sexta-feira, 2 de novembro de 2012

OS ISIDROS - Amanhã na Biblioteca de Torre de Moncorvo


Excerto do livro:
Caíram sobre ele às estocadas mesmo à porta se sua casa, sita ao fundo da rua dos Sapateiros, na vila de Torre de Moncorvo. Eram três contra um e, embora valente e destemido, nada mais pôde fazer do que aparar com a espada as primeiras estocadas e rapidamente meter-se em casa cuja porta a mulher lhe abrira e ainda mais depressa fechou, atrás dele. Da mão esquerda escorria sangue, que lhe abriram um lenho bem fundo e no chão da rua ficou o dedo mindinho, que lho cortaram com uma espadeirada. Antes de prosseguirmos, convirá que apresentemos os contendores:
De um lado, Manuel Rodrigues Isidro, 24 anos, cristão-novo, comerciante e rendeiro, certamente o homem mais endinheirado da terra, um exportador e importador que anualmente pagava mais de 100 mil reis de impostos alfandegários e contava com a protecção de D. Francisca de Aragão, uma das damas de mais consideradas e influentes na Corte de Madrid.

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 17


David Castro Tartas. Por 1620, sentindo-se perseguidos pela inquisição, Cristóvão Luís de Castro e sua mulher Isabel da Paz, abandonaram a casa em Bragança e meteram-se por Espanha fora, indo “pousar” em Tartas, uma localidade próxima de Bayonne, à entrada de França. Ali lhe nasceram vários filhos, posto o que seguiram para Amesterdão, cidade onde aderiram abertamente ao judaísmo. Cristóvão tomou o nome de Abraão e Isabel o de Sara. Ao filho mais velho deram o nome de David. E toda a família passou a ser conhecida pelo sobrenome Tartas, exactamente por ali terem vivido. Logo que chegou à idade de trabalhar, David Tartas empregou-se na tipografia do famoso rabi Menasseh bem Israel, o líder religioso indiscutível da nação sefardita de Amesterdão. Em 1660, David comprou a tipografia que, aliás, ele já vinha dirigindo. E nela passaram a trabalhar também o seu irmão Jacob e o cunhado Samuel Teixeira. E foi então que a tipografia ganhou o maior prestígio, ficando conhecidas as suas edições do “Pentateuco” e dos “Sermões que pregaram os Doctos Ingenios do KK do Talmud Torah”. Porém, a maior glória desta tipografia foi alcançada com outra iniciativa – a impressão da “Gazeta de Amesterdão” entre 1675 e 1690, o primeiro jornal de negócios do mundo, onde se davam sobretudo informações sobre a chegada e partida de navios e cargas transportadas, do Brasil, das Antilhas, da Índia, de Espanha…
António Júlio Andrade

 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Judiarias de Portugal no final do século XV

Moncorvo. Uma sinagoga
 funcionou até então numa casa particular junto à Igreja Matriz.

Bragança. No século XIII já existia aqui uma importante comunidade de judeus. A Inquisição fez na região, durante quase três séculos, uma verdadeira matança. 
- Argozelo, - Carção,    Freixo de Espada à Cinta-Miranda do Douro,- Mogadouro, Rio Frio-
Torre de Moncorvo. O cripto-judaísmo manteve aqui bem vivo até 1929. Uma sinagoga, funcionou até então numa casa particular junto à Igreja Matriz.-
Vilarinho dos Galegos,- Vila Flor
Vila Real
- Chaves, Mirandela, Rio Livre

In "Judiarias de Portugal" - Carlos Fontes

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 16


Francisco Lopes Capadócia. Nasceu em Vila Real, por 1600.Era ainda pequeno quando ficou órfão de mãe e o pai o levou para Espanha, fixando-se em Medina de Rio Seco. Pelos 16 anos, Francisco foi enviado para Lisboa, certamente a estagiar em alguma casa comercial de algum parente ou sócio de negócios do pai. Por 1620 regressou a Espanha, dirigindo-se para Madrid, onde tinha outros parentes bem colocados nos negócios e com a categoria de rendeiros. Aliás, foi exactamente a trabalhar na cobrança das rendas que em Madrid se empregou. Por 1630, regressou a Portugal e foi casar em Portalegre, com Beatriz Mendes, envolvendo-se então nos arrendamentos do Priorado do Crato. Deve ter feito bons investimentos pois regressou a Madrid com bastante capital que utilizou emprestando a juros a particulares, nomeadamente membros da nobreza em dificuldades financeiras. Meteu-se também nos arrendamentos da Coroa, como fosse o fornecimento de géneros às tropas estacionadas em Ceuta e Tanger, no Norte de África. Enquanto isso, tinham-lhe nascido 2 filhos e 1 filha. Esta, de nome Joana, casou com Luís Fernandes, o Pato, também de Vila Real, membros de uma poderosa família de marranos, estabelecido em Madrid, também contratador de rendas. Em 1653 começou o calvário para Francisco Lopes, ao ser preso pela inquisição de Valladolid. Saiu reconciliado em 1655 mas, seguindo-se a prisão de seu filho Domingos e depois a da filha Joana, acabou denunciado por eles e foi novamente preso. Acabou por falecer na cadeia em Fevereiro de 1665.
António Júlio Andrade

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Marranos de Lagoaça no Tribunal da Inquisição

Por: António J. Andrade
Maria F. Guimarães

- Próximo da minha terra natal há uma povoação – Lagoaça – onde as famílias indicadas por judias são numerosas e formam o grosso da população, considerando-se, desde tempos imemoriais, separadas de qualquer consanguinidade ou afinidade com a outra parte, que é especialmente agrícola e mesteiral, enquanto aquela se dedica ao comércio quase absolutamente e, até há poucos anos, exclusivamente às recovagens e ao contrabando; afastados completamente da vida pública, em que nem tentavam intrometer-se, com costumes e usos muito diferentes dos do resto da população, com a qual porém se confundiam nas práticas externas do catolicismo.
Estas palavras escreveu, por 1879, o Dr. Bernardo Teixeira Leite Velho, de Mogadouro, em umas notas que deixou manuscritas e de que o Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado publicou alguns excertos. [1]
Muitas referências foram também feitas pelo Abade de Baçal aos criptojudeus de Lagoaça, assim retratados:
- Diz-nos o ilustre abade de Carviçais que o tipo de judeu do sul do distrito é sardento, olhos penetrantes, nariz adunco e que são chamados Cházaros em Lagoaça.[2]
No mesmo volume, página LX, das suas memórias, acrescenta:
- Segundo me informa o erudito abade de Carviçais José Augusto Tavares, também no sul do distrito de Bragança, principalmente nas povoações de Lagoaça e Vilarinho dos Galegos, há abafadores, que são conhecidos pelo nome de encalcadores e ainda massagistas.
Esta informação tem despertado muita controvérsia, sobretudo depois da publicação do conto de Miguel Torga – O Alma Grande – descrevendo a morte provocada de um moribundo, por asfixia. A verdade é que, nunca se provou tal prática e o comportamento das famílias marranas perante os seus moribundos seria idêntico ao das famílias católicas: prestar-lhes assistência e dar-lhe o conforto espiritual para bem morrer, na graça de Deus.
Diz uma tradição popular que os judeus expulsos de Espanha, que atravessaram a fronteira por Miranda do Douro, seguiram três destinos diferentes: os mais pobres, que vinham a pé, ficaram-se por Carção e Argoselo, os que eram remediados e vinham de burro, seguiram para as terras de Mogadouro e Vilarinho dos Galegos, enquanto os mais ricos, donos de possantes machos e mulas, se foram fixar em Lagoaça. De contrário, refere-se outra tradição dizendo que a terra de fixação dos judeus ricos era Freixo de Espada à Cinta e que para Lagoaça foram os judeus pobres.
Certamente que nenhuma das afirmações encerra toda a verdade, até porque a principal característica da gente da nação hebreia era exactamente a sua permanente mobilidade e o estabelecimento de redes comerciais familiares descentralizadas. Estavam onde podiam estar e aproveitavam todas as oportunidades que lhe eram proporcionadas. Como quer que seja, são indiscutíveis as tradições judaicas e marranas de Lagoaça e há um rifão popular que diz:

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 15


Francisco Fonseca Henriques. Ficou mais conhecido pelo nome de Dr. Mirandela, herdado da terra onde viu a luz, no ano de 1665. Formado pela universidade de Coimbra, foi um dos médicos portugueses mais famosos de todos os tempos. O seu livro – “Medicina Lusitana” – impresso em Amesterdão, em 1710, foi por mais de um século uma espécie de bíblia e receituário de medicina em Portugal, com reedições sucessivas. Outra obra de muito interesse e mesmo de actualidade, é o seu “Aquilégio Medicinal”, publicado em 1726, em Lisboa. Trata-se do primeiro inventário feito de norte a sul de Portugal das “águas de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e cisternas”, com vista à sua catalogação química e uso no tratamento das diferentes doenças, ou prevenção das mesmas e conservação da saúde. Sim, que o Dr. Mirandela foi exactamente revolucionário nesse sentido: adepto e apoiante do termalismo e decidido defensor da medicina preventiva. E pleno de actualidade é o terceiro livro deste médico Trasmontano, que eu gosto muito de apresentar: “Ancora Medicinal para conservar a vida com saúde – os segredos da nutrição”. Foi impresso em Lisboa em 1721, com 2 reedições em 1731 (ano da sua morte) e outras em 1740 e 1754 e… “por ser o mais conhecido guia da alimentação e conservação da saúde” e porque “tem agora mais actualidade do que nunca”, foi reeditado no ano 2000. Esta obra permite que consideremos o Dr. Mirandela como o primeiro grande médico nutricionista assumido em Portugal. E as suas preocupações com a qualidade do ar que respiramos, farão dele um pioneiro dos ambientalistas. Sobre o assunto, melhor fala a apresentação escrita por ele próprio no seu livro. Vejam apenas este excerto: - Quem respirar bons ares; quem com moderação e prudência usar de bons alimentos; quem dormir com sossego as horas que bastem; quem fizer exercício como deve; quem trouxer a natureza bem regulada nas suas evacuações; e quem não tiver paixões que lhe alterem a harmonia dos humores: não pode deixar de ter boa saúde, ou ao menos, não terá tantas ocasiões de a perder. O Dr. Mirandela era de ascendência hebreia e a história de seus ancestrais nos cárceres da inquisição é longa. Como também a de seus tios, irmãos, sobrinhos e primos. Ele, felizmente, parece não ter sido perseguido. E nisso terá valido a protecção do rei D. João V, de quem ele era médico oficial. Sobre seus descendentes, diremos que teve um filho médico que fez carreira em Itália e várias filhas, que todas elas foram metidas em Recolhimento de freiras. A casa onde ele nasceu, na aldeia de Carvalhais, na proximidade de Mirandela, aguentou-se até há bem poucos anos, tendo sofrido obras de remodelação. Outras gerações de trasmontanos tiveram a lembrança de lá colocar uma placa alusiva. Não sei se ainda lá se encontra.
António Júlia Andrade

domingo, 28 de outubro de 2012

CARÇÃO APRESENTAÇÃO I- UMA HISTÓRIA DE RESITÊNCIA À INQUISIÇÃO

Carção é uma aldeia do concelho de Vimioso, no mais profundo Trás-os-Montes, afastada das rotas comerciais e turísticas. Seus habitantes, porém, sempre tiveram arte e engenho para quebrar o isolamento da terra e sair a mercadejar por toda a parte. Sobre eles escreveu, há cerca de um século, o douto Abade de Baçal:
- Percorrem o distrito de Bragança com venda ambulante de bacalhau, arroz, azeite e outros géneros, comprando ao mesmo tempo peles ovinas, bovinas e caprinas (…) Encontram-se estabelecidos nos povoados principais, aldeias ricas e férteis do reino, colónias e até do estrangeiro, onde entram à formiga, sem eira nem beira, nem ramo de figueira, apenas com dois centos de sardinhas em cima de um burro podre e dentro de uma dúzia de anos chegam a preponderar pela fortuna adquirida no negócio. [1]
Muito semelhante é o retrato feito por outros historiadores, literatos e etnólogos que escreveram sobre o génio mercantil e empreendedor das gentes de Carção. E todos associam esta qualidade à sua herança judaica. Leite de Vasconcelos, por exemplo, usou estas palavras:
- A gente de estirpe judaica destas últimas povoações (Carção e Argozelo) vivia, até há pouco, sobretudo do comércio e da indústria dos curtumes. Com suas mulas de carga, era vê-los de casa em casa de terra em terra a vender bacalhau, arroz e azeite e outros géneros alimentícios ou a ajustar as peles para o fornecimento da sua indústria. Dizia-se até que a um judeu de Carção ou Argozelo nada mais faltava para fazer fortuna do que uma libra e uma mula. E, a respeito dos de Carção, que, quando nascia algum, logo nascia uma mula, tão habitual era neles a ocupação de almocreves e recoveiros. [2]
Trindade Coelho, famoso escritor de Mogadouro, esse ia mais longe escrevendo:
- Nos meus sítios, a mula como meio de locomoção é quase exclusiva dos judeus. Por isso já dizia em Cortes, in illo tempore, um deputado trasmontano – que de 10 em 10 anos se deveria confiscar toda a fortuna aos judeus, e deixar só, a cada um, uma mula e 10 moedas. Daí a 10 anos voltavam outra vez a estar ricos, e ia-se-lhes para cima com novo confisco.[3]

Nos últimos 150 anos, com a abertura das modernas estradas e linhas de caminho de ferro, houve um particular movimento migratório das gentes de Carção para a nossa vila e depois para a cidade de Macedo de Cavaleiros que conheceu um progresso notável, absorvendo vários concelhos da região. E esse movimento migratório foi registado pelo nosso povo na seguinte quadra:

 

Para cá do Marão

Mandam os que cá estão;

Mas em Macedo

Mandam os de Carção.

 

 Os Macedenses, por seu turno, fixaram também em versos aquela “invasão” de imigrantes de Carção:

Vindos dos lados da Arábia

E de balança na mão

Vieram os de Carção

Que com grande lábia

Invadiram a Estação [4]

 

De certo aquela é uma herança judaica e marrana, uma herança que as gentes de Carção souberam preservar. E é fantástico que eles tenham perseverado em sua crença na lei mosaica apesar de todas as perseguições inquisitoriais e eclesiásticas. Vejam, a propósito, o que o pároco de Carção dizia em carta de 2.6.1852, para o bispo de Bragança:

- Neste povo grassa desde tempo imemorial uma seita que em tempo da Inquisição era muito oculto, mas de 34 (1834) a esta parte é isso muito divulgado, quero dizer que não se escondem os sectários como outrora; assim há muita gente, que pelo menos in confuso sabem disso … O erro é a seita, ou Lei Mosaica. [5]

BELMONTE -"Souvenires"


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 14

Apresentação do livro será no próximo dia 3
 de Novembro em Torre de Moncorvo
Henrique Lourenço. Poucos dados recolhemos sobre este homem que nasceu em Torre de Moncorvo na viragem do século de 500 para o de 600, segundo as suas próprias declarações, sendo filho de outro Henrique Lourenço e de sua mulher, Isabel Pereira. Em 14 de Janeiro de 1636 foi preso no Panamá, de onde foi levado para as cadeias da inquisição de Lima, no Perú. Ao ser preso, foram-lhe confiscados todos os seus bens e leiloados em praça pública, tendo rendido 17 544 pesos. A mercadoria era constituída por 5 escravos, lotes de tecidos provenientes de Ruão (França) e 64 barris de pimenta. O objectivo da sua viagem seria a venda destas mercadorias e a compra de prata naquelas paragens da América espanhola. Saiu reconciliado em 1639, condenado a remar nas galés de Sua Majestade e depois de cumprida a pena devia apresentar-se em Sevilha, cidade que foi designada para seu cárcere. O lhe que aconteceu depois não sabemos. Apenas temos uma informação datada de 29 de Agosto de 1641, produzida por seu irmão Manuel Henriques Pereira, o gigante, de alcunha, dizendo que seu irmão Henrique Lourenço “foi para as Índias de Castela e ouviu dizer que casara no México, com uma cristã-velha e era falecido”. Acerca dos 7 irmãos e 3 irmãs de Henrique Lourenço, muito haverá a dizer, pois todos eles merecem figurar num dicionário de ilustres marranos de Trás-os-Montes.
António Júlio Andrade 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 13

Aldeia de Sambade - 2012
António Rodrigues Mogadouro. Uma das irmãs de Manuel Fernandes Vila Real chamou-se Isabel Henriques e foi casada com António Rodrigues Mogadouro. A este, o sobrenome ficou-lhe da terra onde terá nascido ou passado a infância, pois que o filho mais velho indicou a aldeia de Sambade como a terra natal de seu pai. Mogadouro  e Sambade eram então duas terras relativamente próximas e complementares, na medida em que Mogadouro produzia muitas lãs e Sambade era o grande centro da indústria têxtil do Nordeste Trasmontano. Nascido por volta do ano de 1598, António Rodrigues cedo começou a viajar e a mercadejar por terras de Castela onde tinha cópia de familiares, nomeadamente em Madrid, cidade pujante em termos de construção civil e seu tio António Álvares dominava a produção e venda de tijolos (“ladrillos”). Madrid era então a jovem capital de Espanha unificada e a função pública ganhava respeito e dignidade. E António tinha dois primos empregados em organismos do Estado, altos funcionários, como hoje se diria. Facto é que, aos 22 anos, ele decidiu fixar-se em Madrid, ali permanecendo por 5 anos. Regressou a Trás-os-Montes e foi casar a Vila Real, com Maria Lopes, a qual faleceu pouco depois, sem lhe dar descendência. Voltou a Madrid mas… em 1933 regressou definitivamente a Portugal, estabelecendo-se em Lisboa, com casa de comércio, na Rua das Mudas. E logo voltou a casar, com Isabel Henriques, como atrás se disse. Poucos anos depois, aquando da revolução de 1640, já a casa comercial do Mogadouro tinha nome, a ponto de “ganhar o concurso” para o fornecimento de géneros aos exércitos estacionados em Trás-os-Montes. Certamente ajudaram nisso as relações com a família dos Távoras, senhores de Mogadouro e com o Conde de castelo melhor que naquela mesma família estava casado. E ainda mais ajudariam seus numerosos irmãos e irmãs estabelecidos por Mogadouro, Sambade, Chacim, Miranda do Douro… todos trabalhando em rede. E em rede trabalhava com outros irmãos, primos e sobrinhos que ele tinha em Madrid, Bordéus, Livorno… Em simultâneo cresciam os filhos e com estes metidos na empresa desde cedo, alargavam-se os negócios, em termos geográficos e na diversificação de produtos comerciados: especiarias e diamantes da Índia, escravos de Angola, açúcar e tabaco do Brasil, sal, vinho e azeite de Portugal, tecidos e metais do Norte da Europa… Entretanto o poder político mudou de mãos, com o rei Afonso VI a ser encarcerado e a ver a mulher casar-se com o irmão Pedro, este aclamado rei nas Cortes Gerais da Nação cujos membros eram na grande maioria Familiares da Inquisição. E com o “partido da inquisição” a tomar as rédeas do poder, as primeiras vítimas foram, naturalmente, os mercadores marranos apoiantes do regime e que, respondendo ao apelo do padre António Vieira, entraram com seus capitais na fundação da Companhia das Índias. E assim António Rodrigues Mogadouro foi preso em 29 de Julho de 1672, juntamente com os dois filhos varões mais velhos, seguindo-se os outros todos, à excepção de uma filha casada com o primo Diogo Rodrigues Marques que conseguiu fugir para Inglaterra. Ao cabo de 7 anos o velho patriarca morreu na cadeia. Mas o seu processo na inquisição não terminou. Apenas foi encerrado no auto de fé de 26.11.1684, em que os seus ossos foram desenterrados, metidos em um caixão e queimados na fogueira, juntamente com um boneco de palha que o representava. Na cadeia também morreram duas filhas, uma delas pouco depois de ser presa e lavando um filho no ventre prestes a nascer e que também morreu. O filho mais velho, António Rodrigues Henriques, que à data da prisão era já o gestor executivo das empresas Mogadouro, esse foi queimado vivo no auto de fé de 10.5.1682. No mesmo auto saiu penitenciada a filha mais nova, Brites Henriques e os filhos Francisco e Pantaleão. Este acabaria por reconstruir a sua vida e, anos depois, aparecia em Lodres como um dos 5 líderes da comunidade judaica que assinaram o contrato para construção da sinagoga de Bevis Marks.
António Júlio Andrade

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Belmonte - Loja KOSHER

A Portugal Kosher, em Belmonte, na pessoa do Rabino Elisha Salas, é o representante em Portugal da UNION ORTODOXA, STAR - K (Estados Unidos, Canadá e Israel) e CHATAM SOFER (Estados Unidos, Canadá e Israel), organizações cuja Certificação é reconhecida mundialmente junto de toda a comunidade judaica.Visite o site:
http://www.kosherportugal.com/p/kosher-produzidos-em-portugal-com-selo.html

A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa

A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa

Editora: Vega
Autor: António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães
Disponibilidade: Em stock

Preço: 14,15€
               
A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, segundo número da colecção SEFARAD, tem como base uma investigação profunda de umcorpus de processos na Inquisição de Lisboa. Através desses processos, os autores reconstituíram a história da família Mogadouro, proprietária da Nau Jerusalém, que se ocupava predominantemente do transporte de judeus portugueses que fugiam da Inquisição e de judeus que vinham de Itália para Portugal disfarçados de comerciantes. À excepção de uma filha que era casada, todos os membros do clã dos Mogadouro conheceram, em simultâneo, os horrores das cadeias da Inquisição de Lisboa.
O próprio jogo vocabular do título mostra-nos toda a dimensão de perversão com que o devir dos tempos conseguiu brindar certas comunidades: A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, isto é, de como uma comunidade rica da periferia foi perseguida por um tribunal instalado na capital.
 

TORRE DE MONCORVO - SINAGOGA

Brevemente nas livrarias

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O PODER DA INQUISIÇÃO.Por: J. Andrade F.Guimarães

Ao falar da Inquisição há duas posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável, passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores. Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos, usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social, significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou judiciais.
Claro que esta poderoso complexo institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror, fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando o povo.
Nada disto era novo, pois a perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir. A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria mais ainda a suportar do que a própria prisão.
E para os maiores “criminosos”, os que eram condenados à morte (relaxados é o termo usado), os sambenitos eram decorados com um desenho da própria cara envolta com as chamas do inferno e pinturas aterradoras de demónios, mordendo-o. E na procissão para o auto de fé a humilhação completava-se metendo-lhe na cabeça uma carocha – espécie de chapéu cónico, muito alto, igualmente decorado com as chamas e os diabos do inferno.
Claro que o alvo principal do castigo não eram os relaxados mas as suas famílias, os seus amigos, a sociedade que precisava ser permanentemente condicionada pelo medo e sobre a qual tinha sempre de pairar a sombra da Inquisição. Para isso, por cada relaxado, faziam-se dois sambenitos. Um deles ficava exposto na cidade sede da Inquisição e o outro era enviado para a terra, sendo pendurado no interior da igreja matriz, exposto como estandarte, onde ficava pelos anos afora. Os sambenitos dos relaxados, assim expostos na igreja, forneciam poderoso combustível para a imaginação dos beatos católicos que “neles tinham com que domar a soberba dos cristãos novos” – como explicava um lavrador de Carção – e com eles perdurava a ignomínia sobre os filhos, netos e outros familiares dos condenados.
NOTA – Este texto faz parte de um artigo publicado na revista Almocreve / 2012, que se publica na aldeia de Carção, concelho de Vimioso, com o título de A Reposição dos Sambenitos na Igreja de Carção

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 12


Manuel Fernandes Vila Real. Seus pais eram de Vila Real e emigraram para Lisboa, terra onde Manuel Fernandes nasceu, em 1608. O início da sua vida activa foi na loja de fancaria de seu pai mas, aos 14 anos, foi com o governador Jorge de Mascarenhas para Ceuta, seguindo a carreira militar e ali atingiu o posto de capitão. Voltou a Portugal e foi com cobrador das rendas do Priorado do Crato e corretor dos reais de Lisboa que seu pai arrematara. Os negócios da família estendiam-se também ao Brasil, ao trato do açúcar e do tabaco. Para o transporte destes produtos do Brasil para Lisboa e para os portos do Mediterrâneo e do Báltico, Manuel Fernandes decidiu-se pela compra de um barco e com esse objectivo se dirigiu a Sevilha, Málaga, Ruão e Havre onde conseguiu efectuar a compra e a partir dali trabalhar na marinha mercante, com seus cunhados Manuel e João de Morais. Falecendo o João, Vila Real necessitou de ir a Paris. E levaria boas recomendações, a ponto de cair nas boas graças do chefe do governo, o poderoso Cardeal Richelieu. Sucedeu entretanto a revolução do 1º Dezembro de 1640 que colocou no trono de Portugal o rei D. João IV, da Casa de Bragança, que teve desde logo o apoio da generalidade da nação sefardita que vivia em Portugal mas também no resto do mundo, nomeadamente na Holanda, França e Inglaterra. Durante alguns anos, Manuel Fernandes foi uma espécie de embaixador itinerante, acompanhando altos dignitários da monarquia portuguesa em negociações diplomáticas e de apoio militar, bem como na compra de armas e mobilização de voluntários para o exército que, durante uns 18 anos, enfrentaria uma guerra com Espanha. Por tudo isso ele se terá constituído em alvo prioritário da inquisição que, nas artes da espionagem, tinha óptimos executantes, normalmente recrutados entre frades, como foi o caso. E vindo a Lisboa, em 1647, na companhia do Conde de Vidigueira que chefiara uma embaixada a Paris, Manuel Fernandes Vila Real foi preso pela inquisição, acusado de judaísmo e de ler livros proibidos. Recordemos que naqueles tempos se travava uma tremenda luta política entre a inquisição e o rei D. João IV que fora excomungado pelo Papa de Roma e por este via recusada a nomeação de bispos para Portugal. E o clímax desta luta política foi atingido no dia 1º de Dezembro de 1652. Com efeito, para comemorar os 12 anos da revolução que colocou no trono o rei D. João IV, a inquisição preparou uma festa magnífica com um grandioso auto de fé em que foi sentenciado e queimado na fogueira o embaixador Manuel Fernandes Vila Real. A presidir às cerimónias estava o próprio rei que, por disposição legal e obrigação política, não podia escusar-se a esta tremenda humilhação – presidir à festa de imolação de um dos seus maiores e mais desinteressados apoiantes! Resta, finalmente, dizer que Manuel Fernandes Vila Real foi também um homem de letras, escritor de tratados de diplomacia e política, o mais conhecido dos quais será El Político Christiano ó Discursos políticos sobre Algunas Acciones de la Vida del Eminentíssimo Señor Cardenal Richelieu, editado em França em 1641 e em 2005 reeditado pela Ed. Caminho com introdução biográfica e notas do Prof. Borges Coelho, também ele um ilustre trasmontano e grande historiador da inquisição e cristãos novos, a quem devemos uma grande homenagem. A publicação daquele livro terá sido uma das causas próximas e directas da prisão e condenação à morte do embaixador Vila Real, pois que os inquisidores de Lisboa consideraram que tal livro continha matéria perigosa, ideias influenciadas pela doutrina judaica.
António Júlio Andrade

BELMONTE -Rede de Jusdiarias de Portugal


domingo, 21 de outubro de 2012

JOSÉ ANTÓNIO PINTO -Originário de Torre de Moncorvo, circuncidado em Livorno e judaizante em Tetuão.

Por:J.Andrade
F.Guimarães

Foto do livro "Os Isidros - a epopeia de uma família
de cristãos-n​ovos de Torre de Moncorvo
Livorno é uma cidade da costa ocidental da península itálica. Ao findar do século XVI, quando os judeus e os cripto-judeu eram escorraçados de Portugal e Espanha e mal aceites na maioria dos restantes estados europeus, o grão-duque Fernando I convidou os perseguidos a fixar-se em Livorno. E, por lei promulgada em 1593, concedeu e esses imigrantes alargados privilégios entre os quais a isenção de taxas e impostos e a mais absoluta liberdade religiosa. No caso dos judeus permitia-lhes até a criação de tribunais próprios para resolver os processos surgidos entre eles.
Naturalmente que, abrindo-se-lhe uma tal porta, um grande número de cristãos-novos portugueses escolheram Livorno para viver. Este fluxo migratório acentuou-se a partir da queda do conde de Olivares, famoso ministro de FilipeIV, em 1643 e da bancarrota da Coroa espanhola em 1647, altura em que as inquisições redobraram o seu ímpeto persecutório, primeiro em Espanha, depois em Portugal. Como testemunho deste movimento migratório, ficou célebre o comentário feito pelo embaixador de Veneza naquela cidade quando, em 4.6.1655, assistiu à chegada de um navio que ali desembarcou 40 novos imigrantes: - São uma espécie de cristãos que quando aqui chegam imediatamente se tornam judeus.
E foi assim que, por 1670, a comunidade sefardita de Livorno rivalizava com a de Amesterdão, não havendo outra que se lhe comparasse, tanto no cômputo populacional (cerca de 300 membros), como do movimento comercial. Amesterdão era a grande praça comercial no Norte da Europa e Livorno desempenhava idêntico papel na bacia do mar Mediterrâneo, destronando Veneza. A Livorno chegavam os produtos que os barcos traziam da Índia, da China, da África e das Américas (escalando ou não os portos de Lisboa e Sevilha) e os comerciantes Livornenses os encaminhavam depois para os países da Europa central e meridional e também para o império Otomano e mais partes do Médio Oriente. Segundo António Carlos Carvalho, foram os Livornenses “os primeiros europeus a apreciar o sabor do café, o gosto do chocolate e o prazer do tabaco”. E nos trilhos da emigração de cristãos-novos portugueses para Livorno, ficou famosa a nau Jerusalém e a família Mogadouro, sua proprietária, de que alguns membros foram processados e mortos pela inquisição como “passadores de judeus”.
Ao contrário das outras cidades italianas, em Livorno não existia qualquer “ghetto” e os judeus misturavam-se livremente com o resto da população e ostentavam com orgulho seus brasões nos documentos. A comunidade era dirigida por um colégio de 60 membros hereditários e as actas das suas reuniões eram redigidas em português, mantendo-se esta língua como oficial da “nação hebreia” de Livorno até 1787.

REDE DE JUDIARIAS EM PORTUGAL

Sinagoga de Belmonte.

A Rede de Judiarias de Portugal - Rotas de Sefarad é uma associação com carácter público mas de direito privado e que tem por fim uma actuação conjunta, na defesa do património urbanístico, arquitectónico, ambiental, histórico e cultural, relacionado com a herança judaica (artº. 1º dos Estatutos).
Assim, a Rede de Judiarias de Portugal, fundada em dezassete de Março de 2011 pretende conjugar a valorização histórica e patrimonial com a promoção turística, acção que ajudará igualmente a descobrir uma forte componente da identidade portuguesa e peninsular.
O contributo dos judeus portugueses para a história do mundo foi enorme; desde a ciência náutica que há mais de 500 anos deu ao país um avanço decisivo para o início da globalização, à evolução da economia mundial e da medicina, muitos foram os sectores em que o papel dos sefarditas nacionais se tornou preponderante.

sábado, 20 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 11


Bragança- anos 50
José da Costa Vila Real. A família dos Costa Vila Real ganhou uma projecção extraordinária no mundo sefardita e na sociedade inglesa. Destaque muito especial para um dos seus membros – José da Costa. Nasceu em Bragança por 1689 e faleceu em Londres em 1730. Foram 4 décadas de uma vida intensa, com a inquisição de Coimbra em perseguição constante de seus ancestrais, paternos e maternos. Por 1706, vivia em Lisboa, em casa do pai que, depois de enviuvar, casou segunda vez e trocou Bragança pelo sul do país, acabando por fixar-se em Lisboa. Na capital do reino não abrandou a vigilância do tribunal da fé sobre eles, sendo presos todos os membros do agregado familiar: o pai, a madrasta, as irmãs e… José da Costa, naturalmente. Seguiram-se mais de 5 anos nas húmidas e escuras masmorras, entre 1706 e 1711. Posto em liberdade, depois de abjurar publicamente no auto da fé, rapidamente reconstruiu sua vida e fazenda, em negócios de açúcar e tabaco e muito especialmente em contratos de abastecimento de géneros aos exércitos estacionados em Trás-os-Montes. No verão de 1726, quando a inquisição tinha já um segundo processo organizado e se preparava para o prender novamente, José Vila Real protagonizou uma incrível aventura. Deflagrando então um incêndio em Lisboa, aproveitou a confusão reinante para se meter em um barco inglês que estava ancorado à saída para o mar e nele embarcou com mais 17 membros de sua família e a maior parte de sua fortuna, antecipadamente transformada em dinheiro e papéis de crédito garantidos. E ainda antes da sua chegada, já a imprensa Londrina informava desta fuga e avaliava a fortuna transportada em mais de 300 mil libras. Digno de registo também é o facto de antes da fuga e para que ninguém pudesse dizer que ele fugia por causa de alguma dívida ou possível falência comercial, José da Costa fez-se munir de certidões tiradas na Casa da Índia e nas Alfândegas do tabaco e do Açúcar, atestando que nada devia ao fisco nem ao estado português. E se a fama de capitalista o precedeu na chegada a Londres, mais badalado ainda seria o seu casamento no ano seguinte, no seio da família de António Lopes Suasso, também originário de Bragança, possivelmente o detentor da maior fortuna entre os particulares daquela época, não apenas na Inglaterra mas no mundo ocidental. Do casamento de Isaac (nome que tomou com a circuncisão) Vila Real e Kitty (Rachel) da Costa, nasceu uma filha, Sarah, que casou com o visconde de Galway. Ironia da história: foragidos de Portugal, os Costa de Bragança entram na classe da Nobreza de Inglaterra! 
António Júlio Andrade 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ESTUDOS DE ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL – Uma destilaria de aguardente em Alijó.Por: António Júlio Andrade

Um velho alambique em funcionamento.Foto A.F.F.M.
Sendo embora uma minoria na sociedade portuguesa, os judeus (e marranos) deram um contributo fantástico para o desenvolvimento do País. E em Trás-os-Montes, naturalmente, até porque esta terá sido a região do País que mais fugitivos de Espanha acolheu depois da expulsão dos judeus daquele país. Creio não exagerar dizendo que eles sempre estiveram na vanguarda do desenvolvimento e foram os arautos da modernidade entre nós.
Esta é uma ideia força que eu captei da leitura de centenas de processos da inquisição. Sim, que eles se revelam uma preciosa fonte para o conhecimento da nossa história, ao nível económico, social e cultural.
A título de exemplo e usando uma linguagem moderna, direi que foram eles os primeiros a preocupar-se com o desenvolvimento das estruturas de apoio ao turismo, como eram as estalagens. Com efeito, no século de 500, os forasteiros que demandavam Torre de Moncorvo tinham à sua disposição a estalagem de Isabel Lopes, a qual acabou presa pela inquisição.
Em Miranda do Douro, existia igualmente uma estalagem cuja proprietária se chamava Maria Álvares e era também da nação hebreia. Situava-se na emblemática Rua da Costanilha, porventura na casa que ainda hoje continua servindo a mesma função.
Vila Flor era então uma terra de muito comércio e muito viajada. Em prova disso regista-se ali a existência de duas estalagens por meados daquele século de 500. Uma delas pertencia ao marrano Gaspar Fernandes e a outra a Álvaro Rodrigues, por alcunha o Lamegão, pois que viera de Lamego. Esta estalagem seria a preferida dos mercadores espanhóis que visitavam a terra. Também o Lamegão e seus familiares foram hospedar-se nas cadeias do santo ofício, sob a acusação de judaísmo.
Sabemos que o exemplo se repetia em Vinhais… e em Freixo de Numão, actual concelho de Vila Nova de Foz Côa., havia a estalagem de Manuel Rodrigues Freitas, igualmente um homem da nação hebreia.
Mas se em vez de turismo e estalagens falarmos na indústria da moagem do pão, o panorama histórico é semelhante. Em Torre de Moncorvo, por exemplo, em meados do século de 600,cerca de metade dos moinhos que funcionavam durante todo o ano, todos sitos na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho) estavam nas mãos de um único industrial, Pêro Henriques Julião, certamente o mais rico mercador hebreu da vila. Mais podemos dizer de Mirandela onde, na rua da Ponte, existia “uma casa térrea que servia de atafona e pertencia ao marrano António Lopes, o Mourisquinho, de alcunha. E também por esses tempos foram instaladas na margem do rio Tua as primeiras azenhas que, durante alguns séculos marcaram a paisagem do rio hoje feito espelho de água.
Também na Princesa do Tua encontrei um cristão-novo, da família do dr. Francisco da Fonseca Henriques que era proprietário de “um lagar de azeite, com 3 casas de mós, de 2 varas, dentro da vila de Mirandela, por cima do Arco de Santo António, que valerá 200 mil réis”. Esta informação é tanto ais importante quanto os cronistas dizem que havia poucos anos que se plantaram em Mirandela as primeiras oliveiras. Repare-se também na grandeza deste lagar: 3 casas de mós e 2 varas!
Do lagar de azeite construído em Torre de Moncorvo na primeira metade do século de 600 não temos a descrição. Mas sabemos que pertencia ao mercador hebreu atrás referido, Pêro Henriques Julião. E sabemos que se situava à margem da rua dos Sapateiros. Não consegui foi apurar se este lagar e a casa de morada do seu proprietário e a cortinha e olival onde ambas as construções estavam plantadas eram as mesmas que, dois séculos mais tarde nos aparecem referidas como o lagar, o palacete e a cortinha de D. Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida como A Ferreirinha da Régua.
Um outro lagar de azeite que encontrei mencionado nos processos da inquisição situava-se na aldeia de Mós, termo do actual concelho de V. N. de Fozcôa e um de seus proprietários era um mercador marrano da vila de Freixo de Numão e que a seguir vamos encontrar como sendo um dos proprietários da destilaria de aguardente que dá título a esta crónica.
Por agora diremos que o contributo daquela gente laboriosa para o desenvolvimento de Trás-os-Montes se não ficou por estas áreas. Com efeito quem, senão eles, dominava as técnicas de fabrico da seda? Basta ler os processos da inquisição instaurados a torcedores e fabricantes de seda de Bragança e Chacim para se ter a prova. O mesmo se dirá do fabrico de cordas na Real Cordoaria de Torre de Moncorvo, cujas casas pertenciam, em grande parte, ao já nosso conhecido Pêro Henriques Julião. E a indústria dos lanifícios, fortemente implantada na aldeia de Sambade não era essencialmente conduzida pela gente da nação? E o tratamento das peles e fabrico de solas que ganhou a máxima expressão por terras de Argoselo e Carção, no concelho de Vimioso? Alguém dominava como eles as técnicas de preparação do sumagre nas atafonas, por eles utilizado nos curtumes e exportado para os países do Norte?
Agora, porém, desejo falar-lhes de uma outra unidade agro-industrial, porventura a mais valiosa e rentável de quantas encontrei até hoje – uma destilaria de aguardente.
Fazendo uma comparação grosseira, direi que o melhor dos lagares de azeite atrás referidos foi avaliado em 200 mil réis e aquela destilaria aparece com aquele valor multiplicado por 6 – 1 milhão e duzentos mil réis!
Aos leitores menos familiarizados com o assunto, convém recordar que, para além de ser uma bebida muito “gulosa” e, por isso mesmo, muito apetecida e cara, a aguardente era e continua sendo um produto essencial para o fabrico do vinho generoso, o chamado vinho do Porto, então vinho de Lamego.
Situava-se tal destilaria em um monte, no sítio do Vale da Cabra, termo de Alijó. Era dotada de 2 alambiques “grandes”. Para além da casa dos alambiques, era constituída por um armazém dos tonéis e uma casa de viver onde assistia em permanência o feitor da fábrica.
Não sei se existe ainda algum vestígio deste monumento. Caso exista, julgo que deve despertar a atenção dos que se dedicam ao estudo e conservação do nosso património de arqueologia industrial e poderá ser transformado em sítio museológico.
Um dos proprietários da fábrica, senhor da 3ª parte dela, chamava-se António Dias Fernandes, um grande mercador da vila de Freixo de Numão, no actual concelho de V. N. de Fozcôa. Quando foi preso, tinha duas encomendas de aguardente prontas a seguir e eram as seguintes:
* Um lote de 26 pipas a embarcar para o Rio de Janeiro, dirigidas a seu filho António Dias Fernandes, como o pai.
* Um lote de 21 pipa, com destino a Londres, encomendadas pelo mercador Miguel de Viana e antecipadamente pagas, em dinheiro e tecidos, no montante de “um conto e 250 mil réis”.
Pensando no valor do dinheiro, direi que aquela quantia dava para pagar a cerca de 480 operários médios durante um ano.
Infelizmente não consegui apurar quanta mais aguardente Dias Fernandes teria em stock. E quanta teriam os outros sócios detentores de 2/3 dos activos da destilaria. De qualquer modo, penso que aqueles números bastam para se fazer uma pequena ideia da importância desta unidade agro-industrial, estrategicamente situada no coração do Douro vinhateiro, região que, anos depois, viria a ser demarcada, a primeira em todo o mundo. Certamente que esta destilaria foi importante para o progresso e o desenvolvimento da região e merece ser colocada na história da vinha e do vinho do Douro. Aqui fica o alerta aos responsáveis e aos centros de investigação da história e promoção de Trás-os-Montes e Alto Douro.
FONTE – IANTT, Inquisição de Lisboa, pº , de António Dias Fernandes
Publicado no jornal Terra Quente de 15 de Outubro de 2012