Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
O estabelecimento da Inquisição
deixou muito perturbados os cristãos-novos. E esta perturbação naturalmente que
desencadeava ondas de emoção colectiva. Escusado será dizer que, face a uma tal
situação de amargura e desespero, as pessoas procuravam alívio, refugiando-se
na religião de seus pais e avós. Extremamente fragilizados e tornados
vulneráveis, sentiam-se como náufragos e tentavam desesperadamente agarrar-se a
qualquer tábua de salvação.
Não admira, pois, que em tal
ambiente de tragédia e desespero, tenha brotado com força a ideia de um
salvador do povo judeu. E foram vários os Messias que surgiram e os Profetas
que os anunciavam, um pouco por toda a parte: na Turquia, na Itália, na
Alemanha ou na África.
De entre esses movimentos
messiânicos que surgiram na primeira metade do século de 500, realce para o que
foi protagonizado por Reubeni, o qual foi, aliás, levado muito a sério, mesmo
em círculos estranhos ao judaísmo, a ponto de ser, inclusivamente, recebido com
todas as honras na Cúria Romana e nas Cortes de Portugal e Castela. E, de entre
os pregadores desse movimento messiânico, destacou-se o cripto-judeu Diogo
Pires, nascido em Évora, formado em Medicina pela universidade de Salamanca e
falecido em Itália em 1607.
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| Dia 30 – 18H30
Apresentação do livro “Os Isidros”
por António Júlio Andrade
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Em Portugal surgiram, entretanto,
dois estranhos personagens e trágicos: Bandarra, o poeta , sapateiro de
Trancoso, cristão-velho e Luís Dias, o alfaiate de Setúbal, cristão-novo. E se
o primeiro se apresentava como um adivinhador e profeta, o segundo
considerava-se o Messias prometido aos judeus. E nele acreditavam até pessoas
de elevada cultura e prestígio social, como fossem:
* O dr. Francisco Mendes, médico
do irmão do inquisidor mor e futuro rei de Portugal – o cardeal D. Henrique.
* O dr. Dionísio, outro médico,
ou físico da Corte que depois fugiu para Londres.
* Mestre Gabriel, apresentado
como físico e também como procurador de causas (advogado) que “andava por
Lisboa pregando aos cristãos-novos, de casa em casa, a lei de Moisés e se
provou que circuncidou muito número deles”.
* Um Lente de Medicina da
universidade de Coimbra cuja identidade permanece desconhecida.
* João Fernandes, um cristão-novo
que era sapateiro em Évora e se transferiu para Lisboa tornando-se vendedor de
calçado e foi celebrizado com “o bedel do Messias”, espécie de contínuo ou
porteiro.
* Pêro Álvares, um conceituado
mercador de Évora que em Lisboa frequentava casas da nobreza, como eram as do
duque de Bragança e do conde de Portalegre. Foi pelos historiadores apelidado
como o “diplomata” ou embaixador do Messias de Setúbal.
* Diogo Montenegro, esse é
apresentado como “astrólogo e mago” mas também como “vagabundo e tão calaceiro
e de má e leve opinião que antes que fosse preso, andava pelas ruas e casas de
cristãos-novos de Lisboa pedindo esmola, sob ameaça de denunciar à Inquisição,
como heréticos, os que lha não davam”.
Mais estranho ainda é que, entre
os “apóstolos” do Messias de Setúbal, se contasse um cristão-velho, licenciado,
alto funcionário de Estado, que foi juiz de fora em Portalegre, Évora e
Santarém, antes de assentar em Lisboa, como Desembargador do Paço. Era o dr.
Gil Vaz Bugalho, e em sua casa faziam sinagoga os membros do movimento.
Por Trás-os-Montes, de entre os
divulgadores dos movimentos messiânicos da época e do Messias de Setúbal, foram
citados dois primos, residentes em Miranda do Douro, ambos com o nome de Diogo
de Leão, um deles morador na rua da Costanilha e o outro na rua Nova.
Apresentamos, por fim, o homem
que era tido como o “correio do Messias”, acaso o seu maior propagandista –
Jorge Fernandes, o Labaredas, de alcunha. Era um homem que pouco parava, que
levava a vida negociando por qualquer parte e levando a qualquer canto a
mensagem do Messias. E seria o homem que estabelecia a ligação entre os grupos
ou células de judaizantes seguidores do alfaiate de Setúbal.
E terá sido com esse espírito
que, a certa altura, empreendeu uma deslocação a Coimbra. Aí o seu contacto foi
um tal Jorge Vaz que tinha umas casas de aluguer na rua de Santa Sofia
funcionando como “repúblicas” de estudantes. Em uma dessas casas ou
“repúblicas” ficou alojado, dormindo em um quarto partilhado com o bacharel
António Henriques.
Jorge Fernandes acabaria
exactamente por ser preso nesse quarto e conduzido para o tribunal da
Inquisição de Évora, acabando por ser queimado na fogueira. No decurso do
processo e entre as muitas declarações produzidas, disse que, naquela estadia
em Coimbra, se declarou seguidor da lei de Moisés, com António Henriques e com
ele praticou cerimónias da mesma lei. Seguiu-se, naturalmente, a prisão de
António Henriques, acusado daqueles crimes e ainda de ter alojar e encobrir
hereges. Antes de continuarmos, vejamos ligeiramente os traços biográficos
deste homem.
Nasceu em Vila Nova de Foz Côa,
por volta de 1517, sendo filho de Gabriel Henriques, juiz das sisas e de sua
mulher Brites Fernandes. Tinha uma irmã chamada Francisca da Silva que casou
com o mercador Manuel Henriques e moravam em Foz Côa. Francisca da Silva foi
também presa pela Inquisição, muitos anos depois, em 1604, quando contava já
uns 80 anos. Isabel Henriques se chamou outra sua irmã, a qual casou com o dr.
Henrique Dias, famoso advogado de Torre de Moncorvo, terra onde moravam, na rua
do Cano. Um filho destes, sobrinho do bacharel, Francisco da Silva, de seu
nome, seria igualmente processado pela Inquisição, em 1603, juntamente com sua
mulher, Guiomar Rodrigues.
Teria uns 16 anos e “sabia já
Gramática” quando os pais de António Henriques o mandaram de Foz Côa para
Salamanca, a estudar. Frequentou aquela Universidade durante 6 ou 7 anos,
saindo formado bacharel em Cânones e Leis. Porém, regressando a Portugal, e por
entretanto ter saído legislação que obrigava a frequentar a universidade de
Coimbra para poder exercer a profissão e validar o diploma, o nosso bacharel
teve de rumar à cidade do Mondego, onde foi depois denunciado e preso, em Março
de 1541, como já se disse. Saiu condenado ao pagamento das custas do processo e
30 cruzados para obras pias e abjurando “de vehementi” em 1.7.1541, pedindo
perdão “por agasalhar, recolher e encobrir em minha pousada a um Jorge
Fernandes (…) sabendo dele que era herege e apóstata da nossa santa fé católica”.
A primeira versão dos factos,
apresentada pelo bacharel Henriques no decorrer do processo foi, no entanto,
bem diferente e contrária a esta confissão. Não curando agora de saber qual a
inteira verdade, vejamos a versão inicial apresentada, pois contém pormenores
deveras interessantes. Comecemos por ver o retrato que António Henriques fez de
Jorge Fernandes, o Labaredas:
- É filho de um feneiro (casa de recolha de cavalgaduras a que se
fornece feno) de Lisboa e que sempre se criou em Lisboa e lá se criou e na
corte (…) pessoa bem vestida, homem mancebo e ao parecer mais homem de paço do
que herege.
Não o conhecendo de parte alguma,
A. Henriques disse que foi o filho do dono da casa que veio pedir-lhe para que
o alojassem na “república” durante 5 ou 6 dias que era o tempo que necessitava
para efectuar os seus negócios. E dispondo-se ele a auscultar os outros
estudantes que ali moravam, o mesmo filho do dono lhe argumentou que tal não
era necessário, pois sendo ele o mais velho e mais antigo na casa e já bacharel
formado, os outros estudantes não iriam contra.
Acrescentou o prisioneiro que,
tendo passado os 5 ou 6 dias, e o Labaredas não parecendo disposto a ir-se
embora, ele se queixava do intruso “à ama” que arrumava a casa e fazia o comer,
bem como aos seus companheiros. Até que um dia, regressando dos estudos,
encontrou o Labaredas “lendo uma brivia (bíblia) de Toscano” e vestindo uma
espécie de colete tecido de lã e com uns fios pendentes e a meter conversa com
ele, começando a falar-lhe do Messias que não era Jesus Cristo, mas um outro, o
verdadeiro Messias prometido nas Escrituras “e que estava em Lisboa”. Aí,
António Henriques terá concluído que era perigoso viver com tal companhia e
expulsou-o do quarto.
Posto na rua e andando
“desagasalhado” por Coimbra, o Labaredas procurou Nuno Rodrigues, um outro
estudante da “república” pedindo-lhe que o alojasse no seu quarto. E este
estaria disposto a isso mas… “sabendo isto o réu (António Henriques) tomou o
Nuno Róis perante a ama e mais companheiros e disse que nas casas onde ele réu
morasse não havia de entrar tão perro danador das honras e famas dos homens”.
Durante um mês e tal viveu Jorge
Fernandes em outra casa da rua do Corpo de Deus e depois foi de novo
hospedar-se na rua Sofia em casa de um António Gomes, vizinho, de
paredes-meias. E em sua casa estava quando vieram as justiças para o prender.
Parece que aquelas casas
comunicavam todas umas com as outras por portas interiores, conforme
testemunhou o nosso bacharel: - “Há um mui grande lanço de casas feitas de uma
parte, logo afeiçoadas para estudantes, as quais entram umas pelas outras, de
uma parte até outra (…) e todas as casas daquela rua e daquele lanço são
passadiças umas das outras de um cabo até ao outro”.
E o Labaredas, sentindo-se
apertado, bateu a uma dessas portas interiores, que lha abriram e por onde ale
se meteu no edifício da “república” que ele bem conhecia, indo esconder-se
exactamente debaixo da cama do bacharel Henriques.
Estava este na rua com os
vizinhos a assistir à cena, quando viu as justiças regressar da casa de António
Gomes com as mãos a abanar e dispondo-se a ir embora sem efectuar a prisão. Aí,
ele desconfiou e, subindo ao seu quarto, ali encontrou o Labaredas. De imediato
armou um alvoroço e o expulsou de casa fazendo que o prendessem e atirou pela
janela os papéis e ornamentos que com ele trazia para fazer as suas práticas
judaicas, nomeadamente “uma vestidura de fímbrias e uns tefelins”.
FONTES E BIBLIOGRAFIA:
ANTT,
Inquisição de Évora, processo 2161, de António Henriques
ANTT,
Inquisição de Coimbra, processo 1362, de Francisco da Silva
ANTT,
Inquisição de Coimbra, processo 43, de Francisca da Silva.
ELIAS
PIPINER, O Sapateiro de Trancoso e o Alfaiate de Setúbal, Imago Editora, Rio de
Janeiro, 1993.
Nota – Este texto foi originalmente publicado no jornal
Terra Quente
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