sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 29


Mogadouro-estação da CP
Bernardo Lopes Alvim. Os Alvim foram uma importante família de marranos trasmontanos. No tronco da família colocamos Bernardo Lopes e sua mulher Genebra Alvim, ambos naturais e moradores em Mogadouro. Particular destaque ganharam dois de seus netos, filhos de seu filho António Lopes Alvim e de sua mulher Maria de Penha: Bernardo Lopes Alvim e Sebastião Lopes Alvim, ambos nascidos na segunda década do século XVII, em Mogadouro. Fugidos da inquisição, fixaram-se em Espanha e ali amealharam fortuna e prestígio social, como importantes “hombres de negocio”. Sebastião residiu em Valladolid e empregava-se na administração do negócio do sal cuja distribuição naquelas paragens tomou de arrendamento. Bernardo Lopes Alvim escolheu Madrid para montar a sua casa comercial e ali casou com Leonor Henriques, sua parente, originária de Vila Flor, filha de Luís Henriques Alvim. Os seus negócios eram mais virados para a importação e exportação de produtos, trabalhando especialmente com mercadores de Bordéus, cidade de França para onde fugiu, por 1653, quando sentiu as malhas da inquisição espanhola apertarem-se em seu redor. Aliás, já em 1641, ele e seu sogro haviam conhecido as cadeias do santo ofício de Toledo, saindo reconciliados e condenados em penas espirituais. A estadia de Bernardo em Bordéus seria curta e logo se abalou com a mulher e os filhos para Amesterdão onde livremente professava o judaísmo depois que se fez circuncidar. Na “Jerusalém do Norte” viria a falecer por 1660.
António Júlio Andrade

 

 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A reposição dos sambenitos roubados na igreja de Carção

Por:
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Maria Ferraz


                                                          INTRODUÇÃO
Ao falar da Inquisição há duas posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável, passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores. Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos, usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social, significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou judiciais.
Claro que esta poderoso complexo institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror, fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando o povo.
Nada disto era novo, pois a perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir. A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria mais ainda a suportar do que a própria prisão.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

FREIXO DE ESPADA À CINTA

LOURENÇO ALVARES – seguiam-no como a um rei

Corria o mês de Junho de 1513 quando um junco ido de Malaca aportou em Ta-Nang, na costa da China. Era o barco capitaneado por Jorge Alvares, que naquele sítio fez logo erguer um padrão assinalando o extraordinário feito, que foi a chegada, por mar, a tão longínquas paragens do primeiro homem branco.
Jorge Alvares era o feitor da Casa Real portuguesa em Malaca e natural de Freixo de Espada à Cinta, terra aonde não terá voltado, pois veio a falecer em 8.7.1521, no mesmo sítio de Ta-Nang, sendo enterrado junto ao mesmo padrão da descoberta. (1)
Enquanto isso, naquele mês e ano de 1513, na pequena e remota vila de Freixo de Espada à Cinta, as autoridades locais prendiam um Lourenço Álvares, com base em uma denúncia chegada do vizinho reino de Castela em que era acusado de ter mandado fazer um “cunho de tostão” para fabricar moeda falsa. O crime, se é que o houve, foi perdoado por alvará do rei D. Manuel. (2)
Ignoramos se havia algum parentesco entre o navegador Jorge Alvares e o incriminado falsificador de moeda castelhana, Lourenço Álvares, os quais, para além do apelido, da terra de origem e da época em que viveram, tinham em comum o facto de ambos serem altos funcionários do Estado.
Com efeito, são vários os documentos oficiais referentes a Lourenço Álvares, de Freixo de Espada à Cinta, desempenhando então importantes funções no domínio da arrecadação dos impostos do almoxarifado de Torre de Moncorvo, nomeadamente:
1503-01-18 – Carta do ofício de recebedor das sisas de Freixo de Espada à Cinta passada a Lourenço Álvares. (2’)
1513-08-03 – Conhecimentos de recibos de Lourenço Álvares, recebedor dos portos, por que recebeu de várias pessoas as parcelas que nos mesmos se declaram (3)
1513-10-18- Procuração que fez Lourenço Álvares, almoxarife dos portos de Trás-os-Montes, a Gabriel Álvares, seu irmão, para cobrar de todos os mercadores das ditas comarcas de Entre Douro e Minho, todo o dinheiro que ficaram devendo (4)
1514-05-16 – Carta do ofício de recebedor dos portos de Trás-os-Montes passada a Lourenço Álvares, com o ordenado de 4 mil reis (4?)
1514-08-26 – Rol do dinheiro que recebeu Lourenço Álvares (5)
1515-03-09 – Procuração de Lourenço Álvares para Diogo Vaz, seu genro, receber do escrivão dos portos de Trás-os-Montes todos os dinheiros que tiver feito, que são devidos à Fazenda Real, da dízima dos panos e mercadorias dos 3 anos passados (6)
1517-01-15 – Requerimento de Lourenço Álvares, recebedor dos portos das comarcas de Trás-os-Montes para João Mendes, rendeiro principal dos ditos portos, dar fiança à dita renda. (7)
1518-02-11 – Carta de recebedor das sisas de Freixo de Espada à Cinta passada por Lourenço Álvares a Diogo Vaz, seu genro. (7´)
1520-06-27 – Diligências da conta de Lourenço Álvares, recebedor dos portos de Trás-os-Montes. (8)
Para além do mais, estes e outros documentos oficiais deixam antever uma ligação muito forte e um jogo de interesses em volta da cobrança de impostos na região do Nordeste Trasmontano, com dois homens a ganhar protagonismo, ao lado de Lourenço Álvares: Diogo Vaz, seu genro e João Mendes, rendeiro. De ambos haveremos de falar.
Não sabemos como evoluiu nos anos seguintes, a cobrança dos mesmos impostos. Sabemos é que, em 20.9.1526, foram citados, como devedores à Fazenda Real “da conta do arrendamento dos portos de Trás-os-Montes” Diogo Vaz, Brites Álvares, João Álvares e Leonor da Paz. Será que esta citação aconteceu algum percalço com o almoxarife Lourenço Álvares e aqueles eram os seus familiares/herdeiros e nessa qualidade foram citados?
Certamente que estas e outras pistas precisarão de ser investigadas. E também os processos de outros Freixenistas que, como ele, conheceram então as masmorras da Inquisição, como sejam os de Jerónimo Reinoso, que foi casado com Maria Álvares, preso em 1558; Pedro Álvares, preso em 1563; António Fernandes, preso em 1550 “acusado de levar mercadorias às terras dos mouros”; João Garcia, filho de João Garcia e Isabel Álvares, preso em 1554…
Voltando a Lourenço Álvares, diremos que ele nasceu por 1478 e certamente foi circuncidado, como todos os meninos judeus. Tinha já uns 17-18 anos quando foi baptizado, pela Páscoa de 1597, como ele próprio confessou aos inquisidores, acrescentando que foi o cura da vila de Mós (actualmente uma aldeia do concelho de Torre de Moncorvo) que o baptizou e que foram seus padrinhos o fidalgo Diogo de Sampaio e sua mulher Inês Doutel. (9)
E são estes os dados biográficos que o seu processo nos fornece. Outros mais, também muito escassos, colhemo-los nos processos de Diogo Vaz, seu genro e de Diogo Mendes, filho do rendeiro João Mendes, que igualmente conheceram as cadeias da Inquisição de Évora. Por eles sabemos que Lourenço era casado com Ana Fernandes, de Freixo de Espada à Cinta e que tinha uma filha chamada Isabel Fernandes, a qual casou com o dito Diogo Vaz, tabelião.
Não sabemos se foi em Freixo que prenderam Lourenço Álvares, o qual foi levado para Évora e metido “dentro do aljube do cardeal nosso senhor” onde foi interrogado pelo “doutor Domingos Álvares, vigário geral nomeado pelo infante nosso senhor”, em 17.7.1533. E esta nota é interessante, se nos lembrarmos que a Inquisição portuguesa só foi criada em 1536. Significa isto que antes de ser já o era e que, em vez de tribunal da Igreja, mais parece um tribunal da Corte.
Vejamos agora os pontos essenciais do interrogatório, que a isso se resume o processo de Lourenço Álvares. Pelo teor das perguntas que lhe foram feitas, adivinham-se as culpas que lhe imputavam e pode intuir-se do seu comportamento religioso e elevada cultura bíblica. (10)
O denunciante seria o padre da aldeia do Larinho, concelho de Torre de Moncorvo e a cena ter-se-á passado no dia da festa de Nossa Senhora dos Montes Ermos. Aí, o pregador, Luís Álvares de seu nome, terá falado sobre a virgindade de Nossa Senhora e Lourenço Álvares terá comentado que ela não podia engravidar e parir e continuar virgem. E ter-se-ia alongado na conversa dizendo que os santos não deviam ser adorados, mas apenas Deus. E este é único e não constituído por três pessoas.
Claro que ele negou tais acusações e disse que já o profeta Isaías pregava que Maria havia de conceber e ficar virgem – citando a passagem correspondente do Velho Testamento. E disse que, em seu entender, os santos deviam “ser adorados como advogados para que roguem por nós “ a Deus.
Acusavam-no também de ser mau cristão e não se confessar e comungar. Respondeu que, nos últimos anos se fora confessar em Barrueco Pardo e em Vilvestre, duas localidades castelhanas próximas de Freixo.
Mas se estas faltas respeitavam a uma esfera mais íntima e pessoal, outras havia que interferiam com a vivência pública da comunidade cristã-nova e, por isso mesmo, de maior gravidade. E assim, acusavam-no de ter livros proibidos e de os divulgar e comerciar de Espanha. Defendeu-se afirmando que ele tinha era uma “Confessionário Romano” por onde lia e que efectivamente mandara para o notário de Vila Real, Preto de seu apelido, um livro. Porém esse livro não era proibido, era uma “Bíblia de Alcalá” que tinha o Velho e o Novo Testamento. E não fora ele a comprá-la a Espanha, antes foi um sobrinho do dito Preto que estudava em Salamanca que lha fizera chegar a Freixo para ele enviar para Vila Real, conforme o seu conhecido e amigo, o notário Preto, lhe pedira.
Lourenço Álvares era também acusado de dizer que Cristo não era o Messias prometido, que o verdadeiro Messias estava ainda para vir. Porém, os inquisidores não terão aprofundado muito o tema, aceitando facilmente a resposta negativa do réu, acaso porque o problema messiânico ainda não ganhara o relevo que, poucos anos depois, viria a ter. Deste assunto falaremos a seguir. Por agora vejam apenas este curtíssimo excerto do interrogatório:
- Perguntado que amizade é a que ele tem tão estreita com os cristãos-novos e porque o seguem como a Rei (…) disse ele dito Lourenço Álvares (…) que o não seguem como a Rei mas antes fogem dele por ser oficial d´el-rei.
Nada mais que o interrogatório se contém no processo de L. Álvares. Nem sabemos se ficou preso e houve sentença. E não mais lhe pegamos o rasto, ignorando se voltou a Freixo ou se meteu por Castela ou outra qualquer pátria.
Porém, 10 anos depois, em 1543, na mesma Inquisição de Évora, perante o licenciado Álvaro paredes, o tabelião e escrivão de Miranda do Douro, Diogo Mendes, dele disse muitas coisas que ajudam a compor o seu retrato, começando por identificá-lo, nos seguintes termos:
- Haverá 6 ou 7 anos, estando ele declarante em Miranda, veio ter com ele um cristão-novo que se chama Lourenço Álvares, morador em Freixo de Espada à Cinta, o qual foi recebedor dos portos e do almoxarifado de Torre de Moncorvo com o qual ele declarante tinha conhecimento por ser casado com uma parente dele chamada Ana Fernandes, o qual Lourenço Álvares lhe parece que é homem de 70 anos, pouco mais ou menos.
A fazer fé nas declarações de Diogo Mendes, Lourenço Álvares era um grande pregador do messianismo judaico e um verdadeiro cabalista. Tinha uma Bíblia em hebraico, caldeu e latim e costumava trazer com ele um Saltério (livro de salmos). Dizia que estava próxima a vinda do Messias, que “a falsidade de Cristo” acabaria em 1542. E isto com base no salmo 32 que diz: “falax est equus ad salutem” (falso é o cavalo para a saúde). Então o que têm a ver estas palavras com a afirmação de que o Messias viria no ano de 1542? É que, segundo os especialistas da ciência da Cabala, as letras hebraicas têm correspondências numéricas e o conjunto daquelas letras faz a soma de 1542.
Será que estamos em presença do último cabalista conhecido em Portugal? Neste caso o processo de Lourenço Álvares ganha um interesse único, apresenta uma descoberta fantástica e vem colocar Freixo e Miranda do Douro nas rotas do estudo da Cabala judaica, conforme o parecer do dr. Hugo…..
Mas deixemos estas coisas para os entendidos. Fiquemos com as declarações de Diogo Mendes, sem qualquer hesitação, falava de Lourenço Álvares como um homem “sábio e letrado na lei de Moisés”. Confessava, aliás, que foi ele que o levou para o judaísmo e o catequizou, depois da morte de seu pai, altura em que o dito Lourenço Álvares lhe terá feito a seguinte declaração formal:
- Ora, olha e tem ponto que agora que teu pai é falecido te quero desenganar porque nunca em sua vida to ousei dizer porque ele era muito grande cristão e agora para que não percas a tua alma, te faço saber que (…) a lei de Moisés é que vale porque a de Cristo é falha e enganosa.
Explicava o tabelião que se deixara levar pela conversa de Lourenço Álvares, que “por ele ser amigo dele declarante e homem velho e sábio na lei o induziu e o enganou”.
Iludido ou não, Diogo Mendes parecia confiar plenamente naquele homem “velho e sábio” e contava-lhe até os seus sonhos, que mais pareciam visões proféticas. Vejam este caso:
Em certa altura Diogo ficou doente, muito doente, às portas da morte, com febres altíssimas e delirando. E pareceu-lhe mesmo que fora ao outro mundo e que lá viu uma dezena de homens “com suas lobas vestidas e capelos e que um o tomava e que outro o deixava e que lhe parecia que falavam hebraico”. Diogo contou a Lourenço Álvares a visão que tivera e este lhe asseverou:
- Te faço saber que o que viste do outro mundo eram judeus e não há outra coisa nem se fala outra língua no céu senão o hebraico.
Argumentou Diogo dizendo que não podia provar tal coisa, ao que Álvares retorquiu:
- Crê no que te digo, porque quero que te salves e não te percas.
Outros pormenores acrescentou Diogo Mendes sobre o “sábio e letrado” mestre “que o induziu e trouxe à crença na lei de Moisés”. Assim, disse “que há muito tempo que lhe mostrou uma Bíblia que tinha, em hebraico, caldeu e latim” Foi também ele que lhe ensinou a fazer ritos e cerimónias judaicas como guardar os sábados, acender as candeias, celebrar a Páscoa comendo pão asmo e mandando fazer de comer em louça nova, a jejuar do “dia das perdonanças”… mas também lhe disse que a lei tinha muitas mais cerimónias que lhas não podia ensinar…”

 António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães

NOTAS
1 – LUIZ KEIL, O Primeiro Português que foi à China, Lisboa – 1933.
2 – HIRONDINO DA PAIXÃO FERNANDES, Bibliografia do Distrito de Bragança, tomo I, Bragança – 1996, cit. PEDRO DÁZEVEDO, Miscellanea archeologica, in: Archivo Historico Portuguêz, VIII: 95, Lisboa – 1903 – “Carta de perdão dada por D. Manuel a “um falsificador do cunho de tostão (…) Manuell do Porto, morador em Freixo d´Espada Cinta e criado do chantre da Guarda, nos enviou dizer per sua petiçam, que estando elle e outro em a dita villa de Freixo, hum Pêro Estevez e outro Martin Afonso, juízes hordenairos em a dita villa, prenderom a hum Lourenço Alves, por se achar culpado por huns autos que de Castela vierom que ele mandara fazer o cunho de tosta…”
3 – IANTT, corpo cronológico, parte II, maço 41, nº 124.
4 – IANTT, cc, p. II, mç. 42, nº 193
5 – IANTT, cc, p. II, mç. 51, nº 9
6 – IANTT, cc, p. II, mç. 55, nº 153
7 – IANTT, cc, p. II, mç. 68, nº 30
8 – IANTT, cc. P. II, mç. 90, nº 63
9 – Diogo de Sampaio, senhor de Vila Flor, era também alcaide dos concelhos de Mós, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta.
10 – IANTT, Inquisição de Évora, processo, de Lourenço Álvares.
 A leitura do processo foi feita pelo dr. Hugo…

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 28


Terreiro do Paço
Gaspar Lopes Pereira, aliás, Gaspar Dias de Aguilar. Nasceu em Mogadouro por 1642. Era filho de Francisco Lopes Pereira e de Maria Dias, aliás, Maria del Angel. Aos 10 anos foi levado pelos pais para Castela, residindo em Madrid por algum tempo e dali passando a Granada onde fixaram residência definitiva. Não sabemos que estudos terá feito Gaspar mas ele aparece com um homem muito culto e inteligente e que inspirava confiança. Terá sido mesmo uma espécie de preceptor dos filhos de António Mogadouro, cuja casa, em Lisboa, frequentava. Isto porque ele se diz mercador, mas não mercador de loja, antes um homem de negócios, em constantes deslocações e viajando não apenas para Lisboa mas também para as bandas de Itália e França. Por isso mesmo, depois que o padre António Vieira saiu penitenciado da inquisição de Coimbra e se dirigiu para Roma onde, juntamente com outros vultos da ordem dos Jesuítas e mercadores marranos de Lisboa, na década de 1670, se lançaram numa verdadeira batalha diplomática para obter do papa de Roma um perdão para os cristãos-novos presos e a alteração dos estatutos da inquisição, Gaspar Lopes Pereira foi escolhido para servir de correio entre Lisboa e Porto. E costumando fazer esta viagem em 20 dias, daquela vez gastou 43 dias, chegando a Roma com as cartas de Lisboa em 10.10 de 1673. Tinha expirado o prazo que a Santa Sé havia concedido e assim se haviam gorado as negociações. Foi recebido com raiva e insultos pelo chefe da embaixada dos marranos em Roma, o padre jesuíta Francisco de Azevedo, que o acusava de ter atraiçoado os seus amigos, familiares e toda a gente da nação. Desculpou-se Gaspar dizendo que adoecera no caminho, mas não aceitou que o padre Azevedo remetesse contra ele e ambos se engalfinharam em luta. Regressou a Portugal onde o esperava, naturalmente, um ambiente de desconfiança por parte dos seus irmãos de raça. Para além disso, as inquisições de Castela e Portugal andariam há muito tempo a seguir o seu rasto, pois também elas tinham espiões por terras de França e de Itália. Efectivamente em 16.3.1675, em Lisboa foi recebida uma carta da inquisição de Valladolid dizendo que fora buscado em Espanha para ser preso, mas não foi encontrado e solicitando que o fizessem prender em Lisboa, por constar que ali residia. Juntamente enviavam 14 folhas cheias de acusações de judaísmo. Foi preso em  8 de Abril de 1675. Metido na cadeia, confessou que efectivamente fora levado para o judaísmo por um tio seu, Diogo Henriques do Vale e que fizera práticas judaicas. Acrescentou que estava arrependido e que já há bastante tempo abandonara a lei de Moisés. Por mesmo os da sua nação eram todos seus inimigos e as acusações que lhe faziam era ditadas por ódio e não por espírito de justiça cristã. Terá chegado à conclusão de que esta táctica de defesa não adiantava e, por isso, mudou de atitude. Passou a afirmar-se judeu e a dizer que na verdade só havia salvação na lei que Deus deu a Moisés”e que isso defenderá até onde o seu entendimento alcançar”. Teve debates teológicos com os inquisidores e qualificadores do santo ofício e quando estes lhe colocavam alguma questão bíblica mais complicada, ele respondia: - “Se na igreja católica há doutores e bispos e outros mestres que ensinavam a sua doutrina, também nós temos mestres e professores nas sinagogas, que sabem responder a todas as coisas da lei de Moisés”. A sentença só podia ser a condenação à morte, sendo queimado na fogueira do auto-de-fé celebrado no Terreiro do Paço em 10 de Abril de 1682.
António Júlio Andrade

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

OS ISIDROS EM MADRID - Banqueiros e homens de negócio

CONVITE- os "ISIDROS" na Casa do Infante
Em língua castelha, um autor anónimo, à época residente em Madrid, deixou registadas em um pequeno caderno, entre outras, as seguintes notas:
* 22 de Agosto de 1654 – Ninguém mais confia nos banqueiros portugueses. Estão falidos e fogem da Inquisição. Asseguram-me que, depois do auto-de-fé de Cuenca, mais de 200 famílias fugiram durante a noite. Isso é o que o medo pode fazer.
* 18 de Setembro de 1654 – Desde sábado último, a Inquisição prendeu em Madrid 17 famílias portugueses… Diz-se com muita certeza que não há um português com elevada categoria que não seja cripto-judeu.
* 17 de Maio de 1655 – Em Sevilha, no começo de Abril, quatro ricos mercadores portugueses foram presos pela Inquisição.
* 29 de Maio de 1655 – Os ricos irmãos Cardoso que geriam os impostos de várias províncias, fugiram porque um chantagista ameaçara depor afirmando que eles eram judaizantes, a menos que pagassem pelo seu silêncio. Face à impossibilidade de terem que provar tratar-se de falso testemunho, preferiram fugir ao castigo a permanecer na prisão até que se restabelecesse a verdade.
* 22 de Julho de 1655 – Os Cardoso fugiram para Amesterdão, levando consigo 200 000 ducados em lãs e 250 000 em ouro. Diz-se que foram fugidos à inquisição. Eles procuram uma terra para viver em liberdade.
O texto é bem elucidativo e leva-nos à casa comercial de Don Juan Rodriguez Cardoso – como todos o tratavam e ele gostava que se dissesse – e à sua residência de Mósteles, nos arredores de Madrid. E ele e sua mulher, Maria Henriques, terão nessa altura partido para Bayonne. Tê-los-ão acompanhado outros familiares, entre os quais o filho mais velho, Manuel Rodrigues Cardoso, nascido em Torre de Moncorvo em 1625 e que casara com sua prima co-irmã, Maria de la Peña, como atrás se disse.
Elucidativa é também a seguinte denúncia então chegada à Inquisição espanhola:
- Disse que este (D. Juan R. Cardoso) também era muito bom biscainho e muito observante da lei do Todo Poderoso Deus de Israel e que estava retirado em Mósteles e que era muito astuto porque se por acaso diziam algo contra ele na Inquisição, tinha consigo Don Fulano Belásquez, cavaleiro da ordem de Santiago e que havia sido cavaleiro do Condestável de Castela, para que este senhor servisse de defesa, ao qual pagava a renda para que informasse que não era judeu.
Mas nem toda a família Isidro abandonou Castela e na casa de Mósteles ficaria um outro filho de Don Juan, o Luís Marques Cardoso que já vimos em Sevilha, casado com sua prima Aldonça Cardoso Velasco. Dele falaremos no capítulo seguinte. Agora vamos apenas contar um episódio protagonizado por sua mulher e que mostra bem como os cristãos-novos viviam em permanente clima de medo e sujeitos a contínuos actos de chantagem.
Encontrava-se D. Aldonça, em certa ocasião, numa rua de Madrid, em um aparatoso coche, bem ataviada, com um gibão de veludo verde, quando se aproximaram quatro mulheres embuçadas e se lhe dirigiram nos seguintes termos:
- Melhor te ficaria o sambenito que te puseram na Inquisição do que esse gibão de veludo. Nós sabemos quem tu és e podíamos denunciar-te.

In: Os Isidros, a epopeia de uma família de marranos de Torre de Moncorvo.

RECEBIDO :
For the book on the Isidros of Torre de Moncorvo
Fernanda .
Congratulations.this is very important work .
I am descended from one Jacob Lopes Torres who was in Jamaica before 1700.
I wouldn't be surprised if he was from Torre de Moncorvo .
You said last time you wrote that you were not feeling well.
How are you
feeling now?
Best regards

Richard Henriques

Em língua castelhana, um autor anónimo, à época residente em Madrid, deixou registadas em um pequeno caderno, entre outras, as seguintes notas:
* 22 de Agosto de 1654 – Ninguém mais confia nos banqueiros portugueses. Estão falidos e fogem da Inquisição. Asseguram-me que, depois do auto-de-fé de Cuenca, mais de 200 famílias fugiram durante a noite. Isso é o que o medo pode fazer.
* 18 de Setembro de 1654 – Desde sábado último, a Inquisição prendeu em Madrid 17 famílias portugueses… Diz-se com muita certeza que não há um português com elevada categoria que não seja cripto-judeu.
* 17 de Maio de 1655 – Em Sevilha, no começo de Abril, quatro ricos mercadores portugueses foram presos pela Inquisição.
* 29 de Maio de 1655 – Os ricos irmãos Cardoso que geriam os impostos de várias províncias, fugiram porque um chantagista ameaçara depor afirmando que eles eram judaizantes, a menos que pagassem pelo seu silêncio. Face à impossibilidade de terem que provar tratar-se de falso testemunho, preferiram fugir ao castigo a permanecer na prisão até que se restabelecesse a verdade.
* 22 de Julho de 1655 – Os Cardoso fugiram para Amesterdão, levando consigo 200 000 ducados em lãs e 250 000 em ouro. Diz-se que foram fugidos à inquisição. Eles procuram uma terra para viver em liberdade.
O texto é bem elucidativo e leva-nos à casa comercial de Don Juan Rodriguez Cardoso – como todos o tratavam e ele gostava que se dissesse – e à sua residência de Mósteles, nos arredores de Madrid. E ele e sua mulher, Maria Henriques, terão nessa altura partido para Bayonne. Tê-los-ão acompanhado outros familiares, entre os quais o filho mais velho, Manuel Rodrigues Cardoso, nascido em Torre de Moncorvo em 1625 e que casara com sua prima co-irmã, Maria de la Peña, como atrás se disse.
Elucidativa é também a seguinte denúncia então chegada à Inquisição espanhola:
- Disse que este (D. Juan R. Cardoso) também era muito bom biscainho e muito observante da lei do Todo Poderoso Deus de Israel e que estava retirado em Mósteles e que era muito astuto porque se por acaso diziam algo contra ele na Inquisição, tinha consigo Don Fulano Belásquez, cavaleiro da ordem de Santiago e que havia sido cavaleiro do Condestável de Castela, para que este senhor servisse de defesa, ao qual pagava a renda para que informasse que não era judeu.
Mas nem toda a família Isidro abandonou Castela e na casa de Mósteles ficaria um outro filho de Don Juan, o Luís Marques Cardoso que já vimos em Sevilha, casado com sua prima Aldonça Cardoso Velasco. Dele falaremos no capítulo seguinte. Agora vamos apenas contar um episódio protagonizado por sua mulher e que mostra bem como os cristãos-novos viviam em permanente clima de medo e sujeitos a contínuos actos de chantagem.
Encontrava-se D. Aldonça, em certa ocasião, numa rua de Madrid, em um aparatoso coche, bem ataviada, com um gibão de veludo verde, quando se aproximaram quatro mulheres embuçadas e se lhe dirigiram nos seguintes termos:
- Melhor te ficaria o sambenito que te puseram na Inquisição do que esse gibão de veludo. Nós sabemos quem tu és e podíamos denunciar-te.
In: Os Isidros, a epopeia de uma família de marranos de Torre de Moncorvo.

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 27


Francisco Lopes Pereira. Ao findar do mês de Fevereiro de 1651, mais de 100 pessoas foram presas em Mogadouro e levadas para as masmorras da inquisição de Coimbra. Um dos prisioneiros chamava-se Francisco Lopes Pereira. Contava uns 34 anos de idade e era casado com Maria Dias, que lhe dera já dois filhos (Gaspar e Manuel) e lhe haveria de dar uma filha – Beatriz. A estadia na cadeia foi relativamente curta, já que saiu penitenciado no auto de fé realizado em 14 de Abril de 1652.
Regressado a Mogadouro, Francisco Lopes Pereira viu um primo seu e muito amigo ser assassinado por andar metido em ilícitos amores com uma mulher casada que tinha o marido em Castela. E um irmão e um cunhado desta foram os autores do assassínio. Francisco Lopes jurou vingar-se e logo se meteu a caminho de Lisboa onde procurou advogados e requereu justiça. Decorreu o processo, sendo os autores julgados e condenados à morte, embora à revelia, pois que, entretanto, se tinham voltado a abalar para Castela. Com a sentença na mão, Francisco fez erguer na praça de Mogadouro uma forca e ali pendurar dois bonecos de palha, simulando os assassinos, ao menos para que a memória do crime perdurasse. E por muito tempo ali ficou a forca e os enforcados.
Depois disso, Francisco pegou na mulher e nos filhos e foi-se também para Castela, assentando em Madrid, no estanco do tabaco. E logo no ano seguinte arrematou o monopólio da venda do mesmo produto na região de Granada, conseguindo amealhar boa fortuna. E chegado aos anos de 1660, Francisco Lopes conseguiu mesmo arrematar a cobrança dos “Milhones”, as rendas reais, na dita região.
E quando tudo parecia correr da melhor maneira, Francisco e Maria foram presos pela inquisição. Particularmente interessante para se escrever a história desta família de marranos de Mogadouro é o processo de Maria Dias, nomeadamente as suas “contraditas”, que, anos depois, foram copiadas e enviadas para a inquisição de Lisboa e juntas ao processo de seu filho Gaspar. E assim ficamos a saber que com a ascensão económica, a família procurou também a promoção social, começando pela adopção de novos sobrenomes. Assim, ela passou a chamar-se D. Maria del Angel e os filhos passaram a nomear-se Gaspar de Aguilar e Manuel de Aguilar, enquanto a filha, nascida já em Espanha se dizia Beatriz del Angel e casava com D. Pedro Maldonado de Medina. Da descendência de Francisco será o famoso Barão de Aguilar.
António J. Andrade
 
 
 

sábado, 8 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 26

TORRE DE MONCORVO
Manuel Rodrigues Isidro. Porventura nunca em Torre de Moncorvo se assistiu a uma tão intensa luta política como nos anos de 1600. As forças em presença podemos seguramente designá-las de “partido dos marranos” e “partido da inquisição”. A liderar o partido dos marranos encontrava-se Manuel Rodrigues Isidro. E a luta ganhou tal intensidade que incluiu processos judiciais, assassinatos políticos, arruaças sem conta e cenas de pancadaria. Uma dessas cenas desenrolou-se no dia 17 de Maio de 1599 na Rua dos Sapateiros, à porta de Manuel Rodrigues Isidro que dela saiu com o dedo de uma das mãos decepado e possivelmente ali perderia a vida se não fosse tão lesto a recolher-se em casa, com a preciosa ajuda dos familiares. Outro episódio desenrolou-se em Madrid onde um fidalgo cavaleiro Moncorvense da ordem de São Tiago e líder do tal “partido da inquisição” assassinou um cunhado de Manuel Isidro. E destes e doutros episódios resultou a prisão de uns 9 homens das famílias mais nobres de Torre de Moncorvo, incluindo o presidente e os vereadores da câmara, assim como um familiar da inquisição. Presos com “baraço e pregão”, que o mesmo é dizer que foram presos e passeados pelas ruas da vila com uma corda atada ao pescoço, acabando alguns desterrados para o Brasil e outros para o couto de Castro Marim. Claro que, pertencendo eles a famílias poderosas, tinham muitos amigos nas altas esferas do poder e juravam que a vingança haveria de ser terrível. E que melhor palco havia para executar a vingança do que o tribunal da inquisição? Não eram as suas escuras e húmidas masmorras bem mais difíceis de suportar do que quantos desterros havia?
No regresso de uma viagem por Madrid e Lisboa passando em Coimbra, a caminho de Torre de Moncorvo, no dia 1º de Dezembro de 1618, Manuel Rodrigues Isidro fo efectivamente preso pela inquisição, acusado de se ter declarado seguidor da crença judaica, segundo tinha declarado uma testemunha. Nada se provou e, passados 5 anos, foi posto em liberdade sem que lhe tivesse sido decretada qualquer punição e sem comparecer em qualquer auto de fé! E isto nos convence ainda mais que se tratou de uma prisão baseada em razões políticas e não religiosas. Devolvido à liberdade, não mais voltaria a Torre de Moncorvo e nem sequer se demorou em Portugal. Antes se meteu a caminho da Flandres e foi tomar residência na cidade de Amesterdão onde se fez circuncidar e abraçou abertamente a lei judaica tomando o nome hebreu de Isaac Baruch. Halévy informa que depois ele se passou à Alemanha fixando residência na cidade de Hamburgo e ali terá sido um dos 20 fundadores do primeiro banco que houve no mundo. O mesmo biógrafo alemão transcreve os dizeres da sua lápide sepulcral encontrada no cemitério judaico de Hamburgo, nos seguintes termos: - Sepoltura do benaventurado y honrado Ymanoel Baruch. Faleceu a 6 fra 18 de Nisan. Ano de 5402. Sua alma goze da goria. Ou seja: faleceu em 18.4.1642.
Voltemos atrás, ao tempo de sua prisão. Manuel tinha então 43 anos e estava casado com Alda Cardoso e eram pais de 3 filhos e 7 filhas. Era dono de muitos bens de raiz: 4 ou 5 casas e várias propriedades agrícolas em torre de Moncorvo, destacando-se uma formosa parcela de terreno atrás das casas conhecido por Olival das Bolas, com seu monumental chafariz de horta. Tinha também olivais por longes terras como era um na vila de Lamas de Orelhão, para lá de Mirandela. E era o dono da Quinta de Meireles (hoje uma freguesia do termo de Vila Flor) que trazia arrendada por uma dezena de lavradores que em cada ano lhe pagavam 315 alqueires de pão e trigo, 7 galinhas e 4 carneiros. E tinha tulhas em muitas terras de Trás-os-Montes pois ele era rendeiro da Comenda de Mascarenhas e trazia arrendadas as Terças de toda a comarca de Torre de Moncorvo que abrangia uns 26 concelhos de Trás-os-Montes e Alto Douro. Sim, que a sua profissão era a de rendeiro. Mas tinha também interesses no porto e em Madrid, trabalhando com os irmãos, especialmente com Vasco Pires Isidro, em uma rede familiar de negócios. Por isso mesmo que Markus Schreiber coloca estes dois irmãos entre os “banqueiros do rei” de Espanha.
 António Júlio Andrade

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

UMA DOCEIRA MARRANA

Uma doceira marrana que fazia os deliciosos massapães de Torre de Moncorvo


Naquele dia 21 de Agosto de 1647, fizeram-se em Torre de Moncorvo umas quantas prisões, a mando do tribunal da Inquisição de Coimbra. Entre os aprisionados contava-se um Francisco Brandão e sua mulher Maria Rodrigues. Enquanto se não organizava a marcha para Coimbra – isso implicava uma série de diligências – o Francisco foi metido na cadeia da vila e a Maria ficou guardada em casa de uma cristã-velha, Joana de Gouveia, de seu nome e pertencente à nobreza da vila.
Chegada a hora de abalar, a tralha (colchões, cobertores, panelas, pratos… - que eles tinham que levar cozinha e cama - foi carregada em um jumento que seguiu à frente, na caravana dos homens. A ela puseram-lhe um macho à porta da casa onde estava presa e ajudaram-na a montar para o dorso do animal. Depois ataram-lhe as mãos e os pés, não tanto com receio de que ela fugisse, mas para engrandecer o espectáculo. Quem dirigia estas operações era o comissário local, ajudado pelo familiar do santo ofício Francisco de Gouveia Pinto.
Implorou que a levassem pela rua das Quatro Esquinas, para que os filhos a não vissem naquela triste e degradante situação, exposta à irrisão do público. De contrário, decidiu o comissário, segundo o alvitre do familiar, que iria mesmo pela Praça do Município onde ficava a sua casa, para que vissem bem vista e servir de exemplo, sobretudo para os filhos que choravam. Escarninho, o familiar voltou-se para ela e ordenou:
- Valha aos diabos, bravazona! – ao que ela respondeu:
- Não quer que chore pelos meus meninos? Pois vou presa por falsários e traidores.
Mais tarde ela explicaria que o Pinto disse aquilo por raiva e que estava raivoso por lhe não cometerem a ele a prisão, nem vir com ela nem com os mais presos, a ganhar dinheiro.
Certamente que ele não aceitava tal explicação e se alguém lhe perguntasse porque estava ali, sem ser chamado, a acompanhar a prisioneira pelas ruas da vila, responderia que era por zelo da fé cristã. Aliás, eram mais de 50 pessoas, beatos e beatas e garotos que, como ele, seguiam, como em procissão, proferindo ameaças e impropérios contra os hereges dos judeus.
Ao passar pelo Rossio, junto à igreja matriz, juntou-se outra prisioneira, Beatriz da Costa, igualmente montada e amarrada em uma cavalgadura conduzida pela rédea por um caminheiro contratado para o efeito. E Maria Rodrigues terá então desabafado para esta companheira:
- Negros companhas foram os nossos! – como quem diz: pouca sorte a nossa!
Ao chegar o cortejo ao cabo da vila, avistou-se a coluna dos homens que seguiam presos, à frente, na estrada do Pocinho, a transpor a Portela das Aveleiras. E Maria Rodrigues ter-se-á posto a gritar para o marido:
- Meu Brandão, pai dos meus filhos! – e a falar coisas que as testemunhas não reproduziram.
E então, o familiar disse ao homem que tinha a besta pelo cabresto, lha volvesse, não lhe desse o sol no rosto – uma forma assaz matreira de mandar parar a marcha e impedir que a prisioneira comunicasse com o marido. E ela, então, virou-se para o Pinto clamando em alta voz e por muitas vezes:
- Falsário, traidor, inimigo cruel da gente da nação! – e acrescentou ameaças e juras que eu lho havia de pagar, tratando-me muito mal e tudo em desprezo do meu ofício; e ouviram estas palavras mais de 50 pessoas – conforme testemunho de Francisco de Gouveia Pinto, em carta dirigida aos inquisidores de Coimbra, descrevendo a cena.
Sim: este era mais um crime a acrescentar no cadastro daquela mulher que foi presa por judaísmo. Insultar um familiar do Santo Ofício era falta de respeito para com o santo tribunal. E a gravidade do crime aumentava porque as ameaças e insultos ao familiar foram feitas à frente de mais de 50 pessoas.
Algumas dessas pessoas foram depois chamadas a depor no processo e, com mais ou menos colorido, todas confirmaram o essencial da cena. Uma delas disse que Maria Rodrigues chamou em altas vozes palavras afrontosas ao dito familiar, como: traidor, falsário, quanto me tens comido, a que o dito familiar respondeu se a levara presa lhe havia de pôr uma mordaça.
Deixemos a caravana seguir para Coimbra e voltemos à Praça do Município, em Torre de Moncorvo, à casa de Francisco Brandão e Maria Rodrigues, paredes-meias com a do ferrador Henrique Rodrigues. Aliás, as duas casas comunicavam por um buraco e Maria confessará mais tarde aos inquisidores que foi a mulher do ferrador que a catequizou. Vejam essa declaração:
- Disse que haverá 12 anos, em sua casa, por um buraco de sua casa, que estava junto de outra de Henrique Rodrigues, ferrador, chegou ao dito buraco Susana Mendes, mulher do mesmo e doutrinou-a e apartou-se.
Não curando saber a verdade desta confissão, é interessante notar este pormenor da construção das casas e imaginar como as mulheres conversavam sem sair da própria casa.
Tinha a casa dois pisos, sendo que o primeiro era destinado ao comércio. Tendeiro era a profissão de Francisco. Mas na sua tenda não se vendiam apenas tecidos e linhas. Sabemos, por exemplo, que em Torre de Moncorvo ele era o único vendedor de sabão autorizado. Como também vendia resmas de papel… Para aquela época, devia ser uma boa casa comercial a sua, pois que nos dias de feira, pela muita gente que acudia a comprar a sua casa, nem tempo tinha para comer.


Uma das acusações que lhe fizeram foi de em sua casa se juntarem várias famílias de cristãos-novos, certamente para rezarem e fazerem cerimónias judaicas. Ela responderá que não, que as pessoas iam lá e se juntavam porque dava jogo em sua casa. Por causa disso, aliás, é que vieram as inimizades com um tal Francisco Gonçalves, que também tinha casa de jogo e viu os lucros descerem com a abertura da sua.
Certamente que a sala do jogo era no piso de cima, pois essa actividade envolvia muita discrição e alguma clandestinidade, pois ninguém gostava de ser visto ou apanhado a jogar.
Subia-se para o andar de cima por uma escada interior, a partir da tenda. E durante a semana parece que raramente se via a dona da casa ficar em baixo por muito tempo. Passava os dias a fazer doces e o seu trato principal era o de doceira. Dirá ela que de contínuo assistia na sua tenda a fazer e a vender doces, sem dali sair.
De verdade, na culinária Moncorvense a doçaria sempre mereceu especial destaque e, para além das famosas amêndoas cobertas, merecem inscrever-se no seu dicionário doceiro os massapães que já a Maria Rodrigues fazia para vender, tal como hoje se fazem, com amêndoas pisadas, ovos, farinha e açúcar.
E se a doceira dizia que passava o tempo a fazer e vender doces, gente apareceu a dizer perante o comissário da Inquisição que durante a semana mal se vê na tenda mas aos sábados deixa o andar de cima e vem abaixo à tenda e fica sentada na escada sem fazer nada. Mas vejam todo o colorido da denúncia feita pelo distribuidor e contador Teotónio Barreto:
- Maria Rodrigues durante a semana não vem abaixo á tenda (…) e nos sábados vem assistir na tenda, mais consertada de corpo e rosto e mais alegre do que do costume. E ele testemunha vê muitas vezes, por a tenda estar na praça.
E se este homem via, por a tenda estar na praça, imagina-se como o familiar Francisco de Gouveia Pinto se poria a espiolhar cada gesto e cada fala daqueles judeus que ele havia de apanhar. Pelo seu depoimento, dá ideia de ser frequentador assíduo da tenda e conversar muito com o tendeiro e a mulher. Assim, disse que, várias vezes, aos sábados, vendo os dois sem trabalhar, lhe perguntava porque estavam ociosos e eles respondiam que estavam enfadados e não podiam aturar o trabalho de toda a semana. E disse que outras vezes os via, em dias de sábado, ter fechada a loja e eles estarem na praça.
Gouveia Pinto nomeou também os cristãos-novos que via entrar para casa do Brandão e lá ficarem com a porta fechada. E terá mesmo estranhado isso e perguntou-lhes mesmo porque se juntavam lá em casa. A isto terá ele respondido com outra pergunta: se em sua casa não recebia também os seus amigos? E este respondeu que conversava com os amigos à porta mas não dentro de casa.
Reparou também o Pinto que os tais ajuntamentos se faziam mais nas noites de sexta-feira. E então passou a andar mais de olho neles. Eis o resultado de uma dessas observações, conforme relatou ao comissário Pedro Saraiva de Vasconcelos, em 15 de Junho de 1646:
- Hoje, 15 do mês de Junho, entrando ele na tenda do dito Francisco Brandão e sua mulher Maria Rodrigues, ao tempo que o relógio deu uma hora depois do meio dia, sexta-feira, estava Maria Rodrigues fiando uma roca, e a tirou da cinta e se pôs a conversar com ele testemunha e com o dito seu marido, sem fazer coisa alguma.
Interessante também o processo de Maria Rodrigues, do ponto de vista das suas relações familiares e da dispersão territorial dos mesmos. Tinha um irmão casado em Lamego e outro em Coimbra. Um sobrinho era advogado no Porto e outro a residir em Lagos que era revedor, administrador e cobrador das terças do Reino. Sendo preso pela Inquisição de Évora, ao ditar o seu inventário disse que tinha 21 painéis, entre eles um quadro do rei de Portugal, D. João IV. E muito mais se poderia dizer sobre os dois processos que lhe foram instaurados – o que não caberia num artigo de jornal. Talvez que um dia voltemos a tratar do assunto.



António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo 2062, de Maria Rodrigues.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 25

Vila Flor- 1939
Francisco Vaz Eminente. Um dos mais antigos documentos de legislação aduaneira dá pelo nome de “Convénio de Eminente”. Foi promulgado em Espanha em 1680 e vigorou naquele e em outros países europeus que depois o seguiram, até finais do século seguinte. Respeitava este monumentos legislativo à cobrança dos impostos sobre certas mercadorias estrangeiras que entravam no país. Por detrás do nome, encontra-se o homem que o concebeu, um homem trasmontano, sefardita e marrano que foi grande em Espanha, ali desempenhando o cargo de “Contador de Honor dél Tribunal de Contaduria” – algo que, em termos actuais, em Portugal, podemos grosseiramente comparar a juiz do tribunal de contas. Eminente era a alcunha herdada da família, uma família que em Vila Flor seria isso mesmo: eminente. O nome era Francisco Vaz. Para além das suas actividades de rendeiro, “asientista” e “banqueiro” do rei de Espanha, sabemos que Francisco Vaz casou em Sevilha com Violante Ribeira, por 1653 e tendo ficado viúvo, casou de novo, em Madrid, com Josefa Salazar. Uma e outra pertenciam a ricas famílias de mercadores fugidos de Portugal por causa da inquisição. E em 1689, também o “Contador” Francisco Vaz Eminente foi preso pela inquisição de Madrid, com sequestro de seus bens, que eram imensos. Voltemos a Vila Flor para dizer que o primeiro que tomou a alcunha de Eminente foi também um Francisco Vaz (seu avô?), que ali nasceu por 1560 e ali faleceu antes de 1620. Foi casado com uma Isabel Pereira, a qual foi presa em 1638, contando já 84 anos de idade. Foi penitenciada em 1640 juntamente com duas filhas e uma nora, mulher do “Eminente Lopo Vaz” que também estagiou nas masmorras da inquisição de Coimbra entre 1620 e 1625.
António Júlio Andrade

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ANTÓNIO HENRIQUES – o bacharel de V. N. Fozcôa que em Coimbra hospedou o correio do Messias

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães

O estabelecimento da Inquisição deixou muito perturbados os cristãos-novos. E esta perturbação naturalmente que desencadeava ondas de emoção colectiva. Escusado será dizer que, face a uma tal situação de amargura e desespero, as pessoas procuravam alívio, refugiando-se na religião de seus pais e avós. Extremamente fragilizados e tornados vulneráveis, sentiam-se como náufragos e tentavam desesperadamente agarrar-se a qualquer tábua de salvação.
Não admira, pois, que em tal ambiente de tragédia e desespero, tenha brotado com força a ideia de um salvador do povo judeu. E foram vários os Messias que surgiram e os Profetas que os anunciavam, um pouco por toda a parte: na Turquia, na Itália, na Alemanha ou na África.
De entre esses movimentos messiânicos que surgiram na primeira metade do século de 500, realce para o que foi protagonizado por Reubeni, o qual foi, aliás, levado muito a sério, mesmo em círculos estranhos ao judaísmo, a ponto de ser, inclusivamente, recebido com todas as honras na Cúria Romana e nas Cortes de Portugal e Castela. E, de entre os pregadores desse movimento messiânico, destacou-se o cripto-judeu Diogo Pires, nascido em Évora, formado em Medicina pela universidade de Salamanca e falecido em Itália em 1607.
Dia 30 – 18H30
Apresentação do livro “Os Isidros”
por António Júlio Andrade
Em Portugal surgiram, entretanto, dois estranhos personagens e trágicos: Bandarra, o poeta , sapateiro de Trancoso, cristão-velho e Luís Dias, o alfaiate de Setúbal, cristão-novo. E se o primeiro se apresentava como um adivinhador e profeta, o segundo considerava-se o Messias prometido aos judeus. E nele acreditavam até pessoas de elevada cultura e prestígio social, como fossem:
* O dr. Francisco Mendes, médico do irmão do inquisidor mor e futuro rei de Portugal – o cardeal D. Henrique.
* O dr. Dionísio, outro médico, ou físico da Corte que depois fugiu para Londres.
* Mestre Gabriel, apresentado como físico e também como procurador de causas (advogado) que “andava por Lisboa pregando aos cristãos-novos, de casa em casa, a lei de Moisés e se provou que circuncidou muito número deles”.
* Um Lente de Medicina da universidade de Coimbra cuja identidade permanece desconhecida.
* João Fernandes, um cristão-novo que era sapateiro em Évora e se transferiu para Lisboa tornando-se vendedor de calçado e foi celebrizado com “o bedel do Messias”, espécie de contínuo ou porteiro.
* Pêro Álvares, um conceituado mercador de Évora que em Lisboa frequentava casas da nobreza, como eram as do duque de Bragança e do conde de Portalegre. Foi pelos historiadores apelidado como o “diplomata” ou embaixador do Messias de Setúbal.
* Diogo Montenegro, esse é apresentado como “astrólogo e mago” mas também como “vagabundo e tão calaceiro e de má e leve opinião que antes que fosse preso, andava pelas ruas e casas de cristãos-novos de Lisboa pedindo esmola, sob ameaça de denunciar à Inquisição, como heréticos, os que lha não davam”.
Mais estranho ainda é que, entre os “apóstolos” do Messias de Setúbal, se contasse um cristão-velho, licenciado, alto funcionário de Estado, que foi juiz de fora em Portalegre, Évora e Santarém, antes de assentar em Lisboa, como Desembargador do Paço. Era o dr. Gil Vaz Bugalho, e em sua casa faziam sinagoga os membros do movimento.
Por Trás-os-Montes, de entre os divulgadores dos movimentos messiânicos da época e do Messias de Setúbal, foram citados dois primos, residentes em Miranda do Douro, ambos com o nome de Diogo de Leão, um deles morador na rua da Costanilha e o outro na rua Nova.
Apresentamos, por fim, o homem que era tido como o “correio do Messias”, acaso o seu maior propagandista – Jorge Fernandes, o Labaredas, de alcunha. Era um homem que pouco parava, que levava a vida negociando por qualquer parte e levando a qualquer canto a mensagem do Messias. E seria o homem que estabelecia a ligação entre os grupos ou células de judaizantes seguidores do alfaiate de Setúbal.
E terá sido com esse espírito que, a certa altura, empreendeu uma deslocação a Coimbra. Aí o seu contacto foi um tal Jorge Vaz que tinha umas casas de aluguer na rua de Santa Sofia funcionando como “repúblicas” de estudantes. Em uma dessas casas ou “repúblicas” ficou alojado, dormindo em um quarto partilhado com o bacharel António Henriques.
Jorge Fernandes acabaria exactamente por ser preso nesse quarto e conduzido para o tribunal da Inquisição de Évora, acabando por ser queimado na fogueira. No decurso do processo e entre as muitas declarações produzidas, disse que, naquela estadia em Coimbra, se declarou seguidor da lei de Moisés, com António Henriques e com ele praticou cerimónias da mesma lei. Seguiu-se, naturalmente, a prisão de António Henriques, acusado daqueles crimes e ainda de ter alojar e encobrir hereges. Antes de continuarmos, vejamos ligeiramente os traços biográficos deste homem.
Nasceu em Vila Nova de Foz Côa, por volta de 1517, sendo filho de Gabriel Henriques, juiz das sisas e de sua mulher Brites Fernandes. Tinha uma irmã chamada Francisca da Silva que casou com o mercador Manuel Henriques e moravam em Foz Côa. Francisca da Silva foi também presa pela Inquisição, muitos anos depois, em 1604, quando contava já uns 80 anos. Isabel Henriques se chamou outra sua irmã, a qual casou com o dr. Henrique Dias, famoso advogado de Torre de Moncorvo, terra onde moravam, na rua do Cano. Um filho destes, sobrinho do bacharel, Francisco da Silva, de seu nome, seria igualmente processado pela Inquisição, em 1603, juntamente com sua mulher, Guiomar Rodrigues.
Teria uns 16 anos e “sabia já Gramática” quando os pais de António Henriques o mandaram de Foz Côa para Salamanca, a estudar. Frequentou aquela Universidade durante 6 ou 7 anos, saindo formado bacharel em Cânones e Leis. Porém, regressando a Portugal, e por entretanto ter saído legislação que obrigava a frequentar a universidade de Coimbra para poder exercer a profissão e validar o diploma, o nosso bacharel teve de rumar à cidade do Mondego, onde foi depois denunciado e preso, em Março de 1541, como já se disse. Saiu condenado ao pagamento das custas do processo e 30 cruzados para obras pias e abjurando “de vehementi” em 1.7.1541, pedindo perdão “por agasalhar, recolher e encobrir em minha pousada a um Jorge Fernandes (…) sabendo dele que era herege e apóstata da nossa santa fé católica”.
A primeira versão dos factos, apresentada pelo bacharel Henriques no decorrer do processo foi, no entanto, bem diferente e contrária a esta confissão. Não curando agora de saber qual a inteira verdade, vejamos a versão inicial apresentada, pois contém pormenores deveras interessantes. Comecemos por ver o retrato que António Henriques fez de Jorge Fernandes, o Labaredas:
- É filho de um feneiro (casa de recolha de cavalgaduras a que se fornece feno) de Lisboa e que sempre se criou em Lisboa e lá se criou e na corte (…) pessoa bem vestida, homem mancebo e ao parecer mais homem de paço do que herege.
Não o conhecendo de parte alguma, A. Henriques disse que foi o filho do dono da casa que veio pedir-lhe para que o alojassem na “república” durante 5 ou 6 dias que era o tempo que necessitava para efectuar os seus negócios. E dispondo-se ele a auscultar os outros estudantes que ali moravam, o mesmo filho do dono lhe argumentou que tal não era necessário, pois sendo ele o mais velho e mais antigo na casa e já bacharel formado, os outros estudantes não iriam contra.
Acrescentou o prisioneiro que, tendo passado os 5 ou 6 dias, e o Labaredas não parecendo disposto a ir-se embora, ele se queixava do intruso “à ama” que arrumava a casa e fazia o comer, bem como aos seus companheiros. Até que um dia, regressando dos estudos, encontrou o Labaredas “lendo uma brivia (bíblia) de Toscano” e vestindo uma espécie de colete tecido de lã e com uns fios pendentes e a meter conversa com ele, começando a falar-lhe do Messias que não era Jesus Cristo, mas um outro, o verdadeiro Messias prometido nas Escrituras “e que estava em Lisboa”. Aí, António Henriques terá concluído que era perigoso viver com tal companhia e expulsou-o do quarto.
Posto na rua e andando “desagasalhado” por Coimbra, o Labaredas procurou Nuno Rodrigues, um outro estudante da “república” pedindo-lhe que o alojasse no seu quarto. E este estaria disposto a isso mas… “sabendo isto o réu (António Henriques) tomou o Nuno Róis perante a ama e mais companheiros e disse que nas casas onde ele réu morasse não havia de entrar tão perro danador das honras e famas dos homens”.
Durante um mês e tal viveu Jorge Fernandes em outra casa da rua do Corpo de Deus e depois foi de novo hospedar-se na rua Sofia em casa de um António Gomes, vizinho, de paredes-meias. E em sua casa estava quando vieram as justiças para o prender.
Parece que aquelas casas comunicavam todas umas com as outras por portas interiores, conforme testemunhou o nosso bacharel: - “Há um mui grande lanço de casas feitas de uma parte, logo afeiçoadas para estudantes, as quais entram umas pelas outras, de uma parte até outra (…) e todas as casas daquela rua e daquele lanço são passadiças umas das outras de um cabo até ao outro”.
E o Labaredas, sentindo-se apertado, bateu a uma dessas portas interiores, que lha abriram e por onde ale se meteu no edifício da “república” que ele bem conhecia, indo esconder-se exactamente debaixo da cama do bacharel Henriques.
Estava este na rua com os vizinhos a assistir à cena, quando viu as justiças regressar da casa de António Gomes com as mãos a abanar e dispondo-se a ir embora sem efectuar a prisão. Aí, ele desconfiou e, subindo ao seu quarto, ali encontrou o Labaredas. De imediato armou um alvoroço e o expulsou de casa fazendo que o prendessem e atirou pela janela os papéis e ornamentos que com ele trazia para fazer as suas práticas judaicas, nomeadamente “uma vestidura de fímbrias e uns tefelins”.
FONTES E BIBLIOGRAFIA:
ANTT, Inquisição de Évora, processo 2161, de António Henriques
ANTT, Inquisição de Coimbra, processo 1362, de Francisco da Silva
ANTT, Inquisição de Coimbra, processo 43, de Francisca da Silva.
ELIAS PIPINER, O Sapateiro de Trancoso e o Alfaiate de Setúbal, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1993.
Nota – Este texto foi originalmente publicado no jornal Terra Quente
Ver:
 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 24


Luís de Carvajal, o Moço. Um sobrinho de D. Luís de Carvajal y la Cueva, filho de sua irmã Francisca Nunes de Carvajal e de seu marido Francisco Rodrigues de Matos, recebeu o nome do tio. Por isso ficou conhecido por Luís de Carvajal, o Moço, enquanto aquele é apelidado de o Conquistador. Tal como a mãe, já viúva, e todos os seus irmãos e irmãs, embarcou com o tio na aventura colonizadora em terras mexicanas. E com o tio, a mãe e os irmãos foi preso pela Inquisição e saiu condenado em penas espirituais no auto de fé realizado na cidade do México em 25 de Fevereiro de 1590. Mas isso não o fez mais cristão, antes pelo contrário. Espírito brilhante e profundamente religioso, era tido como um farol da fé, irradiando a luz da sabedoria, razão por que foi apelidado de Lumbroso. Luís apresentava-se publicamente como judeu e criticava os seus familiares e amigos por terem um comportamento exterior católico e esconderem as suas convicções judaicas. E sempre procurava catequizá-los na lei de Moisés. Foi novamente preso e morreu afirmando o seu judaísmo no auto de fé celebrado em 8 de Dezembro de 1596. Por isso mesmo é considerado um dos mártires do judaísmo. O padre Contreras que o acompanhou até ao último momento, daria dele o seguinte e eloquente testemunho:
- Foi sempre tão bom judeu, conciliou o seu conhecimento, que era muito profundo e de grande sensibilidade, com a sua fé, o que fez dele um grande lutador e intransigente defensor da sua fé. Não tenho dúvidas de que, se tivesse vivido antes da encarnação de Cristo Redentor, ele teria sido um herói e o seu nome teria ficado célebre na Bíblia, como o nome daqueles que morreram em defesa da fé.
Na vila de Mogadouro, de onde era originário, que bem ficaria uma simples placa em sua recordação, nela se escrevendo o seguinte poema de Shumamith Chavaheveley:

El Lumbroso.

Naquela noite estava tão radiante,

Que mal se podia ver pela luz que emitia.

Agora na incandescente aurora,

Estou exposto diante do teu olhar

Sem esperança.

A fogueira está alta bastante,

Para que possa ver o meu anjo chorar.

Padre Contreras frágil e vulnerável

Murmura: - Porquê?

Ouçam as chamas crepitar,

Escutem os seus lamentos.

A minha carne arde no fogo.

Juntos testemunhamos

A sua transformação em cinzas.

Juntos vemo-las voar,

Tu e eu, como dançamos,

Cada vez mais perto as chamas,

Para a minha carne

Para a minha morte.

A sua velha alma sabe

Que eu não podia morrer.

Mas o espírito é jovem,

Ainda não pode ler os sinais do céu.

Preso ao meu rasto,

Protegido por mim,

Ficaste em oração

Para que a luz em que me tornei

Te ilumine.

O meu coração eleva-se,

Transportado nos seus sonhos.

Quatrocentos anos no abismo

Não podem apagar a marca.

As nossas memórias chamam,

Posso ainda abraçar,

Posso ainda entrar em ti,

Respirar a minha eternidade

Em tua alma pura.

 António Júlio Andrade