terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A alheira foi criado pelos judeus


O prato de alheira foi criado pelos judeus, como uma forma de fugir à Inquisição. Havia uma grande comunidade judaica em Trás-os-Montes nos finais do século XV princípios do século XVI, oriunda de Castela, de onde os judeus haviam sido expulsos em 1492. Como os judeus por imperativos religiosos não comem carne de porco, eram facilmente identificáveis pelos elementos da Inquisição, pois eram os únicos que não faziam nem defumavam enchidos à base de carne de porco.Estes eram bastante populares na época, pelo que facilmente se percebia que quem não incluía enchidos na alimentação  podia ser judeu. Assim, para disfarçar, os judeus começaram a fazer enchidos com carnes de vitela, coelho, peru,pato, galinha e perdiz, envolvidos em massa de pão para dar consistência, que se tornariam bastante populares, mesmo entre os cristãos. Acabaram por ser estes a introduzir carne de porco, assim como o alho, condimento que viria a estar na origem do nome alheira.
http://www.infopedia.pt/

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Sabores Judaicos - Trás-os-Montes,por Graça Sá-Fernandes, Naomi Calvão

Na recolha de material sobre a tradição oral, ainda mantida pelos cripto-judeus, em Trás-os-Montes, deparámos com várias orações, práticas religiosas, alimentares e outras.
Estes costumes eram, e são, transmitidos essencialmente pelas mulheres.
Com perigo, até da própria vida, os cripto-judeus transmontanos tiveram que, ao longo do tempo, esconder, e mesmo evitar, todos os costumes e preceitos que os comprometiam.
São disso exemplo o abandono sucessivo da Circuncisão, da Festa das Cabanas, da Delegação Ritual, da Preparação do Vinho, do Uso dos Livros Sagrados e utensílios pertencentes ao culto.
Por outro lado, é muito interessante ver como, passados cinco séculos, persistiu a consciência religiosa em vários campos e como conseguiram, disfarçadamente, continuar com a prática do culto judaico, iludindo a vigilância inquisicional.
Podemos, ao longo deste livro, tomar contacto com alguns desses hábitos.
A alimentação foi, desde sempre, como em todas as comunidades judaicas, um dos traços mais fortes da sua tradição e simbologia características.
Usámos uma cronologia litúrgica para facilitar a leitura das receitas.
http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=7916

domingo, 17 de fevereiro de 2013

JUDEUS DE TRÁS-OS-MONTES MANTÊM PERFIL GENÉTICO

Foto  A.F.P.D.S.J.
Um estudo recente, coordenado por António Amorim, do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), vem demonstrar que a comunidade de descendente de judeus, em Trás-os-Montes, conseguiu manter uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto.
É a primeira vez que a composição genética dos judeus portugueses do Norte é analisada e a conclusão aponta para um baixo nível de contaminação por mistura de sangue e para a preservação de genes judaicos.
Pode falar-se de uma comunidade transmontanas de proveniência judaica com dupla composição: uma autóctone e outra castelhana, robustecida pela expulsão dos judeus de Castela, em 1492, e pela fuga à Inquisição do reino vizinho. Após os decretos de expulsão/conversão forçada (por D. Manuel I, em 1496) e após três séculos de Inquisição, este estudo pretende traçar a demografia histórica das comunidades criptojudaicas e da diáspora sefardita . Ainda não está concluído, mas já foram lançados alguns resultados preliminares que se relacionam com a zona de Trás-os-Montes: está feita a caracterização da composição genética da comunidade de judeus do Distrito de Bragança.
Para a elaboração deste estudo foram analisados 57 indivíduos (das aldeias de Carção e Vilarinho dos Galegos; vila de Argoselo; Cidades de Bragança e Mogadouro) que se assumiam como possuindo ancestralidade `judaica`.
De acordo com o coordenador do estudo, António Amorim, foram detectadas em comunidades do distrito de Bragança “linhagens típicas do Próximo Oriente dez vezes mais frequentes do que no resto do país que se identificam como sendo de origem judaica”. Pode dizer-se, continua António Amorim, “que houve manutenção de uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto, mas que não corresponde a um isolamento total”. Quanto à interpretação destes dados, o investigador prefere “esperar pelos resultados das linhagens femininas para (re)analisar essas questões”, sendo que, de
qualquer modo, "o nível histórico e socilógico dessa análise será feito por especialistas nessas áreas”. O estudo emergiu de uma análise do cromossoma Y (masculino), passado exclusivamente de pai para filho, e denunciou uma diversidade muito elevada de linhagem, com uma incorporação de genes não-judaicos relativamente pequena e a ausência de um acentuado desvio genético. Falta agora tentar perceber como é que estas comunidades evitaram a mistura de genes, previsível durante séculos de repressão religiosa.
Este estudo tem, no entanto, uma amplitude mais vasta. Abraça o crescente interesse, em várias áreas científicas, pela reconstituição de migrações, nomeadamente das populações judaicas que constituem um paradigma de comunidades em migração constante. O projecto focou um subconjunto bem limitado desses movimentos: o das comunidades judaicas da Ibéria depois do século XVI, quando esta minoria demograficamente importante foi forçada a escolher entre a conversão e o exílio. Pretende utilizar marcadores genéticos de populações actuais para inferir a demografia histórica das comunidades que permaneceram na Ibéria e daquelas que migraram para a Europa do Norte e para o Novo Mundo.
Foi estabelecido, previamente, o perfil genético das populações portuguesas actuais e deu-se início à caracterização das comunidades criptojudaicas (estando a das linhagens masculinas do Noroeste está já concluída). O próximo passo será investigar as comunidades Sefarditas da Europa e da América bem como elucidar o impacto da migração forçada de crianças de origem judia para São Tomé e Príncipe por volta de 1500 (caso tenha existido). As questões específicas a que tencionamos responder são:
(a) aquando dos decretos de expulsão essas comunidades eram geneticamente distintas? (b) em que medida as comunidades que permaneceram em Portugal mantiveram não só a sua identidade cultural, mas também o seu fundo genético? (c) o isolamento cultural acarretou o empobrecimento da diversidade genética? (d) o perfil genético das comunidades migrantes é consistente com a sua fundação por judeus ibéricos ou revela a incorporação de outras contribuições? e (e) em qualquer caso, as comunidades Europeias e Americanas revelam o mesmo padrão genético ou é diverso, nomeadamente em termos de género, como é clássico observar em ambientes coloniais?
Para responder a estas questões vão ser utilizados marcadores genéticos capazes de distinguir as histórias das linhagens femininas e masculinas das comunidades estudadas, de traçar os perfis genéticos dos fundadores e estimar proporções de mistura. Limitando a análise a casos relativamente simples e contrastantes, poderemos delinear modelos que permitam a investigação subsequente em situações mais complexas, como as da Diáspora mediterrânica.Será também possível a esclarecer o tipo e a quantidade de fluxo genético entre as comunidades judaicas e as suas envolventes
Os resultados preliminares foram publicados recentemente no American Journal of Physical Anthropology (Revista Norte-americana de Antropologia Física). O projecto envolve 16 investigadores, 10 dos quais doutorados, e cinco unidades de investigação: IPATIMUP, Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Centro de Estudos Sefarditas `Alberto Benveniste`, Centro de Investigação em Antropologia da Universidade de Coimbra e Society of Crypto-Judaic Studies.
Resta acrescentar que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) reprovou este projecto destinado a traçar pela genética a história dos judeus sefarditas, alegando que “Um estudo genético deste tipo abre a porta a toda a espécie de manipulação ideológica”, temendo ainda “danos morais e intelectuais” de “extensão considerável” em comunidades “rurais e frágeis”. O coordenador do Projecto afirmou que não iria aceitar nem os argumentos, nem a decisão da FCT. 
AS / REIT + AA / IPATIMUP + ER / FCUP

sábado, 16 de fevereiro de 2013

1º Shabat em Trancoso

TRANCOSO (Portugal) - Celebração do 1º Shabat em Trancoso
 De Jose Levy Domingos 
 MAIS DE 500 ANOS APÓS A EXPULSÃO DOS JUDEUS DE PORTUGAL POR ORDEM DE D.MANUEL PRIMEIRO E DA CONVERSÃO FORÇADA , CELEBROU-SE EM 8/9 DE FEVEREIRO PELA PRIMEIRA VEZ UM "SHABAT" EM TRANCOSO NA RECÉM CONSTRUÍDA SINAGOGA "BET MAYIM HAYIM" (CASA DAS ÁGUAS VIVAS) INTEGRADA NO CENTRO DE INTERPRETAÇÃO JUDAICA "ISAAC CARDOSO". A INICIATIVA FOI DE JOSE LEVY DOMINGOS QUE ORGANIZOU EM TRANCOSO O SEMINÁRIO DO "KIVUNIM-NEW DIRECTIONS" , ESCOLA JUDAICA SEDEADA EM NEW YORK E QUE A SEU CONVITE SE DESLOCOU PELA TERCEIRA VEZ A TRANCOSO , SOB A DIRECÇÃO DO RABINO DOV LEREA, DE NEW YORK, DESCENDENTE DE JUDEUS DE LEIRIA. FEZ-SE ASSIM HISTÓRIA NESTE MOMENTO EMOCIONANTE EM QUE ESTIVERAM PRESENTES DESCENDENTES DE CRISTÃOS-NOVOS E JUDEUS DA REGIÃO PORTUGUESA DA BEIRA ALTA. NO SERVIÇO DE "SHABAT" O RABINO DOV LEREA FALOU DE THOMAS (ISAAC) PINEDO, JUDEU NASCIDO EM TRANCOSO NO SECULO XVII, FILOLOGO , QUE MORREU EM AMSTERDAM (Trancoso 1614, Amsterdam,1679) E EVIDENCIOU A IMPORTÂNCIA DESTA CELEBRAÇÃO COM JOVENS ESTUDANTES JUDEUS NA CONTINUAÇÃO DA HISTÓRIA DA PRESENÇA E DA FÉ JUDAICA EM TRANCOSO . A EMOÇÃO, A PARTILHA DE SENTIMENTOS E O ABRAÇO FRATERNO DO KIVUNIM MARCOU SIGNIFICATIVAMENTE ESTE "SABATH" DE 8/9 DE FEVEREIRO DE 2013. A HERANÇA JUDAICA ESTA ASSIM VIVA E REFORÇADA NA BEIRA INTERIOR E NA BEIRA 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

TRANCOSO - "Herança e Património Judaico"

O colégio judaico KIVUNIM , sediado em New York realizou em Trancoso (Portugal) mais um Seminário sobre "Herança e Património Judaico" no âmbito das suas actividades internacionais. Cerca de quatro dezenas de alunos dirigidos pelo Rabino Dov Lerea (descendente de Judeus Portugueses de Leiria) estiveram dois dias nesta histórica cidade onde contactaram directamente com os testemunhos deixados pelos Judeus e Cristãos-novos através de sinais, marcas, inscrições e memórias que marcaram ao longo dos séculos a vida social, cultural e económica local e regional e mesmo nacional. Personalidades judaicas oriundas de Trancoso que se distinguiram nos campos da medicina, literatura, filosofia e economia foram evocadas no decorrer deste Seminário do KIVUNIM , entre elas Manuel Telles da Costa, Isaac Cardoso, Isaac de Pinedo, Fernando Mendes.
O Rabino Dov Lerea explicou aos alunos a importância destas registos para o conhecimento do passado judaico não só em Trancoso mas em Portugal, em Sefarad (Península Iberica) e ter a noção do sofrimentos e dor que as perseguições causadas pela expulsão dos Judeus de Portugal em 1496 por ordem do rei Dom Manuel 1º e pela Inquisição e ao que tiveram de recorrer os forçadamente convertidos ao catolicismo para se protegeram a si e suas famílias, mostrando-se exteriormente cristãos e em casa judeus. Assim nasceu o Marranismo que permaneceu até à actualidade. José Levy Domingos, jornalista e investigador, membro da Comunidade Judaica, foi o organizador do programa da visita do KIVUNIM e o guia através da Judiaria de Trancoso onde mostrou e explicou os sinais e marcas judaicas e cripto-judaicas o seu significado, disfarces e mensagens. Deambulando pelas ruas do Centro Histórico observaram-se cruciformes, o leão de Judá, as Portas de Jerusalém e a figura de "judeu inclinado" na Casa do Gato Negro, a marca de ferreiro, o "Shem hashem" com caracteres hebraicos, dois nomes escritos em caracteres hebraicos (Samuel e Moron), o Sonho de Jacob, o Shim ( letra hebraica que inicia a palavra Shadai=santo), os Pentagramas, os anagramas de IHS... No Teatro Municipal /Convento de São Francisco realizou-se um Sarau Cultural com o Coral "Canto D'Alma" da Santa Casa da Misericórdia de Trancoso que briondou os visitantes com trechos de música portuguiesa, Trovas de Bandarra e temas musicais internacionais num espectáculos de interacção que culminou com a actuação de todos os alunos norte-americanos presentes que interpretaram canções judaicas en hebraico e Ladino . Foi um Seminário que além de ter registado a celebração do Primeiro Shabat na recém construida Sinagoga Bet Mayim Hayim (Casa das Águas Vivas) integrada no Centro de Interpretação da Cultura Judaica "Isaac Cardoso", mais de 500 anos após a Expulsão dos Judeus e o Santo Oficio ( que de santo só tinha o nome e em nome de um pretenso catolicismo fanático e torpe) ter dizimado a Comunidade Judaica de Trancoso e levado este povo a procurar outras nações e paragens para onde levaram saberes, cultural, ciência e trabalho que irremediavelmente deixaram esta terra e Portugal para engrandecerem outras nações entre as quais os Estados Unidos, França, Belgica (Flandres),Holanda/Países Baixos, Brasil, Itália, Grecia, Israel,Turquia, Marrocos, America-latina, entre outros. Ficou a memória, ficaram os sinais e os registos de um povo que teme a D-us e nele busca sua força, inteligência, vontade e fé. José Levy Domingos The Jewish 
http://www.facebook.com/jose.l.domingos/posts/4156884092191

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 36

" De Villa Real que he junto desta comarqua ..."

Rodrigo Álvares. Não restam dúvidas de que judeus e sefarditas foram pioneiros nas artes tipográficas, não apenas em Portugal mas na Europa. E os irmãos Tartas, de Bragança, ocupam um lugar de relevo na galeria dos tipógrafos e livreiros da Europa. Em Portugal um dos primeiros tipógrafos chamou-se Rodrigo Álvares. Era um homem da nação hebreia, trasmontano, natural e morador em Vila Real. Na última década do século de Quatrocentos transferiu-se para o Porto e ali instalou uma das primeiras tipografias que houve em Portugal. A fazer fé no dr. João de Barros, seria até a primeira que existiu entre nós. Com efeito, aquele autor, no seu “Livro das Antiguidades e Cousas Notáveis de Entre Douro e Minho”, publicado em 1540, escreveu o seguinte:
- De Villa Real que he junto desta comarqua foi natural hum Rodrigo Alvares que depois viveo no Porto, e foi o primeiro que a este Reyno trouxe a Impressão, em tempo que valia hum breviário seis e sete mil reis e este os imprimio a dois cruzados.
De onde trouxe ele a sua tipografia é coisa que não sabemos, mas terá sido de Salamanca, pois à sua morte veio para ela a trabalhar um tal Juan Porres, de Salamanca. Da tipografia deste marrano trasmontano, chegaram até nós duas obras impressas:
- Constituições que fez ho Senhor don Diogo de Sousa bispo do Porto – editadas em 24 de Agosto de 1496, conforme o registo final: - Impressum in porto civitate. Rodericum Alvares artes impressorie magistrum.
- Evangelhos e Epistolas com suas exposições em romance. Também ao final se diz: - E foy a suso dicta obra emprimida e traladada em linguagem português em há mui nobre e sempre leal cidade do Porto por Rodrigalvares. Anno do Senhor Mil CCCCLXXXXII, xxv dias do mês de Outubro. E estas notas são interessantes porque foram as primeiras que nos ficaram mostrando “um mestre das artes impressoras” escrevendo o seu nome na própria obra.
António Júlio Andrade

Nota. Sobre o assunto pode ver um trabalho publicado no nº 233, de 2001-05-01, do jornal Terra Quente, da autoria de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Cristãos-novos trasmontanos Pioneiros nas Artes Tipográficas.

 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 35


 Freixo de Espada à Cinta
João de Castilho. Foi um dos mais celebrados arquitectos portugueses. O seu nome está ligado a várias das mais grandiosas e emblemáticas obras de arquitectura nacionais, como sejam: o mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, o convento de Cristo em Tomar, a sé de Viseu, a fortaleza de Marzagão em África… Menos conhecida é a sua ligação à gente da estirpe hebreia e a Trás-os-Montes. A terra de seu nascimento, porém, foi Santander, em Espanha, por 1490. Dois anos depois, foi promulgada a lei de expulsão dos judeus de Espanha e os seus pais tê-lo-ão trazido para Portugal e mais concretamente para a vila de Freixo de Espada à Cinta. Nesta terra viria a casar, com Maria Fernandes Quintanilha, filha de um outro fugido da inquisição espanhola chamado Garcia Fernandes que, por sua vez, tinha casado na família Varejão, porventura uma das mais ricas e poderosas do burgo. E estes Quintanilha – Varejão aparecem-nos ligados à fundação da Misericórdia de Freixo. E não seria por acaso que um grande “milagre” aconteceu exactamente na igreja da Misericórdia onde os pés de uma estátua de Cristo Crucificado entraram repentinamente a largar gotas de suor, em tempo de verão e de uma prolongada seca, logo se seguindo uma enorme chuvada, que encheu de alegria os lavradores. E de gratidão aos céus. E também na mesma igreja se conserva ainda hoje o retrato de António Francisco Varejão que, por esses tempos, foi missionário em terras do Oriente e o povo de Freixo elevou a “santo”.
Temos, pois, o arquitecto João de Castilho casado em Freixo de Espada à Cinta, na família dos Quintanilha – Varejão que certamente esteve na vanguarda do movimento para a construção da belíssima igreja da Misericórdia. E também da extraordinária igreja matriz, que tem a dignidade de uma sé episcopal e que os estudiosos da arte apelidam como os “Jerónimos de Trás-os-Montes”. E também as famílias promoveram a construção de belas casas, umas mais solarengas que outras, mas todas casando-se em harmoniosos arruamentos, em típico estilo manuelino, o estilo em que João de Castilho foi o expoente maior. E a minúscula e pobre terra adoptiva deste grande mestre de arquitectura, situada no mais recôndito dos lugares do reino, para além da fronteira duriense e para trás dos montes, tornou-se na mais emblemática das terras Manuelinas de Portugal. E torna-se hoje imperioso dar a conhecer e rentabilizar este património, fazer de Freixo de Espada á Cinta um ponto de partida (ou de chegada) para uma Rota do Manuelino. E torna-se igualmente imperioso fazer de Freixo de Espada à Cinta um ponto obrigatório de passagem numa Rota de Judeus e Marranos, promovendo-se o estudo da simbologia judaica que ornamenta portas, janelas e muros de casas, bem como a leitura e estudo dos processos que a inquisição moveu contra os Marranos de Freixo de Espada à Cinta. Estas duas Rotas de Turismo Cultural serão essenciais para o desenvolvimento da terra.
António Júlio Andrade
Nota – Sobre este assunto pode ver um conjunto de 4 textos publicados no jornal Terra Quente (nº 227, de 2001-03-01 e seguintes) de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, sob o título: Os Judeus e a Renascença Manuelina em Freixo de espada à Cinta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 34



Tomás da Fonseca. Terá nascido em Freixo de Espada à Cinta, cerca de 1521. Ainda pequeno seria levado para as Índias Ocidentais por seu pai, que foi um dos primeiros descobridores de minas na América espanhola. No México viveu Tomás cerca de 50 anos, sendo mineiro do ouro em Tlalpujahaua. Nunca casaria mas foi pai de 5 filhos naturais. Em 1596 foi preso pela inquisição do México, acusado de práticas de judaísmo. Saiu no célebre auto de fé celebrado em 25 de Março de 1601, condenado em cárcere e hábito perpétuo, 100 açoites pelas ruas da cidade e confisco de bens. Tinha 80 anos de idade.
No mesmo auto foi queimada a estátua de um outro sefardita natural de Freixo de Espada à Cinta, primo de Tomás da Fonseca, o qual havia morrido na cadeia, chamado Pelayo Álvares.
Conhecemos também um pouco da história de uma irmã deste, nascida e baptizada em Freixo de Espada à Cinta com o nome de Branca Rodrigues. Certamente com medo da inquisição portuguesa, fugiu para Ferrara, em Itália, ali tomando o nome judeu de Isaque Rodriga. Mudou-se depois para a cidade de Sevilha, em Espanha, onde passou a chamar-se Branca Lourenço. Naquela cidade portuária abriu uma pensão. E esta passou a ser a pensão de referência para os sefarditas Trasmontanos que demandavam Sevilha para se embarcar para terras de Marrocos e das Índias de Castela. Muitas vezes hospedava os migrantes de graça e até lhes arranjava merenda para a viagem. Temos conhecimento de dois que ali foram hóspedes gratuitos durante 3 meses. Bem merece esta valorosa mulher ser recordada com uma lápide em uma rua de Freixo de Espada à Cinta.
António Júlio Andrade


 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 33


Feliciano de Valência. Nasceu em Bragança, por 1561, sendo filho de Oliveira Nunes e Guiomar da Costa, originários de Benavente, Espanha. Concluídos os estudos preparatórios em Bragança, no Colégio da Companhia, transitou para a universidade de Salamanca, onde estudou Cânones e Leis, entre 1581 e 1584. Jurista, ligou-se a homens de negócio de Madrid e Sevilha, nomeadamente a Pedro Gomes Reinel e João Rodrigues Coutinho que tiveram o assento dos negros de África entre 1593 e 1603. E terá sido exactamente o negócio de escravos africanos que o levou para as Índias Ocidentais. Com efeito, ali o encontramos em 1593, a negociar no Peru e de passagem por Acapulco onde terá conhecido António Dias de Cáceres. No ano seguinte, porém, estava já em Espanha, na cidade de Cartagena, com um barco carregado de mercadorias a zarpar para o México, levando como feitor um Manuel Gil, da Guarda. No México entraria em contacto com a família de António Cárceres e muito em especial com Luís de Carvalhal, o Moço. E como ele se afirmava judeu ortodoxo. Porém, considerava que, embora só uma das 3 religiões monoteístas fosse verdadeira, as outras duas deviam ser respeitadas, pois se deviam a Deus. E contava que o rei D. João III tinha um grande amigo, cristão-novo, muito rico, que dispunha de 200 mil cruzados. E dizendo-lhe o rei que até simpatizava com a lei de Moisés mas que o melhor seria converter-se ele à lei de Cristo, que era a verdadeira, o outro lhe respondeu com esta parábola: um homem rico tinha 3 filhos e tinha só uma pedra preciosa para lhes dar. E para os contentar a todos, mandou fazer outras duas pedras falsas, que não se distinguiam da verdadeira. Juntou as três e disse aos filhos que tirassem cada um a sua, rogando a Deus que desse a verdadeira a quem fosse servido, pois só Ele sabia qual era. O mesmo se passa com as 3 religiões monoteístas, que nasceram por graça e inspiração divina. Esta parábola foi contada no tribunal da inquisição do México em Novembro de 1598 e a partir de então nada mais sabemos sobre este Trasmontano, Sefardita e Marrano que foi casado com Maria Fonseca.
António Júlio Andrade

sábado, 5 de janeiro de 2013

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 32


Foto de autor desconhecido

Jacob de Castro Sarmento. Nasceu em Bragança em 1691 e ali foi baptizado com o nome de Henrique de Castro Almeida. Andava pelos 6-7 anos quando os pais o levaram para o Alentejo, fixando residência em Mértola, depois de uma breve passagem pelo Alvito. Entrou para a universidade de Évora a estudar Artes, ao mesmo tempo que seu pai era levado para as masmorras da inquisição da mesma cidade, acusado de judaizar. Licenciado em Artes, transitou para a universidade de Coimbra onde concluiu o curso de Medicina, em 1717. Foi exercer a profissão para o Algarve e Alentejo, nomeadamente na cidade de Beja. Em 1720 a inquisição lançou ali uma vaga enorme de prisões e o dr. Henrique mudou-se para Lisboa. Casou logo de seguida com sua prima Isabel Inácia e no ano seguinte embarcaram Inglaterra, em fuga da inquisição. Efectivamente o seu nome constava de uma lista de 92 cristãos novos (advogados, médicos, grandes mercadores…) da região de Beja denunciados como judaizantes pelo seu colega, também médico, originário de Bragança, o famigerado dr. Francisco de Sá da Mesquita. Em Londres foi bem acolhido na comunidade judaica, nomeadamente pelo rabi David Neto. E logo se fez circuncidar, aderindo abertamente ao judaísmo. Mudou então o nome de Henrique para Jacob e o sobrenome Almeida para Sarmento. Teve iguais artes de se introduzir nas altas esferas da sociedade inglesa, através de Lady Montagu que acabara de chegar da Turquia onde seu marido cumprira a missão de embaixador. Davam-se então os primeiros passos na descoberta da vacina contra a varíola, processo que aquela dama seguia com interesse, pois que uma filha sua contraíra aquela doença e acabou por ser a primeira pessoa no mundo ocidental a experimentar o novo método da inoculação. Com todo o interesse o dr. Sarmento se meteu no estudo e investigação da vacina e logo naquele ano de 1721 publicou um trabalho sobre a matéria. Era o início de uma brilhante carreira que lhe dava o cargo de médico da “hebrá”, em substituição do dr. David Chaves e lhe abria as portas do aristocrático Royal College of Physicians, onde nenhum judeu fora até então admitido. Meteu-se entretanto a estudar e aperfeiçoar um novo remédio contra as febres, à base da quina, produto farmacêutico cuja patente registou com o nome de Água da Inglaterra, que ao longo da décadas lhe deu largos proventos financeiros e prestígio universal, pois que era largamente consumido na Inglaterra e exportado para outros países europeus. Em 1736 matriculou-se no famoso Marischal College of Aberdeen e ali alcançou o doutoramento, sendo o primeiro judeu a ser doutorado por uma universidade britânica. Fervoroso adepto das doutrinas de Newton e do experimentalismo de Francis Bacon, Jacob de Castro planificou a tradução e publicação das suas obras na língua portuguesa, o que não chegou a concretizar. Em 1746 faleceu sua mulher e depois de alguns anos de viuvez, casou de novo, com uma senhora inglesa, Mrs Elisabeth. Nessa altura abandonou o judaísmo e converteu-se à religião anglicana. Em boa verdade, há muito tempo que ele se vinha distanciando da lei de Moisés e o caso deste grande médico será bem um exemplo de como o diálogo entre a fé e a ciência não é fácil. Henrique Almeida foi um trasmontano que nasceu cristão-novo, que na diáspora se fez judeu-novo, com o nome de Jacob Sarmento e que acabou membro da igreja anglicana, certamente porque o ateísmo ainda não era tolerado em nenhuma sociedade da Europa e o deísmo era condenado por todas as religiões instituídas. Faleceu em 29 de Setembro de 1762, deixando uma vasta obra publicada. Destacamos alguns de seus livros:
- Dissertationes in novam, ac utilem methodum inoculationis, seu transplantationis variolarum.
- Materia medica physico-historico-mechanica, reino mineral…
- Do uso e abuso das minhas Águas de Inglaterra…
- Dissertation sur l´origine de la Maladie Vénérienne…
- Proposições para imprimir Obras Filosóphicas de Francisco Baconio…
- Teoria verdadeira das marés, conforme a filosofia do incomparável cavalheiro Isaac Newton.
- Sidero-hidrologia: ou discurso prático das Águas Medicinais Minerais Espadanas ou Chalybeadas…
António Júlio Andrade
Nota: Mais informações ver o livro - Jacob de Castro Sarmento – de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, editado por Nova Veja Lda em 2010.

 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 31

Chaves -  início do século XX
Francisco Rodrigues. Nasceria judeu e seria ainda criança quando, na Páscoa de 1497, foi levado à igreja de Chaves para ser baptizado e receber um nome cristão. Tal como os seus pais que passaram a chamar-se Garcia Gonçalves e Aldonça Gonçalves, ignorando-se os nomes judeus que todos tinham antes. Pouco depois a família deixou a vila de Chaves e fixou residência na cidade de Bragança, terra onde, por 1518, Francisco Rodrigues se casou com Isabel Lopes, que lhe deu 5 filhos e 4 filhas, a mais nova das quais parece ter nascido no dia em que Francisco foi preso, em nome da inquisição. Conseguiu fugir da cadeia de Bragança e internar-se em Espanha mas foi parar ás malhas da inquisição de Valladolid, que o remeteu que o remeteu preso a Portugal, correndo o seu processo perante o bispo do Porto D. frei Baltasar limpo, pois que o tribunal de Coimbra ainda não tinha entrado em funcionamento. Estranhamente, contra a fama justiceira daquele bispo e apesar das graves acusações que sobre ele pendiam, Francisco Rodrigues saiu condenado em penas ligeiras, abjurando em sala, sem comparecer em qualquer auto de fé. No entanto, ele seria um dos líderes da nação hebreia de Trás-os-Montes. E tinha-se destacado na luta contra a inquisição, pois foi na região de Bragança o escrivão e recebedor dos dinheiros da finta lançada entre eles para financiar a embaixada que tinham em Roma, negociando para que o papa não assinasse a bula de criação do santo ofício. Do ponto de vista da sua profissão, Francisco Rodrigues foi escrivão da câmara de Bragança, tabelião do ouvidor e do vigário do arcebispo de Braga e procurador no juízo da comarca. Eram funções de grande relevo e muito proveito, que exigiam um esmerada educação e instrução literária e em leis. Ignoramos onde foi adquirida, se terá frequentado alguma universidade (Salamanca, como o filho?), sabendo apenas que terá “estagiado” na Galiza, na casa fidalga de D. Fernão de Andrade. Dos filhos de Francisco Rodrigues, destacamos dois: Santiago Rodrigues, que casou e viveu em Bragança, em cuja descendência nasceria o célebre médico e cientista Jacob de Castro Sarmento. Outro foi o advogado Duarte Chaves que foi casar e viver em Miranda do Douro e acabou queimado nas fogueiras da inquisição de Lisboa, acesas no auto de fé de 24.10.1559.
António Júlio Andrade
Nota: Mais informações ver o livro - Jacob de Castro Sarmento – de António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães, editado por Nova Veja Lda em 2010.
 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 30

MURÇA. Foto wikipédia
André Lopes da Silva. Nasceu na vila de Murça, cerca do ano de 1660, sendo filho de Diogo Garcia e Catarina Lopes. Casou em Bragança, com Beatriz Henriques, filha de António Mendes Furtado e Isabel Henriques. Nesta cidade estabeleceram sua residência e geraram uns 12 filhos. André foi preso pela inquisição de Lisboa em Junho de 1725, saindo penitenciado em cárcere e hábito no auto da fé de 25.6.1728. Era, certamente um dos homens mais ricos de Bragança e, não obstante ser homem da nação hebreia, passeava-se pela cidade montado em luxuosa sege. E era em sua casa da cidade, sita na praça do Colégio da Companhia, comprada ao fisco por 640 mil réis, que se hospedavam visitas da maior nobreza como eram os marqueses de Távora. De resto ele morava ordinariamente em uma formosa quinta dos arredores da cidade, chamada Quinta de Palhares, na qual construíra ele uma capela da invocação de S. Miguel onde, aos domingos e dias santos, um capelão particularmente contratado, celebrava missa para ele e para a sua família. A capela era cabeça de um morgadio por ele instituído, a que a mesma quinta estava vinculada. Para se avaliar do valor da citada quinta, refira-se que, em média, a sua produção anual de vinho eram umas 14 pipas e o pão se media em mil e tantos alqueires, de 13.8 litros o alqueire, nela se alimentando ainda um rebanho de 200 cabeças. Outras propriedades agrícolas tinha ainda fora da quinta, e no lugar de Ferreira, termo de Bragança, na chamada Quinta das Comunhas, construiu, em parceria com seu irmão, uma destilaria de aguardente, a qual valia uns 500 mil réis. Podemos assim afirmar que André Lopes da Silva era um grande empresário agrícola e agro-industrial. Mas era também assentista, trazendo contratado o assento das tropas de Trás-os-Montes, ou seja o fornecimento de comida e pagamento de soldos aos militares, bem como a aveia, cevada e palha para os cavalos. E trazia também arrendadas as cobranças de rendas de comendas na casa dos Távora e do almoxarifado da casa de Bragança. Naturalmente que nestas relações comerciais havia muitas dívidas, activas e passivas. E ressalta igualmente a actividade prestamista que também desenvolvia, aparecendo-nos na relação de bens efectuada à data da sua prisão uma bandeja e um cordão de ouro pertencente ao alcaide Lázaro de Figueiredo Sarmento que os deixara em garantia de 80 moedas de ouro que André Silva lhe emprestara na ocasião de seu casamento. Na carreira profissional de André Lopes da Silva consta ainda a passagem pela alfândega da comarca de Bragança onde durante mais de 10 anos foi feitor e recebedor, competindo-lhe também a fiscalização de mercados e feiras sobre produtos que não tinham pago os respectivos impostos, falando-se concretamente de intervenções sobre mercadores em feiras de Santa Maria do Azinhoso (Mogadouro) ou de S. João de frieira (Terra de Lampaças). E ainda o cargo de Ajudante-Mor da comarca, competindo-lhe, nomeadamente a tarefa de recrutamento de soldados.
António Júlio Andrade

domingo, 23 de dezembro de 2012

DA CUMPLICIDADE DE ALCANICES À DEVASSA EM CARÇÃO

Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Por 1578, na povoação de Alcañices, distrito de Zamora, próximo da raia do concelho de Vimioso, viviam algumas famílias de marranos emigrados (ou fugidos) do Nordeste Trasmontano, nomeadamente das terras de Bragança, Mogadouro e Miranda. Aliás, a fronteira era então muito difusa e aquela gente vivia cá e lá, residindo em Portugal e assistindo em Castela, ou vice-versa, como se lê em alguns processos.
ALCANICES
Cristãos baptizados por força das leis dos Estados e espoliados da sua cultura e dos próprios nomes hebraicos, os marranos continuavam guardando a lei de Moisés no interior de suas almas e frequentando as igrejas cristãs “para cumprir com o mundo”. Na medida do possível, mais ou menos às escondidas, davam expressão à sua religiosidade com orações, rituais e cerimónias aprendidas também clandestinamente. Para isso aquele grupo de pessoas, ligadas por laços familiares e mantendo absoluta confiança entre si, costumavam juntar-se para rezar em casa de Alonso Gonçalves e Leonor Fernandes. E parece que o rabi ou oficiante de tais cerimónias era um Luís Francisco, de Mogadouro, aliás muito procurado pela Inquisição portuguesa. [1]
Não sabemos como o tribunal do Santo Ofício de Valladolid, a cuja jurisdição Alcañices pertencia, descobriu, mas o facto é que, nos primeiros dias de Setembro de 1578, foram presos e conduzidos às suas masmorras a maioria dos elementos do grupo, o que passou à história com a designação de “complicidad de Alcañizes”.
Aquela “célula judaica” não foi completamente desmantelada pois 4 dos implicados na “cumplicidade” e com mandatos de prisão conseguiram fugir para o outro lado da fronteira. E logo no dia 13 daquele mês, os inquisidores de Valladolid enviaram à Inquisição de Coimbra um emissário pedindo mandatos de captura contra os 4 fugitivos. E pediam também autorização para ser o próprio tribunal de Valladolid a encarregar-se de efectivar tais prisões, em terreno da jurisdição de Coimbra.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 29


Mogadouro-estação da CP
Bernardo Lopes Alvim. Os Alvim foram uma importante família de marranos trasmontanos. No tronco da família colocamos Bernardo Lopes e sua mulher Genebra Alvim, ambos naturais e moradores em Mogadouro. Particular destaque ganharam dois de seus netos, filhos de seu filho António Lopes Alvim e de sua mulher Maria de Penha: Bernardo Lopes Alvim e Sebastião Lopes Alvim, ambos nascidos na segunda década do século XVII, em Mogadouro. Fugidos da inquisição, fixaram-se em Espanha e ali amealharam fortuna e prestígio social, como importantes “hombres de negocio”. Sebastião residiu em Valladolid e empregava-se na administração do negócio do sal cuja distribuição naquelas paragens tomou de arrendamento. Bernardo Lopes Alvim escolheu Madrid para montar a sua casa comercial e ali casou com Leonor Henriques, sua parente, originária de Vila Flor, filha de Luís Henriques Alvim. Os seus negócios eram mais virados para a importação e exportação de produtos, trabalhando especialmente com mercadores de Bordéus, cidade de França para onde fugiu, por 1653, quando sentiu as malhas da inquisição espanhola apertarem-se em seu redor. Aliás, já em 1641, ele e seu sogro haviam conhecido as cadeias do santo ofício de Toledo, saindo reconciliados e condenados em penas espirituais. A estadia de Bernardo em Bordéus seria curta e logo se abalou com a mulher e os filhos para Amesterdão onde livremente professava o judaísmo depois que se fez circuncidar. Na “Jerusalém do Norte” viria a falecer por 1660.
António Júlio Andrade

 

 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A reposição dos sambenitos roubados na igreja de Carção

Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Maria Ferraz


                                                          INTRODUÇÃO
Ao falar da Inquisição há duas posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável, passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores. Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos, usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social, significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou judiciais.
Claro que esta poderoso complexo institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror, fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando o povo.
Nada disto era novo, pois a perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir. A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria mais ainda a suportar do que a própria prisão.