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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ESTUDOS DE ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL – Uma destilaria de aguardente em Alijó.Por: António Júlio Andrade

Um velho alambique em funcionamento.Foto A.F.F.M.
Sendo embora uma minoria na sociedade portuguesa, os judeus (e marranos) deram um contributo fantástico para o desenvolvimento do País. E em Trás-os-Montes, naturalmente, até porque esta terá sido a região do País que mais fugitivos de Espanha acolheu depois da expulsão dos judeus daquele país. Creio não exagerar dizendo que eles sempre estiveram na vanguarda do desenvolvimento e foram os arautos da modernidade entre nós.
Esta é uma ideia força que eu captei da leitura de centenas de processos da inquisição. Sim, que eles se revelam uma preciosa fonte para o conhecimento da nossa história, ao nível económico, social e cultural.
A título de exemplo e usando uma linguagem moderna, direi que foram eles os primeiros a preocupar-se com o desenvolvimento das estruturas de apoio ao turismo, como eram as estalagens. Com efeito, no século de 500, os forasteiros que demandavam Torre de Moncorvo tinham à sua disposição a estalagem de Isabel Lopes, a qual acabou presa pela inquisição.
Em Miranda do Douro, existia igualmente uma estalagem cuja proprietária se chamava Maria Álvares e era também da nação hebreia. Situava-se na emblemática Rua da Costanilha, porventura na casa que ainda hoje continua servindo a mesma função.
Vila Flor era então uma terra de muito comércio e muito viajada. Em prova disso regista-se ali a existência de duas estalagens por meados daquele século de 500. Uma delas pertencia ao marrano Gaspar Fernandes e a outra a Álvaro Rodrigues, por alcunha o Lamegão, pois que viera de Lamego. Esta estalagem seria a preferida dos mercadores espanhóis que visitavam a terra. Também o Lamegão e seus familiares foram hospedar-se nas cadeias do santo ofício, sob a acusação de judaísmo.
Sabemos que o exemplo se repetia em Vinhais… e em Freixo de Numão, actual concelho de Vila Nova de Foz Côa., havia a estalagem de Manuel Rodrigues Freitas, igualmente um homem da nação hebreia.
Mas se em vez de turismo e estalagens falarmos na indústria da moagem do pão, o panorama histórico é semelhante. Em Torre de Moncorvo, por exemplo, em meados do século de 600,cerca de metade dos moinhos que funcionavam durante todo o ano, todos sitos na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho) estavam nas mãos de um único industrial, Pêro Henriques Julião, certamente o mais rico mercador hebreu da vila. Mais podemos dizer de Mirandela onde, na rua da Ponte, existia “uma casa térrea que servia de atafona e pertencia ao marrano António Lopes, o Mourisquinho, de alcunha. E também por esses tempos foram instaladas na margem do rio Tua as primeiras azenhas que, durante alguns séculos marcaram a paisagem do rio hoje feito espelho de água.
Também na Princesa do Tua encontrei um cristão-novo, da família do dr. Francisco da Fonseca Henriques que era proprietário de “um lagar de azeite, com 3 casas de mós, de 2 varas, dentro da vila de Mirandela, por cima do Arco de Santo António, que valerá 200 mil réis”. Esta informação é tanto ais importante quanto os cronistas dizem que havia poucos anos que se plantaram em Mirandela as primeiras oliveiras. Repare-se também na grandeza deste lagar: 3 casas de mós e 2 varas!
Do lagar de azeite construído em Torre de Moncorvo na primeira metade do século de 600 não temos a descrição. Mas sabemos que pertencia ao mercador hebreu atrás referido, Pêro Henriques Julião. E sabemos que se situava à margem da rua dos Sapateiros. Não consegui foi apurar se este lagar e a casa de morada do seu proprietário e a cortinha e olival onde ambas as construções estavam plantadas eram as mesmas que, dois séculos mais tarde nos aparecem referidas como o lagar, o palacete e a cortinha de D. Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida como A Ferreirinha da Régua.
Um outro lagar de azeite que encontrei mencionado nos processos da inquisição situava-se na aldeia de Mós, termo do actual concelho de V. N. de Fozcôa e um de seus proprietários era um mercador marrano da vila de Freixo de Numão e que a seguir vamos encontrar como sendo um dos proprietários da destilaria de aguardente que dá título a esta crónica.
Por agora diremos que o contributo daquela gente laboriosa para o desenvolvimento de Trás-os-Montes se não ficou por estas áreas. Com efeito quem, senão eles, dominava as técnicas de fabrico da seda? Basta ler os processos da inquisição instaurados a torcedores e fabricantes de seda de Bragança e Chacim para se ter a prova. O mesmo se dirá do fabrico de cordas na Real Cordoaria de Torre de Moncorvo, cujas casas pertenciam, em grande parte, ao já nosso conhecido Pêro Henriques Julião. E a indústria dos lanifícios, fortemente implantada na aldeia de Sambade não era essencialmente conduzida pela gente da nação? E o tratamento das peles e fabrico de solas que ganhou a máxima expressão por terras de Argoselo e Carção, no concelho de Vimioso? Alguém dominava como eles as técnicas de preparação do sumagre nas atafonas, por eles utilizado nos curtumes e exportado para os países do Norte?
Agora, porém, desejo falar-lhes de uma outra unidade agro-industrial, porventura a mais valiosa e rentável de quantas encontrei até hoje – uma destilaria de aguardente.
Fazendo uma comparação grosseira, direi que o melhor dos lagares de azeite atrás referidos foi avaliado em 200 mil réis e aquela destilaria aparece com aquele valor multiplicado por 6 – 1 milhão e duzentos mil réis!
Aos leitores menos familiarizados com o assunto, convém recordar que, para além de ser uma bebida muito “gulosa” e, por isso mesmo, muito apetecida e cara, a aguardente era e continua sendo um produto essencial para o fabrico do vinho generoso, o chamado vinho do Porto, então vinho de Lamego.
Situava-se tal destilaria em um monte, no sítio do Vale da Cabra, termo de Alijó. Era dotada de 2 alambiques “grandes”. Para além da casa dos alambiques, era constituída por um armazém dos tonéis e uma casa de viver onde assistia em permanência o feitor da fábrica.
Não sei se existe ainda algum vestígio deste monumento. Caso exista, julgo que deve despertar a atenção dos que se dedicam ao estudo e conservação do nosso património de arqueologia industrial e poderá ser transformado em sítio museológico.
Um dos proprietários da fábrica, senhor da 3ª parte dela, chamava-se António Dias Fernandes, um grande mercador da vila de Freixo de Numão, no actual concelho de V. N. de Fozcôa. Quando foi preso, tinha duas encomendas de aguardente prontas a seguir e eram as seguintes:
* Um lote de 26 pipas a embarcar para o Rio de Janeiro, dirigidas a seu filho António Dias Fernandes, como o pai.
* Um lote de 21 pipa, com destino a Londres, encomendadas pelo mercador Miguel de Viana e antecipadamente pagas, em dinheiro e tecidos, no montante de “um conto e 250 mil réis”.
Pensando no valor do dinheiro, direi que aquela quantia dava para pagar a cerca de 480 operários médios durante um ano.
Infelizmente não consegui apurar quanta mais aguardente Dias Fernandes teria em stock. E quanta teriam os outros sócios detentores de 2/3 dos activos da destilaria. De qualquer modo, penso que aqueles números bastam para se fazer uma pequena ideia da importância desta unidade agro-industrial, estrategicamente situada no coração do Douro vinhateiro, região que, anos depois, viria a ser demarcada, a primeira em todo o mundo. Certamente que esta destilaria foi importante para o progresso e o desenvolvimento da região e merece ser colocada na história da vinha e do vinho do Douro. Aqui fica o alerta aos responsáveis e aos centros de investigação da história e promoção de Trás-os-Montes e Alto Douro.
FONTE – IANTT, Inquisição de Lisboa, pº , de António Dias Fernandes
Publicado no jornal Terra Quente de 15 de Outubro de 2012