domingo, 28 de outubro de 2012
CARÇÃO APRESENTAÇÃO I- UMA HISTÓRIA DE RESITÊNCIA À INQUISIÇÃO
Carção é uma aldeia do concelho de Vimioso,
no mais profundo Trás-os-Montes, afastada das rotas comerciais e turísticas.
Seus habitantes, porém, sempre tiveram arte e engenho para quebrar o isolamento
da terra e sair a mercadejar por toda a parte. Sobre eles escreveu, há cerca de
um século, o douto Abade de Baçal:
- Percorrem o distrito de Bragança com
venda ambulante de bacalhau, arroz, azeite e outros géneros, comprando ao mesmo
tempo peles ovinas, bovinas e caprinas (…) Encontram-se estabelecidos nos
povoados principais, aldeias ricas e férteis do reino, colónias e até do
estrangeiro, onde entram à formiga, sem eira nem beira, nem ramo de figueira,
apenas com dois centos de sardinhas em cima de um burro podre e dentro de uma
dúzia de anos chegam a preponderar pela fortuna adquirida no negócio. [1]
Muito semelhante é o retrato feito por
outros historiadores, literatos e etnólogos que escreveram sobre o génio
mercantil e empreendedor das gentes de Carção. E todos associam esta qualidade
à sua herança judaica. Leite de Vasconcelos, por exemplo, usou estas palavras:
- A gente de estirpe judaica destas últimas
povoações (Carção e Argozelo) vivia, até há pouco, sobretudo do comércio e da
indústria dos curtumes. Com suas mulas de carga, era vê-los de casa em casa de
terra em terra a vender bacalhau, arroz e azeite e outros géneros alimentícios
ou a ajustar as peles para o fornecimento da sua indústria. Dizia-se até que a
um judeu de Carção ou Argozelo nada mais faltava para fazer fortuna do que uma
libra e uma mula. E, a respeito dos de Carção, que, quando nascia algum, logo
nascia uma mula, tão habitual era neles a ocupação de almocreves e recoveiros. [2]
Trindade Coelho, famoso escritor de
Mogadouro, esse ia mais longe escrevendo:
- Nos meus sítios, a mula como meio de
locomoção é quase exclusiva dos judeus. Por isso já dizia em Cortes, in illo tempore, um deputado trasmontano
– que de 10 em 10 anos se deveria confiscar toda a fortuna aos judeus, e deixar
só, a cada um, uma mula e 10 moedas. Daí a 10 anos voltavam outra vez a estar
ricos, e ia-se-lhes para cima com novo confisco.[3]
Nos últimos 150 anos, com a abertura das
modernas estradas e linhas de caminho de ferro, houve um particular movimento
migratório das gentes de Carção para a nossa vila e depois para a cidade de
Macedo de Cavaleiros que conheceu um progresso notável, absorvendo vários
concelhos da região. E esse movimento migratório foi registado pelo nosso povo
na seguinte quadra:
Para cá do Marão
Mandam os que cá
estão;
Mas em Macedo
Mandam os de
Carção.
Vindos dos lados da
Arábia
E de balança na mão
Vieram os de Carção
Que com grande
lábia
Invadiram a Estação
[4]
De certo aquela é uma herança judaica e
marrana, uma herança que as gentes de Carção souberam preservar. E é fantástico
que eles tenham perseverado em sua crença na lei mosaica apesar de todas as
perseguições inquisitoriais e eclesiásticas. Vejam, a propósito, o que o pároco
de Carção dizia em carta de 2.6.1852, para o bispo de Bragança:
- Neste povo grassa desde tempo imemorial
uma seita que em tempo da Inquisição era muito oculto, mas de 34 (1834) a esta
parte é isso muito divulgado, quero dizer que não se escondem os sectários como
outrora; assim há muita gente, que pelo menos in confuso sabem disso … O erro é
a seita, ou Lei Mosaica. [5]
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 14
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| Apresentação do livro será no próximo dia 3 de Novembro em Torre de Moncorvo |
António Júlio Andrade
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 13
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| Aldeia de Sambade - 2012 |
António Rodrigues
Mogadouro. Uma das
irmãs de Manuel Fernandes Vila Real chamou-se Isabel Henriques e foi casada com
António Rodrigues Mogadouro. A este, o sobrenome ficou-lhe da terra onde terá
nascido ou passado a infância, pois que o filho mais velho indicou a aldeia de
Sambade como a terra natal de seu pai. Mogadouro e Sambade eram então duas terras relativamente
próximas e complementares, na medida em que Mogadouro produzia muitas lãs e
Sambade era o grande centro da indústria têxtil do Nordeste Trasmontano.
Nascido por volta do ano de 1598, António Rodrigues cedo começou a viajar e a
mercadejar por terras de Castela onde tinha cópia de familiares, nomeadamente
em Madrid, cidade pujante em termos de construção civil e seu tio António
Álvares dominava a produção e venda de tijolos (“ladrillos”). Madrid era então
a jovem capital de Espanha unificada e a função pública ganhava respeito e
dignidade. E António tinha dois primos empregados em organismos do Estado,
altos funcionários, como hoje se diria. Facto é que, aos 22 anos, ele decidiu
fixar-se em Madrid, ali permanecendo por 5 anos. Regressou a Trás-os-Montes e
foi casar a Vila Real, com Maria Lopes, a qual faleceu pouco depois, sem lhe
dar descendência. Voltou a Madrid mas… em 1933 regressou definitivamente a
Portugal, estabelecendo-se em Lisboa, com casa de comércio, na Rua das Mudas. E
logo voltou a casar, com Isabel Henriques, como atrás se disse. Poucos anos
depois, aquando da revolução de 1640, já a casa comercial do Mogadouro tinha
nome, a ponto de “ganhar o concurso” para o fornecimento de géneros aos
exércitos estacionados em Trás-os-Montes. Certamente ajudaram nisso as relações
com a família dos Távoras, senhores de Mogadouro e com o Conde de castelo
melhor que naquela mesma família estava casado. E ainda mais ajudariam seus
numerosos irmãos e irmãs estabelecidos por Mogadouro, Sambade, Chacim, Miranda
do Douro… todos trabalhando em rede. E em rede trabalhava com outros irmãos,
primos e sobrinhos que ele tinha em Madrid, Bordéus, Livorno… Em simultâneo
cresciam os filhos e com estes metidos na empresa desde cedo, alargavam-se os
negócios, em termos geográficos e na diversificação de produtos comerciados:
especiarias e diamantes da Índia, escravos de Angola, açúcar e tabaco do
Brasil, sal, vinho e azeite de Portugal, tecidos e metais do Norte da Europa…
Entretanto o poder político mudou de mãos, com o rei Afonso VI a ser
encarcerado e a ver a mulher casar-se com o irmão Pedro, este aclamado rei nas
Cortes Gerais da Nação cujos membros eram na grande maioria Familiares da
Inquisição. E com o “partido da inquisição” a tomar as rédeas do poder, as
primeiras vítimas foram, naturalmente, os mercadores marranos apoiantes do
regime e que, respondendo ao apelo do padre António Vieira, entraram com seus
capitais na fundação da Companhia das Índias. E assim António Rodrigues
Mogadouro foi preso em 29 de Julho de 1672, juntamente com os dois filhos
varões mais velhos, seguindo-se os outros todos, à excepção de uma filha casada
com o primo Diogo Rodrigues Marques que conseguiu fugir para Inglaterra. Ao
cabo de 7 anos o velho patriarca morreu na cadeia. Mas o seu processo na
inquisição não terminou. Apenas foi encerrado no auto de fé de 26.11.1684, em
que os seus ossos foram desenterrados, metidos em um caixão e queimados na
fogueira, juntamente com um boneco de palha que o representava. Na cadeia
também morreram duas filhas, uma delas pouco depois de ser presa e lavando um
filho no ventre prestes a nascer e que também morreu. O filho mais velho,
António Rodrigues Henriques, que à data da prisão era já o gestor executivo das
empresas Mogadouro, esse foi queimado vivo no auto de fé de 10.5.1682. No mesmo
auto saiu penitenciada a filha mais nova, Brites Henriques e os filhos
Francisco e Pantaleão. Este acabaria por reconstruir a sua vida e, anos depois,
aparecia em Lodres como um dos 5 líderes da comunidade judaica que assinaram o
contrato para construção da sinagoga de Bevis Marks.
António Júlio Andrade
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Belmonte - Loja KOSHER
A Portugal Kosher, em
Belmonte, na pessoa do Rabino Elisha Salas, é o representante em Portugal da
UNION ORTODOXA, STAR - K (Estados Unidos, Canadá e Israel) e CHATAM SOFER
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A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa
Editora: Vega
Autor: António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães
Disponibilidade: Em stock
Preço: 14,15€
A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, segundo número da colecção SEFARAD, tem como base uma investigação profunda de umcorpus de processos na Inquisição de Lisboa. Através desses processos, os autores reconstituíram a história da família Mogadouro, proprietária da Nau Jerusalém, que se ocupava predominantemente do transporte de judeus portugueses que fugiam da Inquisição e de judeus que vinham de Itália para Portugal disfarçados de comerciantes. À excepção de uma filha que era casada, todos os membros do clã dos Mogadouro conheceram, em simultâneo, os horrores das cadeias da Inquisição de Lisboa.
O próprio jogo vocabular do título mostra-nos toda a dimensão de perversão com que o devir dos tempos conseguiu brindar certas comunidades: A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, isto é, de como uma comunidade rica da periferia foi perseguida por um tribunal instalado na capital.
O próprio jogo vocabular do título mostra-nos toda a dimensão de perversão com que o devir dos tempos conseguiu brindar certas comunidades: A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa, isto é, de como uma comunidade rica da periferia foi perseguida por um tribunal instalado na capital.
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terça-feira, 23 de outubro de 2012
O PODER DA INQUISIÇÃO.Por: J. Andrade F.Guimarães
Ao falar da Inquisição há duas
posturas muito frequentes e que, em nosso entender, devem ser evitadas. Uma
delas é o recurso aos valores mais civilizados do presente para analisar
aqueles tempos de barbárie, vendo na Inquisição a hidra de todos os horrores, o
mal absoluto. Em consequência, a história da Inquisição é por eles transformada
numa diatribe anticatólica. De contrário, outros pretendem justificar todos os
crimes da Inquisição recorrendo à mentalidade da época. Estranhamente, alguns
chegam mesmo a abençoar a Inquisição, dizendo que sem ela teria havido maiores
atrocidades e mais mortes, como aconteceu em algumas partes da Europa, em
sangrentas guerras de religião.
Aos defensores da primeira destas
posturas, diremos que a Inquisição foi sempre um movimento muito popular em
Portugal e que, de modo algum, poderia ter-se instalado e perdurado por mais de
dois séculos, sem o apoio do povo. Na verdade, a Inquisição proporcionava o
extraordinário serviço social de entreter bisbilhoteiros e maldizentes e fazia
com que o acto de espiar os outros deixasse de ser uma coisa condenável,
passando a ser uma acção virtuosa, uma obrigação dos bons cidadãos.
Porém, tendo embora o apoio do
povo, o facto é que a Inquisição não foi um produto da vontade e da mentalidade
popular. Foi sim uma criação do poder político, um eficaz instrumento de
controlo social. A vida religiosa das pessoas era uma simples desculpa para o
exercício do poder e os seus abusos não tinham um carácter religioso mas
político. Em simultâneo, o sequestro dos bens dos condenados e as taxas
lançadas sobre os próprios bispados e igrejas, sustentavam o “monstro”.
Mas o que é mais singular nesta
instituição política é que ela usou os poderes de que foi investida para moldar
as ideias das pessoas e conseguiu criar “estilos” e instrumentos legais que a
tornaram mais poderosa do que os próprios criadores. Chegou a impor o seu poder
ao rei de Portugal e ao para de Roma. Transformou-se num aparelho policial que
investigava e julgava, em uma polícia de investigação secreta e em tribunal
igualmente secreto, onde o réu tinha que descobrir qual era o crime de que o
acusavam, as circunstâncias de tempo e lugar, e quem eram os seus acusadores.
Era um tribunal que até fornecia os advogados que deviam contratar e cujo
objectivo não era tanto a defesa do réu mas levá-lo a confessar os seus crimes.
Ao impor a limpeza de sangue, a
Inquisição passou a ser uma organização blindada a influências e poderes
estranhos, até do ponto de vista económico. Como só a Inquisição podia atestar
a limpeza do sangue, a burocracia e as taxas inerentes à obtenção da prova
criavam o mecanismo perfeito para assegurar a limpidez das suas finanças e o
controlo total da sociedade. Sem o carimbo da Inquisição, ninguém podia fazer
carreira política nem profissional. O visto daquele tribunal era até necessário
para se entrar num barco e sair a mercadejar para fora do país. E uma pessoa
que tivesse uma gota de “sangue infecto” não podia usar vestidos mais ricos,
usar uma espada ou exercer uma profissão mais “nobre”. Muito menos podia
aspirar a um cargo político, a ser padre ou bispo, técnico superior ou
secretário de estado. Qualquer impureza de sangue significava a morte social,
significando que a Inquisição é que fornecia os quadros políticos, os
dirigentes do país e da igreja, da base até ao mais alto nível.
Em qualquer terra, mesmo pequenas
vilas de província, o posto mais disputado pelos eclesiásticos era o de
Comissário da Inquisição e a gente fidalga tudo fazia para ostentar no peito o
colar lustroso e Familiar do Santo Ofício, bem mais importante que a vara de
juiz ou presidente da câmara. Ser Familiar da Inquisição promoção política e
social e muitas regalias, do ponto de vista económico, nomeadamente a isenção
de pagar impostos, fintas e taxas municipais, requisições militares ou
judiciais.
Claro que esta poderoso complexo
institucional e político só foi possível instalar-se com recurso ao terror,
fazendo a desconfiança e o medo penetrar em toda a profundidade do tecido
social. Os autos de fé mais não eram do que representações do juízo final e o
objectivo último do julgamento e condenação à morte não era a salvação das
almas dos penitentes mas a promoção do bem público e da ordem social, aterrorizando
o povo.
Nada disto era novo, pois a
perseguição e o terror sempre acompanharam o poder, em todas as civilizações e
regimes políticos. O que foi novo foi a institucionalização da perseguição e do
terror. O que era normal para uns e abusivo para outros, transformou-se, com a
Inquisição, em método sagrado e justiça divina. E assim, o Santo Ofício
transformou-se numa instituição muito singular destinada a propagar o terror
entre a população que devia servir. Era a “pedagogia do medo” – na expressão do
historiador Bartolomé Balassar.
Naturalmente que, por mais
blindada que estivesse e por mais eficazes que fossem os seus estilos na
moldagem da sociedade, a Inquisição não conseguia o domínio absoluto das ideias
e dos comportamentos dos cidadãos e sempre houve aqueles que resistiam. Os
processos existentes na Torre do Tombo revelam-nos exactamente esse combate
permanente entre o medo e a capacidade de resistir. E a história do marranismo
em Carção é exemplo acabado dessa luta entre o medo e a capacidade de resistir.
A história dos marranos de Carção é uma epopeia dessa resistência ao medo.
A Inquisição não se limitava a
destruir os seus prisioneiros, comendo-lhes as fazendas, arruinando-lhes a
saúde, infligindo-lhe danos psicológicos irreparáveis e até matando-os. Ia
ainda mais longe, forçando os seus prisioneiros a contribuir para a sua própria
humilhação. Eles pagavam os grilhões com que os prendiam, pagavam a jorna ao
algoz que os chicoteava pelas ruas quando em tal eram condenados e pagavam a
lenha da fogueira em que os queimavam.
Mas a humilhação maior
expressava-se no sambenito – uma espécie de saco amarelo decorado com uma cruz
vermelha que os condenados tinham de usar. No regresso às suas terras, vestidos
com aquele traje ridículo, ficavam expostos à chacota pública e isso custaria
mais ainda a suportar do que a própria prisão.
E para os maiores “criminosos”,
os que eram condenados à morte (relaxados é o termo usado), os sambenitos eram
decorados com um desenho da própria cara envolta com as chamas do inferno e
pinturas aterradoras de demónios, mordendo-o. E na procissão para o auto de fé
a humilhação completava-se metendo-lhe na cabeça uma carocha – espécie de
chapéu cónico, muito alto, igualmente decorado com as chamas e os diabos do
inferno.
Claro que o alvo principal do
castigo não eram os relaxados mas as suas famílias, os seus amigos, a sociedade
que precisava ser permanentemente condicionada pelo medo e sobre a qual tinha
sempre de pairar a sombra da Inquisição. Para isso, por cada relaxado, faziam-se
dois sambenitos. Um deles ficava exposto na cidade sede da Inquisição e o outro
era enviado para a terra, sendo pendurado no interior da igreja matriz, exposto
como estandarte, onde ficava pelos anos afora. Os sambenitos dos relaxados,
assim expostos na igreja, forneciam poderoso combustível para a imaginação dos
beatos católicos que “neles tinham com que domar a soberba dos cristãos novos”
– como explicava um lavrador de Carção – e com eles perdurava a ignomínia sobre
os filhos, netos e outros familiares dos condenados.
NOTA – Este texto faz parte de um
artigo publicado na revista Almocreve / 2012, que se publica na aldeia de
Carção, concelho de Vimioso, com o título de A Reposição dos Sambenitos na Igreja de Carção
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 12
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Manuel Fernandes Vila
Real. Seus pais eram
de Vila Real e emigraram para Lisboa, terra onde Manuel Fernandes nasceu, em
1608. O início da sua vida activa foi na loja de fancaria de seu pai mas, aos
14 anos, foi com o governador Jorge de Mascarenhas para Ceuta, seguindo a
carreira militar e ali atingiu o posto de capitão. Voltou a Portugal e foi com
cobrador das rendas do Priorado do Crato e corretor dos reais de Lisboa que seu
pai arrematara. Os negócios da família estendiam-se também ao Brasil, ao trato
do açúcar e do tabaco. Para o transporte destes produtos do Brasil para Lisboa
e para os portos do Mediterrâneo e do Báltico, Manuel Fernandes decidiu-se pela
compra de um barco e com esse objectivo se dirigiu a Sevilha, Málaga, Ruão e
Havre onde conseguiu efectuar a compra e a partir dali trabalhar na marinha
mercante, com seus cunhados Manuel e João de Morais. Falecendo o João, Vila
Real necessitou de ir a Paris. E levaria boas recomendações, a ponto de cair
nas boas graças do chefe do governo, o poderoso Cardeal Richelieu. Sucedeu entretanto
a revolução do 1º Dezembro de 1640 que colocou no trono de Portugal o rei D.
João IV, da Casa de Bragança, que teve desde logo o apoio da generalidade da
nação sefardita que vivia em Portugal mas também no resto do mundo,
nomeadamente na Holanda, França e Inglaterra. Durante alguns anos, Manuel
Fernandes foi uma espécie de embaixador itinerante, acompanhando altos
dignitários da monarquia portuguesa em negociações diplomáticas e de apoio
militar, bem como na compra de armas e mobilização de voluntários para o
exército que, durante uns 18 anos, enfrentaria uma guerra com Espanha. Por tudo
isso ele se terá constituído em alvo prioritário da inquisição que, nas artes
da espionagem, tinha óptimos executantes, normalmente recrutados entre frades,
como foi o caso. E vindo a Lisboa, em 1647, na companhia do Conde de Vidigueira
que chefiara uma embaixada a Paris, Manuel Fernandes Vila Real foi preso pela
inquisição, acusado de judaísmo e de ler livros proibidos. Recordemos que
naqueles tempos se travava uma tremenda luta política entre a inquisição e o
rei D. João IV que fora excomungado pelo Papa de Roma e por este via recusada a
nomeação de bispos para Portugal. E o clímax desta luta política foi atingido
no dia 1º de Dezembro de 1652. Com efeito, para comemorar os 12 anos da
revolução que colocou no trono o rei D. João IV, a inquisição preparou uma
festa magnífica com um grandioso auto de fé em que foi sentenciado e queimado
na fogueira o embaixador Manuel Fernandes Vila Real. A presidir às cerimónias
estava o próprio rei que, por disposição legal e obrigação política, não podia
escusar-se a esta tremenda humilhação – presidir à festa de imolação de um dos
seus maiores e mais desinteressados apoiantes! Resta, finalmente, dizer que
Manuel Fernandes Vila Real foi também um homem de letras, escritor de tratados
de diplomacia e política, o mais conhecido dos quais será El Político
Christiano ó Discursos políticos sobre Algunas Acciones de la Vida del
Eminentíssimo Señor Cardenal Richelieu, editado em França em 1641 e em 2005
reeditado pela Ed. Caminho com introdução biográfica e notas do Prof. Borges
Coelho, também ele um ilustre trasmontano e grande historiador da inquisição e
cristãos novos, a quem devemos uma grande homenagem. A publicação daquele livro
terá sido uma das causas próximas e directas da prisão e condenação à morte do
embaixador Vila Real, pois que os inquisidores de Lisboa consideraram que tal
livro continha matéria perigosa, ideias influenciadas pela doutrina judaica.
António Júlio Andrade
domingo, 21 de outubro de 2012
JOSÉ ANTÓNIO PINTO -Originário de Torre de Moncorvo, circuncidado em Livorno e judaizante em Tetuão.
Por:J.Andrade
F.Guimarães
Livorno é uma cidade da costa
ocidental da península itálica. Ao findar do século XVI, quando os judeus e os
cripto-judeu eram escorraçados de Portugal e Espanha e mal aceites na maioria
dos restantes estados europeus, o grão-duque Fernando I convidou os perseguidos
a fixar-se em Livorno. E, por lei promulgada em 1593, concedeu e esses
imigrantes alargados privilégios entre os quais a isenção de taxas e impostos e
a mais absoluta liberdade religiosa. No caso dos judeus permitia-lhes até a
criação de tribunais próprios para resolver os processos surgidos entre eles.
F.Guimarães
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| Foto do livro "Os Isidros - a epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo |
Naturalmente que, abrindo-se-lhe
uma tal porta, um grande número de cristãos-novos portugueses escolheram
Livorno para viver. Este fluxo migratório acentuou-se a partir da queda do
conde de Olivares, famoso ministro de FilipeIV, em 1643 e da bancarrota da
Coroa espanhola em 1647, altura em que as inquisições redobraram o seu ímpeto
persecutório, primeiro em Espanha, depois em Portugal. Como testemunho deste
movimento migratório, ficou célebre o comentário feito pelo embaixador de
Veneza naquela cidade quando, em 4.6.1655, assistiu à chegada de um navio que
ali desembarcou 40 novos imigrantes: - São uma espécie de cristãos que quando
aqui chegam imediatamente se tornam judeus.
E foi assim que, por 1670, a
comunidade sefardita de Livorno rivalizava com a de Amesterdão, não havendo
outra que se lhe comparasse, tanto no cômputo populacional (cerca de 300
membros), como do movimento comercial. Amesterdão era a grande praça comercial
no Norte da Europa e Livorno desempenhava idêntico papel na bacia do mar
Mediterrâneo, destronando Veneza. A Livorno chegavam os produtos que os barcos
traziam da Índia, da China, da África e das Américas (escalando ou não os
portos de Lisboa e Sevilha) e os comerciantes Livornenses os encaminhavam
depois para os países da Europa central e meridional e também para o império
Otomano e mais partes do Médio Oriente. Segundo António Carlos Carvalho, foram
os Livornenses “os primeiros europeus a apreciar o sabor do café, o gosto do
chocolate e o prazer do tabaco”. E nos trilhos da emigração de cristãos-novos
portugueses para Livorno, ficou famosa a nau Jerusalém e a família Mogadouro,
sua proprietária, de que alguns membros foram processados e mortos pela
inquisição como “passadores de judeus”.
Ao contrário das outras cidades
italianas, em Livorno não existia qualquer “ghetto” e os judeus misturavam-se
livremente com o resto da população e ostentavam com orgulho seus brasões nos
documentos. A comunidade era dirigida por um colégio de 60 membros hereditários
e as actas das suas reuniões eram redigidas em português, mantendo-se esta
língua como oficial da “nação hebreia” de Livorno até 1787.
REDE DE JUDIARIAS EM PORTUGAL
sábado, 20 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 11
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| Bragança- anos 50 |
José da Costa Vila Real. A família dos Costa Vila Real
ganhou uma projecção extraordinária no mundo sefardita e na sociedade inglesa.
Destaque muito especial para um dos seus membros – José da Costa. Nasceu em
Bragança por 1689 e faleceu em Londres em 1730. Foram 4 décadas de uma vida
intensa, com a inquisição de Coimbra em perseguição constante de seus
ancestrais, paternos e maternos. Por 1706, vivia em Lisboa, em casa do pai que,
depois de enviuvar, casou segunda vez e trocou Bragança pelo sul do país,
acabando por fixar-se em Lisboa. Na capital do reino não abrandou a vigilância
do tribunal da fé sobre eles, sendo presos todos os membros do agregado
familiar: o pai, a madrasta, as irmãs e… José da Costa, naturalmente.
Seguiram-se mais de 5 anos nas húmidas e escuras masmorras, entre 1706 e 1711.
Posto em liberdade, depois de abjurar publicamente no auto da fé, rapidamente
reconstruiu sua vida e fazenda, em negócios de açúcar e tabaco e muito
especialmente em contratos de abastecimento de géneros aos exércitos
estacionados em Trás-os-Montes. No verão de 1726, quando a inquisição tinha já
um segundo processo organizado e se preparava para o prender novamente, José
Vila Real protagonizou uma incrível aventura. Deflagrando então um incêndio em
Lisboa, aproveitou a confusão reinante para se meter em um barco inglês que
estava ancorado à saída para o mar e nele embarcou com mais 17 membros de sua
família e a maior parte de sua fortuna, antecipadamente transformada em
dinheiro e papéis de crédito garantidos. E ainda antes da sua chegada, já a
imprensa Londrina informava desta fuga e avaliava a fortuna transportada em
mais de 300 mil libras. Digno de registo também é o facto de antes da fuga e
para que ninguém pudesse dizer que ele fugia por causa de alguma dívida ou
possível falência comercial, José da Costa fez-se munir de certidões tiradas na
Casa da Índia e nas Alfândegas do tabaco e do Açúcar, atestando que nada devia
ao fisco nem ao estado português. E se a fama de capitalista o precedeu na
chegada a Londres, mais badalado ainda seria o seu casamento no ano seguinte,
no seio da família de António Lopes Suasso, também originário de Bragança,
possivelmente o detentor da maior fortuna entre os particulares daquela época,
não apenas na Inglaterra mas no mundo ocidental. Do casamento de Isaac (nome
que tomou com a circuncisão) Vila Real e Kitty (Rachel) da Costa, nasceu uma
filha, Sarah, que casou com o visconde de Galway. Ironia da história: foragidos
de Portugal, os Costa de Bragança entram na classe da Nobreza de
Inglaterra!
António Júlio Andrade
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
ESTUDOS DE ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL – Uma destilaria de aguardente em Alijó.Por: António Júlio Andrade
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| Um velho alambique em funcionamento.Foto A.F.F.M. |
Esta é uma ideia força que eu
captei da leitura de centenas de processos da inquisição. Sim, que eles se
revelam uma preciosa fonte para o conhecimento da nossa história, ao nível
económico, social e cultural.
A título de exemplo e usando uma
linguagem moderna, direi que foram eles os primeiros a preocupar-se com o
desenvolvimento das estruturas de apoio ao turismo, como eram as estalagens.
Com efeito, no século de 500, os forasteiros que demandavam Torre de Moncorvo
tinham à sua disposição a estalagem de Isabel Lopes, a qual acabou presa pela
inquisição.
Em Miranda do Douro, existia
igualmente uma estalagem cuja proprietária se chamava Maria Álvares e era
também da nação hebreia. Situava-se na emblemática Rua da Costanilha,
porventura na casa que ainda hoje continua servindo a mesma função.
Vila Flor era então uma terra de
muito comércio e muito viajada. Em prova disso regista-se ali a existência de
duas estalagens por meados daquele século de 500. Uma delas pertencia ao
marrano Gaspar Fernandes e a outra a Álvaro Rodrigues, por alcunha o Lamegão,
pois que viera de Lamego. Esta estalagem seria a preferida dos mercadores
espanhóis que visitavam a terra. Também o Lamegão e seus familiares foram
hospedar-se nas cadeias do santo ofício, sob a acusação de judaísmo.
Sabemos que o exemplo se repetia
em Vinhais… e em Freixo de Numão, actual concelho de Vila Nova de Foz Côa.,
havia a estalagem de Manuel Rodrigues Freitas, igualmente um homem da nação
hebreia.
Mas se em vez de turismo e
estalagens falarmos na indústria da moagem do pão, o panorama histórico é
semelhante. Em Torre de Moncorvo, por exemplo, em meados do século de 600,cerca
de metade dos moinhos que funcionavam durante todo o ano, todos sitos na
ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar –
Larinho) estavam nas mãos de um único industrial, Pêro Henriques Julião,
certamente o mais rico mercador hebreu da vila. Mais podemos dizer de Mirandela
onde, na rua da Ponte, existia “uma casa térrea que servia de atafona e pertencia
ao marrano António Lopes, o Mourisquinho, de alcunha. E também por esses tempos
foram instaladas na margem do rio Tua as primeiras azenhas que, durante alguns
séculos marcaram a paisagem do rio hoje feito espelho de água.
Também na Princesa do Tua encontrei
um cristão-novo, da família do dr. Francisco da Fonseca Henriques que era
proprietário de “um lagar de azeite, com 3 casas de mós, de 2 varas, dentro da
vila de Mirandela, por cima do Arco de Santo António, que valerá 200 mil réis”.
Esta informação é tanto ais importante quanto os cronistas dizem que havia
poucos anos que se plantaram em Mirandela as primeiras oliveiras. Repare-se
também na grandeza deste lagar: 3 casas de mós e 2 varas!
Do lagar de azeite construído em
Torre de Moncorvo na primeira metade do século de 600 não temos a descrição.
Mas sabemos que pertencia ao mercador hebreu atrás referido, Pêro Henriques
Julião. E sabemos que se situava à margem da rua dos Sapateiros. Não consegui
foi apurar se este lagar e a casa de morada do seu proprietário e a cortinha e
olival onde ambas as construções estavam plantadas eram as mesmas que, dois
séculos mais tarde nos aparecem referidas como o lagar, o palacete e a cortinha
de D. Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida como A Ferreirinha da Régua.
Um outro lagar de azeite que
encontrei mencionado nos processos da inquisição situava-se na aldeia de Mós,
termo do actual concelho de V. N. de Fozcôa e um de seus proprietários era um
mercador marrano da vila de Freixo de Numão e que a seguir vamos encontrar como
sendo um dos proprietários da destilaria de aguardente que dá título a esta
crónica.
Por agora diremos que o
contributo daquela gente laboriosa para o desenvolvimento de Trás-os-Montes se
não ficou por estas áreas. Com efeito quem, senão eles, dominava as técnicas de
fabrico da seda? Basta ler os processos da inquisição instaurados a torcedores
e fabricantes de seda de Bragança e Chacim para se ter a prova. O mesmo se dirá
do fabrico de cordas na Real Cordoaria de Torre de Moncorvo, cujas casas
pertenciam, em grande parte, ao já nosso conhecido Pêro Henriques Julião. E a
indústria dos lanifícios, fortemente implantada na aldeia de Sambade não era
essencialmente conduzida pela gente da nação? E o tratamento das peles e
fabrico de solas que ganhou a máxima expressão por terras de Argoselo e Carção,
no concelho de Vimioso? Alguém dominava como eles as técnicas de preparação do
sumagre nas atafonas, por eles utilizado nos curtumes e exportado para os
países do Norte?
Agora, porém, desejo falar-lhes de uma outra
unidade agro-industrial, porventura a mais valiosa e rentável de quantas
encontrei até hoje – uma destilaria de aguardente.
Fazendo uma comparação grosseira,
direi que o melhor dos lagares de azeite atrás referidos foi avaliado em 200
mil réis e aquela destilaria aparece com aquele valor multiplicado por 6 – 1
milhão e duzentos mil réis!
Aos leitores menos familiarizados
com o assunto, convém recordar que, para além de ser uma bebida muito “gulosa”
e, por isso mesmo, muito apetecida e cara, a aguardente era e continua sendo um
produto essencial para o fabrico do vinho generoso, o chamado vinho do Porto,
então vinho de Lamego.
Situava-se tal destilaria em um
monte, no sítio do Vale da Cabra, termo de Alijó. Era dotada de 2 alambiques
“grandes”. Para além da casa dos alambiques, era constituída por um armazém dos
tonéis e uma casa de viver onde assistia em permanência o feitor da fábrica.
Não sei se existe ainda algum
vestígio deste monumento. Caso exista, julgo que deve despertar a atenção dos
que se dedicam ao estudo e conservação do nosso património de arqueologia
industrial e poderá ser transformado em sítio museológico.
Um dos proprietários da fábrica,
senhor da 3ª parte dela, chamava-se António Dias Fernandes, um grande mercador
da vila de Freixo de Numão, no actual concelho de V. N. de Fozcôa. Quando foi
preso, tinha duas encomendas de aguardente prontas a seguir e eram as
seguintes:
* Um lote de 26 pipas a embarcar
para o Rio de Janeiro, dirigidas a seu filho António Dias Fernandes, como o pai.
* Um lote de 21 pipa, com destino
a Londres, encomendadas pelo mercador Miguel de Viana e antecipadamente pagas,
em dinheiro e tecidos, no montante de “um conto e 250 mil réis”.
Pensando no valor do dinheiro,
direi que aquela quantia dava para pagar a cerca de 480 operários médios
durante um ano.
Infelizmente não consegui apurar
quanta mais aguardente Dias Fernandes teria em stock. E quanta teriam os outros
sócios detentores de 2/3 dos activos da destilaria. De qualquer modo, penso que
aqueles números bastam para se fazer uma pequena ideia da importância desta
unidade agro-industrial, estrategicamente situada no coração do Douro
vinhateiro, região que, anos depois, viria a ser demarcada, a primeira em todo
o mundo. Certamente que esta destilaria foi importante para o progresso e o
desenvolvimento da região e merece ser colocada na história da vinha e do vinho
do Douro. Aqui fica o alerta aos responsáveis e aos centros de investigação da
história e promoção de Trás-os-Montes e Alto Douro.
FONTE – IANTT, Inquisição de
Lisboa, pº , de António Dias
Fernandes
Publicado no jornal Terra Quente de 15 de Outubro de 2012
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 10
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| Sinagoga de Bevis Marks |
Manuel Nunes de Miranda. Nasceu em Torre de Moncorvo, por
1645. Era filho de Francisco Nunes Ramos, médico, originário de Vila Flor e de
sua mulher Ana Henriques, de Torre de Moncorvo. Seus pais, perseguidos pela
inquisição, abandonaram Moncorvo e foram para a Galiza, fixando-se em Verin.
Ali faleceu o dr. Ramos e a mulher e os filhos foram para Madrid. Tempos
depois, contando 18 anos de idade, Manuel Nunes encontrava-se já em Toulouse,
cidade capital da região francesa do Languedoc, a trabalhar com o primo José,
na casa comercial do pai deste e seu tio materno, o banqueiro Manuel Fernandes
de Miranda, sediado em Bordéus. Em 1675, casou com Francisca Fernandes Gomes,
nascida em Bordéus em 1654, filha de pais trasmontanos aparentados com os
Miranda. Entretanto, em Madrid, seriam presos 3 irmãs e 2 irmãos de Manuel, que
saíram penitenciados em 1680, posto o que, alguns deles se refugiaram também na
França, nomeadamente em Toulouse, cidade para onde foi sua irmã Branca e o
marido, Francisco de Queirós. Porém, na capital do Languedoc, os ventos da
intolerância religiosa, aliados à crise financeira por que passavam
comerciantes cristãos e gente da nobreza da terra, sopravam ainda mais fortes
do que os provocados pela inquisição em terras de Portugal e Castela. E Manuel
Nunes de Miranda e sua mulher viram-se assim ser presos por práticas de
judaísmo e fizeram parte daquele grupo de 18 mercadores sefarditas condenados a
morrer na fogueira, na praça de S. George, em 1685. Como em outra ocasião já
escrevemos, eles dispunham de contactos ao mais alto nível da sociedade de
França, gente que ficou horrorizada por ver anunciar a celebração de um auto de
fé na pátria do Iluminismo e os ajudou a fugir, na véspera de lhes ser atada
uma corda ao pescoço e serem levados à fogueira, tendo-se queimado em seu lugar
18 bonecos de palha. Foi para Londres que Manuel Nunes fugiu com a mulher e os
filhos, certamente porque ali estava já o tio banqueiro que igualmente
abandonara a cidade de Bordéus com sua família, teres e haveres, numa fuga em
massa que então se registou de sefarditas, muito em especial homens de negócio,
banqueiros e armadores de barcos. Em Londres toda a família (5 filhas e 1
filho) abraçou abertamente o judaísmo, tomando nomes hebreus. Rapidamente os
negócios de Jacob e Abigail (os novos nomes de Manuel e Francisca) cresceram e
ele ganhou prestígio no seio da comunidade judaica de Inglaterra. Em prova
disso está o facto de ele ter sido um dos fundadores do Banco de Inglaterra, em
1694, aparecendo na lista dos maiores accionistas em 15º lugar, com a
subscrição de 2000 acções, no montante de 25 000 libras. Outro momento
importante na vida deste sefardita nascido em torre de Moncorvo aconteceu em 12
de Fevereiro de 1699. Ele foi um dos 5 membros da comunidade que assinaram com
a empresa de Joseph Avis um contrato no valor de 2 650 libras para a construção
da sinagoga de Bevis Marks na capital de Inglaterra, com o qual se abriu uma
nova era na construção do mundo moderno, sob o influxo e por acção pioneira dos
judeus novos.
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| Igreja Matriz de Torre de Moncorvo. |
António Júlio Andrade
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
TRANCOSO - MARIA SOARES, MULHER CORAJOSA QUE ANIMAVA O MARIDO
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| Trancoso -Leão de Judá |
No dia 31 de Maio de 1662, na
vila de Trancoso, o comissário local da Inquisição, Francisco Soares de
Albergaria procedeu à prisão de João Mendes da Costa e sua mulher Maria Soares.
Tratava-se de uma poderosa
família de cristãos-novos, que tinha o assento da Beira, ou seja a
responsabilidade pelo abastecimento de géneros às tropas estacionadas naquela
região do País.
E era também uma família ligada a
importantes dignitários do regime, assistentes em Madrid e com entrada na Corte
do rei Filipe. Referimo-nos ao dr. Miguel da Silveira, poeta famoso e professor
de príncipes e jovens da nobreza que faleceu em Nápoles, terra para onde foi,
na comitiva do duque de Medina, quando a Inquisição ali começou a prender uma
série de cristãos-novos portugueses que com eles frequentavam os mesmos
corredores do poder. E ao seu irmão, dr. Francisco da Silveira, médico de muita
aceitação nos mesmos círculos, o qual, quando a roda da fortuna virou, se meteu
em fuga para a França, fixando-se em Bordéus. Eram ambos tios maternos de Maria
Soares.
Por esta parte materna, Maria
Soares descendia de António Henriques Bueno da Mesquita, natural e morador em
Torre de Moncorvo, cuja mulher, Filipa Rodrigues, foi mandada prender pela Inquisição
de Coimbra em 1592.
E já antes dela outros familiares
tinham conhecido as cadeias da Inquisição. E depois dela também. E a odisseia
desta família seguiria também pelos cárceres da Inquisição de Castela. Foi o
caso de um neto de Filipa, tio-avô de Maria Soares, o dr. Filipe de Nagera,
médico de profissão que foi preso em Toledo em 1608 e saiu no auto-de-fé de 7
de Fevereiro de 1710, condenado a 5 anos de galés.
À data da prisão de Maria Soares,
o seu pai (Fernão da Silveira) era já falecido e a sua mãe (Branca Henriques)
estava já emigrada em Bordéus. Tinha fugido com o filho Rafael da Silveira, que
naquela cidade francesa se tornaria famoso e depois terá embarcado para a
Jamaica, com descendência ainda hoje em dia bem identificada.
De referir que Maria Soares
(como, aliás, as suas duas irmãs) foram presas na sequência das denúncias
feitas por seu irmão António Gomes da Silveira, encarcerado ano e meio antes.
Não sabemos a idade certa da
prisioneira. Andaria pelos 30 anos. Mas era já mãe de 8 filhos (6 rapazes e 2
raparigas), o mais velho dos quais tinha uns 12 anos e a mais nova 10 meses.
Imagina-se todo o drama daquela
mãe que muito justamente recearia não voltar a vê-los. Mas a sua coragem e
força interior era bem maior, como em seguida se verá. Por agora diga-se que o
calvário de Maria Soares nas masmorras de Coimbra se prolongou por mais de 2
anos, saindo condenada em confisco de bens, cárcere e hábito, no auto-de-fé de
26 de Outubro de 1664. Naturalmente confessou suas culpas, que não valia a pena
negar. E confessou que foi educada na religião judaica, desde pequena, por seus
pais. E que também ela tinha já começado a educar nessa mesma lei o seu filho
mais velho, Luís Henriques, de 12 anos de idade. De resto, o seu processo é um
autêntico inventário dos cristãos-novos de Trancoso, pois são dezenas e dezenas
as pessoas com quem ela disse ter judaizado.
Apesar dessa atitude, em tudo
colaborante com os inquisidores, Maria Soares foi submetida a tormento. Acaso
para “purgar” os seus pecados.
E agora, se bem que não
conheçamos todos os pormenores que rodearam a cena, vamos relatar um pouco do
acto da prisão e “leva” para Coimbra de Maria Soares e seu marido, o assentista
João Mendes da Costa, também ele de uma família cristã-nova bem poderosa na
região de Trancoso.
Terá sido ao domingo, em plena
missa, como geralmente acontecia, para maior triunfo da Inquisição e exemplo
mais claro para os fiéis cristãos, que a prisão se efectuou.
O comissário local do Santo Ofício
que dirigia as operações, logo lhe mandaria meter grilhões nos pés e sequestrar
os bens. E exigiu que lhe dessem para a mão 40 mil réis, em dinheiro vivo, que
era para se pagarem os ferros e as cordas com que os prendiam, os animais que
se haviam de alugar para o transporte de pessoas e bens até Coimbra, a
alimentação e hospedagem pelo caminho e os jornais aos homens que os prendiam e
levavam presos até à cadeia.
Se não tinham dinheiro…
vendiam-se em hasta pública os bens dos prisioneiros até perfazer aquela
quantia.
Para comandar a “leva dos presos”
o comissário encarregou o padre Caldeira, da ordem de S. Pedro, já muito
experimentado nestas andanças e precioso colaborador da Inquisição.
Como a leva era reduzida (para
além de Maria Soares e do marido, ia apenas outra rapariga, Clara de Almeida, sua
parente), o padre Caldeira requisitou apenas dois guardas da correição de
Trancoso e um almocreve (Francisco Pires) seu amigo e igualmente bem
experimentado e conhecedor dos caminhos e dos métodos utilizados na condução de
tal “gado”.
E como os presos, para além da
roupa que precisavam para vestir, tinham de levar a cama e a roupa necessária
para dormir, a panela, o prato, copo, faca, garfo… para comer e confeccionar as
refeições… alugou-se um jumento para carregar a trouxa de Maria Soares.
E para que a viagem se fizesse
com mais ligeireza, alugou-se também uma mula para a transportar a ela. Assim,
ela foi colocada sobre o dorso do animal, com as mãos amarradas com uma corda
que lhe passavam também em volta do corpo atada na albarda do animal. A rédea
da besta segurava-a o almocreve que, por sua vez, ia montado no seu poderoso
macho.
Pelo caminho havia o cuidado de
não deixar que os presos comunicassem entre si. E se comunicavam, havia de se
tomar cuidado em todas as palavras e gestos que trocavam e delas prestar
completa informação aos inquisidores, no acto da entrega.
De concreto, notou o almocreve
que, em uma volta do caminho, a viu fazer gestos para o marido e dizer-lhe que
tivesse coragem, que tudo havia de passar, que seriam apenas dois ou três anos
de cadeia que tinha de suportar, que cuidasse de si, que não se importasse dela
e que não tivesse cuidado com os filhos. E porque ele fosse o homem responsável
pelo fornecimento de géneros às tropas, ela o tratava por capitão e dizia:
- Força capitão…
Por sua vez, o marido dizia-lhe:
- Está feito. Se eu faltar (…) os meus filhos que vão à geração de
Filipe Lopes e a nenhuma outra.
Queria com isto dizer que, no
caso de ele morrer, a tutela de seus 8 filhos (todos menores de 12 anos)
deveria ser entregue a seu irmão Filipe. Para além disso, o marido recriminava
Maria, culpando seus familiares pela sua prisão, dizendo:
- Boa obra nos fez a vossa gente!...
E ela voltava, dizendo-lhe que
tivesse paciência, que se lembrasse dos filhos, que tudo se havia de resolver,
que eram apenas 2 ou 3 anos.
Pelo caminho havia estalagens que
já eram conhecidas e recomendadas para pernoitarem os presos do Santo Ofício.
Algumas tinham mesmo “apartamentos” especialmente preparados para o efeito, sem
janelas e com as portas especialmente reforçadas.
Uma dessas estalagens era em
Mortágua, à saída da vila. Nela pernoitaram a Maria Soares e o marido. E embora
em apartamentos distintos, eles conseguiram chegar à fala. E o padre Caldeira
tomou nota e contou depois aos inquisidores que Maria Soares dizia:
- Que tivesse ânimo nesta ocasião, pois tudo se resolveria em dois ou
três anos. Como bom capitão de guerra…
Muito corajosa esta mulher!
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº
493, de Filipa Rodrigues
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº
7825, de António Gomes Silveira
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº
4952, de Maria Soares
JULIO CARO BAROJA, Los judíos en la España Moderna y Contemporánea,
ediciones Arion, Madrid, 1961, tomo I, p. 392 e tomo II p. 197 - 206
Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 9
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| Vila Flor - 1951 |
Tomás Rodrigues Pereira. Nasceu em Vila Flor por 1605 e
faleceu em Amesterdão em 1699. Depois de casar com Beatriz Gomes, o casal
deixou Vila Flor e foi para Madrid. Em Espanha começou por trabalhar no negócio
da distribuição do sal e nos anos 30 tornou-se conhecido como exportador de lãs
para França. Em tais negócios usava o pseudónimo de Francisco de Gurre, o que
deixa adivinhar alguma margem de ilegalidade ou fuga aos impostos. Por 1640,
seguiu com a mulher, os filhos e a sogra para Amesterdão, abraçando claramente
o judaísmo e tomando o nome de Abraão Israel, ao circuncidar-se, naturalmente.
Mercador abastado e influente no seio da comunidade, conseguiu autorização para
instalar uma refinaria de açúcar, a primeira que houve em Amesterdão. O tempo
era de angústia para os sefarditas, com o “auto de fé” de Toulouse, em França e
a Inglaterra a abrir-se aos católicos. Tomás Rodrigues Pereira não podia ficar
indiferente e colocou-se desde logo ao lado de Guilherme III na luta contra o
rei de Inglaterra Jaime II, tomando o encargo do abastecimento das tropas,
juntamente com Álvaro machado. Esta operação terá sido coordenada pelo seu
filho Jacob e terá envolvido 28 padeiros, 700 a 800 cavalos e 300 a 400 vagões.
Não era coisa fácil dar de comer a exércitos estacionados, quanto mais em
manobras de invasão de um país estranho. Para além de mercador, Tomás era
também banqueiro e foi um doa 20 fundadores do Banco de Hamburgo, o primeiro
que existiu. E era também um homem de letras e o seu nome está ligado à
fundação do primeiro jornal impresso a nível mundial – a Gazeta de Amesterdão.
Tal como aparece entre os fundadores da célebre Academia dos Floridos, cujo
membro mais brilhante foi Oróbio de Castro. Quando em 1666 chegou a Amesterdão
a notícia de que o Messias havia aparecido e estava na Terra Santa, pronto a
tomar a liderança da nação hebreia, Tomás meteu-se logo a caminho da Palestina
ao encontro do Messias. Descobriu-se o logro quando Tomás Pereira ia já em
Veneza e terá sofrido uma tremenda desilusão. Mas isso não o fez esmorecer na
fé mosaica e não impediu que ele custeasse a criação de uma escola talmúdica,
espécie de seminário, em hebron, na Terra Santa. E quando faleceu, deixou 46
000 florins à Talmud Totah de Amesterdão. De entre os seus escritos religiosos,
destacam-se dois livros: Certeza del Camiño e Espejo de la vanidad del Mundo.
Será que nas escolas de Vila Flor o nome deste grande sefardita foi alguma vez
citado, como exemplo para as gerações mais novas?
António Júlio Andrade
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
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