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| Execução de condenados pela Inquisição, no Terreiro do Paço, em Lisboa (séc. XVIII) |
domingo, 4 de novembro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 18
Isakk de Castro Tartas, meu conhecido, jovem inteligente,versado em literatura grega e latina, partiu para Pernambuco,
não sei por que destino, e lá ficou prisioneiro dos
Portugueses, como se estivesse cercado de lobos carnívoros.Enviaram-no a Lisboa onde foi tiranicamente encarcerado
e queimado vivo, na idade de 24 anos, não devido a alguma traição que cometesse, de vez que defendeu o lugar, como era obrigado a fazer, sob lei militar,como faz o nosso povo naquela província onde,devido a sua fidelidade, lhe são enfiadas as mais altas
prisões.Mas quem podia imaginar que tal coisa acontecesse,porque ele se recusou a crer noutro deus senão naquele que criou o céu e a terra?!
sábado, 3 de novembro de 2012
BELMONTE - Antiga casa de cristãos-novos
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| Turismo religioso- Registos sefarditas. |
A comunidade de Belmonte abriga um importante facto da história judaica sefardita, relacionado com a resistência dos judeus à intolerância religiosa na Península Ibérica.
No século XVI, aquando da expulsão dos mouros da Península Ibérica, e da reconquista das terras espanholas e portuguesas pelos Reis católicos e por D. Manuel, foi instaurada uma lei que obrigava os judeus portugueses converterem-se ou a deixarem o país.
Muitos deles acabaram abandonando Portugal, por medo de represálias da Inquisição. Outros converteram-se ao cristianismo em termos oficiais, mantendo o seu culto e tradições culturais no âmbito familiar.
Um terceiro grupo de judeus, porém, tomou uma medida mais extrema. Vários decidiram isolar-se do mundo exterior, cortando o contacto com o resto do país e seguindo suas tradições à risca. Tais pessoas foram chamadas de "marranos", numa alusão à proibição ritual de comer carne de porco. Durante séculos os marranos de Belmonte mantiveram as suas tradições judaicas quase intactas, tornando-se um caso excepcional de comunidade criptojudaica. Somente nos anos 70 a comunidade estabeleceu contacto com os judeus de Israel e oficializou o judaísmo como sua religião.
Em 2005 foi inaugurado na cidade o Museu Judaico de Belmonte, o primeiro do género em Portugal, que mostra as tradições e o dia-a-dia dessa comunidade.
Mais de 200 anos nas cadeias do Santo Ofício
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| Os Iidros, a epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo – Editora Lema d´Origem |
A
história da família Isidro, de Torre de Moncorvo, acompanha praticamente toda a
história da inquisição portuguesa. Durante mais de 200 anos, desde que a
inquisição foi criada, em 1536, até que acabou a distinção entre cristãos-novos
e cristãos-velhos, em 1773, elementos desta família estiveram presos nos seus
cárceres. Ao longo de gerações e gerações, a “herança” marrana foi passando de
pais a filhos, como se um destino implacável os conduzisse ao cativeiro.
Dezenas
de processos das inquisições de Lisboa e Coimbra se encontram no Arquivo
Nacional da Torre do Tombo documentando a aventura desta gente, processos que
os autores estudaram e serviram de base a este trabalho.
Mas
houve também muitos membros desta família que foram processados pela Inquisição
espanhola. Por dificuldades financeiras, estes processos não puderam os autores
estudá-los, embora gostassem muito de o fazer. Esperamos que alguém o faça.
E
há também uma história fantástica desta família de que se conhecem apenas
alguns episódios, mas que merecia ser bem investigada, a qual se desenrolou um
pouco por todo o mundo, acompanhando as rotas migratórias, a expansão marítima
dos povos europeus e a implantação de colónias e feitorias comerciais à
escala mundial. Conhecem-se membros
desta família que foram respeitáveis líderes religiosos ou destacados
mercadores e banqueiros em comunidades sefarditas do norte da Europa ou das
Américas.
Vasco
Pires, o do Castelo, nascido nos primeiros anos do século de 500, pertenceu à
primeira geração de cristãos-novos, os que foram homens antes de a Inquisição
ser instituída em Portugal, a geração dos filhos dos judeus que o rei D. Manuel
ordenou que fossem metidos nas igrejas e baptizados à força. No seu processo
reflectem-se todas as dúvidas religiosas, as angústias morais, os medos e os
fantasmas do “tempo em que os cristãos-novos andavam alevantados para se irem deste reino por medo da inquisição”. E
mostra as dificuldades de integração na comunidade cristã da gente que, como
ele, “era judeu em seu coração” mas que ia às missas “à igreja da sua
freguesia, à misericórdia e ao esprital”.
Vasco Pires poderia não inspirar confiança em matéria de fé, mas os seus
concidadãos e as autoridades religiosas de Torre de Moncorvo confiavam nele
pois o elegeram para recebedor e depositário dos dinheiros recolhidos para a
construção da Casa da Misericórdia. E aqui está um ponto que merece especial
destaque: a importância dos processos da inquisição para o estudo da história
local e regional.
A
prisão de Vasco Pires foi, no entanto, precedida da de seu filho Gabriel Pires
e de sua mulher Francisca Fernandes e esta terá sido a primeira vítima mortal
da inquisição, entre os moncorvenses.
Vasco
Pires Isidro e seu irmão Manuel Rodrigues Isidro foram netos daquele primeiro
Vasco. Com outros seus parentes, eles criaram uma poderosa rede comercial que
se estendia de Torre de Moncorvo ao Porto, a Madrid, a Ruão, Amesterdão e
Hamburgo. Vasco foi preso em Madrid pela inquisição espanhola e Manuel passou 5
anos nas cadeias da inquisição de Coimbra e foi depois refazer sua vida para a
Flandres e para Hamburgo. O seu processo constitui um documento extraordinário
para o estudo da vida política e social da comunidade moncorvense do primeiro
quartel do século XVII.Manuel
Rodrigues Isidro se chamou também um sobrinho daqueles, ao qual coube liderar a
delegação do Porto e manter acesa a chama do marranismo na geração seguinte.
Morreu ao fim de um prolongado jejum, ou greve de fome, nas masmorras da
inquisição de Lisboa, em 1660. Merece bem o título de mártir do judaísmo em
Torre de Moncorvo.Presa
esteve também a sua irmã – Branca Henriques – e seu cunhado – Heitor Mendes –
também um mártir do judaísmo, queimado em Coimbra no auto-de-fé de 20.10.1664.
Estes três processos são extremamente importantes para o estudo da sociedade
mercantil portuense daquela época e sua participação na restauração da
independência do país.
Da
geração que se seguiu, temos o processo de Francisco Ferreira Isidro que se
encontrou no combate das Linhas de Elvas com o posto de capitão a comandar duas
companhias de ordenanças recrutadas em terras de Riba Côa.
Lamentamos
não poder seguir o rumo dos membros da família Isidro que entretanto embarcaram
para as Índias de Portugal e de Castela, bem como dos que permaneceram em
Espanha. De um destes – Dom Luís Marques Cardoso – sabemos que esteve preso na
inquisição de Toledo em 1663 e, 40 anos depois, tendo regressado a Portugal,
foi processado pela inquisição de Lisboa, juntamente com sua filha – D. Maria
Marques de Velasco. Estes dois processos são terrivelmente infamantes para o
Santo Ofício, com os inquisidores a manobrarem crianças inocentes e a violar o
segredo da confissão para delas conseguirem provas que incriminassem a mãe e o
avô.Estamos
já no século de 700, altura em que se descobriram minas de ouro no Brasil e,
entre os fundadores da vila de Ribeirão do Carmo, a primeira capital da região
de Minas Gerais, encontrava-se um outro Francisco Ferreira Isidro, neto do capitão
de ordenanças das Linhas de Elvas. Com ele foi ali ter um sobrinho – Luís Vaz
de Oliveira – saído de Freixo de Espada à Cinta com menos de 9 anos de idade,
para empunhar o ceptro dos Isidros em terras brasileiras.
Apresentamos
depois o processo de um Francisco Ferreira Sanches Isidro, irmão de Luís Vaz,
que aos 15 anos foi de “excursão” a Londres, fazendo várias entradas na
sinagoga da City que então começava a ganhar foros de capital mundial do
judaísmo, a par de Amesterdão.
E
foi de Londres que saiu para os Barbados, uma das pequenas Antilhas da América
Central, Abraham Gabay Isidro que ali se distinguiu como chefe espiritual da
comunidade sefardita, regressando a Londres para morrer.
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
Trabalhos dos autores:
Caminhos Nordestinos de Judeus e Marranos – página do Jornal
Terra Quente de Mirandela desde
15-04-1999 e que continua.
Bragança a Rota dos Judeus – Jornal A Voz do
Nordeste, 11.03.2010 e seguintes.
Poderá a Fenix Renascer? Contributo para
definição de uma “Rota de Judeus” no
Nordeste Transmontano – Tese apresentada
ao III Congresso Transmontano – Bragança- 2002
O Dr. Francisco da Fonseca Henriques e a sua
família na Inquisição de Lisboa - Brigantia – Revista de Cultura – Volume de
homenagem ao Dr. Belarmino Afonso – 2006.
Subsídios para a História da Inquisição de
Torre de Moncorvo
– Câmara Municipal de Torre de Moncorvo 2007.
Os Távoras e os cristãos-novos no progresso
de Mirandela - Actas da IX Jornadas Culturais de Balsamão - Centro Cultural de Balsamão
2007.
Carção – Capital do Marranismo – Edição da
Associação Cultural dos Almocreves de Carção – Associação CARAmigo – Junta
freguesia de Carção – Câmara Municipal de Vimioso – 2008.
Contribuição dos judeus e cristãos-novos no
progresso de Vila Flor – Retalhos da História de Vila Flor – XI Jornadas Culturais de Balsamão – 4 de Outubro de 2008.
A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de
Lisboa
– Editora Nova Veja – Lisboa – Câmara Municipal de Mogadouro – 2009.
Jorge Lopes Henriques de Carção e alguns familiares processados
pela Inquisição.
– Revista Almocreve - Edição da
Associação Cultural dos Almocreves de Carção 2009.
Entre a Sede da Inquisição e o Convento das
Portas do Céu de Telheiras – Cadernos Culturais de Telheiras , 2.ª série, n.º2
Novembro de 2009.
Jacob de Castro Sarmento – Editora Nova
Veja – Câmara Municipal de Bragança - 2010
Tefillah cotidiano – Um caderno de Orações
marranas - Cadernos
Culturais de Telheiras , 2.ª série, n.º 2 Novembro de 2010.
A aguardar publicação:
Os Marranos em
Sambade – Alfândega da Fé.
Os Almeida Castro - Uma família de
cristãos-novos de Izeda.
Quintela de Lampaças - Uma missa judaica.
Vimioso anos de 1650 – Uma rede de
passadores de judeus desmantelada
pela Inquisição de Coimbra – II
Jornadas de História Local – Câmara Municipal de Vimioso – Maio de 2009.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
OS ISIDROS - Amanhã na Biblioteca de Torre de Moncorvo
Excerto do livro:
Caíram sobre ele às estocadas
mesmo à porta se sua casa, sita ao fundo da rua dos Sapateiros, na vila de
Torre de Moncorvo. Eram três contra um e, embora valente e destemido, nada mais
pôde fazer do que aparar com a espada as primeiras estocadas e rapidamente
meter-se em casa cuja porta a mulher lhe abrira e ainda mais depressa fechou,
atrás dele. Da mão esquerda escorria sangue, que lhe abriram um lenho bem fundo
e no chão da rua ficou o dedo mindinho, que lho cortaram com uma espadeirada. Antes
de prosseguirmos, convirá que apresentemos os contendores:
De um lado, Manuel Rodrigues
Isidro, 24 anos, cristão-novo, comerciante e rendeiro, certamente o homem mais
endinheirado da terra, um exportador e importador que anualmente pagava mais de
100 mil reis de impostos alfandegários e contava com a protecção de D.
Francisca de Aragão, uma das damas de mais consideradas e influentes na Corte
de Madrid.Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 17
David Castro Tartas. Por 1620, sentindo-se perseguidos
pela inquisição, Cristóvão Luís de Castro e sua mulher Isabel da Paz,
abandonaram a casa em Bragança e meteram-se por Espanha fora, indo “pousar” em
Tartas, uma localidade próxima de Bayonne, à entrada de França. Ali lhe
nasceram vários filhos, posto o que seguiram para Amesterdão, cidade onde
aderiram abertamente ao judaísmo. Cristóvão tomou o nome de Abraão e Isabel o
de Sara. Ao filho mais velho deram o nome de David. E toda a família passou a
ser conhecida pelo sobrenome Tartas, exactamente por ali terem vivido. Logo que
chegou à idade de trabalhar, David Tartas empregou-se na tipografia do famoso
rabi Menasseh bem Israel, o líder religioso indiscutível da nação sefardita de
Amesterdão. Em 1660, David comprou a tipografia que, aliás, ele já vinha
dirigindo. E nela passaram a trabalhar também o seu irmão Jacob e o cunhado
Samuel Teixeira. E foi então que a tipografia ganhou o maior prestígio, ficando
conhecidas as suas edições do “Pentateuco” e dos “Sermões que pregaram os
Doctos Ingenios do KK do Talmud Torah”. Porém, a maior glória desta tipografia
foi alcançada com outra iniciativa – a impressão da “Gazeta de Amesterdão”
entre 1675 e 1690, o primeiro jornal de negócios do mundo, onde se davam
sobretudo informações sobre a chegada e partida de navios e cargas
transportadas, do Brasil, das Antilhas, da Índia, de Espanha…
António Júlio Andrade
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Judiarias de Portugal no final do século XV
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| Moncorvo. Uma sinagoga funcionou até então numa casa particular junto à Igreja Matriz. |
Bragança. No século XIII já existia aqui uma importante
comunidade de judeus. A Inquisição fez na região, durante quase três séculos,
uma verdadeira matança.
- Argozelo, - Carção, Freixo de Espada à Cinta-Miranda do Douro,- Mogadouro, Rio Frio-
Torre de Moncorvo. O
cripto-judaísmo manteve aqui bem vivo até 1929. Uma sinagoga, funcionou até
então numa casa particular junto à Igreja Matriz.-Vilarinho dos Galegos,- Vila Flor
Vila Real
- Chaves, Mirandela, Rio Livre
In "Judiarias de Portugal" - Carlos Fontes
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 16
Francisco Lopes
Capadócia. Nasceu em
Vila Real, por 1600.Era ainda pequeno quando ficou órfão de mãe e o pai o levou
para Espanha, fixando-se em Medina de Rio Seco. Pelos 16 anos, Francisco foi
enviado para Lisboa, certamente a estagiar em alguma casa comercial de algum
parente ou sócio de negócios do pai. Por 1620 regressou a Espanha, dirigindo-se
para Madrid, onde tinha outros parentes bem colocados nos negócios e com a
categoria de rendeiros. Aliás, foi exactamente a trabalhar na cobrança das
rendas que em Madrid se empregou. Por 1630, regressou a Portugal e foi casar em
Portalegre, com Beatriz Mendes, envolvendo-se então nos arrendamentos do
Priorado do Crato. Deve ter feito bons investimentos pois regressou a Madrid
com bastante capital que utilizou emprestando a juros a particulares,
nomeadamente membros da nobreza em dificuldades financeiras. Meteu-se também
nos arrendamentos da Coroa, como fosse o fornecimento de géneros às tropas
estacionadas em Ceuta e Tanger, no Norte de África. Enquanto isso, tinham-lhe
nascido 2 filhos e 1 filha. Esta, de nome Joana, casou com Luís Fernandes, o
Pato, também de Vila Real, membros de uma poderosa família de marranos,
estabelecido em Madrid, também contratador de rendas. Em 1653 começou o
calvário para Francisco Lopes, ao ser preso pela inquisição de Valladolid. Saiu
reconciliado em 1655 mas, seguindo-se a prisão de seu filho Domingos e depois a
da filha Joana, acabou denunciado por eles e foi novamente preso. Acabou por
falecer na cadeia em Fevereiro de 1665.
António Júlio Andrade
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Marranos de Lagoaça no Tribunal da Inquisição
Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães
Maria F. Guimarães
-
Próximo da minha terra natal há uma povoação – Lagoaça – onde as famílias
indicadas por judias são numerosas e formam o grosso da população,
considerando-se, desde tempos imemoriais, separadas de qualquer consanguinidade
ou afinidade com a outra parte, que é especialmente agrícola e mesteiral,
enquanto aquela se dedica ao comércio quase absolutamente e, até há poucos
anos, exclusivamente às recovagens e ao contrabando; afastados completamente da
vida pública, em que nem tentavam intrometer-se, com costumes e usos muito
diferentes dos do resto da população, com a qual porém se confundiam nas
práticas externas do catolicismo.
Estas palavras escreveu, por 1879, o Dr. Bernardo
Teixeira Leite Velho, de Mogadouro, em umas notas que deixou manuscritas e de
que o Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado publicou alguns excertos. [1]
Muitas referências foram também feitas pelo
Abade de Baçal aos criptojudeus de Lagoaça, assim retratados:
-
Diz-nos o ilustre abade de Carviçais que o tipo de judeu do sul do distrito é
sardento, olhos penetrantes, nariz adunco e que são chamados Cházaros em
Lagoaça.[2]
No mesmo volume, página LX, das suas
memórias, acrescenta:
-
Segundo me informa o erudito abade de Carviçais José Augusto Tavares, também no
sul do distrito de Bragança, principalmente nas povoações de Lagoaça e
Vilarinho dos Galegos, há abafadores, que são conhecidos pelo nome de
encalcadores e ainda massagistas.
Esta informação tem despertado muita
controvérsia, sobretudo depois da publicação do conto de Miguel Torga – O Alma Grande – descrevendo a morte
provocada de um moribundo, por asfixia. A verdade é que, nunca se provou tal
prática e o comportamento das famílias marranas perante os seus moribundos
seria idêntico ao das famílias católicas: prestar-lhes assistência e dar-lhe o
conforto espiritual para bem morrer, na graça de Deus.
Diz uma tradição popular que os judeus
expulsos de Espanha, que atravessaram a fronteira por Miranda do Douro,
seguiram três destinos diferentes: os mais pobres, que vinham a pé, ficaram-se
por Carção e Argoselo, os que eram remediados e vinham de burro, seguiram para
as terras de Mogadouro e Vilarinho dos Galegos, enquanto os mais ricos, donos
de possantes machos e mulas, se foram fixar em Lagoaça. De contrário, refere-se
outra tradição dizendo que a terra de fixação dos judeus ricos era Freixo de
Espada à Cinta e que para Lagoaça foram os judeus pobres.
Certamente que nenhuma das afirmações
encerra toda a verdade, até porque a principal característica da gente da nação
hebreia era exactamente a sua permanente mobilidade e o estabelecimento de
redes comerciais familiares descentralizadas. Estavam onde podiam estar e
aproveitavam todas as oportunidades que lhe eram proporcionadas. Como quer que
seja, são indiscutíveis as tradições judaicas e marranas de Lagoaça e há um
rifão popular que diz:
terça-feira, 30 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 15
Francisco Fonseca
Henriques. Ficou
mais conhecido pelo nome de Dr. Mirandela, herdado da terra onde viu a luz, no
ano de 1665. Formado pela universidade de Coimbra, foi um dos médicos
portugueses mais famosos de todos os tempos. O seu livro – “Medicina Lusitana”
– impresso em Amesterdão, em 1710, foi por mais de um século uma espécie de
bíblia e receituário de medicina em Portugal, com reedições sucessivas. Outra
obra de muito interesse e mesmo de actualidade, é o seu “Aquilégio Medicinal”,
publicado em 1726, em Lisboa. Trata-se do primeiro inventário feito de norte a
sul de Portugal das “águas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e
cisternas”, com vista à sua catalogação química e uso no tratamento das diferentes
doenças, ou prevenção das mesmas e conservação da saúde. Sim, que o Dr.
Mirandela foi exactamente revolucionário nesse sentido: adepto e apoiante do
termalismo e decidido defensor da medicina preventiva. E pleno de actualidade é
o terceiro livro deste médico Trasmontano, que eu gosto muito de apresentar:
“Ancora Medicinal para conservar a vida com saúde – os segredos da nutrição”.
Foi impresso em Lisboa em 1721, com 2 reedições em 1731 (ano da sua morte) e
outras em 1740 e 1754 e… “por ser o mais conhecido guia da alimentação e
conservação da saúde” e porque “tem agora mais actualidade do que nunca”, foi
reeditado no ano 2000. Esta obra permite que consideremos o Dr. Mirandela como
o primeiro grande médico nutricionista assumido em Portugal. E as suas preocupações
com a qualidade do ar que respiramos, farão dele um pioneiro dos
ambientalistas. Sobre o assunto, melhor fala a apresentação escrita por ele
próprio no seu livro. Vejam apenas este excerto: - Quem respirar bons ares;
quem com moderação e prudência usar de bons alimentos; quem dormir com sossego
as horas que bastem; quem fizer exercício como deve; quem trouxer a natureza
bem regulada nas suas evacuações; e quem não tiver paixões que lhe alterem a
harmonia dos humores: não pode deixar de ter boa saúde, ou ao menos, não terá
tantas ocasiões de a perder. O Dr. Mirandela era de ascendência hebreia e a
história de seus ancestrais nos cárceres da inquisição é longa. Como também a
de seus tios, irmãos, sobrinhos e primos. Ele, felizmente, parece não ter sido
perseguido. E nisso terá valido a protecção do rei D. João V, de quem ele era
médico oficial. Sobre seus descendentes, diremos que teve um filho médico que
fez carreira em Itália e várias filhas, que todas elas foram metidas em
Recolhimento de freiras. A casa onde ele nasceu, na aldeia de Carvalhais, na
proximidade de Mirandela, aguentou-se até há bem poucos anos, tendo sofrido
obras de remodelação. Outras gerações de trasmontanos tiveram a lembrança de lá
colocar uma placa alusiva. Não sei se ainda lá se encontra.
António Júlia Andrade
domingo, 28 de outubro de 2012
CARÇÃO APRESENTAÇÃO I- UMA HISTÓRIA DE RESITÊNCIA À INQUISIÇÃO
Carção é uma aldeia do concelho de Vimioso,
no mais profundo Trás-os-Montes, afastada das rotas comerciais e turísticas.
Seus habitantes, porém, sempre tiveram arte e engenho para quebrar o isolamento
da terra e sair a mercadejar por toda a parte. Sobre eles escreveu, há cerca de
um século, o douto Abade de Baçal:
- Percorrem o distrito de Bragança com
venda ambulante de bacalhau, arroz, azeite e outros géneros, comprando ao mesmo
tempo peles ovinas, bovinas e caprinas (…) Encontram-se estabelecidos nos
povoados principais, aldeias ricas e férteis do reino, colónias e até do
estrangeiro, onde entram à formiga, sem eira nem beira, nem ramo de figueira,
apenas com dois centos de sardinhas em cima de um burro podre e dentro de uma
dúzia de anos chegam a preponderar pela fortuna adquirida no negócio. [1]
Muito semelhante é o retrato feito por
outros historiadores, literatos e etnólogos que escreveram sobre o génio
mercantil e empreendedor das gentes de Carção. E todos associam esta qualidade
à sua herança judaica. Leite de Vasconcelos, por exemplo, usou estas palavras:
- A gente de estirpe judaica destas últimas
povoações (Carção e Argozelo) vivia, até há pouco, sobretudo do comércio e da
indústria dos curtumes. Com suas mulas de carga, era vê-los de casa em casa de
terra em terra a vender bacalhau, arroz e azeite e outros géneros alimentícios
ou a ajustar as peles para o fornecimento da sua indústria. Dizia-se até que a
um judeu de Carção ou Argozelo nada mais faltava para fazer fortuna do que uma
libra e uma mula. E, a respeito dos de Carção, que, quando nascia algum, logo
nascia uma mula, tão habitual era neles a ocupação de almocreves e recoveiros. [2]
Trindade Coelho, famoso escritor de
Mogadouro, esse ia mais longe escrevendo:
- Nos meus sítios, a mula como meio de
locomoção é quase exclusiva dos judeus. Por isso já dizia em Cortes, in illo tempore, um deputado trasmontano
– que de 10 em 10 anos se deveria confiscar toda a fortuna aos judeus, e deixar
só, a cada um, uma mula e 10 moedas. Daí a 10 anos voltavam outra vez a estar
ricos, e ia-se-lhes para cima com novo confisco.[3]
Nos últimos 150 anos, com a abertura das
modernas estradas e linhas de caminho de ferro, houve um particular movimento
migratório das gentes de Carção para a nossa vila e depois para a cidade de
Macedo de Cavaleiros que conheceu um progresso notável, absorvendo vários
concelhos da região. E esse movimento migratório foi registado pelo nosso povo
na seguinte quadra:
Para cá do Marão
Mandam os que cá
estão;
Mas em Macedo
Mandam os de
Carção.
Vindos dos lados da
Arábia
E de balança na mão
Vieram os de Carção
Que com grande
lábia
Invadiram a Estação
[4]
De certo aquela é uma herança judaica e
marrana, uma herança que as gentes de Carção souberam preservar. E é fantástico
que eles tenham perseverado em sua crença na lei mosaica apesar de todas as
perseguições inquisitoriais e eclesiásticas. Vejam, a propósito, o que o pároco
de Carção dizia em carta de 2.6.1852, para o bispo de Bragança:
- Neste povo grassa desde tempo imemorial
uma seita que em tempo da Inquisição era muito oculto, mas de 34 (1834) a esta
parte é isso muito divulgado, quero dizer que não se escondem os sectários como
outrora; assim há muita gente, que pelo menos in confuso sabem disso … O erro é
a seita, ou Lei Mosaica. [5]
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 14
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| Apresentação do livro será no próximo dia 3 de Novembro em Torre de Moncorvo |
António Júlio Andrade
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 13
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| Aldeia de Sambade - 2012 |
António Rodrigues
Mogadouro. Uma das
irmãs de Manuel Fernandes Vila Real chamou-se Isabel Henriques e foi casada com
António Rodrigues Mogadouro. A este, o sobrenome ficou-lhe da terra onde terá
nascido ou passado a infância, pois que o filho mais velho indicou a aldeia de
Sambade como a terra natal de seu pai. Mogadouro e Sambade eram então duas terras relativamente
próximas e complementares, na medida em que Mogadouro produzia muitas lãs e
Sambade era o grande centro da indústria têxtil do Nordeste Trasmontano.
Nascido por volta do ano de 1598, António Rodrigues cedo começou a viajar e a
mercadejar por terras de Castela onde tinha cópia de familiares, nomeadamente
em Madrid, cidade pujante em termos de construção civil e seu tio António
Álvares dominava a produção e venda de tijolos (“ladrillos”). Madrid era então
a jovem capital de Espanha unificada e a função pública ganhava respeito e
dignidade. E António tinha dois primos empregados em organismos do Estado,
altos funcionários, como hoje se diria. Facto é que, aos 22 anos, ele decidiu
fixar-se em Madrid, ali permanecendo por 5 anos. Regressou a Trás-os-Montes e
foi casar a Vila Real, com Maria Lopes, a qual faleceu pouco depois, sem lhe
dar descendência. Voltou a Madrid mas… em 1933 regressou definitivamente a
Portugal, estabelecendo-se em Lisboa, com casa de comércio, na Rua das Mudas. E
logo voltou a casar, com Isabel Henriques, como atrás se disse. Poucos anos
depois, aquando da revolução de 1640, já a casa comercial do Mogadouro tinha
nome, a ponto de “ganhar o concurso” para o fornecimento de géneros aos
exércitos estacionados em Trás-os-Montes. Certamente ajudaram nisso as relações
com a família dos Távoras, senhores de Mogadouro e com o Conde de castelo
melhor que naquela mesma família estava casado. E ainda mais ajudariam seus
numerosos irmãos e irmãs estabelecidos por Mogadouro, Sambade, Chacim, Miranda
do Douro… todos trabalhando em rede. E em rede trabalhava com outros irmãos,
primos e sobrinhos que ele tinha em Madrid, Bordéus, Livorno… Em simultâneo
cresciam os filhos e com estes metidos na empresa desde cedo, alargavam-se os
negócios, em termos geográficos e na diversificação de produtos comerciados:
especiarias e diamantes da Índia, escravos de Angola, açúcar e tabaco do
Brasil, sal, vinho e azeite de Portugal, tecidos e metais do Norte da Europa…
Entretanto o poder político mudou de mãos, com o rei Afonso VI a ser
encarcerado e a ver a mulher casar-se com o irmão Pedro, este aclamado rei nas
Cortes Gerais da Nação cujos membros eram na grande maioria Familiares da
Inquisição. E com o “partido da inquisição” a tomar as rédeas do poder, as
primeiras vítimas foram, naturalmente, os mercadores marranos apoiantes do
regime e que, respondendo ao apelo do padre António Vieira, entraram com seus
capitais na fundação da Companhia das Índias. E assim António Rodrigues
Mogadouro foi preso em 29 de Julho de 1672, juntamente com os dois filhos
varões mais velhos, seguindo-se os outros todos, à excepção de uma filha casada
com o primo Diogo Rodrigues Marques que conseguiu fugir para Inglaterra. Ao
cabo de 7 anos o velho patriarca morreu na cadeia. Mas o seu processo na
inquisição não terminou. Apenas foi encerrado no auto de fé de 26.11.1684, em
que os seus ossos foram desenterrados, metidos em um caixão e queimados na
fogueira, juntamente com um boneco de palha que o representava. Na cadeia
também morreram duas filhas, uma delas pouco depois de ser presa e lavando um
filho no ventre prestes a nascer e que também morreu. O filho mais velho,
António Rodrigues Henriques, que à data da prisão era já o gestor executivo das
empresas Mogadouro, esse foi queimado vivo no auto de fé de 10.5.1682. No mesmo
auto saiu penitenciada a filha mais nova, Brites Henriques e os filhos
Francisco e Pantaleão. Este acabaria por reconstruir a sua vida e, anos depois,
aparecia em Lodres como um dos 5 líderes da comunidade judaica que assinaram o
contrato para construção da sinagoga de Bevis Marks.
António Júlio Andrade
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Belmonte - Loja KOSHER
A Portugal Kosher, em
Belmonte, na pessoa do Rabino Elisha Salas, é o representante em Portugal da
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A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa
Editora: Vega
Autor: António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães
Disponibilidade: Em stock
Preço: 14,15€
A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, segundo número da colecção SEFARAD, tem como base uma investigação profunda de umcorpus de processos na Inquisição de Lisboa. Através desses processos, os autores reconstituíram a história da família Mogadouro, proprietária da Nau Jerusalém, que se ocupava predominantemente do transporte de judeus portugueses que fugiam da Inquisição e de judeus que vinham de Itália para Portugal disfarçados de comerciantes. À excepção de uma filha que era casada, todos os membros do clã dos Mogadouro conheceram, em simultâneo, os horrores das cadeias da Inquisição de Lisboa.
O próprio jogo vocabular do título mostra-nos toda a dimensão de perversão com que o devir dos tempos conseguiu brindar certas comunidades: A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, isto é, de como uma comunidade rica da periferia foi perseguida por um tribunal instalado na capital.
O próprio jogo vocabular do título mostra-nos toda a dimensão de perversão com que o devir dos tempos conseguiu brindar certas comunidades: A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, isto é, de como uma comunidade rica da periferia foi perseguida por um tribunal instalado na capital.
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terça-feira, 23 de outubro de 2012
O PODER DA INQUISIÇÃO.Por: J. Andrade F.Guimarães
Ao falar da Inquisição há duas
posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma
delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar
aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o
mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada
numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os
crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns
chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores
atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em
sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas
posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em
Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de
dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o
extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia
com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável,
passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do
povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade
popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de
controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o
exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas
político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas
lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta
instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar
as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a
tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder
ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que
investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal
igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o
acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores.
Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo
objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a
Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes
estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar
a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova
criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o
controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer
carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário
para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa
que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos,
usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia
aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou
secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social,
significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os
dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas
vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de
Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o
colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de
juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e
social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção
de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou
judiciais.
Claro que esta poderoso complexo
institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror,
fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido
social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o
objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das
almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando
o povo.
Nada disto era novo, pois a
perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e
regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do
terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a
Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício
transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror
entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do
historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais
blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na
moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias
e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os
processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate
permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo
em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir.
A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a
destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a
saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia
ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria
humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao
algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a
lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior
expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz
vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos
com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria
mais ainda a suportar do que a própria prisão.
E para os maiores “criminosos”,
os que eram condenados à morte (relaxados é o termo usado), os sambenitos eram
decorados com um desenho da própria cara envolta com as chamas do inferno e
pinturas aterradoras de demónios, mordendo-o. E na procissão para o auto de fé
a humilhação completava-se metendo-lhe na cabeça uma carocha – espécie de
chapéu cónico, muito alto, igualmente decorado com as chamas e os diabos do
inferno.
Claro que o alvo principal do
castigo não eram os relaxados mas as suas famílias, os seus amigos, a sociedade
que precisava ser permanentemente condicionada pelo medo e sobre a qual tinha
sempre de pairar a sombra da Inquisição. Para isso, por cada relaxado, faziam-se
dois sambenitos. Um deles ficava exposto na cidade sede da Inquisição e o outro
era enviado para a terra, sendo pendurado no interior da igreja matriz, exposto
como estandarte, onde ficava pelos anos afora. Os sambenitos dos relaxados,
assim expostos na igreja, forneciam poderoso combustível para a imaginação dos
beatos católicos que “neles tinham com que domar a soberba dos cristãos novos”
– como explicava um lavrador de Carção – e com eles perdurava a ignomínia sobre
os filhos, netos e outros familiares dos condenados.
NOTA – Este texto faz parte de um
artigo publicado na revista Almocreve / 2012, que se publica na aldeia de
Carção, concelho de Vimioso, com o título de A Reposição dos Sambenitos na Igreja de Carção
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 12
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Manuel Fernandes Vila
Real. Seus pais eram
de Vila Real e emigraram para Lisboa, terra onde Manuel Fernandes nasceu, em
1608. O início da sua vida activa foi na loja de fancaria de seu pai mas, aos
14 anos, foi com o governador Jorge de Mascarenhas para Ceuta, seguindo a
carreira militar e ali atingiu o posto de capitão. Voltou a Portugal e foi com
cobrador das rendas do Priorado do Crato e corretor dos reais de Lisboa que seu
pai arrematara. Os negócios da família estendiam-se também ao Brasil, ao trato
do açúcar e do tabaco. Para o transporte destes produtos do Brasil para Lisboa
e para os portos do Mediterrâneo e do Báltico, Manuel Fernandes decidiu-se pela
compra de um barco e com esse objectivo se dirigiu a Sevilha, Málaga, Ruão e
Havre onde conseguiu efectuar a compra e a partir dali trabalhar na marinha
mercante, com seus cunhados Manuel e João de Morais. Falecendo o João, Vila
Real necessitou de ir a Paris. E levaria boas recomendações, a ponto de cair
nas boas graças do chefe do governo, o poderoso Cardeal Richelieu. Sucedeu entretanto
a revolução do 1º Dezembro de 1640 que colocou no trono de Portugal o rei D.
João IV, da Casa de Bragança, que teve desde logo o apoio da generalidade da
nação sefardita que vivia em Portugal mas também no resto do mundo,
nomeadamente na Holanda, França e Inglaterra. Durante alguns anos, Manuel
Fernandes foi uma espécie de embaixador itinerante, acompanhando altos
dignitários da monarquia portuguesa em negociações diplomáticas e de apoio
militar, bem como na compra de armas e mobilização de voluntários para o
exército que, durante uns 18 anos, enfrentaria uma guerra com Espanha. Por tudo
isso ele se terá constituído em alvo prioritário da inquisição que, nas artes
da espionagem, tinha óptimos executantes, normalmente recrutados entre frades,
como foi o caso. E vindo a Lisboa, em 1647, na companhia do Conde de Vidigueira
que chefiara uma embaixada a Paris, Manuel Fernandes Vila Real foi preso pela
inquisição, acusado de judaísmo e de ler livros proibidos. Recordemos que
naqueles tempos se travava uma tremenda luta política entre a inquisição e o
rei D. João IV que fora excomungado pelo Papa de Roma e por este via recusada a
nomeação de bispos para Portugal. E o clímax desta luta política foi atingido
no dia 1º de Dezembro de 1652. Com efeito, para comemorar os 12 anos da
revolução que colocou no trono o rei D. João IV, a inquisição preparou uma
festa magnífica com um grandioso auto de fé em que foi sentenciado e queimado
na fogueira o embaixador Manuel Fernandes Vila Real. A presidir às cerimónias
estava o próprio rei que, por disposição legal e obrigação política, não podia
escusar-se a esta tremenda humilhação – presidir à festa de imolação de um dos
seus maiores e mais desinteressados apoiantes! Resta, finalmente, dizer que
Manuel Fernandes Vila Real foi também um homem de letras, escritor de tratados
de diplomacia e política, o mais conhecido dos quais será El Político
Christiano ó Discursos políticos sobre Algunas Acciones de la Vida del
Eminentíssimo Señor Cardenal Richelieu, editado em França em 1641 e em 2005
reeditado pela Ed. Caminho com introdução biográfica e notas do Prof. Borges
Coelho, também ele um ilustre trasmontano e grande historiador da inquisição e
cristãos novos, a quem devemos uma grande homenagem. A publicação daquele livro
terá sido uma das causas próximas e directas da prisão e condenação à morte do
embaixador Vila Real, pois que os inquisidores de Lisboa consideraram que tal
livro continha matéria perigosa, ideias influenciadas pela doutrina judaica.
António Júlio Andrade
domingo, 21 de outubro de 2012
JOSÉ ANTÓNIO PINTO -Originário de Torre de Moncorvo, circuncidado em Livorno e judaizante em Tetuão.
Por:J.Andrade
F.Guimarães
Livorno é uma cidade da costa
ocidental da península itálica. Ao findar do século XVI, quando os judeus e os
cripto-judeu eram escorraçados de Portugal e Espanha e mal aceites na maioria
dos restantes estados europeus, o grão-duque Fernando I convidou os perseguidos
a fixar-se em Livorno. E, por lei promulgada em 1593, concedeu e esses
imigrantes alargados privilégios entre os quais a isenção de taxas e impostos e
a mais absoluta liberdade religiosa. No caso dos judeus permitia-lhes até a
criação de tribunais próprios para resolver os processos surgidos entre eles.
F.Guimarães
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| Foto do livro "Os Isidros - a epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo |
Naturalmente que, abrindo-se-lhe
uma tal porta, um grande número de cristãos-novos portugueses escolheram
Livorno para viver. Este fluxo migratório acentuou-se a partir da queda do
conde de Olivares, famoso ministro de FilipeIV, em 1643 e da bancarrota da
Coroa espanhola em 1647, altura em que as inquisições redobraram o seu ímpeto
persecutório, primeiro em Espanha, depois em Portugal. Como testemunho deste
movimento migratório, ficou célebre o comentário feito pelo embaixador de
Veneza naquela cidade quando, em 4.6.1655, assistiu à chegada de um navio que
ali desembarcou 40 novos imigrantes: - São uma espécie de cristãos que quando
aqui chegam imediatamente se tornam judeus.
E foi assim que, por 1670, a
comunidade sefardita de Livorno rivalizava com a de Amesterdão, não havendo
outra que se lhe comparasse, tanto no cômputo populacional (cerca de 300
membros), como do movimento comercial. Amesterdão era a grande praça comercial
no Norte da Europa e Livorno desempenhava idêntico papel na bacia do mar
Mediterrâneo, destronando Veneza. A Livorno chegavam os produtos que os barcos
traziam da Índia, da China, da África e das Américas (escalando ou não os
portos de Lisboa e Sevilha) e os comerciantes Livornenses os encaminhavam
depois para os países da Europa central e meridional e também para o império
Otomano e mais partes do Médio Oriente. Segundo António Carlos Carvalho, foram
os Livornenses “os primeiros europeus a apreciar o sabor do café, o gosto do
chocolate e o prazer do tabaco”. E nos trilhos da emigração de cristãos-novos
portugueses para Livorno, ficou famosa a nau Jerusalém e a família Mogadouro,
sua proprietária, de que alguns membros foram processados e mortos pela
inquisição como “passadores de judeus”.
Ao contrário das outras cidades
italianas, em Livorno não existia qualquer “ghetto” e os judeus misturavam-se
livremente com o resto da população e ostentavam com orgulho seus brasões nos
documentos. A comunidade era dirigida por um colégio de 60 membros hereditários
e as actas das suas reuniões eram redigidas em português, mantendo-se esta
língua como oficial da “nação hebreia” de Livorno até 1787.
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