténs em uma caixa…
Mais 8 colheres de prata e 2 garfos que estavam empenhados por 6 tostões que eram de seu filho António Garcia.
Mais 1 colher de prata que é de um escrivão da almotaçaria, Miguel Borges e sobre ela lhe emprestou 2 tostões.
Mais um anel de ouro de 4 ou 5 pedras que é de Francisco Borges Brandão sobre o qual ela declarante lhe emprestou em coisas da tenda…
2 arcas de pão que valem 4 cruzados…
3 pichéis de estanho ou 4 que valem 5 tostões.
5 pratos de estanho, um casco de latão…
Uma caldeira em latão que é de um lavrador sobre a qual tem emprestada uma pataca.
Uma colcha branca de Inês de Vargas sobre a qual o marido dela declarante deu 2 cruzados ou mil réis.
6 toalhas… cortinas…
20 alqueires de farinha de trigo (…) 4 ou 5 cascos de pipas e tonéis…
Impressionante a lucidez e frescura da memória desta mulher de 80 anos. E vejam como ela continuou enumerando os artigos que deixou na tenda para vender:
Um pequeno (pouco) de pez que valia 7 vinténs.
3 arráteis de confeitos que vale o arrátel 4 vinténs.
3 resmas de papel a 500 réis cada resma.
Retroses preto e de cores que (…) valem 2 cruzados.
2 pequenos de pano de estopa, que será 10 ou 11 varas, a 30 réis a vara.
20 varas de pano de linho já curado e algum cru que vale 70 réis a vara.
Um almofariz de bronze que vale 2 tostões.
40 varas de galão de cor que vale a 20 réis a vara.
Uns tafetás negro e de cores, em pedaços…
Um pedaço de açúcar de cana que serão 8 arráteis.
Meia onça de açafrão.
2 arráteis de pimenta.
5 ou 6 arráteis de arroz.
Algumas fitas e atacas e miudezas da tenda que pouco valem.
Terminamos dizendo que esta mulher acabou por falecer nos cárceres da Inquisição de Coimbra, ao cabo de mais de 2 anos e meio, em Fevereiro de 1646, sem que o seu processo estivesse terminado.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 1943.
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