domingo, 12 de maio de 2013

Descendem de judeus expulsos de Portugal no século XV. O Parlamento abriu-lhes a porta



Tornar-se português vai passar a ser também uma forma de reparação da História. Uma história de espoliação com mais de 500 anos, mas que Luciano Mordekhai Lopes e Yehonatan Elazar de Mota não esquecem, como também não é esquecida por outros que são, como eles, descendentes dos judeus expulsos de Portugal a partir do final do século XV.
Em Abril, por iniciativa do PS e do CDS, o Parlamento português aprovou, por unanimidade, uma alteração à Lei da Nacionalidade com vista a garantir que estes descendentes tenham direito a tornar-se portugueses sem necessitarem, para tal, de requisitos exigidos a outros candidatos (obrigação de residência no país há pelo menos seis anos e terem conhecimento suficiente da língua portuguesa). Terão, contudo, de fazer prova da "tradição de pertença a uma comunidade sefardita de origem portuguesa, com base em requisitos objectivos comprovados de ligação a Portugal, designadamente apelidos, idioma familiar e descendência".
Entre os judeus existem duas grandes comunidades que se distinguem pela sua origem e ritos de cultos: os ashkenazis, que têm raízes na Europa Central; e os sefarditas, que descendem dos judeus (espanhóis e portugueses) que chegaram à Península Ibérica muito antes de existir Portugal e que foram daqui expulsos a partir do final do século XV. Em Portugal, a ordem de expulsão foi dada em 1496 por D. Manuel I: ou se convertiam ao cristianismo ou tinham dez meses para abandonar o país.Quantas pessoas foram afectadas por este edital é algo que não é possível saber, por não existirem dados seguros sobre o número de judeus que então viviam em Portugal, afirmam ao PÚBLICO os historiadores José Tavim e Florbela Frade. Sabe-se, isso sim, que o seu número aumentara substancialmente com a chegada dos judeus expulsos de Espanha em 1492 por ordem dos reis católicos e que encontraram um porto de abrigo em Portugal, mas apenas por quatro anos, já que também eles se encontravam abrangidos pelo édito de D. Manuel I.Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, prevê que não vá ser tarefa fácil "comprovar a descendência sefardita portuguesa após séculos de dispersão e, muitas vezes, de mudança de nome devido às conversões forçadas". Mas Luciano Lopes e Yehonatan Elazar não têm dúvidas quanto às suas raízes e confirmaram ao PÚBLICO que, na sequência da alteração aprovada pelo Parlamento, irão requerer a nacionalidade portuguesa."Por uma questão de justiça, porque se trata simplesmente de devolver algo que muitas pessoas perderam sem que essa fosse a sua vontade", explica por email Luciano Lopes, um rabi de 39 anos, nascido em São Paulo, no Brasil, residente na Florida, e que conheceu Portugal em jovem e voltou várias vezes depois.Ele foi, aliás, um dos peões determinantes para a mudança da lei. Durante 13 anos tentou em vão obter informações sobre a possibilidade de obter a nacionalidade junto de cônsules portugueses em Vancôver, Paris, Telavive e São Paulo. Em 2010, depois de ter formado, com outros descendentes, uma comissão de "judeus sefarditas portugueses no estrangeiro", iniciou contactos com deputados do CDS e do PS, levando-os a interessar-se pelo desejo que expressaram - o de recuperarem a nacionalidade que fora retirada à força aos seus antepassados.
"Talvez o próximo lugar seja Portugal. Veremos, pá!" A frase escrita em português é já uma ponte e é com ela que Yehonatan Elazar termina a resposta em inglês que enviou ao PÚBLICO via Facebook. Yehonatan, 32 anos, saxofonista de jazz e rabi, nasceu em Miami e descende dos judeus que viviam há séculos no espaço que se tornou Portugal e daqueles que aqui chegaram expulsos de Espanha. É o que conta a partir de Santo Domingo, na República Dominicana, onde dirige um centro de estudos religiosos (Beth Midrash). "Seguimos o ritual judaico português, facto que nos orgulha", relata, acrescentando que "muitos dos fiéis desejam agora obter a nacionalidade espanhola ou portuguesa".
Em Espanha, a possibilidade de conceder a nacionalidade a descendentes dos judeus expulsos foi aprovada em 2006 desde que se comprovem existir, em relação ao candidato, "circunstâncias excepcionais". Os pedidos são apreciados pelo Governo e, até 2012, foram aprovados 779, tendo sido considerado a seu favor o facto de não terem perdido voluntariamente a nacionalidade e de terem mantido "a língua e cultura espanhola ao longo dos séculos".
Sinais de pertença
No caso dos descendentes dos judeus portugueses, Luciano Lopes, que tem com a mulher uma pequena empresa do ramo alimentar, lembra, por exemplo, que uma das tradições que se mantêm "é a do uso de palavras ou frases em português nos serviços religiosos na sinagoga, mesmo por quem não fale o idioma, e a preservação dos sobrenomes".
José Tavim refere que foram os judeus em fuga de Portugal que estiveram na origem, "a partir do século XVII, das comunidades ditas portuguesas de Amesterdão, Hamburgo e Londres e hispano-portuguesas de cidades do Sul da França como Saint-Jean-de-Luz, Bayonne, Bordéus, onde o português foi falado como em Portugal".
"É significativo que estes judeus, quando se fixaram em Antuérpia, Amesterdão, Hamburgo e Londres, tenham adoptado como designativo para a sua comunidade "Nação Portuguesa" e que existam comunidades chamadas Portugal ou Portugali em Monastir [Tunísia] ou Salónica [Grécia]", frisa Florbela Frade.
 Existiam será o tempo verbal mais apropriado, já que "os judeus de origem portuguesa residentes em Salónica foram praticamente todos dizimados no Holocausto", aponta Esther Mucznik.
 Luciano Lopes conta que os sefarditas tinham "muitas e diversificadas ligações familiares, que conseguiram manter mesmo durante o período da Inquisição", o que levou mais tarde a que "muitos laços tenham sido recuperados". Mas a Segunda Guerra Mundial veio pôr fim a esta realidade: "Todas as comunidades sefarditas da Europa foram quase por completo destruídas. Só em Amesterdão, mais de 80% da comunidade foi extinta."
 Fora de Israel, os principais locais de implantação dos judeus de origem portuguesa serão hoje o Brasil, Estados Unidos e Caraíbas. Esther Mucznik acrescenta Marrocos e Tunísia a esta lista. Os antepassados de Luciano Lopes e Yehonatan Elazar começaram por procurar refúgio noutros países europeus (Itália e Holanda) e só depois atravessaram o Atlântico. Rumo ao Brasil, no caso do primeiro, ou com destino a Curaçau, então nas Antilhas Holandesas.
 Foi este o percurso dos antepassados do lado paterno de Yehonatan, que tinham como apelido De Mota: saíram de Portugal com destino a Amesterdão no século XVII e partiram para as Caraíbas no século seguinte. Já do lado da mãe descende de uma família de judeus espanhóis, os Cohen de Lara, que fugiu para o Porto após a expulsão de Espanha em 1492, seguindo depois para Amesterdão e que no final do século XVII partiu para as Caraíbas (Jamaica e Curaçau).
 Como testemunham os percursos distintos destes dois lados da família de Yehonatan, as principais ondas migratórias de judeus espanhóis e portugueses não foram coincidentes no tempo. Os primeiros tiveram de fugir logo em 1492; os segundos, apesar de terem tido ordem de expulsão em 1496, só o começaram a fazer mais expressivamente a partir da instauração da Inquisição em Portugal, em 1536, refere Florbela Frade.
 D. Manuel I assinou o édito de expulsão dos judeus para obter o consentimento dos reis católicos ao seu casamento com a herdeira de Espanha, mas como precisava de os manter no país "colocou toda uma série de entraves à sua saída, forçando-os à conversão, sequestrando os seus filhos e entregando-os a famílias cristãs", explica aquela historiadora.
 Muitos destes judeus, que continuaram a praticar a sua religião em segredo, foram torturados e mortos pela Inquisição. Na Torre do Tombo, em Lisboa, subsistem os processos instaurados pelo Tribunal de Santo Ofício contra pelo menos dois dos membros da família de origem de Luciano Lopes, os Bentalhado, que viviam no Norte do país.

"Um gesto simbólico"

Quando soube da decisão do Parlamento português, houve várias perguntas que assaltaram Yehonatan Elazar. Questões como esta: "Por que é que Portugal nos quer conceder a nacionalidade agora, cinco séculos depois de nos ter confiscado os nossos bens e de nos ter forçado à conversão?" Conta que a mãe, Modesta Lara, vê este gesto como um pedido de desculpa pelo passado, o que a alegra, embora considere que os dirigentes portugueses actuais não são responsáveis pelo mal feito aos seus antepassados. Seja como for, acrescenta, "ela diz que não lhe será possível abandonar a sua vida nos EUA para começar agora outra em Portugal". Quanto a Yehonatan, irá requerer a nacionalidade portuguesa "por causa do significado histórico" que tem para ele.
 "É um gesto simbólico de reconhecimento da injustiça praticada contra os judeus de Portugal entre 1496 e 1821", data da extinção da Inquisição, diz Esther Mucznik sobre a decisão do Parlamento. "Embora não se possa mudar o passado, pode-se tentar construir uma nova história", acrescenta.
 O que só poderá ser feito se houver também um maior conhecimento do passado. Pelo que os genes da população actual mostram, são muitos os portugueses que têm um antepassado judeu, mas da sua presença tão longa em Portugal acabam por subsistir hoje "muito poucos vestígios" materiais, constata José Tavim. Facto que, para ele, não explica, contudo, "o inusitado cultural (e turístico) da inexistência de um Museu Judaico em Lisboa, uma capital que teve uma das mais importantes comunidades judaicas da Europa Ocidental e de onde tantos partiram para outros reinos e continentes".
 Florbela Frade revela que naquela época "funcionava em Lisboa um dos centros mais conceituados de poesia e de cópia de manuscritos de que hoje pouco ou nada se sabe": "Os livros foram destruídos e os que sobreviveram estão na sua maioria em bibliotecas estrangeiras." com Tiago Luz Pedro

terça-feira, 2 de abril de 2013

As Comunidades Judaicas na Idade Média



História Judaica


As Comunidades Judaicas na Idade Média
Desde o fim do Império romano que uma minoria judaica existia no território que depois veio a ser Portugal.
Aquando da fundação da nacionalidade, em 1143, esta minoria já se encontrava disseminada em algumas localidades importantes como Santarém que possuía a mais antiga sinagoga nacional.
A população judaica aumentava, favorecida com a necessidade que os primeiros reis (século XII) sentiam de povoar o território que ia sendo conquistado aos mouros.
Em todos os locais em que o número de judeus superava a dezena, era criada uma comuna ou aljama cujo centro organizacional era a sinagoga. O seu sino chamava os fiéis não só à oração como também para lhes fornecer qualquer informação vinda do rei ou qualquer decisão tomada pelo rabi-mor. A sinagoga era a sede do governo da comuna.
Já no século XIII, D. Afonso II legisla (Ordenações Afonsinas) as relações entre cristãos e judeus pois estas começavam a criar dificuldades à minoria. Quer isto dizer que: os judeus não podiam ter serviçais cristãos sob pena de perda de património; qualquer judeu converso ao cristianismo que retornasse à religião original podia ser condenado à morte; não podiam os judeus ocupar cargos oficiais de modo a que os cristãos não se sentissem prejudicados.
Na época do Rei D. Dinis cada comuna tinha uma ou mais judiarias. Neste tempo, o rabi-mor tinha delegado seus, chamados ouvidores, nos principais centros judaicos do pais: Porto (Região de Entre Douro e Minho); Torre de Moncorvo (Trás-os-Montes); Viseu (Beira); Covilhã (Beira/Serra da Estrela); Santarém (Estremadura); Évora (Alentejo) e Faro (Algarve). Estes ouvidores exerciam verdadeira jurisdição sobre todas as comunidades judaicas nacionais.
A sinagoga era um local tão importante do ponto de vista religioso (como era a igreja para os cristãos) quanto civil; era lugar de assembleia e reunião dos membros da comuna.http://www.redejudiariasportugal.com/index.php/pt/historia-judaica

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Cozinha judaica


Curiosidades:
Cozinha judaica é, provavelmente, a cozinha mais marcada pelos preceitos religiosos nos dias atuais. É conhecida no mundo inteiro, principalmente por causa das recomendações do ´Kashrut´ (As Leis Higiênicas), que proíbem o consumo de porco, crustáceos, leite e carne numa mesma refeição. Nem sempre a cozinha judaica é necessariamente kasher.
Em virtude de tantas proibições ou obsessão pela pureza dos alimentos, o povo judeu foi criando uma culinária baseada em aves, vegetais, carne de vaca e uso de ervas. Presente nos rituais e festas, a cozinha judaica não é sofisticada nos ingredientes, mas muito aprimorada no preparo.
De acordo com a tradição judaica, a comida ocupa lugar de destaque nas festividades e comemorações religiosas. Cada festividade tem pratos típicos correspondentes, com papel definido no ritual.
Fonte: http://chapermannmyblog.wordpress.com/2008/11/06/cozinha-judaica/
         

domingo, 31 de março de 2013

CAMINHOS DA HISTÓRIA


Foi apenas há 75 anos... Em 1938 a Europa assistia, ao som dos discursos anti-semitas nacionalistas e nazis, ao incêndio e destruição de sinagogas. Contra os ventos dominantes e não obstante as perseguições da ditadura salazarista, no iníci...Ver mais
Em 1938 a Europa assistia, ao som dos discursos anti-semitas nacionalistas e nazis, ao incêndio e destruição de sinagogas. Contra os ventos dominantes e não obstante as perseguições da ditadura salazarista, no início desse ano, no Porto, era inaugurada a maior sinagoga da Península Ibérica e uma das maiores da Europa. Como é que tal foi possível? Qual o protagonismo dos "marranos" na comunidade israelita da cidade? Qual o papel desta comunidade e desta sinagoga no apoio aos refugiados judeus que então procuravam desesperadamente alcançar o nosso país? São estes, e outros, os temas centrais do próximo episódio da série "Caminhos da História" a ser transmitido, excepcionalmente, 29 março (6ª) às 23h00; 30 março (sáb.); e 31 março (dom.) às 18h00. No fim de semana da Páscoa. Relembrando que as origens desta festividade são judaicas. No Porto Canal.
http://www.facebook.com/caminhosdahistoria.portocanal
Foto: Em 1938 a Europa assistia, ao som dos discursos anti-semitas nacionalistas e nazis, ao incêndio e destruição de sinagogas. Contra os ventos dominantes e não obstante as perseguições da ditadura salazarista, no início desse ano, no Porto, era inaugurada a maior sinagoga da Península Ibérica e uma das maiores da Europa. Como é que tal foi possível? Qual o protagonismo dos "marranos" na comunidade israelita da cidade? Qual o papel desta comunidade e desta sinagoga no apoio aos refugiados judeus que então procuravam desesperadamente alcançar o nosso país? São estes, e outros, os temas centrais do próximo episódio da série "Caminhos da História" a ser transmitido, excepcionalmente, 29 março (6ª) às 23h00; 30 março (sáb.); e 31 março (dom.) às 18h00. No fim de semana da Páscoa. Relembrando que as origens desta festividade são judaicas. No Porto Canal.
SINAGOGA


Os judeus no Porto

sexta-feira, 29 de março de 2013

Aldeia de Sambade quer ajudar a criar rota dos judeus em Trás-os-Montes

A aldeia de Sambade, em Alfândega da Fé, quer contribuir para a criação da rota dos Judeus em Trás-os-Montes e dinamizar o turismo cultural e religioso com o legado da comunidade judaica que ali viveu há 400 anos.
O ponto de partida para esse trabalho é o livro «os Marranos de Trás-os-Montes: judeus novos na diáspora: o caso de Sambade», que será apresentado, no sábado, na localidade transmontana, como contou hoje à Lusa a presidente da Câmara de Alfândega da Fé, Berta Nunes.
O município apoia os projetos da maior aldeia do concelho que, de acordo com a investigação que deu origem ao livro, albergava, no século XVII, «uma laboriosa comunidade de cristãos-novos que tornavam florescente a indústria de tecidos de linho, lã e seda, comunidade que foi desmantelada pela Inquisição em uma verdadeira operação de limpeza étnica».
Diário Digital / Lusa

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Listas dos indivíduos pertencentes ao distrito e bispado de Bragança processados na Inquisição por judaísmo



AGROCHÃO
Concelho de Vinhais
Inquisição de Évora
Auto de 20 de Julho de 1710
1 – Francisco de Crasto de Almeida, estrangeiro, natural de Agrochão,
morador na vila de Mértola, de 58 anos, 2ª. Cárcere e hábito a
arbítrio(138).
Inquisição de Coimbra
Auto de 6 de Agosto de 1713
2 – João de Crasto, meirinho do assento da cidade de Bragança,
natural de Agrochão, morador de Bragança, de 49 anos, 5ª.
(138) Lista das pessoas que saíram, condenações que tiveram e sentenças que se leram no Auto público de Fé, que se celebrou no tabuleiro da Paroquial Igreja de Santo Antão desta cidade de
Évora, em Domingo 20 de Julho de 1710, sendo Inquisidor Geral o ilustríssimo senhor Bispo
Nuno da Cunha de Ataíde, do Conselho de S. Majestade e seu capelão-mor.
Estas Listas encontram-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, Colecção Moreira, algumas
impressas e outras manuscritas.

FRANCISCO MANUEL ALVES, ABADE DE BAÇAL

BRAGANÇA MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA
ou
Repositório amplo de notícias corográficas, hidro-orográficas,
geológicas, mineralógicas, hidrológicas, biobibliográficas, heráldicas,
etimológicas, industriais e estatísticas interessantes tanto à
história profana como eclesiástica do distrito de Bragança
TOMO V
OS JUDEUS
NO DISTRITO DE BRAGANÇA

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A alheira foi criado pelos judeus


O prato de alheira foi criado pelos judeus, como uma forma de fugir à Inquisição. Havia uma grande comunidade judaica em Trás-os-Montes nos finais do século XV princípios do século XVI, oriunda de Castela, de onde os judeus haviam sido expulsos em 1492. Como os judeus por imperativos religiosos não comem carne de porco, eram facilmente identificáveis pelos elementos da Inquisição, pois eram os únicos que não faziam nem defumavam enchidos à base de carne de porco.Estes eram bastante populares na época, pelo que facilmente se percebia que quem não incluía enchidos na alimentação  podia ser judeu. Assim, para disfarçar, os judeus começaram a fazer enchidos com carnes de vitela, coelho, peru,pato, galinha e perdiz, envolvidos em massa de pão para dar consistência, que se tornariam bastante populares, mesmo entre os cristãos. Acabaram por ser estes a introduzir carne de porco, assim como o alho, condimento que viria a estar na origem do nome alheira.
http://www.infopedia.pt/

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sabores Judaicos - Trás-os-Montes,por Graça Sá-Fernandes, Naomi Calvão

Na recolha de material sobre a tradição oral, ainda mantida pelos cripto-judeus, em Trás-os-Montes, deparámos com várias orações, práticas religiosas, alimentares e outras.
Estes costumes eram, e são, transmitidos essencialmente pelas mulheres.
Com perigo, até da própria vida, os cripto-judeus transmontanos tiveram que, ao longo do tempo, esconder, e mesmo evitar, todos os costumes e preceitos que os comprometiam.
São disso exemplo o abandono sucessivo da Circuncisão, da Festa das Cabanas, da Delegação Ritual, da Preparação do Vinho, do Uso dos Livros Sagrados e utensílios pertencentes ao culto.
Por outro lado, é muito interessante ver como, passados cinco séculos, persistiu a consciência religiosa em vários campos e como conseguiram, disfarçadamente, continuar com a prática do culto judaico, iludindo a vigilância inquisicional.
Podemos, ao longo deste livro, tomar contacto com alguns desses hábitos.
A alimentação foi, desde sempre, como em todas as comunidades judaicas, um dos traços mais fortes da sua tradição e simbologia características.
Usámos uma cronologia litúrgica para facilitar a leitura das receitas.
http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=7916

domingo, 17 de fevereiro de 2013

JUDEUS DE TRÁS-OS-MONTES MANTÊM PERFIL GENÉTICO

Foto  A.F.P.D.S.J.
Um estudo recente, coordenado por António Amorim, do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), vem demonstrar que a comunidade de descendente de judeus, em Trás-os-Montes, conseguiu manter uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto.
É a primeira vez que a composição genética dos judeus portugueses do Norte é analisada e a conclusão aponta para um baixo nível de contaminação por mistura de sangue e para a preservação de genes judaicos.
Pode falar-se de uma comunidade transmontanas de proveniência judaica com dupla composição: uma autóctone e outra castelhana, robustecida pela expulsão dos judeus de Castela, em 1492, e pela fuga à Inquisição do reino vizinho. Após os decretos de expulsão/conversão forçada (por D. Manuel I, em 1496) e após três séculos de Inquisição, este estudo pretende traçar a demografia histórica das comunidades criptojudaicas e da diáspora sefardita . Ainda não está concluído, mas já foram lançados alguns resultados preliminares que se relacionam com a zona de Trás-os-Montes: está feita a caracterização da composição genética da comunidade de judeus do Distrito de Bragança.
Para a elaboração deste estudo foram analisados 57 indivíduos (das aldeias de Carção e Vilarinho dos Galegos; vila de Argoselo; Cidades de Bragança e Mogadouro) que se assumiam como possuindo ancestralidade `judaica`.
De acordo com o coordenador do estudo, António Amorim, foram detectadas em comunidades do distrito de Bragança “linhagens típicas do Próximo Oriente dez vezes mais frequentes do que no resto do país que se identificam como sendo de origem judaica”. Pode dizer-se, continua António Amorim, “que houve manutenção de uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto, mas que não corresponde a um isolamento total”. Quanto à interpretação destes dados, o investigador prefere “esperar pelos resultados das linhagens femininas para (re)analisar essas questões”, sendo que, de
qualquer modo, "o nível histórico e socilógico dessa análise será feito por especialistas nessas áreas”. O estudo emergiu de uma análise do cromossoma Y (masculino), passado exclusivamente de pai para filho, e denunciou uma diversidade muito elevada de linhagem, com uma incorporação de genes não-judaicos relativamente pequena e a ausência de um acentuado desvio genético. Falta agora tentar perceber como é que estas comunidades evitaram a mistura de genes, previsível durante séculos de repressão religiosa.
Este estudo tem, no entanto, uma amplitude mais vasta. Abraça o crescente interesse, em várias áreas científicas, pela reconstituição de migrações, nomeadamente das populações judaicas que constituem um paradigma de comunidades em migração constante. O projecto focou um subconjunto bem limitado desses movimentos: o das comunidades judaicas da Ibéria depois do século XVI, quando esta minoria demograficamente importante foi forçada a escolher entre a conversão e o exílio. Pretende utilizar marcadores genéticos de populações actuais para inferir a demografia histórica das comunidades que permaneceram na Ibéria e daquelas que migraram para a Europa do Norte e para o Novo Mundo.
Foi estabelecido, previamente, o perfil genético das populações portuguesas actuais e deu-se início à caracterização das comunidades criptojudaicas (estando a das linhagens masculinas do Noroeste está já concluída). O próximo passo será investigar as comunidades Sefarditas da Europa e da América bem como elucidar o impacto da migração forçada de crianças de origem judia para São Tomé e Príncipe por volta de 1500 (caso tenha existido). As questões específicas a que tencionamos responder são:
(a) aquando dos decretos de expulsão essas comunidades eram geneticamente distintas? (b) em que medida as comunidades que permaneceram em Portugal mantiveram não só a sua identidade cultural, mas também o seu fundo genético? (c) o isolamento cultural acarretou o empobrecimento da diversidade genética? (d) o perfil genético das comunidades migrantes é consistente com a sua fundação por judeus ibéricos ou revela a incorporação de outras contribuições? e (e) em qualquer caso, as comunidades Europeias e Americanas revelam o mesmo padrão genético ou é diverso, nomeadamente em termos de género, como é clássico observar em ambientes coloniais?
Para responder a estas questões vão ser utilizados marcadores genéticos capazes de distinguir as histórias das linhagens femininas e masculinas das comunidades estudadas, de traçar os perfis genéticos dos fundadores e estimar proporções de mistura. Limitando a análise a casos relativamente simples e contrastantes, poderemos delinear modelos que permitam a investigação subsequente em situações mais complexas, como as da Diáspora mediterrânica.Será também possível a esclarecer o tipo e a quantidade de fluxo genético entre as comunidades judaicas e as suas envolventes
Os resultados preliminares foram publicados recentemente no American Journal of Physical Anthropology (Revista Norte-americana de Antropologia Física). O projecto envolve 16 investigadores, 10 dos quais doutorados, e cinco unidades de investigação: IPATIMUP, Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Centro de Estudos Sefarditas `Alberto Benveniste`, Centro de Investigação em Antropologia da Universidade de Coimbra e Society of Crypto-Judaic Studies.
Resta acrescentar que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) reprovou este projecto destinado a traçar pela genética a história dos judeus sefarditas, alegando que “Um estudo genético deste tipo abre a porta a toda a espécie de manipulação ideológica”, temendo ainda “danos morais e intelectuais” de “extensão considerável” em comunidades “rurais e frágeis”. O coordenador do Projecto afirmou que não iria aceitar nem os argumentos, nem a decisão da FCT. 
AS / REIT + AA / IPATIMUP + ER / FCUP

sábado, 16 de fevereiro de 2013

1º Shabat em Trancoso

TRANCOSO (Portugal) - Celebração do 1º Shabat em Trancoso
 De Jose Levy Domingos 
 MAIS DE 500 ANOS APÓS A EXPULSÃO DOS JUDEUS DE PORTUGAL POR ORDEM DE D.MANUEL PRIMEIRO E DA CONVERSÃO FORÇADA , CELEBROU-SE EM 8/9 DE FEVEREIRO PELA PRIMEIRA VEZ UM "SHABAT" EM TRANCOSO NA RECÉM CONSTRUÍDA SINAGOGA "BET MAYIM HAYIM" (CASA DAS ÁGUAS VIVAS) INTEGRADA NO CENTRO DE INTERPRETAÇÃO JUDAICA "ISAAC CARDOSO". A INICIATIVA FOI DE JOSE LEVY DOMINGOS QUE ORGANIZOU EM TRANCOSO O SEMINÁRIO DO "KIVUNIM-NEW DIRECTIONS" , ESCOLA JUDAICA SEDEADA EM NEW YORK E QUE A SEU CONVITE SE DESLOCOU PELA TERCEIRA VEZ A TRANCOSO , SOB A DIRECÇÃO DO RABINO DOV LEREA, DE NEW YORK, DESCENDENTE DE JUDEUS DE LEIRIA. FEZ-SE ASSIM HISTÓRIA NESTE MOMENTO EMOCIONANTE EM QUE ESTIVERAM PRESENTES DESCENDENTES DE CRISTÃOS-NOVOS E JUDEUS DA REGIÃO PORTUGUESA DA BEIRA ALTA. NO SERVIÇO DE "SHABAT" O RABINO DOV LEREA FALOU DE THOMAS (ISAAC) PINEDO, JUDEU NASCIDO EM TRANCOSO NO SECULO XVII, FILOLOGO , QUE MORREU EM AMSTERDAM (Trancoso 1614, Amsterdam,1679) E EVIDENCIOU A IMPORTÂNCIA DESTA CELEBRAÇÃO COM JOVENS ESTUDANTES JUDEUS NA CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA DA PRESENÇA E DA FÉ JUDAICA EM TRANCOSO . A EMOÇÃO, A PARTILHA DE SENTIMENTOS E O ABRAÇO FRATERNO DO KIVUNIM MARCOU SIGNIFICATIVAMENTE ESTE "SABATH" DE 8/9 DE FEVEREIRO DE 2013. A HERANÇA JUDAICA ESTA ASSIM VIVA E REFORÇADA NA BEIRA INTERIOR E NA BEIRA 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

TRANCOSO - "Herança e Património Judaico"

O colégio judaico KIVUNIM , sediado em New York realizou em Trancoso (Portugal) mais um Seminário sobre "Herança e Património Judaico" no âmbito das suas actividades internacionais. Cerca de quatro dezenas de alunos dirigidos pelo Rabino Dov Lerea (descendente de Judeus Portugueses de Leiria) estiveram dois dias nesta histórica cidade onde contactaram directamente com os testemunhos deixados pelos Judeus e Cristãos-novos através de sinais, marcas, inscrições e memórias que marcaram ao longo dos séculos a vida social, cultural e económica local e regional e mesmo nacional. Personalidades judaicas oriundas de Trancoso que se distinguiram nos campos da medicina, literatura, filosofia e economia foram evocadas no decorrer deste Seminário do KIVUNIM , entre elas Manuel Telles da Costa, Isaac Cardoso, Isaac de Pinedo, Fernando Mendes.
O Rabino Dov Lerea explicou aos alunos a importância destas registos para o conhecimento do passado judaico não só em Trancoso mas em Portugal, em Sefarad (Península Iberica) e ter a noção do sofrimentos e dor que as perseguições causadas pela expulsão dos Judeus de Portugal em 1496 por ordem do rei Dom Manuel 1º e pela Inquisição e ao que tiveram de recorrer os forçadamente convertidos ao catolicismo para se protegeram a si e suas famílias, mostrando-se exteriormente cristãos e em casa judeus. Assim nasceu o Marranismo que permaneceu até à actualidade. José Levy Domingos, jornalista e investigador, membro da Comunidade Judaica, foi o organizador do programa da visita do KIVUNIM e o guia através da Judiaria de Trancoso onde mostrou e explicou os sinais e marcas judaicas e cripto-judaicas o seu significado, disfarces e mensagens. Deambulando pelas ruas do Centro Histórico observaram-se cruciformes, o leão de Judá, as Portas de Jerusalém e a figura de "judeu inclinado" na Casa do Gato Negro, a marca de ferreiro, o "Shem hashem" com caracteres hebraicos, dois nomes escritos em caracteres hebraicos (Samuel e Moron), o Sonho de Jacob, o Shim ( letra hebraica que inicia a palavra Shadai=santo), os Pentagramas, os anagramas de IHS... No Teatro Municipal /Convento de São Francisco realizou-se um Sarau Cultural com o Coral "Canto D'Alma" da Santa Casa da Misericórdia de Trancoso que briondou os visitantes com trechos de música portuguiesa, Trovas de Bandarra e temas musicais internacionais num espectáculos de interacção que culminou com a actuação de todos os alunos norte-americanos presentes que interpretaram canções judaicas en hebraico e Ladino . Foi um Seminário que além de ter registado a celebração do Primeiro Shabat na recém construida Sinagoga Bet Mayim Hayim (Casa das Águas Vivas) integrada no Centro de Interpretação da Cultura Judaica "Isaac Cardoso", mais de 500 anos após a Expulsão dos Judeus e o Santo Oficio ( que de santo só tinha o nome e em nome de um pretenso catolicismo fanático e torpe) ter dizimado a Comunidade Judaica de Trancoso e levado este povo a procurar outras nações e paragens para onde levaram saberes, cultural, ciência e trabalho que irremediavelmente deixaram esta terra e Portugal para engrandecerem outras nações entre as quais os Estados Unidos, França, Belgica (Flandres),Holanda/Países Baixos, Brasil, Itália, Grecia, Israel,Turquia, Marrocos, America-latina, entre outros. Ficou a memória, ficaram os sinais e os registos de um povo que teme a D-us e nele busca sua força, inteligência, vontade e fé. José Levy Domingos The Jewish 
http://www.facebook.com/jose.l.domingos/posts/4156884092191

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 36

" De Villa Real que he junto desta comarqua ..."

Rodrigo Álvares. Não restam dúvidas de que judeus e sefarditas foram pioneiros nas artes tipográficas, não apenas em Portugal mas na Europa. E os irmãos Tartas, de Bragança, ocupam um lugar de relevo na galeria dos tipógrafos e livreiros da Europa. Em Portugal um dos primeiros tipógrafos chamou-se Rodrigo Álvares. Era um homem da nação hebreia, trasmontano, natural e morador em Vila Real. Na última década do século de Quatrocentos transferiu-se para o Porto e ali instalou uma das primeiras tipografias que houve em Portugal. A fazer fé no dr. João de Barros, seria até a primeira que existiu entre nós. Com efeito, aquele autor, no seu “Livro das Antiguidades e Cousas Notáveis de Entre Douro e Minho”, publicado em 1540, escreveu o seguinte:
- De Villa Real que he junto desta comarqua foi natural hum Rodrigo Alvares que depois viveo no Porto, e foi o primeiro que a este Reyno trouxe a Impressão, em tempo que valia hum breviário seis e sete mil reis e este os imprimio a dois cruzados.
De onde trouxe ele a sua tipografia é coisa que não sabemos, mas terá sido de Salamanca, pois à sua morte veio para ela a trabalhar um tal Juan Porres, de Salamanca. Da tipografia deste marrano trasmontano, chegaram até nós duas obras impressas:
- Constituições que fez ho Senhor don Diogo de Sousa bispo do Porto – editadas em 24 de Agosto de 1496, conforme o registo final: - Impressum in porto civitate. Rodericum Alvares artes impressorie magistrum.
- Evangelhos e Epistolas com suas exposições em romance. Também ao final se diz: - E foy a suso dicta obra emprimida e traladada em linguagem português em há mui nobre e sempre leal cidade do Porto por Rodrigalvares. Anno do Senhor Mil CCCCLXXXXII, xxv dias do mês de Outubro. E estas notas são interessantes porque foram as primeiras que nos ficaram mostrando “um mestre das artes impressoras” escrevendo o seu nome na própria obra.
António Júlio Andrade

Nota. Sobre o assunto pode ver um trabalho publicado no nº 233, de 2001-05-01, do jornal Terra Quente, da autoria de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Cristãos-novos trasmontanos Pioneiros nas Artes Tipográficas.

 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 35


 Freixo de Espada à Cinta
João de Castilho. Foi um dos mais celebrados arquitectos portugueses. O seu nome está ligado a várias das mais grandiosas e emblemáticas obras de arquitectura nacionais, como sejam: o mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, o convento de Cristo em Tomar, a sé de Viseu, a fortaleza de Marzagão em África… Menos conhecida é a sua ligação à gente da estirpe hebreia e a Trás-os-Montes. A terra de seu nascimento, porém, foi Santander, em Espanha, por 1490. Dois anos depois, foi promulgada a lei de expulsão dos judeus de Espanha e os seus pais tê-lo-ão trazido para Portugal e mais concretamente para a vila de Freixo de Espada à Cinta. Nesta terra viria a casar, com Maria Fernandes Quintanilha, filha de um outro fugido da inquisição espanhola chamado Garcia Fernandes que, por sua vez, tinha casado na família Varejão, porventura uma das mais ricas e poderosas do burgo. E estes Quintanilha – Varejão aparecem-nos ligados à fundação da Misericórdia de Freixo. E não seria por acaso que um grande “milagre” aconteceu exactamente na igreja da Misericórdia onde os pés de uma estátua de Cristo Crucificado entraram repentinamente a largar gotas de suor, em tempo de verão e de uma prolongada seca, logo se seguindo uma enorme chuvada, que encheu de alegria os lavradores. E de gratidão aos céus. E também na mesma igreja se conserva ainda hoje o retrato de António Francisco Varejão que, por esses tempos, foi missionário em terras do Oriente e o povo de Freixo elevou a “santo”.
Temos, pois, o arquitecto João de Castilho casado em Freixo de Espada à Cinta, na família dos Quintanilha – Varejão que certamente esteve na vanguarda do movimento para a construção da belíssima igreja da Misericórdia. E também da extraordinária igreja matriz, que tem a dignidade de uma sé episcopal e que os estudiosos da arte apelidam como os “Jerónimos de Trás-os-Montes”. E também as famílias promoveram a construção de belas casas, umas mais solarengas que outras, mas todas casando-se em harmoniosos arruamentos, em típico estilo manuelino, o estilo em que João de Castilho foi o expoente maior. E a minúscula e pobre terra adoptiva deste grande mestre de arquitectura, situada no mais recôndito dos lugares do reino, para além da fronteira duriense e para trás dos montes, tornou-se na mais emblemática das terras Manuelinas de Portugal. E torna-se hoje imperioso dar a conhecer e rentabilizar este património, fazer de Freixo de Espada á Cinta um ponto de partida (ou de chegada) para uma Rota do Manuelino. E torna-se igualmente imperioso fazer de Freixo de Espada à Cinta um ponto obrigatório de passagem numa Rota de Judeus e Marranos, promovendo-se o estudo da simbologia judaica que ornamenta portas, janelas e muros de casas, bem como a leitura e estudo dos processos que a inquisição moveu contra os Marranos de Freixo de Espada à Cinta. Estas duas Rotas de Turismo Cultural serão essenciais para o desenvolvimento da terra.
António Júlio Andrade
Nota – Sobre este assunto pode ver um conjunto de 4 textos publicados no jornal Terra Quente (nº 227, de 2001-03-01 e seguintes) de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Os Judeus e a Renascença Manuelina em Freixo de espada à Cinta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 34



Tomás da Fonseca. Terá nascido em Freixo de Espada à Cinta, cerca de 1521. Ainda pequeno seria levado para as Índias Ocidentais por seu pai, que foi um dos primeiros descobridores de minas na América espanhola. No México viveu Tomás cerca de 50 anos, sendo mineiro do ouro em Tlalpujahaua. Nunca casaria mas foi pai de 5 filhos naturais. Em 1596 foi preso pela inquisição do México, acusado de práticas de judaísmo. Saiu no célebre auto de fé celebrado em 25 de Março de 1601, condenado em cárcere e hábito perpétuo, 100 açoites pelas ruas da cidade e confisco de bens. Tinha 80 anos de idade.
No mesmo auto foi queimada a estátua de um outro sefardita natural de Freixo de Espada à Cinta, primo de Tomás da Fonseca, o qual havia morrido na cadeia, chamado Pelayo Álvares.
Conhecemos também um pouco da história de uma irmã deste, nascida e baptizada em Freixo de Espada à Cinta com o nome de Branca Rodrigues. Certamente com medo da inquisição portuguesa, fugiu para Ferrara, em Itália, ali tomando o nome judeu de Isaque Rodriga. Mudou-se depois para a cidade de Sevilha, em Espanha, onde passou a chamar-se Branca Lourenço. Naquela cidade portuária abriu uma pensão. E esta passou a ser a pensão de referência para os sefarditas Trasmontanos que demandavam Sevilha para se embarcar para terras de Marrocos e das Índias de Castela. Muitas vezes hospedava os migrantes de graça e até lhes arranjava merenda para a viagem. Temos conhecimento de dois que ali foram hóspedes gratuitos durante 3 meses. Bem merece esta valorosa mulher ser recordada com uma lápide em uma rua de Freixo de Espada à Cinta.
António Júlio Andrade