Inquisição de Lisboa, processos de Manuel da Silveira e de Isabel Soares.
sábado, 17 de novembro de 2012
Manuel da Silveira, mercador de sedas, com loja aberta na Rua Nova em Lisboa
Por: António
J. Andrade
Maria F. Guimarães
Por 1650, na Rua Nova, em Lisboa,
ganhava alguma relevância a loja dos Silveira, originários de Abrantes. Eram
dois irmãos os proprietários da loja: Manuel e Estêvão. Um terceiro irmão era
já falecido e a irmã Violante estava casada com um cristão velho, de boa
linhagem, contador na Mesa da Consciência – um tribunal superior que funcionava
na Corte, criado pelo rei D. João III e que tratava dos assuntos relacionados
com as ordens religiosas e militares, capelas, mosteiros, universidade, etc.
Tinham uma segunda irmã, Isabel Soares, que era casada com o mercador Marcos
Dias Brandão. A vida matrimonial destes é que não corria lá muito bem, havendo
notícias de infidelidade de Isabel ao marido. Não sabemos se foi por causa
disso que ele a deixou e se abalou para o Brasil, fixando morada na Baía de
Todos os Santos. E porque se tratava de uma família da boa sociedade burguesa,
embora cristã nova, Isabel terá sido obrigada a meter-se no Recolhimento de S.
Cristóvão, sendo o filho único do casal enviado para casa da avó em Abrantes.
Em defesa do bom nome da família, parece mesmo que os dois irmãos tentaram
apagá-la “mandando dar-lhe peçonha dando para isso dinheiro” – a fazer fé no
testemunho de Manuel da Silveira.
A verdade é que, vivendo
hospedada no Recolhimento, Isabel foi presa pela Inquisição, em Setembro de
1656, acusada de seguir a lei de Moisés. O processo é deveras interessante para
o estudo deste tipo de instituições especialmente destinadas a recolher, em
regime de clausura, mulheres da nobreza que, em defesa da unidade das heranças
das famílias, não deveriam casar mas que também não estavam dispostas a aceitar
os rigores de um convento de freiras, nem davam garantias de um viver em
sociedade sem cair nos braços de algum Romeu. A avaliar pelo mobiliário, roupa
e outros objectos de uso pessoal que ali tinha, fica-se com a ideia de que o
apartamento de Isabel do Recolhimento era uma verdadeira suite em hotel de
luxo, contando até com uma criada privativa. No processo também sobrelevam as
pequenas tricas entre as recolhidas, “as cizânias e enredos, de parte a parte,
como ordinariamente sucede entre mulheres”.
Mas não é o processo de Isabel
Soares que agora nos interessa, mas o impacto da sua prisão na vida dos
mercadores seus irmãos, em especial na de Manuel da Silveira que nos parece ser
o líder do grupo empresarial. Certamente que a prisão ficou pesando como uma
espada de Dâmocles sobre a sua cabeça. Mais cedo ou mais tarde, as razões que
levaram a irmã à cadeia podiam levá-lo a ele.
E também preso nas cadeias da
Inquisição de Lisboa se encontrava então o mercador Diogo Álvares, de quem se
falou num dos últimos textos deste jornal. E também ele representava um sério
risco para Manuel da Silveira. Sim, também ele o podia denunciar, até mesmo por
vingança. Recordam-se os leitores que Diogo era viúvo? Pois foi ele próprio que
matou a mulher, dando-lhe uma dose de veneno? E matou-a porque ela o atraiçoara
metendo-se em relações amorosas com Manuel da Silveira? Dizia-se até que um
filho que ela dera à luz não era do marido mas do Silveira.
E outras prisões tinham sido
feitas por aquele tampo no círculo de amigos e conhecidos de Manuel da Silveira,
nomeadamente um Gonçalo Rodrigues da Cunha, com sua mulher e filhos. E havia
quem dissesse “que esta gente do Gonçalo Rodrigues não havia de deixar nem os
postes da Rua Nova que não trouxesse à Inquisição”. Quer isto dizer que a
generalidade dos moradores daquela rua eram judaizantes e todos corriam o risco
de ser presos.
Contudo, o perigo maior
espreitava de outro lado e tinha outro rosto: o de Manuel Cordeiro, um
denunciante da pior espécie, um verdadeiro espia, metido entre os da sua nação.
Estagiara anos antes na mesma cadeia, mas puseram-no em liberdade sem ir a
qualquer auto de fé e declarando-o inocente.
Pois, este homem ter-se-á sabido
insinuar e obtido a confiança de Manuel e Estêvão da Silveira, que o tinham por
“conhecido e amigo há tantos anos” e com ele desabafavam e tinham conversas
íntimas. Como aconteceu naquela tarde de 24 de Outubro de 1657, depois que
fecharam a loja. Os irmãos Silveira contaram-lhe que, no último auto de fé que
houvera em Lisboa, em Outubro do ano anterior, saíra processada uma mulher que
estivera presa com sua irmã. E que essa mulher trouxera um recado que viera
dar-lho ultimamente. E o recado era que a sua irmã os não tinha denunciado aos
inquisidores e se mantinha negativa. Mas que não sabia se poderia aguentar até ao
fim. Por isso, os aconselhava a que fugissem. E em prova de que a mulher falava
verdade, trouxera um “gibão ou colete” que Isabel lhe confiara e ela trouxe
vestido da prisão.
Manuel Cordeiro bem tentou
arrancar-lhe o nome da tal mulher mas não conseguiu. Mas haveria de continuar a
tentar, junto de outras pessoas das relações dos Silveira que estes… não
demorariam a ser por ele denunciados e mandados prender pelo tribunal do Santo
Ofício, como se verá.
Por agora continuemos a escutar
aquela conversa dos Silveira com o Cordeiro e este a insinuar que o perigo era
real e eles tinham dois caminhos à escolha. Um deles era a fuga para o
estrangeiro, tal como a irmã aconselhava, no caso de terem culpas. O outro era
apresentarem-se na Inquisição e provar que estavam inocentes, que os senhores
logo os mandariam embora, como, aliás, acontecera consigo próprio.
Responderam os Silveira que não
lhes convinha ausentarem-se do reino, pois que tudo tinham empenhado em
fazendas que esperavam chegassem do Brasil na próxima frota – entre 40 e 50 mil
cruzados, 25 a 30 contos de réis, o correspondente ao orçamento da câmara de
Lisboa por alguns anos!
Além de que, por “uma negra lei
que no tribunal do Santo Ofício se tinha feito havia pouco tempo” se fugissem,
todos os seus bens seriam sequestrados. Depois… “haveria de meter-se o diabo no
corpo de sua irmã” para os denunciar?! – terá comentado o Manuel, com alguma
incredulidade e espanto.
Por outro lado, Manuel da
Silveira era o maior benemérito da sua paróquia e espantou meia Lisboa quando
mandou vir de Milão, Itália, um dossel para o altar do Santíssimo Sacramento da
matriz, a igreja da Conceição, um dossel “de brocado de três altos, o mais rico
que há nesta cidade”. E isto entre muitas outras ofertas pias que os irmãos
Silveira faziam. E alguém poderia duvidar da religião de um homem que todos os
dias do ano fazia rezar missas na paróquia, como era o caso de Manuel da
Silveira?!
Seria mesmo por devoção que
Manuel da Silveira fazia tudo isto? Ou seria “para ir assim vivendo com o mundo”?
Ele acreditaria mesmo no Santíssimo Sacramento ou mandava rezar missas “contra a
vontade a festejar um bocado de pão”?
Estas últimas são palavras que
Manuel Cordeiro disse ter ouvido da boca de Manuel da Silveira naquela conversa
de que vimos falando e que ele, poucos dias depois, foi contar aos inquisidores
e consta do processo instaurado a Manuel da Silveira, que, duas semanas depois,
em 7 de Novembro de 1657, decidiu seguir o conselho do denunciante e
apresentar-se no tribunal do Santo Ofício e ali ficou preso.
FONTES
Inquisição de Lisboa, processos de Manuel da Silveira e de Isabel Soares.
Inquisição de Lisboa, processos de Manuel da Silveira e de Isabel Soares.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 21
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| Camille Pizarro, o famoso mestre do impressionismo ... |
António Gabriel Pissarro. Pelos anos de 1747, na cidade de Bragança
impunha-se uma florescente e laboriosa geração de cristãos-novos. Do ponto de
vista da economia, nunca como então crescera o fabrico e o comércio das sedas,
com a Rua Direita transformada em um autêntico formigueiro de micro e, pequenas
unidades industriais, extraordinariamente competitivas e geradoras de riqueza.
No seio dessa comunidade, brilhou a estrela de António Gabriel Pissarro. A
ponto de um seu contemporâneo ter proferido o seguinte testemunho:
- Acorriam a ele como filhos a pai!
Nascido em 1716, era filho de
Pedro Álvares Pissarro e Luzia Nunes, que ambos conheceram as prisões do santo
ofício, sendo ele acusado de ser dogmatista e rabi. Em Bragança fez António os
estudos preparatórios no colégio dos Jesuítas, posto o que ingressou na
universidade de Coimbra onde se licenciou em direito. Regressado a Bragança,
abriu um escritório de advogado, assim iniciando uma brilhante carreira.
Na terra, havia mais de uma dúzia
de advogados e padres formados em cânones, que nesses tempos existia uma
ligação muito grande entre as varas judiciais eclesiásticas e civis. E uma
grande parte desses profissionais juntou-se na promoção de um processo perante
o juiz de fora da cidade, visando impedir o dr. António Pissarro de exercer a sua
profissão nos tribunais da comarca, baseados em argumentos de natureza ética.
Parece que o instigador dessa demanda e da campanha de contestação ao dr.
Pissarro foi o padre/advogado António Carlos Vilas Boas que tinha sido seu
colega na universidade de Coimbra e em Bragança conseguiu o estratégico emprego
de notário do fisco e do santo ofício, por ele passando o registo de todas as
penhoras e confiscos de bens aos processados pela inquisição. Se bem que
perdessem o processo no juízo de Bragança, os inimigos de Pissarro recorreram
para a Relação do Porto, onde voltaram a perder e foram condenados a pagar as
custas. E a aura do nosso advogado mais cresceu, medrando em paralelo as
invejas e os ódios recalcados. E fatal seria que acabasse preso pela inquisição,
acusado não apenas de práticas judaicas mas ainda de ser, tal como o pai,
entretanto falecido, o rabi da sinagoga que os “judeus” de Bragança faziam em
casa de António Rodrigues Gabriel, seu parente.
Não vamos aqui falar do seu
processo. Apenas diremos que foram dois longos anos de sofrimento. E uma nota
interessante: em sua defesa, acorreu o comissário da inquisição de Bragança,
padre Morais Antas, que fez uma informação para Coimbra falando das invejas do
padre Vilas Boas e outros e que a acusação partia apenas do facto de o dr.
Pissarro ser de origem hebreia e não de qualquer infracção às leis da igreja.
Finalmente, refira-se que na
família deste ilustre advogado de Bragança viria a nascer, em 1831, em St.
Tomas, uma das Antilhas, um dos maiores pintores do século XIX, aquele a quem
Henry Matisse chamava o “Moisés da pintura contemporânea” e acerca de quem Paul
Cézanne dizia:
- Todos descendemos de Pissarro!
Estamos falando, naturalmente, de
Camille Pizarro, o famoso mestre do impressionismo que faleceu em Paris em
1903.
António Júlio Andrade
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 20
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| Torre de Moncorvo .Foto A.F.F.M. |
Manuel Fernandes de
Miranda. Nasceu em
Torre de Moncorvo e foi para França, fugido da inquisição, instalando-se em
Bordéus por 1650. Anos depois, em 1657, ele e o irmão José de Medina aparecem
taxados entre os mais ricos mercadores sefarditas da cidade, cada um com 3 000
L. Não desprezando qualquer ramo de comércio, os seus investimentos
dirigiram-se principalmente para os transportes marítimos. E os seus barcos
tanto iam para a pesca da baleia e do bacalhau nos mares da Gronelândia, como
para o Brasil e as Índias. E aparecem também no tráfico negreiro, sendo
conhecidos dois contratos assinados por Manuel Fernandes. Um deles, datado de
8.12.1696, refere-se à compra e transporte de 500 “peças” da praça de S. João
Baptista, na Costa da Guiné para o Suriname. O outro, datado de 3.12.1697,
respeita ao transporte de 101 escravos de Angola para o Suriname, em preço de
201 florins por cabeça. Juntamente com outros mercadores sefarditas de Bordéus
participou na empresa que teve a seu cargo a abertura de um canal de navegação
pelo rio Garona, entre Bordéus e Toulouse, permanecendo depois na exploração
dos transportes fluviais. Especializou-se mesmo no transporte de passageiros e
mercadorias que, vindos do Norte ou atravessando os Pirinéus, se dirigiam para
as partes do Mediterrâneo, nomeadamente Marselha, Roma e Livorno. Este fluxo
migratório e turístico ganhou particular intensidade e fez multiplicar os
lucros de Manuel Fernandes pelos anos de 1665, quando apareceu, no Médio
Oriente, o falso messias Sabbatai Tsevi. Em simultâneo, abriu uma casa comercial
em Toulouse, dirigida por seus filhos José e Jerónimo de Miranda, casa que
vendia para os retalhistas de toda a região do Languedoc de França. Para além
de mercador de grosso trato e armador de barcos, Manuel Fernandes de Miranda
afirmou-se como um dos grandes banqueiros de Bordéus. Aliás, esta praça em
breve se revelaria demasiado pequena para as suas ambições, pelo que, ao início
da década de 1670, se transferiu para a grande metrópole que então era a cidade
de Amesterdão. Ironia da história: tornou-se no principal cobrador de
indemnizações pagas pelo governo de França às vítimas do célebre “auto de fé”
de Toulouse em que se contou o seu sobrinho Manuel Nunes de Miranda.
António Júlio Andrade
domingo, 11 de novembro de 2012
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
TORRE DE MONCORVO – TURISMO CULTURAL - ROTA DOS JUDEUS
O
património de uma terra é constituído não apenas pelos monumentos de
arqueologia e de arquitetura, mas também pelas artes tradicionais, culinária,
costumes… e muito especialmente pelos homens, pelas gerações e gerações de
homens e mulheres que nela habitaram
e deixaram em herança um outro património, ainda mais valioso – o património
genético.
E
quem, entre nós, poderá dizer que em suas veias não corre uma gota de sangue
judeu? Parafraseando Jorge Luís Borges, diremos:Nada ou muy poco sé de mis mayores
Portugueses, los marranos: vaga gente
Que prosigue en mi carne, oscuramente
Sus hábitos, rigores e temores.
Sem
dúvida que a herança judaica e marrana é muito forte em Torre de Moncorvo. E
nós não podemos desprezar esse património. Trata-se de um ato de respeito por
nós próprios e de gratidão pelos nossos antepassados.
E
é também um património cultural que devemos promover, com vista ao fomento do
turismo. E foi também com esse objetivo que nós escrevemos este livro e nele
incluímos uma espécie de Rota dos Judeus. Vamos percorrê-la:
.
Até 1496 os judeus viviam em Torre de Moncorvo separados dos cristãos, num
arruamento próprio a que chamavam judiaria e que em Torre de Moncorvo se situava
nas traseiras da igreja da Misericórdia. E por esse espaço pagavam uma renda
que os reis de Portugal concessionaram aos Senhores de Sampaio. Depois que a
religião judaica foi proibida, as judiarias extintas e as sinagogas encerradas,
aquele espaço tomou o nome de Rua Nova. Nessa rua ainda hoje existe uma casa
daqueles tempos que a tradição popular sempre identificou como sendo a sinagoga
dos judeus.
2. A Casa da
Inquisição
Ao
findar do primeiro quartel do século XX, foi lançada, a partir do Porto, pelo
capitão Barros Basto, a chamada Obra do Resgate, com o objetivo de promover o
regresso dos marranos ao judaísmo. Tal movimento teve particular
desenvolvimento na região de Trás-os-Montes e também na vila de Torre de
Moncorvo. E seria no rés do chão da casa da família Navarro, ao Rossio, que a
comunidade judaica se reunia em sinagoga, razão por que também lhe chamam,a
sinagoga nova
É
assim conhecida esta casa sita na rua do Prior do Crato, porque nela terá
nascido Violante Gomes, a Pelicana, de alcunha, a qual foi mãe de D. António, o
malogrado pretendente ao trono de Portugal. Acerca do assunto, escreveu
Carvalho da Costa, em 1706, que “ainda de presente se apontam as casas em que
nasceu e se conhecem pessoas que lhe são conjuntas em sangue”. A alcunha de
Pelicana tê-la-á ganho pelo facto de usar um lenço na cabeça com a pintura
daquela ave mítica para judeus e marranos
Vasco
Pires do castelo, cristão-novo preso pela inquisição de Lisboa “foi o recebedor
do dinheiro que se dava de esmola quando se fez a casa da misericórdia”, por
meados do século XVI, conforme contou aos inquisidores. E o dr. André Nunes,
advogado, igualmente prisioneiro da inquisição, terá sido um dos primeiros
provedores daquela santa casa. E seria também o líder do movimento de apoio ao
prior do Carto para Rei de Portugal, na área da comarca de Torre de Moncorvo,
razões por que incluímos esta edificação na Rota dos Judeus, no traçado urbano
da vila.
.
Rua de S. Bartolomeu ou Rua dos Sapateiros? O mesmo arruamento aparece com os
dois nomes. Seria o primeiro mais antigo e terá cedido lugar ao segundo, devido
à concentração de sapateiros e curtidores de couros naquela rua? Facto é que,
pelos anos de 600, a Rua dos Sapateiros era praticamente toda povoada por gente
da nação. E Manuel Rodrigues Isidro teria a maior e mais opulenta casa da rua,
recebida em dote de casamento, avaliada em 200 mil réis. Seria aquela mesma
casa que dois séculos e meio depois, foi adquirida por D. Antónia Adelaide
Ferreira, “o melhor solar de Moncorvo”, destruída por um incêndio em 1904?
7. O
Tríptico da Santa Parentela
Espaço
comercial por excelência, a praça do município apresentava-se em Torre de
Moncorvo, como o espaço mais desejado por judeus e marranos para a realização
de feira. O caso terá mesmo originado uma luta política entre o poder municipal
e os mercadores judeus liderados por Juça Marcos, rendeiro do almoxarifado de
Torre de Moncorvo, reivindicando estes que a feira se fizesse na praça e os
vereadores dentro das muralhas da vila. Além de que, a generalidade das lojas
comerciais em redor da praça pertenciam a mercadores da nação hebreia. E
sabemos também onde eras as casas da doceira e do ferrador, por 1640, ambos
daquela gente, em lugar estratégico da praça.
Da
culinária judaica e marrana é farta a herança e variada, nomeadamente ao nível
das iguarias. E muito em particular, a doçaria E nenhuma é mais típica e
genuína do que as celebradas amêndoas cobertas de Torre de Moncorvo. E também
temos fortes indícios de que os chamados canelões de Moncorvo, especialmente
confecionados para os casamentos, serão outra especialidade herdada da doçaria
judaica e marrana. E facto é também que hoje, nas pastelarias de Torre de
Moncorvo continuam a fabricar-se bolos de amêndoa e farinha em tudo iguais aos
fartéis que os descobridores portugueses ofereceram aos indígenas na chegada ao
Brasil e eles aprenderam a fazer e também continuam com idêntica receita.
10. Chafariz
de Horta.
Bordejando
a vila de Torre de Moncorvo, pelo nascente, a Quinta do Montezinho e o Olival
das Bolas constituíam, no século XVII, um complexo agrícola muito interessante.
E o chafariz que se apresenta terá sido construído pela família de Manuel
Rodrigues Pereira e para além de regar aquele mimoso pedaço de terra,
alimentava um lagar de azeite, o primeiro de que há notícia nesta terra. E tudo
era propriedade da industriosa gente da nação hebreia.
11. O Lagar
da Cera de Felgueiras
A
Rota dos Judeus deverá prosseguir pelas aldeias do termo, que em várias existem
marcas judaicas. Provado está também que os marranos dominavam a indústria
moageira e de panificação no concelho de Torre de Moncorvo, sendo proprietários
da maioria dos moinhos existentes na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no
ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho). O mesmo na indústria da tecelagem do
linho e da seda, ou do fabrico do sabão. E o lagar da cera de Felgueiras é o
testemunho vivo dessa gente que herdou dos almocreves marranos o conhecimento
dos trilhos mercantis de Trás-os-Montes e das Beiras e os manteve transitáveis
até aos nossos tempos.
Bem vindos a Torre de Moncorvo!
In OS ISIDROS – A epopeia de uma família de cristãos-novos de
Torre de Moncorvo.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
“Os Isidros – A Epopeia de uma Família de Cristãos-novos de Torre de Moncorvo”
António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães apresentam novo livro em Torre de Moncorvo
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
FREIXO DE NUMÃO - O DIA A DIA DO MERCADOR ANTÓNIO DIAS FERNANDES.Por: António Júlio Andrade
- Mariana Soares, casada com Manuel Rodrigues, natural de Freixo de
Numão, disse que, haverá 5 anos, por Janeiro ou Fevereiro de 1720, se achou em
casa de Brites Pinheiro, com ela e com o marido António Dias Fernandes e os
três se declararam seguidores da lei de Moisés… Verdade ou mentira que isto
aconteceu?
Este é o género de perguntas que
os inquisidores não faziam nunca. O réu é que tinha de adivinhar o sítio concreto,
as circunstâncias e o nome da testemunha. Por isso a pergunta a Dias Fernandes,
na mesa da inquisição de Lisboa, foi-lhe colocada nos seguintes termos:
- Em que lugar de Freixo de Numão e com que pessoas se achou há 5 anos
e se declararam seguidores da lei de Moisés?
Vamos transcrever a resposta, não pelo interesse que ela tem para a descoberta da verdade, mas pelo que ela revela sobre a vida deste mercador de Freixo de Numão que, no texto anterior, encontrámos a exportar aguardente para o Brasil e a Inglaterra a partir de uma destilaria em Alijó. Vejam:
Vamos transcrever a resposta, não pelo interesse que ela tem para a descoberta da verdade, mas pelo que ela revela sobre a vida deste mercador de Freixo de Numão que, no texto anterior, encontrámos a exportar aguardente para o Brasil e a Inglaterra a partir de uma destilaria em Alijó. Vejam:
- No dito tempo foi ele réu à feira de Mirandela que se faz a 3 de
Janeiro e dali foi para a Torre de D. Chama para assistir à feira que ali se
faz no dia 5 do dito mês. Dali foi para o trato da cidade de Chaves onde ele
réu tem uma comenda que se chama de S. Pedro da Veiga de Lila e por ter umas
cobranças a fazer (…) e se dilatou na cobrança até dia 13 de Janeiro no qual
dia se achou na feira de Murça de Panóias e desta foi para a feira de Vila Flor
que se faz aos 15 do dito mês de Janeiro. E assim mais, desta feira de Vila
Flor se partiu para a de Alfândega da Fé que é aos 17…
Não vamos continuar seguindo a
marcha de António Dias neste périplo pelas feiras da região naqueles dois
primeiros meses de 1720. Vamos antes ver outra culpa que lhe apontam como tendo
sucedido em freixo de Numão “há 3 anos e 5 meses” ou seja, em Março de 1722.
Vejam a sua defesa:
- É falso o que diz a testemunha porque ele réu partiu de sua casa a 3
de Fevereiro do dito ano para a feira de Mirandela que naquele mês foi a 4, dia
em que ajustou com Luís Bernardo de Morais Sarmento a jornada para virem ambos
a esta Corte de Lisboa a tomar juramento de corregedor de Pinhel, que está
servindo e na noite de 9 do dito mês se recolheu ele a sua casa onde esteve até
dia 11 em que partiu para Vila Flor e dali foi para Alfândega da Fé onde esteve
até dia 18 em que se recolheu a sua casa da qual partiu no dia 20 de Fevereiro
com o dito corregedor para esta Corte e no dia de S. Matias se dilatou ele réu
e mais companhia na cidade de Coimbra, para lançar em uma comenda do colégio de
S. Pedro, que se rematou no mesmo dia. E assim mais, a 1 de Março do dito ano
de 1722 chegou ele a esta Corte a vários negócios que nela tinha e juntamente
para rematar o assento do mantimento da gente da guerra na província da beira
que com efeito rematou e nesta Corte assistiu até meados do mês de Julho do
dito ano…
Escusado será dizer que de tudo
isto apresentou testemunhas. E não interessa aqui saber se ele, os denunciantes
e as testemunhas falavam ou não verdade. O importante é chamar a atenção para o
dia a dia deste mercador que tudo comprava e vendia e em qualquer parte
arrematava a cobrança de rendas ou o fornecimento de géneros às tropas,
negócios fabulosos, de muitos contos de réis. Vejamos ainda mais uma
contradita, defendendo-se de uma acusação que lhe fizeram e cuja cena se teria
passado na cidade do Porto, ao início de Junho de 1716:
- Ele réu não foi à cidade do Porto senão em 18.1.1716 onde entregou
uma parcela de dinheiro, de 3 000 cruzados a João Antunes Guimarães (…) e da
dita cidade partiu a 21 ou 22 do dito mês de Janeiro para esta de Lisboa, em
companhia do ilustríssimo bispo de Lamego, que encontrou no lugar do sardão e a
ela chegou no último dia do dito mês de Janeiro para haver de embarcar seu
filho António Dias Correia para o Rio de Janeiro (…) e aqui assistiu até 15 de
Abril do dito ano em que partiu para Freixo de Numão sem que fosse pela cidade
do porto e a maior parte da jornada a fez em companhia do chantre de Lamego de
quem se apartou na cidade de Coimbra. E à dita cidade do Porto não tornou senão
nos fins de Novembro de 1718, por notícia que teve de estar seu cunhado
Francisco Gabriel Pinheiro gravemente doente.
Como os leitores já terão percebido
estamos em presença de um homem de extrema importância, um grande e moderno
empresário. Contamos em próximos textos mostrar um pouco mais da dimensão das
suas empresas.
FONTE – ANTT, Inquisição de
Lisboa, pº 1437, de António Dias Fernandes
Este texto foi publicado no
jornal Terra Quente em 2012-11-01
Nota do editor: foto do pelourinho de Freixo de Numão em:http://fozcoajer.planetaclix.pt/index2.htm
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 19
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| Bragança, antigo Colégio dos Jesuítas |
Francisco Furtado de
Mendonça. Nasceu em
Bragança em 22 de Outubro de 1707, no seio de uma família cristã-nova com muita
história dos tribunais da inquisição. História que ele e seus irmãos e outros
mais parentes continuaram. O seu percurso académico começou em Bragança, no
Colégio dos Jesuítas, onde fez os estudos elementares, filosofia e latim. Rumou
a Coimbra em cuja universidade veio a licenciar-se em medicina. Regressou a
Bragança e ali exerceu a profissão, sendo considerado médico “dos de melhor
fama na cidade e vizinhança”, pelo que foi nomeado para “o partido da câmara e
das religiões de frades e freiras e dos mais particulares da cidade e
arrabaldes”. Mas foi como poeta cómico, autor e ensaiador de peças teatrais,
que ele mais se distinguiu. Tais peças eram representadas em casas
particulares, mas sobretudo nos conventos de frades e freiras que então existiam
em Bragança. Em Abril de 1747, quando já tinha vários livros publicados e o
nome inscrito nos manuais de história da literatura portuguesa, foi preso pela
inquisição de Coimbra onde permaneceu negativo por mais de um ano. Foi depois
transferido para Lisboa e ali resolveu-se a confessar que efectivamente fizera
cerimónias judaicas e seguira a lei de Moisés, mas que estava arrependido e
pedia perdão. Saiu condenado em penas espirituais no auto de fé de 16.11.1749.
António Júlio Andrade
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 18
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| Execução de condenados pela Inquisição, no Terreiro do Paço, em Lisboa (séc. XVIII) |
Isakk de Castro Tartas, meu conhecido, jovem inteligente,versado em literatura grega e latina, partiu para Pernambuco,
não sei por que destino, e lá ficou prisioneiro dos
Portugueses, como se estivesse cercado de lobos carnívoros.Enviaram-no a Lisboa onde foi tiranicamente encarcerado
e queimado vivo, na idade de 24 anos, não devido a alguma traição que cometesse, de vez que defendeu o lugar, como era obrigado a fazer, sob lei militar,como faz o nosso povo naquela província onde,devido a sua fidelidade, lhe são enfiadas as mais altas
prisões.Mas quem podia imaginar que tal coisa acontecesse,porque ele se recusou a crer noutro deus senão naquele que criou o céu e a terra?!
sábado, 3 de novembro de 2012
BELMONTE - Antiga casa de cristãos-novos
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| Turismo religioso- Registos sefarditas. |
A comunidade de Belmonte abriga um importante facto da história judaica sefardita, relacionado com a resistência dos judeus à intolerância religiosa na Península Ibérica.
No século XVI, aquando da expulsão dos mouros da Península Ibérica, e da reconquista das terras espanholas e portuguesas pelos Reis católicos e por D. Manuel, foi instaurada uma lei que obrigava os judeus portugueses converterem-se ou a deixarem o país.
Muitos deles acabaram abandonando Portugal, por medo de represálias da Inquisição. Outros converteram-se ao cristianismo em termos oficiais, mantendo o seu culto e tradições culturais no âmbito familiar.
Um terceiro grupo de judeus, porém, tomou uma medida mais extrema. Vários decidiram isolar-se do mundo exterior, cortando o contacto com o resto do país e seguindo suas tradições à risca. Tais pessoas foram chamadas de "marranos", numa alusão à proibição ritual de comer carne de porco. Durante séculos os marranos de Belmonte mantiveram as suas tradições judaicas quase intactas, tornando-se um caso excepcional de comunidade criptojudaica. Somente nos anos 70 a comunidade estabeleceu contacto com os judeus de Israel e oficializou o judaísmo como sua religião.
Em 2005 foi inaugurado na cidade o Museu Judaico de Belmonte, o primeiro do género em Portugal, que mostra as tradições e o dia-a-dia dessa comunidade.
Mais de 200 anos nas cadeias do Santo Ofício
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| Os Iidros, a epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo – Editora Lema d´Origem |
A
história da família Isidro, de Torre de Moncorvo, acompanha praticamente toda a
história da inquisição portuguesa. Durante mais de 200 anos, desde que a
inquisição foi criada, em 1536, até que acabou a distinção entre cristãos-novos
e cristãos-velhos, em 1773, elementos desta família estiveram presos nos seus
cárceres. Ao longo de gerações e gerações, a “herança” marrana foi passando de
pais a filhos, como se um destino implacável os conduzisse ao cativeiro.
Dezenas
de processos das inquisições de Lisboa e Coimbra se encontram no Arquivo
Nacional da Torre do Tombo documentando a aventura desta gente, processos que
os autores estudaram e serviram de base a este trabalho.
Mas
houve também muitos membros desta família que foram processados pela Inquisição
espanhola. Por dificuldades financeiras, estes processos não puderam os autores
estudá-los, embora gostassem muito de o fazer. Esperamos que alguém o faça.
E
há também uma história fantástica desta família de que se conhecem apenas
alguns episódios, mas que merecia ser bem investigada, a qual se desenrolou um
pouco por todo o mundo, acompanhando as rotas migratórias, a expansão marítima
dos povos europeus e a implantação de colónias e feitorias comerciais à
escala mundial. Conhecem-se membros
desta família que foram respeitáveis líderes religiosos ou destacados
mercadores e banqueiros em comunidades sefarditas do norte da Europa ou das
Américas.
Vasco
Pires, o do Castelo, nascido nos primeiros anos do século de 500, pertenceu à
primeira geração de cristãos-novos, os que foram homens antes de a Inquisição
ser instituída em Portugal, a geração dos filhos dos judeus que o rei D. Manuel
ordenou que fossem metidos nas igrejas e baptizados à força. No seu processo
reflectem-se todas as dúvidas religiosas, as angústias morais, os medos e os
fantasmas do “tempo em que os cristãos-novos andavam alevantados para se irem deste reino por medo da inquisição”. E
mostra as dificuldades de integração na comunidade cristã da gente que, como
ele, “era judeu em seu coração” mas que ia às missas “à igreja da sua
freguesia, à misericórdia e ao esprital”.
Vasco Pires poderia não inspirar confiança em matéria de fé, mas os seus
concidadãos e as autoridades religiosas de Torre de Moncorvo confiavam nele
pois o elegeram para recebedor e depositário dos dinheiros recolhidos para a
construção da Casa da Misericórdia. E aqui está um ponto que merece especial
destaque: a importância dos processos da inquisição para o estudo da história
local e regional.
A
prisão de Vasco Pires foi, no entanto, precedida da de seu filho Gabriel Pires
e de sua mulher Francisca Fernandes e esta terá sido a primeira vítima mortal
da inquisição, entre os moncorvenses.
Vasco
Pires Isidro e seu irmão Manuel Rodrigues Isidro foram netos daquele primeiro
Vasco. Com outros seus parentes, eles criaram uma poderosa rede comercial que
se estendia de Torre de Moncorvo ao Porto, a Madrid, a Ruão, Amesterdão e
Hamburgo. Vasco foi preso em Madrid pela inquisição espanhola e Manuel passou 5
anos nas cadeias da inquisição de Coimbra e foi depois refazer sua vida para a
Flandres e para Hamburgo. O seu processo constitui um documento extraordinário
para o estudo da vida política e social da comunidade moncorvense do primeiro
quartel do século XVII.Manuel
Rodrigues Isidro se chamou também um sobrinho daqueles, ao qual coube liderar a
delegação do Porto e manter acesa a chama do marranismo na geração seguinte.
Morreu ao fim de um prolongado jejum, ou greve de fome, nas masmorras da
inquisição de Lisboa, em 1660. Merece bem o título de mártir do judaísmo em
Torre de Moncorvo.Presa
esteve também a sua irmã – Branca Henriques – e seu cunhado – Heitor Mendes –
também um mártir do judaísmo, queimado em Coimbra no auto-de-fé de 20.10.1664.
Estes três processos são extremamente importantes para o estudo da sociedade
mercantil portuense daquela época e sua participação na restauração da
independência do país.
Da
geração que se seguiu, temos o processo de Francisco Ferreira Isidro que se
encontrou no combate das Linhas de Elvas com o posto de capitão a comandar duas
companhias de ordenanças recrutadas em terras de Riba Côa.
Lamentamos
não poder seguir o rumo dos membros da família Isidro que entretanto embarcaram
para as Índias de Portugal e de Castela, bem como dos que permaneceram em
Espanha. De um destes – Dom Luís Marques Cardoso – sabemos que esteve preso na
inquisição de Toledo em 1663 e, 40 anos depois, tendo regressado a Portugal,
foi processado pela inquisição de Lisboa, juntamente com sua filha – D. Maria
Marques de Velasco. Estes dois processos são terrivelmente infamantes para o
Santo Ofício, com os inquisidores a manobrarem crianças inocentes e a violar o
segredo da confissão para delas conseguirem provas que incriminassem a mãe e o
avô.Estamos
já no século de 700, altura em que se descobriram minas de ouro no Brasil e,
entre os fundadores da vila de Ribeirão do Carmo, a primeira capital da região
de Minas Gerais, encontrava-se um outro Francisco Ferreira Isidro, neto do capitão
de ordenanças das Linhas de Elvas. Com ele foi ali ter um sobrinho – Luís Vaz
de Oliveira – saído de Freixo de Espada à Cinta com menos de 9 anos de idade,
para empunhar o ceptro dos Isidros em terras brasileiras.
Apresentamos
depois o processo de um Francisco Ferreira Sanches Isidro, irmão de Luís Vaz,
que aos 15 anos foi de “excursão” a Londres, fazendo várias entradas na
sinagoga da City que então começava a ganhar foros de capital mundial do
judaísmo, a par de Amesterdão.
E
foi de Londres que saiu para os Barbados, uma das pequenas Antilhas da América
Central, Abraham Gabay Isidro que ali se distinguiu como chefe espiritual da
comunidade sefardita, regressando a Londres para morrer.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Trabalhos dos autores:
Caminhos Nordestinos de Judeus e Marranos – página do Jornal
Terra Quente de Mirandela desde
15-04-1999 e que continua.
Bragança a Rota dos Judeus – Jornal A Voz do
Nordeste, 11.03.2010 e seguintes.
Poderá a Fenix Renascer? Contributo para
definição de uma “Rota de Judeus” no
Nordeste Transmontano – Tese apresentada
ao III Congresso Transmontano – Bragança- 2002
O Dr. Francisco da Fonseca Henriques e a sua
família na Inquisição de Lisboa - Brigantia – Revista de Cultura – Volume de
homenagem ao Dr. Belarmino Afonso – 2006.
Subsídios para a História da Inquisição de
Torre de Moncorvo
– Câmara Municipal de Torre de Moncorvo 2007.
Os Távoras e os cristãos-novos no progresso
de Mirandela - Actas da IX Jornadas Culturais de Balsamão - Centro Cultural de Balsamão
2007.
Carção – Capital do Marranismo – Edição da
Associação Cultural dos Almocreves de Carção – Associação CARAmigo – Junta
freguesia de Carção – Câmara Municipal de Vimioso – 2008.
Contribuição dos judeus e cristãos-novos no
progresso de Vila Flor – Retalhos da História de Vila Flor – XI Jornadas Culturais de Balsamão – 4 de Outubro de 2008.
A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de
Lisboa
– Editora Nova Veja – Lisboa – Câmara Municipal de Mogadouro – 2009.
Jorge Lopes Henriques de Carção e alguns familiares processados
pela Inquisição.
– Revista Almocreve - Edição da
Associação Cultural dos Almocreves de Carção 2009.
Entre a Sede da Inquisição e o Convento das
Portas do Céu de Telheiras – Cadernos Culturais de Telheiras , 2.ª série, n.º2
Novembro de 2009.
Jacob de Castro Sarmento – Editora Nova
Veja – Câmara Municipal de Bragança - 2010
Tefillah cotidiano – Um caderno de Orações
marranas - Cadernos
Culturais de Telheiras , 2.ª série, n.º 2 Novembro de 2010.
A aguardar publicação:
Os Marranos em
Sambade – Alfândega da Fé.
Os Almeida Castro - Uma família de
cristãos-novos de Izeda.
Quintela de Lampaças - Uma missa judaica.
Vimioso anos de 1650 – Uma rede de
passadores de judeus desmantelada
pela Inquisição de Coimbra – II
Jornadas de História Local – Câmara Municipal de Vimioso – Maio de 2009.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
OS ISIDROS - Amanhã na Biblioteca de Torre de Moncorvo
Excerto do livro:
Caíram sobre ele às estocadas
mesmo à porta se sua casa, sita ao fundo da rua dos Sapateiros, na vila de
Torre de Moncorvo. Eram três contra um e, embora valente e destemido, nada mais
pôde fazer do que aparar com a espada as primeiras estocadas e rapidamente
meter-se em casa cuja porta a mulher lhe abrira e ainda mais depressa fechou,
atrás dele. Da mão esquerda escorria sangue, que lhe abriram um lenho bem fundo
e no chão da rua ficou o dedo mindinho, que lho cortaram com uma espadeirada. Antes
de prosseguirmos, convirá que apresentemos os contendores:
De um lado, Manuel Rodrigues
Isidro, 24 anos, cristão-novo, comerciante e rendeiro, certamente o homem mais
endinheirado da terra, um exportador e importador que anualmente pagava mais de
100 mil reis de impostos alfandegários e contava com a protecção de D.
Francisca de Aragão, uma das damas de mais consideradas e influentes na Corte
de Madrid.Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 17
David Castro Tartas. Por 1620, sentindo-se perseguidos
pela inquisição, Cristóvão Luís de Castro e sua mulher Isabel da Paz,
abandonaram a casa em Bragança e meteram-se por Espanha fora, indo “pousar” em
Tartas, uma localidade próxima de Bayonne, à entrada de França. Ali lhe
nasceram vários filhos, posto o que seguiram para Amesterdão, cidade onde
aderiram abertamente ao judaísmo. Cristóvão tomou o nome de Abraão e Isabel o
de Sara. Ao filho mais velho deram o nome de David. E toda a família passou a
ser conhecida pelo sobrenome Tartas, exactamente por ali terem vivido. Logo que
chegou à idade de trabalhar, David Tartas empregou-se na tipografia do famoso
rabi Menasseh bem Israel, o líder religioso indiscutível da nação sefardita de
Amesterdão. Em 1660, David comprou a tipografia que, aliás, ele já vinha
dirigindo. E nela passaram a trabalhar também o seu irmão Jacob e o cunhado
Samuel Teixeira. E foi então que a tipografia ganhou o maior prestígio, ficando
conhecidas as suas edições do “Pentateuco” e dos “Sermões que pregaram os
Doctos Ingenios do KK do Talmud Torah”. Porém, a maior glória desta tipografia
foi alcançada com outra iniciativa – a impressão da “Gazeta de Amesterdão”
entre 1675 e 1690, o primeiro jornal de negócios do mundo, onde se davam
sobretudo informações sobre a chegada e partida de navios e cargas
transportadas, do Brasil, das Antilhas, da Índia, de Espanha…
António Júlio Andrade
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Judiarias de Portugal no final do século XV
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| Moncorvo. Uma sinagoga funcionou até então numa casa particular junto à Igreja Matriz. |
Bragança. No século XIII já existia aqui uma importante
comunidade de judeus. A Inquisição fez na região, durante quase três séculos,
uma verdadeira matança.
- Argozelo, - Carção, Freixo de Espada à Cinta-Miranda do Douro,- Mogadouro, Rio Frio-
Torre de Moncorvo. O
cripto-judaísmo manteve aqui bem vivo até 1929. Uma sinagoga, funcionou até
então numa casa particular junto à Igreja Matriz.-Vilarinho dos Galegos,- Vila Flor
Vila Real
- Chaves, Mirandela, Rio Livre
In "Judiarias de Portugal" - Carlos Fontes
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 16
Francisco Lopes
Capadócia. Nasceu em
Vila Real, por 1600.Era ainda pequeno quando ficou órfão de mãe e o pai o levou
para Espanha, fixando-se em Medina de Rio Seco. Pelos 16 anos, Francisco foi
enviado para Lisboa, certamente a estagiar em alguma casa comercial de algum
parente ou sócio de negócios do pai. Por 1620 regressou a Espanha, dirigindo-se
para Madrid, onde tinha outros parentes bem colocados nos negócios e com a
categoria de rendeiros. Aliás, foi exactamente a trabalhar na cobrança das
rendas que em Madrid se empregou. Por 1630, regressou a Portugal e foi casar em
Portalegre, com Beatriz Mendes, envolvendo-se então nos arrendamentos do
Priorado do Crato. Deve ter feito bons investimentos pois regressou a Madrid
com bastante capital que utilizou emprestando a juros a particulares,
nomeadamente membros da nobreza em dificuldades financeiras. Meteu-se também
nos arrendamentos da Coroa, como fosse o fornecimento de géneros às tropas
estacionadas em Ceuta e Tanger, no Norte de África. Enquanto isso, tinham-lhe
nascido 2 filhos e 1 filha. Esta, de nome Joana, casou com Luís Fernandes, o
Pato, também de Vila Real, membros de uma poderosa família de marranos,
estabelecido em Madrid, também contratador de rendas. Em 1653 começou o
calvário para Francisco Lopes, ao ser preso pela inquisição de Valladolid. Saiu
reconciliado em 1655 mas, seguindo-se a prisão de seu filho Domingos e depois a
da filha Joana, acabou denunciado por eles e foi novamente preso. Acabou por
falecer na cadeia em Fevereiro de 1665.
António Júlio Andrade
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Marranos de Lagoaça no Tribunal da Inquisição
Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
Maria F. Guimarães
-
Próximo da minha terra natal há uma povoação – Lagoaça – onde as famílias
indicadas por judias são numerosas e formam o grosso da população,
considerando-se, desde tempos imemoriais, separadas de qualquer consanguinidade
ou afinidade com a outra parte, que é especialmente agrícola e mesteiral,
enquanto aquela se dedica ao comércio quase absolutamente e, até há poucos
anos, exclusivamente às recovagens e ao contrabando; afastados completamente da
vida pública, em que nem tentavam intrometer-se, com costumes e usos muito
diferentes dos do resto da população, com a qual porém se confundiam nas
práticas externas do catolicismo.
Estas palavras escreveu, por 1879, o Dr. Bernardo
Teixeira Leite Velho, de Mogadouro, em umas notas que deixou manuscritas e de
que o Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado publicou alguns excertos. [1]
Muitas referências foram também feitas pelo
Abade de Baçal aos criptojudeus de Lagoaça, assim retratados:
-
Diz-nos o ilustre abade de Carviçais que o tipo de judeu do sul do distrito é
sardento, olhos penetrantes, nariz adunco e que são chamados Cházaros em
Lagoaça.[2]
No mesmo volume, página LX, das suas
memórias, acrescenta:
-
Segundo me informa o erudito abade de Carviçais José Augusto Tavares, também no
sul do distrito de Bragança, principalmente nas povoações de Lagoaça e
Vilarinho dos Galegos, há abafadores, que são conhecidos pelo nome de
encalcadores e ainda massagistas.
Esta informação tem despertado muita
controvérsia, sobretudo depois da publicação do conto de Miguel Torga – O Alma Grande – descrevendo a morte
provocada de um moribundo, por asfixia. A verdade é que, nunca se provou tal
prática e o comportamento das famílias marranas perante os seus moribundos
seria idêntico ao das famílias católicas: prestar-lhes assistência e dar-lhe o
conforto espiritual para bem morrer, na graça de Deus.
Diz uma tradição popular que os judeus
expulsos de Espanha, que atravessaram a fronteira por Miranda do Douro,
seguiram três destinos diferentes: os mais pobres, que vinham a pé, ficaram-se
por Carção e Argoselo, os que eram remediados e vinham de burro, seguiram para
as terras de Mogadouro e Vilarinho dos Galegos, enquanto os mais ricos, donos
de possantes machos e mulas, se foram fixar em Lagoaça. De contrário, refere-se
outra tradição dizendo que a terra de fixação dos judeus ricos era Freixo de
Espada à Cinta e que para Lagoaça foram os judeus pobres.
Certamente que nenhuma das afirmações
encerra toda a verdade, até porque a principal característica da gente da nação
hebreia era exactamente a sua permanente mobilidade e o estabelecimento de
redes comerciais familiares descentralizadas. Estavam onde podiam estar e
aproveitavam todas as oportunidades que lhe eram proporcionadas. Como quer que
seja, são indiscutíveis as tradições judaicas e marranas de Lagoaça e há um
rifão popular que diz:
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 15
Francisco Fonseca
Henriques. Ficou
mais conhecido pelo nome de Dr. Mirandela, herdado da terra onde viu a luz, no
ano de 1665. Formado pela universidade de Coimbra, foi um dos médicos
portugueses mais famosos de todos os tempos. O seu livro – “Medicina Lusitana”
– impresso em Amesterdão, em 1710, foi por mais de um século uma espécie de
bíblia e receituário de medicina em Portugal, com reedições sucessivas. Outra
obra de muito interesse e mesmo de actualidade, é o seu “Aquilégio Medicinal”,
publicado em 1726, em Lisboa. Trata-se do primeiro inventário feito de norte a
sul de Portugal das “águas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e
cisternas”, com vista à sua catalogação química e uso no tratamento das diferentes
doenças, ou prevenção das mesmas e conservação da saúde. Sim, que o Dr.
Mirandela foi exactamente revolucionário nesse sentido: adepto e apoiante do
termalismo e decidido defensor da medicina preventiva. E pleno de actualidade é
o terceiro livro deste médico Trasmontano, que eu gosto muito de apresentar:
“Ancora Medicinal para conservar a vida com saúde – os segredos da nutrição”.
Foi impresso em Lisboa em 1721, com 2 reedições em 1731 (ano da sua morte) e
outras em 1740 e 1754 e… “por ser o mais conhecido guia da alimentação e
conservação da saúde” e porque “tem agora mais actualidade do que nunca”, foi
reeditado no ano 2000. Esta obra permite que consideremos o Dr. Mirandela como
o primeiro grande médico nutricionista assumido em Portugal. E as suas preocupações
com a qualidade do ar que respiramos, farão dele um pioneiro dos
ambientalistas. Sobre o assunto, melhor fala a apresentação escrita por ele
próprio no seu livro. Vejam apenas este excerto: - Quem respirar bons ares;
quem com moderação e prudência usar de bons alimentos; quem dormir com sossego
as horas que bastem; quem fizer exercício como deve; quem trouxer a natureza
bem regulada nas suas evacuações; e quem não tiver paixões que lhe alterem a
harmonia dos humores: não pode deixar de ter boa saúde, ou ao menos, não terá
tantas ocasiões de a perder. O Dr. Mirandela era de ascendência hebreia e a
história de seus ancestrais nos cárceres da inquisição é longa. Como também a
de seus tios, irmãos, sobrinhos e primos. Ele, felizmente, parece não ter sido
perseguido. E nisso terá valido a protecção do rei D. João V, de quem ele era
médico oficial. Sobre seus descendentes, diremos que teve um filho médico que
fez carreira em Itália e várias filhas, que todas elas foram metidas em
Recolhimento de freiras. A casa onde ele nasceu, na aldeia de Carvalhais, na
proximidade de Mirandela, aguentou-se até há bem poucos anos, tendo sofrido
obras de remodelação. Outras gerações de trasmontanos tiveram a lembrança de lá
colocar uma placa alusiva. Não sei se ainda lá se encontra.
António Júlia Andrade
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