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| Rua da Costanilha (1951) |
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Miranda do Douro : Diogo (Isaac) Rodrigues Marques c. 1635 – Londres c. 1675.
Por: António J.
Andrade
Maria F. Guimarães
Diogo Rodrigues Marques nasceu em Miranda
do Douro, em uma casa da rua da Costanilha, pelo ano de 1635. Cedo ficaria
órfão de pai (Francisco Rodrigues) que, entretanto, fora estabelecer-se em
Lisboa, abrindo uma pequena loja de mercador na rua Nova.
Depois da morte do pai, Diogo e o irmão
ficaram entregues aos cuidados de seu tio paterno, António Rodrigues Mogadouro,
líder de um dos grandes empórios comerciais portugueses daquele tempo. A mãe de
Diogo, Maria Lopes, terá então viajado para a Itália onde tinha vasta
parentela, nomeadamente o seu irmão Jorge Lopes Henriques, que fora morador em
Carção e fugira para Livorno, depois que se viu processado pela Inquisição de
Coimbra, em 1638. Para esta decisão de fuga tomada por Maria Lopes terá também
contribuído o castigo infligido a sua mãe, Beatriz Henriques – queimada pela
inquisição.
Naturalmente que Diogo teve a sua formação
profissional nas empresas do tio Mogadouro e nelas se foi enredando e
associando. E chegada a altura apropriada, foi ajustado o seu casamento com sua
prima, filha do tio Mogadouro, chamada Marquesa Rodrigues, nome que herdou da
avó paterna. Aliás, também o Diogo herdou o sobrenome do avô, marido daquela, a
quem chamavam, por alcunha, o marquês.
O casamento de Marquesa e Diogo ter-se-á
realizado ao findar da década de 50 e em 1660 nasceu a primeira filha do casal,
a que deram o nome de Isabel Henriques, certamente em homenagem à avó materna,
irmã do célebre embaixador do rei D. João IV, Manuel Fernandes Vila Real.
Por essa altura, contando apenas 25 anos de
idade, Diogo Rodrigues Marques teria já a sua própria empresa e nome feito na
praça comercial lisboeta. Sabemos, por exemplo, que em Março daquele mesmo ano,
ao Poço da Foteia, em um armazém foram descarregadas 134 pipas de vinho por ele
adquiridas em Gogim, Lamego, a um filho de Gaspar Gomes da Fonseca, certamente
destinadas à exportação para o Brasil onde então se encontrava o seu irmão
António dirigindo os negócios da família.
Também a situação política do país seria
favorável ao desenvolvimento dos negócios dos Mogadouro que muito lucrariam com
o fornecimento de géneros aos militares empenhados em Trás-os-Montes na guerra
que por 18 anos se desenrolou com a Espanha e ao esforço da reconquista de
terras e feitorias comerciais do Ultramar português que espanhóis, franceses,
holandeses e outros cobiçavam. E também ajudaria a ligação dos Mogadouro a D.
Guiomar de Távora e ao Conde de Castelo Melhor que então era “o grande senhor
da política portuguesa” – na expressão de José Hermano Saraiva.
Porém, no horizonte político do país
adivinhava-se borrasca, com a inquisição a estender os seus tentáculos a todos
os meandros da sociedade e uma distribuição de títulos de Familiares pelos
membros da nobreza como nunca se vira. E também os Mogadouro e Diogo Rodrigues
Marques seriam atingidos em suas vidas e negócios.
Tudo começou em Fevereiro de 1670, quando 2
escravos negros que os Marques tinham em casa no serviço doméstico se dirigiram
à inquisição de Lisboa a contar que 4 meses antes, ao início de Outubro, o
António, o Diogo, a Marquesa e 2 filhos do casal se apresentaram em certo dia
da semana, todos com vestidos novos e os não quiseram lá em casa a eles a
servir o jantar, como era costume, suspeitando os escravos que “naquele dia
festejavam o seu santo serviço, que era fazerem cerimónias de judeus”. E que à
noite, também vestidos de fatos domingueiros, foram juntar-se a eles, na mesma
casa, os restantes membros do clã, nomeadamente o velho Mogadouro e os filhos.
Sabemos que Diogo Rodrigues Marques ainda
se encontrava em Lisboa com a mulher e os filhos em Março de 1673, 9 meses
depois que António Mogadouro e os 2 filhos mais velhos foram presos, pois que,
juntamente com seu irmão António Marques e seu primo Pantaleão Rodrigues
assinou uma exposição dirigida aos senhores inquisidores, em defesa dos ditos
prisioneiros, tentando provar que foram denunciados injustamente e por inimizades
pessoais.
Mas, ao contrário dos primos e das primas,
filhos do Mogadouro, que ficaram por Lisboa e todos acabaram presos, Diogo
Marques pegou na mulher e nos filhos e fugiu para Inglaterra. E se em Lisboa os
seus negócios prosperavam, em Londres, ganharam outra dimensão, uma dimensão
planetária e capitalista. Na verdade bastaram dois ou três anos para que Diogo
Marques ganhasse um lugar próprio na City, que nos permite considerá-lo como um
judeu novo e um dos tais construtores do mundo moderno e do sistema
capitalista.
Em simultâneo, a família de Diogo ascendia
na escala social, frequentando círculos de amigos ligados mesmo à casa da
rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança. Nesse movimento de promoção
social da família Rodrigues Marques, certamente foi decisivo o casamento da sua
filha mais velha, D. Isabel Henriques Marques com o Dr. Fernando Mendes, médico
pessoal da rainha. Esta viria inclusivamente a ser a madrinha da neta primogénita
de Diogo Marques, nascida em 1678, a qual recebeu dela o nome cristão de
Catarina, se bem que posteriormente, com a sua educação e adesão ao judaísmo,
passasse a usar o nome de Rachel. Diogo, aliás, Isaac Marques era já falecido e
não viveu este acontecimento.
Mas se a filha mais velha era o orgulho da
família e a honrava, o mesmo não pode dizer-se do filho mais velho que, em
1662, em Lisboa, no baptismo, recebeu o nome de Francisco e depois de
circuncidado adoptou o de Isaac Rodrigues Marques. Dele se queixava o pai “pelo
motivo da sua extravagância, porque me tem sido sempre desobediente”.
Em Lisboa terá ainda nascido um outro filho
(José, aliás, Jacob Marques) em 1669 e outra filha (Ana Marques), em 1671.
Depois da fuga para Londres, o casal teve
mais um filho, Moisés Marques, e uma fila, Ribka Marques.
A última notícia que temos de Diogo
Rodrigues Marques data de Novembro de 1675. Trata-se do seu testamento,
começado a escrever em 10 daquele mês. É um documento bem extenso, em letra
miudinha, extremamente importante para o estudo da família e da rede de negócios
que a envolvia e se estendia por vários continentes e diversos ramos de
actividade, com destaque para a marinha mercante e o negócio de diamantes.
Apresentá-lo-emos no próximo número.
Nota –
Este artigo foi publicado no jornal
Terra Quente de 1 de Outubro de 2012.
domingo, 19 de agosto de 2012
Inquisição em Miranda do Douro e a ponte sobre o rio Sabor na Portela,por Antonio Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães
Várias vezes temos dito que os
processos da Inquisição se constituem no melhor jazigo da memória do nosso
povo, porque eles foram instruídos com base nas vivências quotidianas e neles
pulsa, em toda a sua originalidade e sem artificialismos o viver colectivo das
pessoas. E por vezes, neste jazigo da memória, descobrem-se coisas
surpreendentes.Permitam uma pergunta disparatada e que é a seguinte:
- Haverá alguma relação entre o estudo dos processos da Inquisição de Miranda do Douro e o estudo do mapa rodoviário de Torre de Moncorvo?
- Nenhuma – dir-se-á – um verdadeiro disparate, realmente!
Pois, meus amigos, andávamos nós às voltas com os processos instaurados pela Inquisição em Miranda do Douro e caiu-nos à frente um documento bem interessante sobre aquele assunto. Refere-se à construção da ponte sobre o rio Sabor e que ainda hoje estabelece a ligação da estrada que vai da Beira Alta para o Nordeste Trasmontano, nas proximidades de Torre de Moncorvo.
Trata-se de uma obra de arte que vai ficar submersa dentro de um ou dois anos, pela água da barragem que se está construindo ali perto. Daí também a oportunidade deste texto. Antes de avançarmos, vejam como a câmara municipal de Torre de Moncorvo a ela se refere em texto datado de 7 de Junho de 1861:
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Uma casa de morada na Rua da Costanilha em Miranda do Douro por 1640
Por: Antonio Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães
Por ser terra de
fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade
populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios,
tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios
visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa
judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1)
Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que,
existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a
marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em
meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas
pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da
Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro
Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os
marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso”
interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão
próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.
No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.
Maria Fernanda Guimarães
Por ser terra de
fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade
populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios,
tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios
visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa
judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1) Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que,
existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a
marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em
meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas
pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da
Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro
Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os
marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso”
interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão
próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Presos em Miranda do Douro em 1556 quando cozinhavam uma panela de carne.
21 de Fevereiro de 1556. Caiu
nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o
provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu
Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de
judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da
cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se
fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da
Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a
praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão
funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos
sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham
ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já
estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Façamos aqui uma pausa para
apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como
uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a
sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se
juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as
escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito
prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em
Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns
quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um
pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos
da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram
lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por
um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo
tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava
registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o
testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484.
Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Fotografias da Fonte dos Canos e da Ponte de S.Luzía (1957).Enviadas por Arnaldo Firmino
A casa de Lopo era na rua da
Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a
praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão
funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos
sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham
ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já
estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e
ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte
cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E
logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e
António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo
ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e
decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar
com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e
aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e
tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de
vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade
e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6
irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para
apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como
uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a
sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se
juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as
escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito
prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em
Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns
quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um
pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos
da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram
lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por
um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo
tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava
registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o
testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484.
Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi
também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé
realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda
do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André
Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por
David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias
prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com
todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com
efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho
de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel
e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6
homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto
em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi
declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição
espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e
publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos
“baptizados em pé”.
Voltemos agora a Miranda do Douro
onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de
Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a
sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao
deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.
Estamos pois em Miranda do Douro
no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela
da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da
Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao
local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma
procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava
o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela
Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram
encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho
(antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho
geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais
foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da
cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A
fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram
novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo
explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e
que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam
com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos
de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este.
Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e
sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da
Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos
inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556,
foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe
parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa
Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de
Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina
de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da
Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer
carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser
o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de
nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os
crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus
crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como
judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e
que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E
então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por
muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação
à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída
pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho
tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu
Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não
podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e
irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro
de 1557, juntamente com os respectivos processos.
E se em Miranda do Douro ele tudo negava e
nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de
confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas
confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do
ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro
e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no
auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi
mandado de regresso a Miranda do Douro.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa,
processo 2181, de Lopo de Leão. segunda-feira, 16 de julho de 2012
MIRANDA DO DOURO - MARRANOS
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