A generosidade é para mim uma das características mais vincadas dos Trasmontanos. Talvez esteja relacionado com a vida dura aquém dos montes. E por toda a parte onde os Trasmontanos chegam, eles estabelecem relações de boa vizinhança, baseadas naquela generosidade.
Porém, a generosidade que temos com estranhos e deles nos faz próximos falta muitas vezes nas relações entre nós e dos nossos nos afasta. Até parece que de generosos passamos a mesquinhos, no trato comunitário.
| Cortiços -Foto de Luís Coelho |
Exemplar, a este respeito, é o que se passa com os Trasmontanos Sefarditas e Marranos. Alguns deles ganharam relevo a nível mundial e têm os seus nomes inscritos em enciclopédias de âmbito mundial mas são esquecidos dos nossos dicionaristas e afastados da toponímia das nossas terras. Vou apresentar alguns exemplos:
Manuel Cortiços. Tendo embora nascido em Madrid, em 1603, os seus pais eram Trasmontanos fugidos da inquisição. A sociedade e a família perpetuariam no sobrenome, que ainda hoje conservam descendentes seus, a terra de sua origem - Cortiços - no actual concelho de Macedo de Cavaleiros. Manuel Cortiços foi um dos grandes banqueiros do seu tempo, possivelmente o maior em toda a península ibérica à data da sua morte em 1650. Mas o seu nome não consta em nenhum dicionário de ilustres Trasmontanos, onde até eu, pequeno escriba, já tomei lugar, por mão alheia.
António Júlio Andrade
