sexta-feira, 16 de julho de 2010

-BRAGANÇA - Uma rota de turismo cultural V

António Júlio Andrade
Maria Fernanda Guimarães
Rua Direita – uma fábrica de sedas e um centro comercial
Em uma memória enviada em 1721 para a Academia Real da História, o secretário da câmara de Bragança escrevia que a fábrica de sedas de Bragança “consta hoje somente de 30 tornos e 350 teares, que os mais se ocupam em mantas de peso, e com o consumo da fábrica se cria muita e excelente seda nos lugares do termo”.
Pensamos que o nome “fábrica” não deve ser entendido como um edifício onde estivessem instalados aqueles tornos e aqueles teares, antes terá o significado de produção e indústria.
Não vamos também questionar aqueles números que pecarão por defeito, na medida em que o cronista usa o advérbio “somente”. A verdade é que a existência de 350 teares numa terra de 500 ou 600 casas significa um elevado índice de industrialização. Por outros documentos se verifica também que a classe dos fabricantes de seda seria a de maior peso no tecido económico e social da cidade naquela época.
Também não será novidade para ninguém que aquela indústria, em Bragança como em Chacim e nos outros centros sericícolas, estava nas mãos da gente da nação hebreia. Por isso mesmo e para o estudo em profundidade da matéria, uma fonte essencial são os processos instaurados pela Inquisição aos cristãos-novos que àquela arte se dedicavam e às cadeias daquele tribunal foram parar.
Porque lemos já um bom par desses processos, podemos adiantar algumas informações sobre o assunto, começando por dizer que a maioria dos cristãos-novos de Bragança residiam na rua Direita e que muitas das suas casas eram verdadeiras oficinas de fabrico de seda. Naturalmente estavam equipadas com teares e algumas delas com tornos para extrair a baba (seda) dos bichos e reduzi-la a fios que depois iam para os teares. Aliás, a profissão de torcedor de seda é também muito referida.
Mas não se pense que aquela gente apenas produzia. Ao contrário, eles comercializavam comprando aos lavadores a matéria-prima (casulos) e vendendo o produto final (tecidos) Eis por que as suas casas eram também lojas de comércio.


E como não podia deixar de ser, as casas eram de habitação, com as famílias, geralmente bem numerosas, ocupando o piso superior. E se uns (mulheres e crianças, sobretudo) trabalhavam no aquecimento das caldeiras de água para limpar os casulos e reduzi-los a fio, outros faziam os teares laborar. E se o chefe da família tudo ali coordenava, os filhos andavam por fora comprando casulos e vendendo tecidos.
Tentemos então fazer um retrato composto da rua Direita de Bragança naqueles anos de 700. Sem dúvida que ela se apresentava como uma grande fábrica e as pancadas de dezenas ou centenas de teares marcavam o ritmo da vida quotidiana da rua. Mas era também um grande centro comercial constituído por dezenas ou centenas de lojas de massaria onde tudo se vendia e comprava, pois que a gente da nação não perdia a mínima oportunidade de negociar e “tractar”.
E ao sábado, como seria, sabendo que aquele é o dia de descanso semanal? Fechariam todas aquelas lojas e ficariam parados aqueles teares, com as pessoas a vestir seus fatos domingueiros? E ao domingo, ficaria a rua Direita buliçosa como em qualquer dia de trabalho?
Certamente que isso não acontecia, pois daria muito nas vistas, causaria escândalo e os esbirros da Inquisição denunciariam o caso e seguiriam vagas de prisões. Não podendo assim fechar as lojas e parar os teares, os marranos provavelmente abrandavam aos sábados o ritmo de trabalho, guardando em pensamento o dia santificado da lei mosaica. E ao domingo, para não dar nas vistas e causar escândalo, teriam as portas fechadas e os teares parados mas faziam trabalhos de limpeza e arrumação das lojas e manutenção dos teares.
Mas havia um dia do ano em que eles não trabalhavam mesmo. Era o dia grande do Kipur, o mais sagrado de todos, que em 1745 caiu no dia 6 de Outubro. E tendo conhecimento de tal efeméride, alguns “bufos” da Inquisição andaram a espreitar o comportamento dos marranos e os denunciaram à Inquisição. Vejamos apenas dois excertos dessas denúncias.
Uma delas foi feita pelo familiar do Santo Ofício José da Rocha Pimentel, que disse o seguinte:
- No dia 6 de Outubro de 1745 era dia grande e na rua Direita estavam todos às portas a conversar, de camisas lavadas, ou a jogar e não se ouviu um só tear.
O segundo testemunho foi prestado pelo capitão António Luís de Madureira, morador na Casa do Arco nos seguintes termos:
- Movido ele testemunha de curiosidade e zelo da fé foi ele testemunha no dito dia em companhia do dito padre António Carlos, por 4 ou 5 vezes pela rua Direita aonde vive a maior parte dos cristãos-novos, para efeito de averiguar e alcançar alguma notícia e indícios certos do que se dizia, e indo pela rua ele testemunha com o dito padre, viu Luís de Valença à porta de António Rodrigues Falho à sua porta o qual tinha uma camisa muito bem branca e sabe por ver porque ele testemunha vive no meio da rua Direita aonde vive a maior parte dos cristãos-novos da dita cidade e no dito dia nenhum trabalhou sendo que a maior parte são tecelões de seda e os viu uns estar às janelas e outros às portas e que nenhum tinha camisa ofuscada.
Bragança 2008 ,foto do arquivo A.P.L.B.

1 comentário:

  1. Há um livro de Fernando de Sousa sobre a industria das sedas em Trás os Montes.
    L.A.G.

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