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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Miranda do Douro : Diogo (Isaac) Rodrigues Marques c. 1635 – Londres c. 1675.

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
Rua da Costanilha (1951)
Diogo Rodrigues Marques nasceu em Miranda do Douro, em uma casa da rua da Costanilha, pelo ano de 1635. Cedo ficaria órfão de pai (Francisco Rodrigues) que, entretanto, fora estabelecer-se em Lisboa, abrindo uma pequena loja de mercador na rua Nova.
Depois da morte do pai, Diogo e o irmão ficaram entregues aos cuidados de seu tio paterno, António Rodrigues Mogadouro, líder de um dos grandes empórios comerciais portugueses daquele tempo. A mãe de Diogo, Maria Lopes, terá então viajado para a Itália onde tinha vasta parentela, nomeadamente o seu irmão Jorge Lopes Henriques, que fora morador em Carção e fugira para Livorno, depois que se viu processado pela Inquisição de Coimbra, em 1638. Para esta decisão de fuga tomada por Maria Lopes terá também contribuído o castigo infligido a sua mãe, Beatriz Henriques – queimada pela inquisição.
Naturalmente que Diogo teve a sua formação profissional nas empresas do tio Mogadouro e nelas se foi enredando e associando. E chegada a altura apropriada, foi ajustado o seu casamento com sua prima, filha do tio Mogadouro, chamada Marquesa Rodrigues, nome que herdou da avó paterna. Aliás, também o Diogo herdou o sobrenome do avô, marido daquela, a quem chamavam, por alcunha, o marquês.
O casamento de Marquesa e Diogo ter-se-á realizado ao findar da década de 50 e em 1660 nasceu a primeira filha do casal, a que deram o nome de Isabel Henriques, certamente em homenagem à avó materna, irmã do célebre embaixador do rei D. João IV, Manuel Fernandes Vila Real.
Por essa altura, contando apenas 25 anos de idade, Diogo Rodrigues Marques teria já a sua própria empresa e nome feito na praça comercial lisboeta. Sabemos, por exemplo, que em Março daquele mesmo ano, ao Poço da Foteia, em um armazém foram descarregadas 134 pipas de vinho por ele adquiridas em Gogim, Lamego, a um filho de Gaspar Gomes da Fonseca, certamente destinadas à exportação para o Brasil onde então se encontrava o seu irmão António dirigindo os negócios da família.
Também a situação política do país seria favorável ao desenvolvimento dos negócios dos Mogadouro que muito lucrariam com o fornecimento de géneros aos militares empenhados em Trás-os-Montes na guerra que por 18 anos se desenrolou com a Espanha e ao esforço da reconquista de terras e feitorias comerciais do Ultramar português que espanhóis, franceses, holandeses e outros cobiçavam. E também ajudaria a ligação dos Mogadouro a D. Guiomar de Távora e ao Conde de Castelo Melhor que então era “o grande senhor da política portuguesa” – na expressão de José Hermano Saraiva.
Porém, no horizonte político do país adivinhava-se borrasca, com a inquisição a estender os seus tentáculos a todos os meandros da sociedade e uma distribuição de títulos de Familiares pelos membros da nobreza como nunca se vira. E também os Mogadouro e Diogo Rodrigues Marques seriam atingidos em suas vidas e negócios.
Tudo começou em Fevereiro de 1670, quando 2 escravos negros que os Marques tinham em casa no serviço doméstico se dirigiram à inquisição de Lisboa a contar que 4 meses antes, ao início de Outubro, o António, o Diogo, a Marquesa e 2 filhos do casal se apresentaram em certo dia da semana, todos com vestidos novos e os não quiseram lá em casa a eles a servir o jantar, como era costume, suspeitando os escravos que “naquele dia festejavam o seu santo serviço, que era fazerem cerimónias de judeus”. E que à noite, também vestidos de fatos domingueiros, foram juntar-se a eles, na mesma casa, os restantes membros do clã, nomeadamente o velho Mogadouro e os filhos.
Sabemos que Diogo Rodrigues Marques ainda se encontrava em Lisboa com a mulher e os filhos em Março de 1673, 9 meses depois que António Mogadouro e os 2 filhos mais velhos foram presos, pois que, juntamente com seu irmão António Marques e seu primo Pantaleão Rodrigues assinou uma exposição dirigida aos senhores inquisidores, em defesa dos ditos prisioneiros, tentando provar que foram denunciados injustamente e por inimizades pessoais.
Mas, ao contrário dos primos e das primas, filhos do Mogadouro, que ficaram por Lisboa e todos acabaram presos, Diogo Marques pegou na mulher e nos filhos e fugiu para Inglaterra. E se em Lisboa os seus negócios prosperavam, em Londres, ganharam outra dimensão, uma dimensão planetária e capitalista. Na verdade bastaram dois ou três anos para que Diogo Marques ganhasse um lugar próprio na City, que nos permite considerá-lo como um judeu novo e um dos tais construtores do mundo moderno e do sistema capitalista.
Em simultâneo, a família de Diogo ascendia na escala social, frequentando círculos de amigos ligados mesmo à casa da rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança. Nesse movimento de promoção social da família Rodrigues Marques, certamente foi decisivo o casamento da sua filha mais velha, D. Isabel Henriques Marques com o Dr. Fernando Mendes, médico pessoal da rainha. Esta viria inclusivamente a ser a madrinha da neta primogénita de Diogo Marques, nascida em 1678, a qual recebeu dela o nome cristão de Catarina, se bem que posteriormente, com a sua educação e adesão ao judaísmo, passasse a usar o nome de Rachel. Diogo, aliás, Isaac Marques era já falecido e não viveu este acontecimento.
Mas se a filha mais velha era o orgulho da família e a honrava, o mesmo não pode dizer-se do filho mais velho que, em 1662, em Lisboa, no baptismo, recebeu o nome de Francisco e depois de circuncidado adoptou o de Isaac Rodrigues Marques. Dele se queixava o pai “pelo motivo da sua extravagância, porque me tem sido sempre desobediente”.
Em Lisboa terá ainda nascido um outro filho (José, aliás, Jacob Marques) em 1669 e outra filha (Ana Marques), em 1671.
Depois da fuga para Londres, o casal teve mais um filho, Moisés Marques, e uma fila, Ribka Marques.
A última notícia que temos de Diogo Rodrigues Marques data de Novembro de 1675. Trata-se do seu testamento, começado a escrever em 10 daquele mês. É um documento bem extenso, em letra miudinha, extremamente importante para o estudo da família e da rede de negócios que a envolvia e se estendia por vários continentes e diversos ramos de actividade, com destaque para a marinha mercante e o negócio de diamantes. Apresentá-lo-emos no próximo número.
Nota –
 Este artigo foi publicado no jornal Terra Quente de 1 de Outubro de 2012.
 

domingo, 19 de agosto de 2012

Inquisição em Miranda do Douro e a ponte sobre o rio Sabor na Portela,por Antonio Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães

Várias vezes temos dito que os processos da Inquisição se constituem no melhor jazigo da memória do nosso povo, porque eles foram instruídos com base nas vivências quotidianas e neles pulsa, em toda a sua originalidade e sem artificialismos o viver colectivo das pessoas. E por vezes, neste jazigo da memória, descobrem-se coisas surpreendentes.
Permitam uma pergunta disparatada e que é a seguinte:
- Haverá alguma relação entre o estudo dos processos da Inquisição de Miranda do Douro e o estudo do mapa rodoviário de Torre de Moncorvo?
- Nenhuma – dir-se-á – um verdadeiro disparate, realmente!
Pois, meus amigos, andávamos nós às voltas com os processos instaurados pela Inquisição em Miranda do Douro e caiu-nos à frente um documento bem interessante sobre aquele assunto. Refere-se à construção da ponte sobre o rio Sabor e que ainda hoje estabelece a ligação da estrada que vai da Beira Alta para o Nordeste Trasmontano, nas proximidades de Torre de Moncorvo.
Trata-se de uma obra de arte que vai ficar submersa dentro de um ou dois anos, pela água da barragem que se está construindo ali perto. Daí também a oportunidade deste texto. Antes de avançarmos, vejam como a câmara municipal de Torre de Moncorvo a ela se refere em texto datado de 7 de Junho de 1861:

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Uma casa de morada na Rua da Costanilha em Miranda do Douro por 1640

Por: Antonio Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães

Por ser terra de fronteira, muito distante, inóspita e situada numa região de fraca densidade populacional, Miranda do Douro recebeu dos nossos reis bastantes privilégios, tendo em vista o seu povoamento e capacidade de defesa. Um desses privilégios visava atrair judeus que ali fossem morar, isentando-os do pagamento da sisa judenga – um especial e pesado imposto que eles pagavam. (1)
Acresceu outro privilégio, concedido em 4.11.1404, que muito agradava aos mercadores judeus que era o de sobre “todas as coisas que dentro desta vila se comprarem e venderem e trocarem se não pague nenhuma sisa”. (2)
Natural, pois, que em Miranda do Douro, se tenha estabelecido uma interessante comunidade hebreia. Escrevendo sobre o assunto, Maria José Ferro Tavares informa que na terra “havia uma judiaria apartada”, que se localizava na Rua da Sapataria. Depreendemos que esta fosse a posteriormente designada Rua Nova.
Com a expulsão dos judeus de Espanha certamente que engrossou muito a comuna de Miranda “rebentando” os limites da “judiaria apartada” e iniciando ou fazendo crescer o movimento de urbanização de novos espaços no interior do largo recinto amuralhado por iniciativa do rei D. Dinis. Corresponderá esse movimento de expansão urbana à “reclassificação” da Rua da Costanilha, construindo-se casas que ainda hoje são belas, de altos e baixos, para morar e estabelecer “venda”. E essa reclassificação urbana da Costanilha terá sido feita essencialmente com os capitais da laboriosa gente da nação.
Facto é que, existindo mais de meia centena de processos instaurados pela Inquisição a marranos de Miranda do Douro nas primeiras décadas de seu funcionamento, em meados do século de Quinhentos, verificamos que as suas moradas são dispersas pela Rua Direita, Rua Nova, Rua do Sprital, da Misericórdia e… também da Costanilha. Aliás, era nesta que se situava a celebérrima oficina do sapateiro Diogo de Leão da Costanilha, transformada em sinagoga, à qual acorriam os marranos de Miranda para ouvir recitar as “coplas do sapateiro de Trancoso” interpretadas como profecias anunciadoras da vinda próxima do Messias, tão próxima que eles estavam convictos de participar no acontecimento.
No século seguinte já a Rua da Costanilha aparece como local de referência para se morar e estabelecer oficinas e casas comerciais. A este respeito temos um episódio muito significativo, acontecido por 1640 e que vamos contar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Presos em Miranda do Douro em 1556 quando cozinhavam uma panela de carne.

21 de Fevereiro de 1556. Caiu nesse dia a primeira sexta-feira da Quaresma. E foi na tarde desse dia que o provisor e vigário geral da diocese de Miranda do Douro, o licenciado Amadeu Rebelo assinou uma ordem para que fossem prender Lopo de Leão, por culpas de judaísmo, as quais lhe tinham contado em visita que fizera na freguesia da cidade. A ordem foi passada ao meirinho do eclesiástico Francisco Pires que se fez acompanhar de outro Francisco Pires que era o carcereiro da comarca.
A casa de Lopo era na rua da Costanilha, a mais central da cidade, fazendo a ligação entre o castelo, a praça do município e a sé episcopal. Era uma casa de dois pisos e no r/chão funcionava uma oficina de sapateiros. Sim, que Lopo e seus 3 irmãos eram todos sapateiros e todos eram ainda solteiros, morando e trabalhando em casa. Tinham ainda duas irmãs, mais novas, uma das quais contava apenas 12 anos, mas já estava esposada, ou seja, prometida em casamento.
Chegaram os homens da justiça e ainda antes de exibirem o mandato de prisão, foram apanhados por um forte cheiro a cozedura de carne, com fortes temperos, que vinha do andar de cima. E logo fizeram tenção de subir, sendo-lhe barrada a escada pelos irmãos Lopo e António de Leão. Em resposta o meirinho pôs-se a gritar a d´el-rei, pedindo ajuda, em nome da Inquisição.
Acudiu gente e o mais rápido e decidido foi o padre João Cavaleiro que logo trepou escada acima e foi deparar com Isabel e Álvaro de Leão, especados na cozinha, brancos como a cal e aterrorizados. No chão, entre as pernas de Isabel, escondida pela sua saia e tapada com um pano de avental, estava “uma panela cheia de chacina de carne de vaca e de cabrão e muitos grãos a qual estava fervendo”.
Era um crime de extrema gravidade e por isso foram imediatamente buscados e conduzidos à cadeia todos os 6 irmãos, filhos de Diogo de Leão da Costanilha e de sua mulher Branca Gonçalves.
Façamos aqui uma pausa para apresentar estas duas personagens. Diogo de Leão da Costanilha era tido como uma espécie de líder ou rabi na comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e a sua oficina de sapateiro era local de reunião muito frequentado. Ali se juntavam para “fazer sinagoga” e ouvir o mestre Diogo de Leão a explicar as escrituras sagradas e a pregar a vinda próxima do Messias. Acabou feito prisioneiro da Inquisição em Abril de 1542 e foi queimado na fogueira, em Lisboa, dois anos depois. Quando o prenderam, encontraram-lhe em uma arca uns quantos papéis escritos em latim e dois pergaminhos em hebraico, além de um pedaço de “pão asmo” e uns ossinhos – o que foi interpretado como sendo restos da celebração da Páscoa judaica e prova de crime. Os dois pergaminhos foram lidos e traduzidos e transcritos para o processo em 21 de Outubro de 1542 por um outro cristão-novo (Pedro de Santa Maria) que fora já sentenciado pelo mesmo tribunal e estava aprendendo a doutrina cristã. Em um dos pergaminhos estava registado um contrato de casamento redigido em Castela em 1490 e no outro o testamento de um tal Don Salomon Navarro, igualmente feito em Castela em 1484. Os papéis eram de cartas, declarações de dívidas e registos de contratos.
Sua mulher Branca Gonçalves foi também presa pela Inquisição, em 1544, saindo penitenciada no auto-de-fé realizado em Évora em 12.4.1549. Veio a falecer pouco tempo depois, em Miranda do Douro. Uma referência também para o pai de Branca, o qual se chamou André Gonçalves Pimparel, figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubeni (este judeu originário da Índia foi aclamado como o Messias prometido, recebido pelo papa de Roma e pelos reis de Espanha e Portugal com todas as honras) e que abalou toda a comunidade judaica pelos anos de 1530. Com efeito, logo que a Miranda chegou a notícia, André Gonçalves meteu-se a caminho de Lisboa disposto a seguir o Messias na sua missão de reunir o povo de Israel e construir o construir o novo Reino Judeu. O Pimparel terá sido um dos 6 homens do séquito de Reubeni para os quais o rei D. João III passou um salvo-conduto em 21.6.1526. E depois que o “judeu do çapato” (alcunha dada a Reubeni) foi declarado “persona non grata” em Portugal e feito prisioneiro da Inquisição espanhola de Lerena, o Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos “baptizados em pé”.
Voltemos agora a Miranda do Douro onde, ao tempo em que o pimparel dali se abalou, nascia o seu neto Lopo de Leão. E esta andaria pelos 16 anos quando o seu pai foi relaxado em Lisboa e a sua mãe presa em Évora. E, ou por recear ser também preso ou por ter ficado “ao deus dará” ele e os irmãos, Lopo foi viver para Castela, para casa de sua avó.
Estamos pois em Miranda do Douro no dia 21 de Fevereiro de 1556. Como soprada pelo vento, a notícia da “panela da chacina” de imediato percorreu a cidade e muita gente acudiu logo à rua da Costanilha e dali, por ordem do vigário geral que entretanto fora chamado ao local do crime, todo o mundo seguiu na direcção do aljube. Parecia uma procissão, com o padre Cavaleiro todo impante, transportando a panela. Começava o calvário para os filhos do Costanilha, que todos acabariam processados pela Inquisição de Lisboa e saíram penitenciados em Maio de 1558.
Antes, porém, ficaram encarcerados em Miranda do Douro e, por ordem do bispo D. Rodrigo de Carvalho (antes de ser bispo de Miranda fora inquisidor em Évora e membro do conselho geral da Inquisição) foram-lhe instaurados os respectivos processos, os quais foram conduzidos pelo decano do cabido da Sé, o deão Gil do Prado.
As condições de segurança da cadeia é que não seriam as melhores e Lopo e os irmãos fugiram para Castela. A fuga em nada veio ajudar a sua causa pois que logo ao cabo de dois dias foram novamente presos e levados de volta ao aljube de Miranda do Douro. Lopo explicará mais tarde que a fuga se deveu à muita fome que padeciam no cárcere e que em Castela, a duas léguas de Miranda, tinham um pouco de trigo e pensavam com ele prover às suas necessidades.
Não vamos agora analisar os processos de Lopo de Leão e seus manos, que isso daria para vários artigos como este. Diremos apenas que, apesar de tais processos decorrerem em Miranda do Douro e sob a responsabilidade legal do bispo da diocese, o conselho geral da Inquisição foi informado de tudo e, por determinação assinada pelos inquisidores Jerónimo de Azambuja e Ambrósio Campelo em 7 de Outubro de 1556, foi dado poder ao dr. Gil do Prado para despachar os ditos processos “como lhe parecer de justiça guardando em tudo a forma do direito e a bula da Santa Inquisição”.
Concluiu-se o processo de Lopo de Leão e ficou provado que ele tinha “em sua casa uma panela de carne de chacina de vaca e cabrão a cozer com garbanzos e adubos na primeira sexta-feira da Quaresma” e de suas alegações se ficou entendendo que a intenção era comer carne em dia proibido, incorrendo no crime de heresia e “mormente constando ser o réu cristão-novo e de má fama, filho e neto de pessoas que apostataram de nossa santa fé católica … e consta outrossim ele dito réu guardar os sábados”.
O pior, no entanto, não foram os crimes e as heresias. O pior foi que Lopo de Leão não quis reconhecer os seus crimes e deles pedir perdão, antes “confessava ser judeu até ao presente e como judeu até agora viveu só naquelas coisas que ele entendia que eram de judeu … e que os dois irmãos mais moços e as duas irmãs faziam o que ele mandava”. E então, “não se querendo converter ao grémio da santa madre igreja, sendo por muitas vezes admoestado”, o despacho não podia ser outro senão a sua condenação à morte na fogueira.
Apesar da comissão atribuída pelos Inquisidores Azambuja e Castilho ao deão Gil do Prado, aquele despacho tem também a assinatura do bispo Rodrigo de Carvalho e do vigário geral Amadeu Rebelo. Mas um tal despacho teria de ser ratificado pelo conselho geral e não podia ter execução em Miranda do Douro. Por isso, Lopo de Leão e seus irmãos e irmãs foram remetidos para o tribunal da Inquisição de Lisboa, em 21 de Outubro de 1557, juntamente com os respectivos processos.
 E se em Miranda do Douro ele tudo negava e nenhum arrependimento mostrava e nenhum perdão implorava, em Lisboa entrou de confessar e mostrar-se arrependido para alcançar misericórdia. E as suas confissões e o seu processo ganham capital importância para o estudo do ambiente que então se vivia entre a comunidade cristã-nova de Miranda do Douro e da onda de Messianismo que então alimentava os sonhos de muitos deles.
Lopo de Leão saiu penitenciado no auto-de-fé celebrado em 15 de Maio de 1559 e em 19 de Junho seguinte foi mandado de regresso a Miranda do Douro.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE:
IANTT – Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão.

Fotografias da Fonte dos Canos e da Ponte de S.Luzía (1957).Enviadas por Arnaldo Firmino


segunda-feira, 16 de julho de 2012

MIRANDA DO DOURO - MARRANOS


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