terça-feira, 27 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 24


Luís de Carvajal, o Moço. Um sobrinho de D. Luís de Carvajal y la Cueva, filho de sua irmã Francisca Nunes de Carvajal e de seu marido Francisco Rodrigues de Matos, recebeu o nome do tio. Por isso ficou conhecido por Luís de Carvajal, o Moço, enquanto aquele é apelidado de o Conquistador. Tal como a mãe, já viúva, e todos os seus irmãos e irmãs, embarcou com o tio na aventura colonizadora em terras mexicanas. E com o tio, a mãe e os irmãos foi preso pela Inquisição e saiu condenado em penas espirituais no auto de fé realizado na cidade do México em 25 de Fevereiro de 1590. Mas isso não o fez mais cristão, antes pelo contrário. Espírito brilhante e profundamente religioso, era tido como um farol da fé, irradiando a luz da sabedoria, razão por que foi apelidado de Lumbroso. Luís apresentava-se publicamente como judeu e criticava os seus familiares e amigos por terem um comportamento exterior católico e esconderem as suas convicções judaicas. E sempre procurava catequizá-los na lei de Moisés. Foi novamente preso e morreu afirmando o seu judaísmo no auto de fé celebrado em 8 de Dezembro de 1596. Por isso mesmo é considerado um dos mártires do judaísmo. O padre Contreras que o acompanhou até ao último momento, daria dele o seguinte e eloquente testemunho:
- Foi sempre tão bom judeu, conciliou o seu conhecimento, que era muito profundo e de grande sensibilidade, com a sua fé, o que fez dele um grande lutador e intransigente defensor da sua fé. Não tenho dúvidas de que, se tivesse vivido antes da encarnação de Cristo Redentor, ele teria sido um herói e o seu nome teria ficado célebre na Bíblia, como o nome daqueles que morreram em defesa da fé.
Na vila de Mogadouro, de onde era originário, que bem ficaria uma simples placa em sua recordação, nela se escrevendo o seguinte poema de Shumamith Chavaheveley:

El Lumbroso.

Naquela noite estava tão radiante,

Que mal se podia ver pela luz que emitia.

Agora na incandescente aurora,

Estou exposto diante do teu olhar

Sem esperança.

A fogueira está alta bastante,

Para que possa ver o meu anjo chorar.

Padre Contreras frágil e vulnerável

Murmura: - Porquê?

Ouçam as chamas crepitar,

Escutem os seus lamentos.

A minha carne arde no fogo.

Juntos testemunhamos

A sua transformação em cinzas.

Juntos vemo-las voar,

Tu e eu, como dançamos,

Cada vez mais perto as chamas,

Para a minha carne

Para a minha morte.

A sua velha alma sabe

Que eu não podia morrer.

Mas o espírito é jovem,

Ainda não pode ler os sinais do céu.

Preso ao meu rasto,

Protegido por mim,

Ficaste em oração

Para que a luz em que me tornei

Te ilumine.

O meu coração eleva-se,

Transportado nos seus sonhos.

Quatrocentos anos no abismo

Não podem apagar a marca.

As nossas memórias chamam,

Posso ainda abraçar,

Posso ainda entrar em ti,

Respirar a minha eternidade

Em tua alma pura.

 António Júlio Andrade

 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

PORTO ,CASA DO INFANTE - CONVITE


Nuevo centro judaico en Trancoso

Por primera vez luego de 500 años, fue inaugurado un centro judío en Portugal. La idea de la creación y la financiación del mismo, fue llevada a cabo por la municipalidad de Trancoso, Portugal, donde se encuentra dicho centro. A mediados de noviembre, el alcalde de Trancoso y el director de Shavei Israel, firmaron un acuerdo de cooperación mediante el cual Shavei Israel será la encargada de la organización de actividades judaicas en dicho centro. Nuestro enviado en Portugal, el Rabino Elisha Salas, estará a cargo de la programación de dichas actividades. El nuevo centro cuenta con una Sinagoga y tendrá una exposición la cual relatará la historia judía del lugar.

http://casa-anusim.org/2012/11/25/nuevo-centro-judaico-en-trancoso/

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

VULTOS JUDAICOS BRAGANÇANOS III

    Luis Carvajal y de la Cueva
Os colonizadores que deram vida ao nordeste mexicano, têm a sua história enraizada nos movimentos sociais que surgem em Espanha e Portugal, imediatamente após o descobrimento da América.No ano de 1493, precisamente depois da conquista de Granada e da partida do porto de Palos das naves comandadas por Colombo, os reis católicos de Espanha expulsaram todos os mouros e judeus dos seus domínios. Os mouros mudaram-se principalmente para África, de onde tinham vindo sete séculos antes. E os judeus para o norte da Europa e Portugal. Descendente destes judeus emigrantes para Portugal em terceira geração, foi Luís Carvajal y de la Cueva, que nasceu na vila de Mogadouro, Trás-os-Montes, no ano de 1539. Os seus pais foram Gaspar de Carvajal de Carvajal e Catalina de León de la Cueva.Quando jovem, o seu tio materno, Duarte de León, enviou-o para Cabo Verde, no ano de 1549, onde permaneceu treze anos, chegando a ocupar o posto de tesoureiro do rei de Portugal e ocupando-se principalmente do comércio de escravos negros.Em 1562 regressou a Lisboa e depois foi para Sevilha, onde conheceu Guiomar Nuñez de Rivera, dama endinheirada, com quem se casou em 1564, e da qual teve dois filhos: Francisca e Andrés.Viveu em Lisboa durante dois anos, após o que viajou sozinho para a Nova Espanha (México), num navio com um carregamento de vinhos, sob o comando do capitão Cristóbal de Erazo. Ficou no México, na região de Pánuco, até ao ano de 1578. Durante a sua estada comprou uma herdade de gado, tornando-se um empresário de sucesso. No ano seguinte foi eleito alcaide de Tampico Ver.Durante esta sua primeira visita ao México, ao agora alcaide de Tampico é prestado reconhecimento por combater bandos de piratas ingleses capitaneados pelo corsário Hawkings e também por sufocar as rebeliões dos índios Xalpa. Isto segundo a narração da sua autodefesa apresentada em processo inquisitório a seguir à sua morte.Em 1573, durante as campanhas de repressão dos nativos da região de Xalpa, Luís Carvajal participou numa expedição comandada pelo capitão Francisco de Puga ao norte do México até à povoação de Mazapil, actual San Luís Potosí.Esta viagem é de grande importância, porque foi nela que Carvajal travou conhecimento com um grupo de aventureiros, principalmente de nacionalidade portuguesa, que já habitavam naquela região. Estas pessoas eram, na sua maioria, cristãos-novos, como ele. Desse grupo faziam parte, entre outros, Alberto do Canto, Diogo de Montemor, Gaspar Castanho de Sousa e Manuel de Medeiros. Todos estes colonizadores se dedicavam ao trato de escravos indígenas. O seu trabalho consistia em surpreender os índios nas suas comunidades, capturá-los e depois vendê-los como trabalhadores forçados para as minas de ouro e prata.O conhecimento da região, e especialmente dos imigrantes judeus portugueses que habitavam a zona, foram-lhe de grande utilidade para organizar o plano de conquista e colonização, que levaria a cabo depois da sua segunda viagem à Nova Espanha, oito anos depois.É curioso que, embora Portugal e Espanha estivessem à época ainda imersos na idade média, os indivíduos que povoavam a zona nordeste do México eram mais parecidos com os futuros cow-boys do farwest americano do que com os colonizadores de Hernán Cortés, apesar de estarem separados por mais de 300 anos. Ao contrário da crença popular, que diz que os colonizadores do Novo Reino de Leão eram pacíficos lavradores, estes primeiros imigrantes eram um bando de revoltados. O seu interesse principal era encontrar minas de prata, escravizar os índios, violar as índias e enriquecer.Por outro lado não eram gente totalmente inculta. Todos sabiam ler e escrever e eram conhecedores de alguns livros, especialmente da Bíblia.É certo que uma percentagem importante destes colonizadores era cristã-nova ou cripto-judaica (que fingia ser cristã). Mas veremos mais adiante que à maioria não interessava muito este conflito entre o cristianismo e a sua religião de origem. E realmente estavam dispostos a converter-se ao cristianismo, desde que pudessem continuar com as suas actividades de pilhagem. Por esta razão a cultura israelita desapareceu por completo destas terras durante as primeiras décadas da colonização.
 Foto: estátua de Carvalhal na Av. Constitución em Monterrey ,México
Nota: texto traduzido do espanhol ,de autoria de V.R. Palacio

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 23

André Nunes. Nasceu em Torre de Moncorvo por 1518. Estudou em Salamanca, tendo-se licenciado em cânones. Por mais de 40 anos foi o advogado de mais prestígio na comarca de Torre de Moncorvo onde trabalhou com muitos corregedores e com eles despachou causas por metade da província de Trás-os-Montes. E representou nos foros judiciais pessoas ou instituições tão importantes como o arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o conde de Sampaio ou o marquês de Távora. Homem público, concorreu à eleição para o cargo de provedor da misericórdia de Torre de Moncorvo e terá sido, na área da comarca, o “mandatário” de D. António, prior do Crato na sua “campanha” para a nomeação como Rei de Portugal. E isso lhe terá granjeado muitas inimizades e vinganças políticas por parte do regime saído da nomeação de Filipe II de Espanha para o trono de Portugal, regime que albergava todos os familiares da inquisição. De tal modo que, na sequência de informações recolhidas em torre de Moncorvo e Vila Flor pelo abade desta última terra e inquisidor de Évora (dr. Jerónimo de Sousa) e mandadas para Coimbra, a inquisição fez prender o dr. André Nunes, os irmãos, as filhas e os genros. E a mulher, apesar de morta e enterrada há anos, foi também alvo de um processo, para que a memória dela ficasse também assinalada com o ferrete de judia. Uma filha e um genro (Luís Álvares da Silva, médico) foram presos em Viana do castelo, terra para onde mudaram sua residência à época da “campanha” para a nomeação do rei de Portugal e à derrota do Prior do Crato. Curiosamente, por ali andou o escondido em conventos de frades e freiras, o malogrado pretendente, antes da sua fuga para o estrangeiro. E também curiosamente foi a um convento de Viana do Castelo se recolheu frei Bartolomeu dos Mártires que, nomeio daqueles acontecimentos políticos e por sua causa, renunciou ao cargo de arcebispo de Braga e o depositou nas mãos do novo rei. O outro genro de André Nunes era irmão do médico Luís Álvares e chamou-se Francisco Rodrigues da Silva. Era um jovem advogado mas já com nome feito. Acabou queimado nas fogueiras da inquisição. A atestar o carácter político desta perseguição inquisitorial, estes advogados, em nome da comunidade hebreia de Torre de Moncorvo, apresentaram uma longa e bem fundada exposição. E um dos argumentos era o seguinte: - Sempre o senhor arcebispo de Braga visitou esta terra, de 2 em 2 anos. A última visita foi o ano passado. Nessas visitas sempre procurou saber se havia “judeus” na terra e lançava excomunhão sobre as pessoas que tivessem conhecimento de alguma prática judaica e não a denunciassem. E ninguém se apresentou a fazer qualquer denúncia desse género. Como é possível que, um ano depois, venha o abade de Vila Flor e descubra e mande prender 36 pessoas em Torre de Moncorvo, sob a acusação de judaísmo? Das duas uma: ou as pessoas que agora juram o fazem com falsidade, ou andaram durante toda a vida a enganar os seus confessores e o reverendo arcebispo, o que equivale a perjúrio e consequente excomunhão da igreja católica... Nem com argumentos desta natureza os inquisidores se deixaram convencer… Na Casa da Memória de Torre de Moncorvo o dr. André Nunes bem merece figurar da galeria dos grandes advogados e homens de leis e o nome do dr. Francisco Rodrigues da Silva ser escrito em monumento a construir dedicado às vítimas da inquisição, juntamente com o de sua sogra, Leonor da Mesquita, cujos ossos foram desenterrados e levados de Torre de Moncorvo para Coimbra para serem queimados com a sua “estátua” nas fogueiras da inquisição.
António Júlio Andrade

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 22

Bragança -2010.A.F.F.M.
Manuel de Almeida Castro. Nasceu em Bragança por 1572, sendo filho de António Lopes de Castro e Leonor Almeida. Teve 5 irmãos e todos eles ganharam relevância, em termos de poder económico e prestígio social. Na aldeia de Izeda fixou residência o casal constituído por Manuel de Almeida e Filipa Henriques, esta originária de Torre de Moncorvo, de uma família extremamente rica e poderosa. Filipa e Manuel tiveram 4 filhos e 3 filhas, uma das quais se chamou Serafina de Almeida e foi casada com o contratador e banqueiro na corte de Madrid, Fernando Montesinos. Se bem que morasse em Izeda, Manuel possuía bens de raiz em várias outras aldeias dos arredores, como eram: umas casas e umas oliveiras em Lagoa de Morais, uma vinha em Pinela, um lameiro no Zoio, uma quinta em Aveleira, terras e lameiros em Santo Estêvão, tulhas em Calvelhe, Paradinha e Pombares. Estas tulhas serviam para recolha dos cereais provenientes das rendas que ele arrematava das comendas ou das igrejas. E isso o coloca na prestigiada classe dos rendeiros. Para se fazer uma ideia da capacidade agrícola deste homem, bastará referir que tinha uns 100 bois de serviço. No que respeita a indústrias, diremos que ele tinha dois moinhos, um no ribeiro do Azibo e outro no rio Sabor. Em 1618, Manuel de Almeida castro foi denunciado à inquisição de Coimbra, mas ele, entretanto, certamente desconfiado da prisão de dois amigos que o haveriam de denunciar, meteu-se a caminho de Castela. Pouco adiantou pois que, em 1619, foi preso pela inquisição de Toledo, saindo sentenciado em penas em penas espirituais, em 1 de Fevereiro de 1620. Regressou a Izeda e ali vivei mais 20 anos em sossego. Até que, em 18.1.a639, foi de novo preso, pela inquisição de Coimbra, com base em denúncias de judaísmo feitas na inquisição de Cuenca – Espanha e enviadas para Portugal. As denúncias partiram de uma sua antiga criada. Revelaram-se pouco consistentes, pelo que os inquisidores ordenaram a sua libertação meio ano depois.
António Júlio Andrade

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ANTONIO DIAS FERNANDES UM GRANDE EMPRESÁRIO MARRANO DE FREIXO DE NUMÃO NOS ANOS DE 700.Por: António Júlio Andrade

Freixo de Numão
Nos textos anteriores falámos de um António Dias Fernandes, de Freixo de Numão, proprietário de uma destilaria de aguardente em Alijó e que passava a maior parte do tempo em feiras e operações de contratação de rendas e serviços, em repartições governamentais e câmaras eclesiásticas.
Quando foi preso pela inquisição de Lisboa, em 5 de Janeiro de 1725, contava uns 50 anos. Nascera em Pastrana, uma célebre vila de Espanha, a NE de Madrid para onde seu pai – Diogo Dias Fernandes – terá fugido, depois de uma investida da inquisição de Coimbra em Muxagata, sua terra de origem e ali casara com Joana Correia da Silva, de uma ilustre família de cristãos-novos da Beira.
António tinha 10 filhos, todos ainda solteiros. Os dois mais velhos contariam então 14 e 16 anos e apesar desta tenra idade encontravam-se já estabelecidos no Brasil, viajando entre a Baía, as Minas e o Rio de Janeiro, dirigindo os negócios da família.
Eram dois os irmãos inteiros de António Dias: Fernando Dias Fernandes, o mais velho, que fora casado com Maria Pinheiro, de Freixo de Numão, o qual esteve preso por 3 anos nas masmorras da inquisição de Lisboa, juntamente com os dois filhos mais velhos e a mulher. Esta acabaria por ser queimada nas fogueiras do auto de fé de 12 de Setembro de 1706, posto o que Fernando e os filhos se escaparam para a Inglaterra.
Gaspar Dias Fernandes se chamou o outro irmão, formado em medicina, estabelecido no Porto à data de sua prisão. Meses depois também ele seria preso pela inquisição de Coimbra, juntamente com a mulher e duas filhas.
De referir que António Dias Fernandes e seus dois irmãos foram casar em Freixo de Numão, com três irmãs, na família Pinheiro, uma família numerosa e igualmente perseguida pelo santo ofício.
Foi por 1680 que Diogo Dias e Joana da Silva deixaram Pastrana, porventura receosos da inquisição espanhola em cujas cadeias, no tribunal de Lerena, Diogo estadiara. Em Portugal, fixaram residência na cidade do Porto. E ali formaram uma grande empresa, que logo passou a ser dirigida pelo filho mais velho, Fernando Dias Fernandes. Por 1697, numa informação chegada ao tribunal do santo ofício tomava-se o seguinte depoimento de uma testemunha:
- Também presume que em casa de Fernando Dias Fernandes fazem sinagoga porque também concorrem para a mesma casa os homens da nação e porque são particularmente amigos (de Manuel de Aguilar) e parciais no negócio que trazem muito grande.
Nesta empresa familiar liderada por Fernando, dois vértices ganham particular importância. Um deles é representado pelo seu filho mais velho, Diogo, que era capitão de navios, assim assegurando o transporte das mercadorias exportadas e importadas. Muito especialmente viajava entre Portugal e o Brasil, capitaneando o navio S. Miguel.
O outro vértice do triângulo era representado por António Dias Fernandes de quem vimos falando e que foi estabelecer sua casa em Freixo de Numão, com assistências temporárias na povoação de Rio Torto, no termo de Chaves, onde estabeleceu uma segunda residência por 10 anos, negociando por terras de Trás-os-Montes e das Beiras, em toda a parte criando laços de convivência com gente importante. Veja-se, a título de exemplo, o seu modo de estar e o seu relacionamento em Mirandela, onde aparecem mais tarde a testemunhar em sua defesa os cavaleiros fidalgos e a gente da governança da terra, a começar pelo capitão-mor:
- Servia nas irmandades, principalmente a das Almas, na vila de Mirandela, onde fez oferta das 40 horas, sendo seu companheiro o excelentíssimo marquês de Távora e nesta irmandade tem feito grandes dispêndios…
Uma outra testemunha de defesa, o capitão-mor e juiz da vila de Muxagata, diria mesmo que “teve notícia que o dito António Dias Fernandes fora conselheiro do marquês de Távora”.
Ao início do século XVIII a rede familiar de negócios dos Dias Fernandes estaria bem implantada e muito desenvolvida, com a sede instalada na capital do reino, para onde o seu líder, Fernando Dias Fernandes, se transferiu com a mulher e os filhos, estabelecendo sua morada na Casa dos Degolados, ao Rossio. Em Outubro de 1703, tudo se alterou com a sua prisão, de sua mulher e de seus dois filhos mais velhos, entre eles o capitão do navio S. Miguel. Todos quatro seriam sentenciados em 1706, com a mulher a ser queimada, como atrás se disse.  E no seguimento destes e de outros processos, Fernando Dias fugiu com os filhos para a Inglaterra.
Mas não se pense que a rede familiar de negócios se desfez. Ao contrário, eles descobriram oportunidades novas, promovendo ainda mais a internacionalização de suas empresas. E em Portugal, sob a liderança de António Dias Fernandes, para além de prosseguirem compra e venda directa de mercadorias e na exportação e importação de produtos, especializaram-se na arrematação da cobrança de rendas eclesiásticas em comendas, reitorias e bispados e no abastecimento de géneros e abono dos vencimentos às tropas estacionadas na Beira e do Minho. E isto só era possível ser garantido por gente de muito capital. Imagine o leitor as ingentes tarefas de pagar os ordenados a um exército, providenciar a compra e confecção de géneros alimentares a toda aquela gente. Imagine só a dificuldade em comprar tantos alqueires de cereal em anos de escassez e sua condução às tulhas, aluguer de fornos e contratação de forneiras para o fabricar, providencias a lenha para os fornos, etc. E também adquirir palha e cevada para alimentar os cavalos… e tratar com inúmeros lavradores a condução destes produtos em lentos carros de bois.
Na verdade, era necessário muito trabalho, muita organização empresarial e muitos cabedais, que o Estado sempre se atrasou nos pagamentos e em Lisboa, só depois de muitos carimbos é que o dinheiro saía dos cofres das repartições.
Porém… eram também esses contratos os mais apetecidos e os que mais rendiam. No processo de António Dias Fernandes fala-se em um recibo de 724 contos de réis (uma loucura, se nos lembrarmos que o orçamento anual da cidade de Lisboa, por exemplo, não ascendia a então a 20 contos) de pagamento de serviços prestados às tropas estacionadas no Alto Minho.
Muito gostaria de lhes apresentar o inventário dos seus bens, mas torna-se de todo impossível no âmbito de um artigo de jornal, pois que ele ocupa mais de 200 páginas do seu processo. Vou apenas levantar uma pontinha do véu.
Assim, direi que as casas em que morava, em Freixo de Numão, com 3 ou 4 dependências anexas, para animais, foram avaliadas em mais de um conto de réis – o preço de um palacete! Mas em Freixo de Numão tinha ainda mais 4 ou 5 casas arrendadas. E em Fozcôa, em Alfândega da Fé e em Mós do Douro tinha outras mais casas. Nesta última povoação era também co-proprietário de um lagar de azeite.
De suas propriedades agrícolas, espalhadas por muitas terras, vamos apenas referir duas, sitas no temo de Fozcôa. Uma situava-se no Vale da Quinta e andava repartida por 8 lavradores que a cultivavam de meias. A outra era no vale dos Olmos e tinha 3 casas que serviam para acomodação dos caseiros e dos gados e tinha de circuito coisa de uma légua, o que nos dá uma área de mais de 20 hectares.
A avaliar pela quantidade de olivais inventariados, o azeite seria a principal das produções das suas terras mas como se estava em vésperas de nova colheita que, aliás, se anunciava de abundância, não ficaram números registados. Mas sabemos que tinha em sua casa uns 600 almudes de azeite da última colheita, os quais renderiam uns 100 mil réis. E três vezes mais valeriam as cerca de mil arrobas de sumagre arrecadado.
Da sua actividade de rendeiro, direi apenas que ele trazia arrematadas, entre outras, as comendas das igrejas de Torre de Moncorvo, Almendra, Longroiva, Izeda, Veiga de Leda, Reves… estas últimas em terras de Bragança e de Chaves e que entre os devedores se contavam Diogo Monteiro de Melo e Bernardino Pereira de Arosa, dois homens da mais alta nobreza de Torre de Moncorvo, o feitor dos Távoras em Mirandela, o alcaide do castelo de Bragança António Gomes da Mena e seu cunhado Lázaro Jorge de Figueiredo Sarmento.
FONTE – IANTT, Inquisição de Lisboa pº 1437, de António Dias Fernandes
NOTA – Este texto foi publicado no jornal Terra Quente de 2012-11-15.

domingo, 18 de novembro de 2012

BRAGANÇA - Uma rota de turismo cultural

É inegável o contributo do povo judeu na construção da Europa e da cultura ocidental. Reconhecendo este facto, o Conselho Europeu de Cultura decidiu inscrever nos seus roteiros de turismo cultural uma Rota dos judeus. E esta rota tem-se revelado bem atractiva e capaz de cativar um nicho de mercado bem definido, de grande capacidade económica e elevado interesse cultural.
Por toda a Europa, muitas cidades e vilas procederam à elaboração de estudos de arqueologia e urbanismo judaico, com vista à definição das suas próprias rotas dos judeus.
Também em Portugal isso vem acontecendo e podem referir-se os casos de Coimbra, Viseu, Castelo de Vide, Belmonte…
Bragança é, sem qualquer dúvida, uma das terras portuguesas onde sobreleva o património judaico. A começar pelos homens que de Bragança partiram e foram em chãos estranhos fazer obras valorosas e erguer-se entre aqueles em quem poder não teve a morte – para usarmos a linguagem do autor de Os Lusíadas.
Mas há também monumentos de arquitectura que em Bragança nos falam da gente da nação hebreia que importa assinalar. E há gestos banais, usos e costumes… uma culinária que deles recebemos como herança.
E certamente que as dezenas de homens e mulheres que morreram nas cadeias da Inquisição e as centenas de outros que nelas sofreram a fé mosaica bem merecem ser recordadas em monumento a construir pela actual geração. Sim, as terras, tal como as pessoas, não podem perder a memória, porque a perda da memória é a mais terrível das doenças.
E se Bragança é uma cidade que hoje se está tornando famosa e procurada pela sua Rota dos Museus, porque não haverá também de criar-se um museu ou, ao menos, um centro de documentação judaica?
Foi a pensar nestas coisas que os autores, embora não sejam naturais nem moradores em Bragança, mas tão só estudiosos do fenómeno marrano e sefardita, decidiram dar o seu modesto contributo que, a partir de hoje, encontrará também materialização em coluna deste jornal. E o nosso contributo será essencialmente baseado no estudo dos processos da Inquisição, existentes da Torre do Tombo.
E vamos começar esta Rota dos Judeus exactamente pelo mais antigo monumento cristão da cidade de Bragança que será a igreja de Santa Maria, também designada de Nª Sª do Sardão, sita na Cidadela, ao lado do castelo e da domus.
A construção do templo primitivo ter-se-á efectuado logo em seguida à reconquista da terra pelos cristãos e em estilo românico. Mas terá sido ampliado e reconstruído entre 1700 e 1715, nomeadamente ao nível do alçado frontal, que apresenta um pórtico barroco, ladeado por colunas salomónicas.
Pelo interior, a igreja é dividida em 3 naves separadas por 6 pilares em que assentam 6 longos arcos.
Na nave da esquerda, abre-se a chamada capela dos Figueiredos, da invocação de Nª Sª dos Prazeres. Acerca do assunto, no tomo I, p. 325 das suas Memórias Arqueológicas… escreveu o ilustrado Abade de Baçal a seguinte informação:
- Esta capela, à mão direita de quem entra, é muito elegante, em estilo Renascença, com motivos ornamentológicos nos pés direitos e arco. No fecho deste há um escudo composto de cinco folhas de figueira em aspa e na arquitrave a seguinte inscrição de letras conjuntas e inclusas que quer dizer: Esta capela mandou fazer Pedro de Figueiredo alcaide-mor. 1585.
O mesmo abade, no tomo VI, p. 747 das mesmas Memórias, deixou copiado o referido brasão. E no vol. VI, p. 132, ao apresentar as origens da família Figueiredo, a outorga do brasão e a fundação do morgadio, acrescentou o seguinte:
- Pedro de Figueiredo casou com D. Violante Sarmento, sua prima, filha do alcaide-mor Lopo Sarmento (…) e de D. Maria de Morais Pimentel. Instituiu um morgadio, em 1585, com capela na igreja de Santa Maria, de Bragança e nomeou por primeiro administrador sua mulher D. Violante Sarmento.
Aquela primeira informação é também corroborada no Guia de Portugal, vol. 5, tomo II, p. 948, editado em 1970, pela Fundação Calouste Gulbenkian, sob a direcção de Santana Dionísio, nos seguintes termos:
- Na nave esquerda abre-se a capela dos Figueiredos, ornada com um portal da renascença, de linhas decadentes. O tímpano desta capela patenteia o brasão da família. O friso contém a seguinte inscrição: “Esta capela mandou fazer Pêro de Figueiredo, alcaide-mor. 585”.
Pois é exactamente aqui que começa a nossa Rota dos Judeus. É que esta capela será um caso verdadeiramente exemplar de como se pode alterar a história e apagar a memória.
Na verdade, esta capela da Senhora dos Prazeres não terá sido mandada construir por Pedro Figueiredo. Tão pouco este era alcaide-mor de Bragança em 1585 e nesta data casado com D. Violante Sarmento.
Muito embora ali fosse esculpido o brasão daquela família e a legenda referida, podemos mostrar que:
A capela da Sª dos Prazeres da igreja de Santa Maria, de Bragança, foi mandada construir por um cristão-novo chamado Rodrigo Lopes, em 1585. E nesta data Pedro de Figueiredo estava casado com Maria Lopes, uma mulher da nação hebreia. Vejamos:
Rodrigo Lopes terá nascido em Bragança por 1535, sendo filho de Diogo Lopes e Florença Manuel, ambos de origem hebreia. Tornou-se um grande empresário e um homem de peso, do ponto de vista social, pois conseguiu casar a sua filha (Maria Lopes) com um homem da nobreza de Bragança – Pedro de Figueiredo.
Seria também um homem de peso ao nível político e na crise dinástica que se seguiu à morte do rei D. Sebastião, terá seguido o partido do Prior do Crato. Isto porque o seu nome consta da pequena lista de moradores de Bragança que foram considerados indignos do perdão geral decretado pelo rei Filipe de Espanha.
Como quer que seja, Rodrigo Lopes foi preso pela Inquisição de Coimbra, em Fevereiro de 1591, por culpas de judaísmo. O seu processo tem o nº 2095 e no auto que contém a sessão da genealogia, pode ler-se o seguinte:
- Disse que tem uma filha única chamada Maria Lopes, que casou e tem casada com um homem muito principal, cristão-velho, que se chama Pêro de Figueiredo, filho de António de Figueiredo (…) o qual está de portas adentro com ele réu, de 18 anos a esta parte, comendo e bebendo todos a uma mesa.
Entremos então em casa de Rodrigo Lopes e vejamos quem nela está de portas adentro, verificando que se trata de um agregado familiar bem reduzido: ele próprio, a mulher Águeda Martins, a filha Maria Lopes e o genro Pedro Figueiredo, com ela casado há uns 18 anos.
Rodrigo Lopes foi então preso e, de seguida, foram mandadas prender a sua mulher e a filha. Esta não chegou a sê-lo porque estava prestes a parir e morreu de parto. – Pº 2987, de Maria Lopes.
A mãe, certamente transtornada e avisada de que ia ser presa, ter-se-á escondido, acabando, no entanto, por se meter a caminho de Coimbra para se apresentar no tribunal. - Pº 1712, de Águeda Martins.
Entretanto e por constar que o genro é que a mandara esconder e estaria tratando da sua fuga, foi também mandado apresentar-se na Inquisição de Coimbra onde foi ouvido e mandado regressar à terra. – Pº 480, de Pedro de Figueiredo.
Temos assim Pedro de Figueiredo em Bragança na casa do sogro e como único administrador dos seus teres e haveres.
Meses depois, a sogra morreu nos cárceres da Inquisição. Restava apenas o sogro que, depois de sair em auto-de-fé condenado em penas espirituais com cárcere e hábito perpétuo, ficou por Coimbra para ser bem instruído na religião cristã e a cumprir a sua penitência, aguardando ordem de regresso a casa.
E foi então que Pedro Figueiredo escreveu ao Rei Filipe e este enviou para a Mesa da Inquisição uma carta dizendo que a sua família era a mais nobre de Bragança e seria uma vergonha se mandassem para sua casa um homem que fora condenado em tribunal como judeu. Para bem da honra e fama de sua família e da religião cristã, seria conveniente que o mandassem a viver para outra terra, ao menos para uma aldeia do termo ou que fosse internado em uma ermida ou convento. Mas vejam a própria carta que foi transcrita para o processo:
- Diz Pêro de Figueiredo, morador na cidade de Bragança que ele foi casado com uma filha de Rodrigo Lopes, outrossim da dita cidade, o qual Rodrigo Lopes foi preso e penitenciado pelo Santo Ofício no auto passado que se fez na cidade de Coimbra e lhe mandaram que fosse cumprir a dita penitência à dita cidade de Bragança; E por isso se seguirá mui grande escândalo entre os seus parentes, que são muitos e dos mais nobres da cidade, como é Lopo Sarmento, irmão da mãe do suplicante, o qual é alcaide-mor da dita cidade, e os mais como são seus tios, irmãos e cunhados e primos, todos são os que governam a dita cidade; E além disso haverá e resultará da tal ida muitas brigas e dissenções, por haver bandos; E tomarão motivo seus inimigos de murmuração, vendo o dito Rodrigo Lopes diante dos ditos seus parentes; O que, vendo ele suplicante, fez petição a Sua Alteza pedindo-lhe haja por bem que o dito Rodrigo Lopes possa cumprir a dita penitência em qualquer lugar fora da dita cidade, o qual senhor remeteu o caso a esta Mesa.
Pede a V. A., havendo respeito ao sobredito, haja por bem o que dito tem, ou pelo menos nos arrabaldes da dita cidade, como são os lugares de Samil, S. Pedro, Alfaião, Cabeça Boa, Vila Nova, Vale de Lamas, que todos são arrabaldes, ou em uma ermida que está junto à dita cidade, que se chama Nossa Senhora do Loreto, que foi casa dos estudantes colegiais, ou em uma casa que está dos muros adentro que tem uma ermida, em que possa ouvir missa mandando-a dizer, ou que possa estar no mosteiro de S. Francisco da dita cidade…
Certamente que não se ficou pela carta, antes terá metido empenhos e cunhas, que também as haveria já naquele tempo e naquele tribunal.
E a verdade é que os inquisidores despacharam favoravelmente a petição de Pedro de Figueiredo e Rodrigo Lopes regressou a Bragança vestindo um saco amarelo (o sambenito) por cima da roupa e foi metido no mosteiro de S. Francisco.
Voltando a Rodrigo Lopes e à capela da Senhora dos Prazeres, vejamos agora o que consta do seu processo:
- Provará que por ele ser como é bom cristão, zeloso das coisas da Santa Madre Igreja de Roma e da Lei Evangélica, ele fez uma capela na igreja de Nossa Senhora da cidade de Bragança, a qual capela é da invocação de Nossa Senhora dos Prazeres e custou a ele réu mil e quinhentos cruzados, com um pontifical muito rico de brocado, a qual tem muito ornada e aparamentada de todo o necessário, com um capelão e obrigação de uma missa cada semana às quartas-feiras.
Não sabemos quanto tempo viveu Rodrigo Lopes no mosteiro de S. Francisco de Bragança, local estipulado como seu cárcere perpétuo. Imaginamo-lo recolhido em uma cela, fazendo vida de monge forçado e aos domingos descer à igreja, para assistir à missa, mas vestido com o desprezível e infamante saco amarelo. Imaginamos como os frades se sentiriam ofendidos por ter de albergar um judeu. Aliás, acabaram mesmo por escrever uma carta para a Inquisição, queixando-se que isso era moléstia e opressão que dava aos religiosos a presença de um sentenciado como judeu. Além de que, vivendo em uma cela no convento, podia ali fazer contratos e outras coisas indecentes. Pediam que fosse mandado cumprir a sua penitência em uma casa dentro da cidade, fora do mosteiro, indo às missas e mais pregações, como os mais penitenciados do Santo Ofício e que então eram muitos na paisagem humana da cidade.
Não cremos que a petição fosse atendida. E devemos dizer que revela alguma ingratidão dos mesmos frades, já que não sentiram moléstia e opressão quando o mesmo Rodrigo Lopes pagou 28 mil réis para o douramento de um altar na mesma igreja ou quando ofereceu uma dalmática de damasco verde para as celebrações litúrgicas no dito templo.
Deixemos, porém, R. Lopes no convento. Voltemos a Pedro de Figueiredo, que em 1593 ficou viúvo, usufrutuário único dos bens do sogro. Contava então 32 anos. Viúvo e rico, não lhe seria difícil arranjar pretendente para novo casamento. E a eleita foi exactamente uma das filhas de seu tio, o alcaide-mor D. Lopo, Violante Sarmento, de seu nome. Acrescente-se que duas outras irmãs de Violante foram metidas a freiras, o que bem convinha para acrescentar bens ao casal.
O enlace de Pedro e Violante ter-se-á realizado depois da morte do velho alcaide, a qual sucedeu por 1597. Ao menos é isso que se depreende de um documento existente no arquivo de Simancas, em Castela (Secretarias Provincilaes 1457, fl. 30) de que Francisco Manuel Alves nos dá notícia nos seguintes termos:
- Pedro de Figueiredo, morador em Bragança. No Conselho Real de 27 de Julho de 1600 foi apresentada uma petição do duque de Bragança a fim de ser feita mercê do hábito de Cristo a Pedro de Figueiredo “que he pessoa das qualidades necessárias, e a que elle tem obrigação por casar com D. Violante, filha de Lopo Sarmento, defunto, seu alcaide-mor da dita cidade”.
Como se vê, ao menos o hábito de Cristo alcançou-o Pedro Figueiredo em virtude deste segundo casamento. E também terá sido herdeiro do mesmo sogro no cargo de alcaide-mor, para que terá sido nomeado por carta do duque de Bragança de 24 de Agosto de 1603 – como também informa o Abade de Baçal no tomo I, p. 442 das suas Memórias, acrescentando que já antes, porém, fora agraciado pelo mesmo duque D. Teodósio II com uma tença de 20 mil réis anuais, a ter efeito a partir de 13 de Fevereiro de 1600.
Resta agora explicar como se colocou o brasão dos Figueiredos e se escreveu na capela da Sª dos Prazeres a legenda dizendo que esta capela mandou construir Pedro de Figueiredo, alcaide-mor. 1585.
Certamente que não foi em sua vida que tal se fez, já que a memória do construtor da capela era ainda fresca e ele próprio não reclamaria para si o título de alcaide-mor naquela data.
A verdade é que não temos qualquer documento que prove exactamente quando o brasão e a legenda foram esculpidos na capela. Mas temos uma explicação muito plausível.
Recordam-se de termos dito que a igreja era em estilo românico e que foi ampliada e remodelada entre 1700 e 1715? E que os elementos então acrescentados à igreja eram em estilo barroco? E que também a talha metida na capela dos Figueiredos era de estilo barroco?
Acrescentemos agora que, nessa altura, o dono da capela e alcaide-mor do castelo era Lázaro Jorge de Figueiredo Sarmento, neto de Pedro Figueiredo.
Naturalmente que, procedendo-se a obras de tal envergadura na igreja, seria também uma óptima oportunidade, ou até uma exigência social a realização de obras na capela. E seria também a oportunidade ideal para se proceder à limpeza no nome do judeu fundador da capela, esculpindo na madeira então colocada o brasão dos Figueiredos e a legenda sobre o seu pseudo construtor.
Aliás, foi também nessa altura que seu primo, António de Figueiredo Sarmento conseguiu do rei D. João V a carta de brasão e fidalguia e a aprovação do morgadio de Santo António do Toural a que estava vinculada a Quinta da Rica Fé.
De resto tudo seria bem esclarecido se alguém apresentasse também a carta de fundação do morgadio dos Figueiredos cuja cabeça era a capela da Sª dos Prazeres. Acaso datará da mesma época.
Acresce ainda que todas as informações sobre a família que chegaram até nós foram coligidas duas décadas depois das mesmas obras, por um membro da mesma família – José Cardoso Borges que, naturalmente, não tinha qualquer interesse, antes pelo contrário, em revelar qualquer nódoa em sua nobreza e fidalguia.
Bom, mas estas são questões que os genealogistas e historiadores devem deslindar. Por nós procuramos apenas ler os processos da Inquisição e deles aportar elementos para ajudar a definir uma Rota dos Judeus em Bragança.
Fernanda Guimarães
António Júlio Andrade

sábado, 17 de novembro de 2012

Manuel da Silveira, mercador de sedas, com loja aberta na Rua Nova em Lisboa

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
 

 Por 1650, na Rua Nova, em Lisboa, ganhava alguma relevância a loja dos Silveira, originários de Abrantes. Eram dois irmãos os proprietários da loja: Manuel e Estêvão. Um terceiro irmão era já falecido e a irmã Violante estava casada com um cristão velho, de boa linhagem, contador na Mesa da Consciência – um tribunal superior que funcionava na Corte, criado pelo rei D. João III e que tratava dos assuntos relacionados com as ordens religiosas e militares, capelas, mosteiros, universidade, etc. Tinham uma segunda irmã, Isabel Soares, que era casada com o mercador Marcos Dias Brandão. A vida matrimonial destes é que não corria lá muito bem, havendo notícias de infidelidade de Isabel ao marido. Não sabemos se foi por causa disso que ele a deixou e se abalou para o Brasil, fixando morada na Baía de Todos os Santos. E porque se tratava de uma família da boa sociedade burguesa, embora cristã nova, Isabel terá sido obrigada a meter-se no Recolhimento de S. Cristóvão, sendo o filho único do casal enviado para casa da avó em Abrantes. Em defesa do bom nome da família, parece mesmo que os dois irmãos tentaram apagá-la “mandando dar-lhe peçonha dando para isso dinheiro” – a fazer fé no testemunho de Manuel da Silveira.
A verdade é que, vivendo hospedada no Recolhimento, Isabel foi presa pela Inquisição, em Setembro de 1656, acusada de seguir a lei de Moisés. O processo é deveras interessante para o estudo deste tipo de instituições especialmente destinadas a recolher, em regime de clausura, mulheres da nobreza que, em defesa da unidade das heranças das famílias, não deveriam casar mas que também não estavam dispostas a aceitar os rigores de um convento de freiras, nem davam garantias de um viver em sociedade sem cair nos braços de algum Romeu. A avaliar pelo mobiliário, roupa e outros objectos de uso pessoal que ali tinha, fica-se com a ideia de que o apartamento de Isabel do Recolhimento era uma verdadeira suite em hotel de luxo, contando até com uma criada privativa. No processo também sobrelevam as pequenas tricas entre as recolhidas, “as cizânias e enredos, de parte a parte, como ordinariamente sucede entre mulheres”.
Mas não é o processo de Isabel Soares que agora nos interessa, mas o impacto da sua prisão na vida dos mercadores seus irmãos, em especial na de Manuel da Silveira que nos parece ser o líder do grupo empresarial. Certamente que a prisão ficou pesando como uma espada de Dâmocles sobre a sua cabeça. Mais cedo ou mais tarde, as razões que levaram a irmã à cadeia podiam levá-lo a ele.
E também preso nas cadeias da Inquisição de Lisboa se encontrava então o mercador Diogo Álvares, de quem se falou num dos últimos textos deste jornal. E também ele representava um sério risco para Manuel da Silveira. Sim, também ele o podia denunciar, até mesmo por vingança. Recordam-se os leitores que Diogo era viúvo? Pois foi ele próprio que matou a mulher, dando-lhe uma dose de veneno? E matou-a porque ela o atraiçoara metendo-se em relações amorosas com Manuel da Silveira? Dizia-se até que um filho que ela dera à luz não era do marido mas do Silveira.
E outras prisões tinham sido feitas por aquele tampo no círculo de amigos e conhecidos de Manuel da Silveira, nomeadamente um Gonçalo Rodrigues da Cunha, com sua mulher e filhos. E havia quem dissesse “que esta gente do Gonçalo Rodrigues não havia de deixar nem os postes da Rua Nova que não trouxesse à Inquisição”. Quer isto dizer que a generalidade dos moradores daquela rua eram judaizantes e todos corriam o risco de ser presos.
Contudo, o perigo maior espreitava de outro lado e tinha outro rosto: o de Manuel Cordeiro, um denunciante da pior espécie, um verdadeiro espia, metido entre os da sua nação. Estagiara anos antes na mesma cadeia, mas puseram-no em liberdade sem ir a qualquer auto de fé e declarando-o inocente.
Pois, este homem ter-se-á sabido insinuar e obtido a confiança de Manuel e Estêvão da Silveira, que o tinham por “conhecido e amigo há tantos anos” e com ele desabafavam e tinham conversas íntimas. Como aconteceu naquela tarde de 24 de Outubro de 1657, depois que fecharam a loja. Os irmãos Silveira contaram-lhe que, no último auto de fé que houvera em Lisboa, em Outubro do ano anterior, saíra processada uma mulher que estivera presa com sua irmã. E que essa mulher trouxera um recado que viera dar-lho ultimamente. E o recado era que a sua irmã os não tinha denunciado aos inquisidores e se mantinha negativa. Mas que não sabia se poderia aguentar até ao fim. Por isso, os aconselhava a que fugissem. E em prova de que a mulher falava verdade, trouxera um “gibão ou colete” que Isabel lhe confiara e ela trouxe vestido da prisão.
Manuel Cordeiro bem tentou arrancar-lhe o nome da tal mulher mas não conseguiu. Mas haveria de continuar a tentar, junto de outras pessoas das relações dos Silveira que estes… não demorariam a ser por ele denunciados e mandados prender pelo tribunal do Santo Ofício, como se verá.
Por agora continuemos a escutar aquela conversa dos Silveira com o Cordeiro e este a insinuar que o perigo era real e eles tinham dois caminhos à escolha. Um deles era a fuga para o estrangeiro, tal como a irmã aconselhava, no caso de terem culpas. O outro era apresentarem-se na Inquisição e provar que estavam inocentes, que os senhores logo os mandariam embora, como, aliás, acontecera consigo próprio.
Responderam os Silveira que não lhes convinha ausentarem-se do reino, pois que tudo tinham empenhado em fazendas que esperavam chegassem do Brasil na próxima frota – entre 40 e 50 mil cruzados, 25 a 30 contos de réis, o correspondente ao orçamento da câmara de Lisboa por alguns anos!
Além de que, por “uma negra lei que no tribunal do Santo Ofício se tinha feito havia pouco tempo” se fugissem, todos os seus bens seriam sequestrados. Depois… “haveria de meter-se o diabo no corpo de sua irmã” para os denunciar?! – terá comentado o Manuel, com alguma incredulidade e espanto.
Por outro lado, Manuel da Silveira era o maior benemérito da sua paróquia e espantou meia Lisboa quando mandou vir de Milão, Itália, um dossel para o altar do Santíssimo Sacramento da matriz, a igreja da Conceição, um dossel “de brocado de três altos, o mais rico que há nesta cidade”. E isto entre muitas outras ofertas pias que os irmãos Silveira faziam. E alguém poderia duvidar da religião de um homem que todos os dias do ano fazia rezar missas na paróquia, como era o caso de Manuel da Silveira?!
Seria mesmo por devoção que Manuel da Silveira fazia tudo isto? Ou seria “para ir assim vivendo com o mundo”? Ele acreditaria mesmo no Santíssimo Sacramento ou mandava rezar missas “contra a vontade a festejar um bocado de pão”?
Estas últimas são palavras que Manuel Cordeiro disse ter ouvido da boca de Manuel da Silveira naquela conversa de que vimos falando e que ele, poucos dias depois, foi contar aos inquisidores e consta do processo instaurado a Manuel da Silveira, que, duas semanas depois, em 7 de Novembro de 1657, decidiu seguir o conselho do denunciante e apresentar-se no tribunal do Santo Ofício e ali ficou preso.
FONTES
Inquisição de Lisboa, processos de Manuel da Silveira e de Isabel Soares.
 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 21

Camille Pizarro, o famoso mestre do impressionismo ...
António Gabriel Pissarro. Pelos anos de 1747, na cidade de Bragança impunha-se uma florescente e laboriosa geração de cristãos-novos. Do ponto de vista da economia, nunca como então crescera o fabrico e o comércio das sedas, com a Rua Direita transformada em um autêntico formigueiro de micro e, pequenas unidades industriais, extraordinariamente competitivas e geradoras de riqueza. No seio dessa comunidade, brilhou a estrela de António Gabriel Pissarro. A ponto de um seu contemporâneo ter proferido o seguinte testemunho:
- Acorriam a ele como filhos a pai!
Nascido em 1716, era filho de Pedro Álvares Pissarro e Luzia Nunes, que ambos conheceram as prisões do santo ofício, sendo ele acusado de ser dogmatista e rabi. Em Bragança fez António os estudos preparatórios no colégio dos Jesuítas, posto o que ingressou na universidade de Coimbra onde se licenciou em direito. Regressado a Bragança, abriu um escritório de advogado, assim iniciando uma brilhante carreira.
Na terra, havia mais de uma dúzia de advogados e padres formados em cânones, que nesses tempos existia uma ligação muito grande entre as varas judiciais eclesiásticas e civis. E uma grande parte desses profissionais juntou-se na promoção de um processo perante o juiz de fora da cidade, visando impedir o dr. António Pissarro de exercer a sua profissão nos tribunais da comarca, baseados em argumentos de natureza ética. Parece que o instigador dessa demanda e da campanha de contestação ao dr. Pissarro foi o padre/advogado António Carlos Vilas Boas que tinha sido seu colega na universidade de Coimbra e em Bragança conseguiu o estratégico emprego de notário do fisco e do santo ofício, por ele passando o registo de todas as penhoras e confiscos de bens aos processados pela inquisição. Se bem que perdessem o processo no juízo de Bragança, os inimigos de Pissarro recorreram para a Relação do Porto, onde voltaram a perder e foram condenados a pagar as custas. E a aura do nosso advogado mais cresceu, medrando em paralelo as invejas e os ódios recalcados. E fatal seria que acabasse preso pela inquisição, acusado não apenas de práticas judaicas mas ainda de ser, tal como o pai, entretanto falecido, o rabi da sinagoga que os “judeus” de Bragança faziam em casa de António Rodrigues Gabriel, seu parente.
Não vamos aqui falar do seu processo. Apenas diremos que foram dois longos anos de sofrimento. E uma nota interessante: em sua defesa, acorreu o comissário da inquisição de Bragança, padre Morais Antas, que fez uma informação para Coimbra falando das invejas do padre Vilas Boas e outros e que a acusação partia apenas do facto de o dr. Pissarro ser de origem hebreia e não de qualquer infracção às leis da igreja.
Finalmente, refira-se que na família deste ilustre advogado de Bragança viria a nascer, em 1831, em St. Tomas, uma das Antilhas, um dos maiores pintores do século XIX, aquele a quem Henry Matisse chamava o “Moisés da pintura contemporânea” e acerca de quem Paul Cézanne dizia:
- Todos descendemos de Pissarro!
Estamos falando, naturalmente, de Camille Pizarro, o famoso mestre do impressionismo que faleceu em Paris em 1903.
António Júlio Andrade

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 20

Torre de Moncorvo .Foto A.F.F.M.
Manuel Fernandes de Miranda. Nasceu em Torre de Moncorvo e foi para França, fugido da inquisição, instalando-se em Bordéus por 1650. Anos depois, em 1657, ele e o irmão José de Medina aparecem taxados entre os mais ricos mercadores sefarditas da cidade, cada um com 3 000 L. Não desprezando qualquer ramo de comércio, os seus investimentos dirigiram-se principalmente para os transportes marítimos. E os seus barcos tanto iam para a pesca da baleia e do bacalhau nos mares da Gronelândia, como para o Brasil e as Índias. E aparecem também no tráfico negreiro, sendo conhecidos dois contratos assinados por Manuel Fernandes. Um deles, datado de 8.12.1696, refere-se à compra e transporte de 500 “peças” da praça de S. João Baptista, na Costa da Guiné para o Suriname. O outro, datado de 3.12.1697, respeita ao transporte de 101 escravos de Angola para o Suriname, em preço de 201 florins por cabeça. Juntamente com outros mercadores sefarditas de Bordéus participou na empresa que teve a seu cargo a abertura de um canal de navegação pelo rio Garona, entre Bordéus e Toulouse, permanecendo depois na exploração dos transportes fluviais. Especializou-se mesmo no transporte de passageiros e mercadorias que, vindos do Norte ou atravessando os Pirinéus, se dirigiam para as partes do Mediterrâneo, nomeadamente Marselha, Roma e Livorno. Este fluxo migratório e turístico ganhou particular intensidade e fez multiplicar os lucros de Manuel Fernandes pelos anos de 1665, quando apareceu, no Médio Oriente, o falso messias Sabbatai Tsevi. Em simultâneo, abriu uma casa comercial em Toulouse, dirigida por seus filhos José e Jerónimo de Miranda, casa que vendia para os retalhistas de toda a região do Languedoc de França. Para além de mercador de grosso trato e armador de barcos, Manuel Fernandes de Miranda afirmou-se como um dos grandes banqueiros de Bordéus. Aliás, esta praça em breve se revelaria demasiado pequena para as suas ambições, pelo que, ao início da década de 1670, se transferiu para a grande metrópole que então era a cidade de Amesterdão. Ironia da história: tornou-se no principal cobrador de indemnizações pagas pelo governo de França às vítimas do célebre “auto de fé” de Toulouse em que se contou o seu sobrinho Manuel Nunes de Miranda.
António Júlio Andrade

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

TORRE DE MONCORVO – TURISMO CULTURAL - ROTA DOS JUDEUS


O património de uma terra é constituído não apenas pelos monumentos de arqueologia e de arquitetura, mas também pelas artes tradicionais, culinária, costumes… e muito especialmente pelos homens, pelas gerações e gerações de homens e mulheres que       nela habitaram e deixaram em herança um outro património, ainda mais valioso – o património genético.
E quem, entre nós, poderá dizer que em suas veias não corre uma gota de sangue judeu? Parafraseando Jorge Luís Borges, diremos:
      Nada ou muy poco sé de mis mayores
    Portugueses, los marranos: vaga gente
    Que prosigue en mi carne, oscuramente
   Sus hábitos, rigores e temores.

Sem dúvida que a herança judaica e marrana é muito forte em Torre de Moncorvo. E nós não podemos desprezar esse património. Trata-se de um ato de respeito por nós próprios e de gratidão pelos nossos antepassados.
E é também um património cultural que devemos promover, com vista ao fomento do turismo. E foi também com esse objetivo que nós escrevemos este livro e nele incluímos uma espécie de Rota dos Judeus. Vamos percorrê-la:
1. A Casa da Sinagoga

. Até 1496 os judeus viviam em Torre de Moncorvo separados dos cristãos, num arruamento próprio a que chamavam judiaria e que em Torre de Moncorvo se situava nas traseiras da igreja da Misericórdia. E por esse espaço pagavam uma renda que os reis de Portugal concessionaram aos Senhores de Sampaio. Depois que a religião judaica foi proibida, as judiarias extintas e as sinagogas encerradas, aquele espaço tomou o nome de Rua Nova. Nessa rua ainda hoje existe uma casa daqueles tempos que a tradição popular sempre identificou como sendo a sinagoga dos judeus.
 2. A Casa da Inquisição
 
                                             
. Chamam-lhe a casa da inquisição por nela ficarem instalados os inquisidores e os comissários do santo ofício quando se deslocavam a Torre de Moncorvo em visitação, a inquirir testemunhas, fazer devassas e outras diligências. É Também conhecida por Casa dos Jesuítas pois que na fachada principal ostenta o emblema desta ordem religiosa, esculpido em pedra de granito. Porventura terá em tempos funcionado como colégio onde os frades daquela ordem e responsáveis pela reitoria da igreja matriz ensinavam gramática, filosofia e latim.
  3. A Casa dos Navarros
 
 
Ao findar do primeiro quartel do século XX, foi lançada, a partir do Porto, pelo capitão Barros Basto, a chamada Obra do Resgate, com o objetivo de promover o regresso dos marranos ao judaísmo. Tal movimento teve particular desenvolvimento na região de Trás-os-Montes e também na vila de Torre de Moncorvo. E seria no rés do chão da casa da família Navarro, ao Rossio, que a comunidade judaica se reunia em sinagoga, razão por que também lhe chamam,a sinagoga nova
4. A Casa da Pelicana 
 

É assim conhecida esta casa sita na rua do Prior do Crato, porque nela terá nascido Violante Gomes, a Pelicana, de alcunha, a qual foi mãe de D. António, o malogrado pretendente ao trono de Portugal. Acerca do assunto, escreveu Carvalho da Costa, em 1706, que “ainda de presente se apontam as casas em que nasceu e se conhecem pessoas que lhe são conjuntas em sangue”. A alcunha de Pelicana tê-la-á ganho pelo facto de usar um lenço na cabeça com a pintura daquela ave mítica para judeus e marranos
    5. A Igreja da Misericórdia
  
Vasco Pires do castelo, cristão-novo preso pela inquisição de Lisboa “foi o recebedor do dinheiro que se dava de esmola quando se fez a casa da misericórdia”, por meados do século XVI, conforme contou aos inquisidores. E o dr. André Nunes, advogado, igualmente prisioneiro da inquisição, terá sido um dos primeiros provedores daquela santa casa. E seria também o líder do movimento de apoio ao prior do Carto para Rei de Portugal, na área da comarca de Torre de Moncorvo, razões por que incluímos esta edificação na Rota dos Judeus, no traçado urbano da vila.
 6. A Rua dos Sapateiros
 
. Rua de S. Bartolomeu ou Rua dos Sapateiros? O mesmo arruamento aparece com os dois nomes. Seria o primeiro mais antigo e terá cedido lugar ao segundo, devido à concentração de sapateiros e curtidores de couros naquela rua? Facto é que, pelos anos de 600, a Rua dos Sapateiros era praticamente toda povoada por gente da nação. E Manuel Rodrigues Isidro teria a maior e mais opulenta casa da rua, recebida em dote de casamento, avaliada em 200 mil réis. Seria aquela mesma casa que dois séculos e meio depois, foi adquirida por D. Antónia Adelaide Ferreira, “o melhor solar de Moncorvo”, destruída por um incêndio em 1904?
 7. O Tríptico da Santa Parentela
 
. Manuel Rodrigues Isidro, um destacado mercador Portuense, era também um dos grandes importadores nacionais de arte da Flandres. Quando foi preso, tinha em armazém 18 ou 24 (ele não sabia ao certo) painéis de madeira importados de Bruxelas. Terá sido por seu intermédio que o famoso tríptico da santa parentela veio para a igreja matriz de Torre de Moncorvo? Não sabemos. Mas temos informação que o mercador Pero Henriques Julião, antes e 1618, “à sua custa, em um retábulo que se fez na igreja matriz de Torre de Moncorvo no altar de nossa senhora do Rosário, mandou fazer um painel do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo”. Por estas e outras muitas razões, pensamos que o dinheiro dos marranos foi de fundamental importância para a construção do grandioso templo e aquisição do seu mobiliário e por ele deve, naturalmente, passar a Rota dos Judeus
8. A Praça do Município
 
 

Espaço comercial por excelência, a praça do município apresentava-se em Torre de Moncorvo, como o espaço mais desejado por judeus e marranos para a realização de feira. O caso terá mesmo originado uma luta política entre o poder municipal e os mercadores judeus liderados por Juça Marcos, rendeiro do almoxarifado de Torre de Moncorvo, reivindicando estes que a feira se fizesse na praça e os vereadores dentro das muralhas da vila. Além de que, a generalidade das lojas comerciais em redor da praça pertenciam a mercadores da nação hebreia. E sabemos também onde eras as casas da doceira e do ferrador, por 1640, ambos daquela gente, em lugar estratégico da praça.
 9. Cobrideiras de Amêndoa
                                      
 
Da culinária judaica e marrana é farta a herança e variada, nomeadamente ao nível das iguarias. E muito em particular, a doçaria E nenhuma é mais típica e genuína do que as celebradas amêndoas cobertas de Torre de Moncorvo. E também temos fortes indícios de que os chamados canelões de Moncorvo, especialmente confecionados para os casamentos, serão outra especialidade herdada da doçaria judaica e marrana. E facto é também que hoje, nas pastelarias de Torre de Moncorvo continuam a fabricar-se bolos de amêndoa e farinha em tudo iguais aos fartéis que os descobridores portugueses ofereceram aos indígenas na chegada ao Brasil e eles aprenderam a fazer e também continuam com idêntica receita.
10. Chafariz de Horta.
 
 
Bordejando a vila de Torre de Moncorvo, pelo nascente, a Quinta do Montezinho e o Olival das Bolas constituíam, no século XVII, um complexo agrícola muito interessante. E o chafariz que se apresenta terá sido construído pela família de Manuel Rodrigues Pereira e para além de regar aquele mimoso pedaço de terra, alimentava um lagar de azeite, o primeiro de que há notícia nesta terra. E tudo era propriedade da industriosa gente da nação hebreia.
  11. O Lagar da Cera de Felgueiras
 
 
A Rota dos Judeus deverá prosseguir pelas aldeias do termo, que em várias existem marcas judaicas. Provado está também que os marranos dominavam a indústria moageira e de panificação no concelho de Torre de Moncorvo, sendo proprietários da maioria dos moinhos existentes na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho). O mesmo na indústria da tecelagem do linho e da seda, ou do fabrico do sabão. E o lagar da cera de Felgueiras é o testemunho vivo dessa gente que herdou dos almocreves marranos o conhecimento dos trilhos mercantis de Trás-os-Montes e das Beiras e os manteve transitáveis até aos nossos tempos.
Bem vindos a Torre de Moncorvo!
 
In  OS ISIDROS – A epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo.