domingo, 21 de outubro de 2012

REDE DE JUDIARIAS EM PORTUGAL

Sinagoga de Belmonte.

A Rede de Judiarias de Portugal - Rotas de Sefarad é uma associação com carácter público mas de direito privado e que tem por fim uma actuação conjunta, na defesa do património urbanístico, arquitectónico, ambiental, histórico e cultural, relacionado com a herança judaica (artº. 1º dos Estatutos).
Assim, a Rede de Judiarias de Portugal, fundada em dezassete de Março de 2011 pretende conjugar a valorização histórica e patrimonial com a promoção turística, acção que ajudará igualmente a descobrir uma forte componente da identidade portuguesa e peninsular.
O contributo dos judeus portugueses para a história do mundo foi enorme; desde a ciência náutica que há mais de 500 anos deu ao país um avanço decisivo para o início da globalização, à evolução da economia mundial e da medicina, muitos foram os sectores em que o papel dos sefarditas nacionais se tornou preponderante.

sábado, 20 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 11


Bragança- anos 50
José da Costa Vila Real. A família dos Costa Vila Real ganhou uma projecção extraordinária no mundo sefardita e na sociedade inglesa. Destaque muito especial para um dos seus membros – José da Costa. Nasceu em Bragança por 1689 e faleceu em Londres em 1730. Foram 4 décadas de uma vida intensa, com a inquisição de Coimbra em perseguição constante de seus ancestrais, paternos e maternos. Por 1706, vivia em Lisboa, em casa do pai que, depois de enviuvar, casou segunda vez e trocou Bragança pelo sul do país, acabando por fixar-se em Lisboa. Na capital do reino não abrandou a vigilância do tribunal da fé sobre eles, sendo presos todos os membros do agregado familiar: o pai, a madrasta, as irmãs e… José da Costa, naturalmente. Seguiram-se mais de 5 anos nas húmidas e escuras masmorras, entre 1706 e 1711. Posto em liberdade, depois de abjurar publicamente no auto da fé, rapidamente reconstruiu sua vida e fazenda, em negócios de açúcar e tabaco e muito especialmente em contratos de abastecimento de géneros aos exércitos estacionados em Trás-os-Montes. No verão de 1726, quando a inquisição tinha já um segundo processo organizado e se preparava para o prender novamente, José Vila Real protagonizou uma incrível aventura. Deflagrando então um incêndio em Lisboa, aproveitou a confusão reinante para se meter em um barco inglês que estava ancorado à saída para o mar e nele embarcou com mais 17 membros de sua família e a maior parte de sua fortuna, antecipadamente transformada em dinheiro e papéis de crédito garantidos. E ainda antes da sua chegada, já a imprensa Londrina informava desta fuga e avaliava a fortuna transportada em mais de 300 mil libras. Digno de registo também é o facto de antes da fuga e para que ninguém pudesse dizer que ele fugia por causa de alguma dívida ou possível falência comercial, José da Costa fez-se munir de certidões tiradas na Casa da Índia e nas Alfândegas do tabaco e do Açúcar, atestando que nada devia ao fisco nem ao estado português. E se a fama de capitalista o precedeu na chegada a Londres, mais badalado ainda seria o seu casamento no ano seguinte, no seio da família de António Lopes Suasso, também originário de Bragança, possivelmente o detentor da maior fortuna entre os particulares daquela época, não apenas na Inglaterra mas no mundo ocidental. Do casamento de Isaac (nome que tomou com a circuncisão) Vila Real e Kitty (Rachel) da Costa, nasceu uma filha, Sarah, que casou com o visconde de Galway. Ironia da história: foragidos de Portugal, os Costa de Bragança entram na classe da Nobreza de Inglaterra! 
António Júlio Andrade 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ESTUDOS DE ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL – Uma destilaria de aguardente em Alijó.Por: António Júlio Andrade

Um velho alambique em funcionamento.Foto A.F.F.M.
Sendo embora uma minoria na sociedade portuguesa, os judeus (e marranos) deram um contributo fantástico para o desenvolvimento do País. E em Trás-os-Montes, naturalmente, até porque esta terá sido a região do País que mais fugitivos de Espanha acolheu depois da expulsão dos judeus daquele país. Creio não exagerar dizendo que eles sempre estiveram na vanguarda do desenvolvimento e foram os arautos da modernidade entre nós.
Esta é uma ideia força que eu captei da leitura de centenas de processos da inquisição. Sim, que eles se revelam uma preciosa fonte para o conhecimento da nossa história, ao nível económico, social e cultural.
A título de exemplo e usando uma linguagem moderna, direi que foram eles os primeiros a preocupar-se com o desenvolvimento das estruturas de apoio ao turismo, como eram as estalagens. Com efeito, no século de 500, os forasteiros que demandavam Torre de Moncorvo tinham à sua disposição a estalagem de Isabel Lopes, a qual acabou presa pela inquisição.
Em Miranda do Douro, existia igualmente uma estalagem cuja proprietária se chamava Maria Álvares e era também da nação hebreia. Situava-se na emblemática Rua da Costanilha, porventura na casa que ainda hoje continua servindo a mesma função.
Vila Flor era então uma terra de muito comércio e muito viajada. Em prova disso regista-se ali a existência de duas estalagens por meados daquele século de 500. Uma delas pertencia ao marrano Gaspar Fernandes e a outra a Álvaro Rodrigues, por alcunha o Lamegão, pois que viera de Lamego. Esta estalagem seria a preferida dos mercadores espanhóis que visitavam a terra. Também o Lamegão e seus familiares foram hospedar-se nas cadeias do santo ofício, sob a acusação de judaísmo.
Sabemos que o exemplo se repetia em Vinhais… e em Freixo de Numão, actual concelho de Vila Nova de Foz Côa., havia a estalagem de Manuel Rodrigues Freitas, igualmente um homem da nação hebreia.
Mas se em vez de turismo e estalagens falarmos na indústria da moagem do pão, o panorama histórico é semelhante. Em Torre de Moncorvo, por exemplo, em meados do século de 600,cerca de metade dos moinhos que funcionavam durante todo o ano, todos sitos na ribeira de Santa Marinha (Felgueiras) e no ribeiro dos Moinhos (Felgar – Larinho) estavam nas mãos de um único industrial, Pêro Henriques Julião, certamente o mais rico mercador hebreu da vila. Mais podemos dizer de Mirandela onde, na rua da Ponte, existia “uma casa térrea que servia de atafona e pertencia ao marrano António Lopes, o Mourisquinho, de alcunha. E também por esses tempos foram instaladas na margem do rio Tua as primeiras azenhas que, durante alguns séculos marcaram a paisagem do rio hoje feito espelho de água.
Também na Princesa do Tua encontrei um cristão-novo, da família do dr. Francisco da Fonseca Henriques que era proprietário de “um lagar de azeite, com 3 casas de mós, de 2 varas, dentro da vila de Mirandela, por cima do Arco de Santo António, que valerá 200 mil réis”. Esta informação é tanto ais importante quanto os cronistas dizem que havia poucos anos que se plantaram em Mirandela as primeiras oliveiras. Repare-se também na grandeza deste lagar: 3 casas de mós e 2 varas!
Do lagar de azeite construído em Torre de Moncorvo na primeira metade do século de 600 não temos a descrição. Mas sabemos que pertencia ao mercador hebreu atrás referido, Pêro Henriques Julião. E sabemos que se situava à margem da rua dos Sapateiros. Não consegui foi apurar se este lagar e a casa de morada do seu proprietário e a cortinha e olival onde ambas as construções estavam plantadas eram as mesmas que, dois séculos mais tarde nos aparecem referidas como o lagar, o palacete e a cortinha de D. Antónia Adelaide Ferreira, mais conhecida como A Ferreirinha da Régua.
Um outro lagar de azeite que encontrei mencionado nos processos da inquisição situava-se na aldeia de Mós, termo do actual concelho de V. N. de Fozcôa e um de seus proprietários era um mercador marrano da vila de Freixo de Numão e que a seguir vamos encontrar como sendo um dos proprietários da destilaria de aguardente que dá título a esta crónica.
Por agora diremos que o contributo daquela gente laboriosa para o desenvolvimento de Trás-os-Montes se não ficou por estas áreas. Com efeito quem, senão eles, dominava as técnicas de fabrico da seda? Basta ler os processos da inquisição instaurados a torcedores e fabricantes de seda de Bragança e Chacim para se ter a prova. O mesmo se dirá do fabrico de cordas na Real Cordoaria de Torre de Moncorvo, cujas casas pertenciam, em grande parte, ao já nosso conhecido Pêro Henriques Julião. E a indústria dos lanifícios, fortemente implantada na aldeia de Sambade não era essencialmente conduzida pela gente da nação? E o tratamento das peles e fabrico de solas que ganhou a máxima expressão por terras de Argoselo e Carção, no concelho de Vimioso? Alguém dominava como eles as técnicas de preparação do sumagre nas atafonas, por eles utilizado nos curtumes e exportado para os países do Norte?
Agora, porém, desejo falar-lhes de uma outra unidade agro-industrial, porventura a mais valiosa e rentável de quantas encontrei até hoje – uma destilaria de aguardente.
Fazendo uma comparação grosseira, direi que o melhor dos lagares de azeite atrás referidos foi avaliado em 200 mil réis e aquela destilaria aparece com aquele valor multiplicado por 6 – 1 milhão e duzentos mil réis!
Aos leitores menos familiarizados com o assunto, convém recordar que, para além de ser uma bebida muito “gulosa” e, por isso mesmo, muito apetecida e cara, a aguardente era e continua sendo um produto essencial para o fabrico do vinho generoso, o chamado vinho do Porto, então vinho de Lamego.
Situava-se tal destilaria em um monte, no sítio do Vale da Cabra, termo de Alijó. Era dotada de 2 alambiques “grandes”. Para além da casa dos alambiques, era constituída por um armazém dos tonéis e uma casa de viver onde assistia em permanência o feitor da fábrica.
Não sei se existe ainda algum vestígio deste monumento. Caso exista, julgo que deve despertar a atenção dos que se dedicam ao estudo e conservação do nosso património de arqueologia industrial e poderá ser transformado em sítio museológico.
Um dos proprietários da fábrica, senhor da 3ª parte dela, chamava-se António Dias Fernandes, um grande mercador da vila de Freixo de Numão, no actual concelho de V. N. de Fozcôa. Quando foi preso, tinha duas encomendas de aguardente prontas a seguir e eram as seguintes:
* Um lote de 26 pipas a embarcar para o Rio de Janeiro, dirigidas a seu filho António Dias Fernandes, como o pai.
* Um lote de 21 pipa, com destino a Londres, encomendadas pelo mercador Miguel de Viana e antecipadamente pagas, em dinheiro e tecidos, no montante de “um conto e 250 mil réis”.
Pensando no valor do dinheiro, direi que aquela quantia dava para pagar a cerca de 480 operários médios durante um ano.
Infelizmente não consegui apurar quanta mais aguardente Dias Fernandes teria em stock. E quanta teriam os outros sócios detentores de 2/3 dos activos da destilaria. De qualquer modo, penso que aqueles números bastam para se fazer uma pequena ideia da importância desta unidade agro-industrial, estrategicamente situada no coração do Douro vinhateiro, região que, anos depois, viria a ser demarcada, a primeira em todo o mundo. Certamente que esta destilaria foi importante para o progresso e o desenvolvimento da região e merece ser colocada na história da vinha e do vinho do Douro. Aqui fica o alerta aos responsáveis e aos centros de investigação da história e promoção de Trás-os-Montes e Alto Douro.
FONTE – IANTT, Inquisição de Lisboa, pº , de António Dias Fernandes
Publicado no jornal Terra Quente de 15 de Outubro de 2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

MARRANOS: ORAÇÕES PELOS MORTOS

In OS MARRANOS EM TRÁS-OS-MONTES
de AMÍLCAR PAULO

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 10

 Sinagoga de Bevis Marks
Manuel Nunes de Miranda. Nasceu em Torre de Moncorvo, por 1645. Era filho de Francisco Nunes Ramos, médico, originário de Vila Flor e de sua mulher Ana Henriques, de Torre de Moncorvo. Seus pais, perseguidos pela inquisição, abandonaram Moncorvo e foram para a Galiza, fixando-se em Verin. Ali faleceu o dr. Ramos e a mulher e os filhos foram para Madrid. Tempos depois, contando 18 anos de idade, Manuel Nunes encontrava-se já em Toulouse, cidade capital da região francesa do Languedoc, a trabalhar com o primo José, na casa comercial do pai deste e seu tio materno, o banqueiro Manuel Fernandes de Miranda, sediado em Bordéus. Em 1675, casou com Francisca Fernandes Gomes, nascida em Bordéus em 1654, filha de pais trasmontanos aparentados com os Miranda. Entretanto, em Madrid, seriam presos 3 irmãs e 2 irmãos de Manuel, que saíram penitenciados em 1680, posto o que, alguns deles se refugiaram também na França, nomeadamente em Toulouse, cidade para onde foi sua irmã Branca e o marido, Francisco de Queirós. Porém, na capital do Languedoc, os ventos da intolerância religiosa, aliados à crise financeira por que passavam comerciantes cristãos e gente da nobreza da terra, sopravam ainda mais fortes do que os provocados pela inquisição em terras de Portugal e Castela. E Manuel Nunes de Miranda e sua mulher viram-se assim ser presos por práticas de judaísmo e fizeram parte daquele grupo de 18 mercadores sefarditas condenados a morrer na fogueira, na praça de S. George, em 1685. Como em outra ocasião já escrevemos, eles dispunham de contactos ao mais alto nível da sociedade de França, gente que ficou horrorizada por ver anunciar a celebração de um auto de fé na pátria do Iluminismo e os ajudou a fugir, na véspera de lhes ser atada uma corda ao pescoço e serem levados à fogueira, tendo-se queimado em seu lugar 18 bonecos de palha. Foi para Londres que Manuel Nunes fugiu com a mulher e os filhos, certamente porque ali estava já o tio banqueiro que igualmente abandonara a cidade de Bordéus com sua família, teres e haveres, numa fuga em massa que então se registou de sefarditas, muito em especial homens de negócio, banqueiros e armadores de barcos. Em Londres toda a família (5 filhas e 1 filho) abraçou abertamente o judaísmo, tomando nomes hebreus. Rapidamente os negócios de Jacob e Abigail (os novos nomes de Manuel e Francisca) cresceram e ele ganhou prestígio no seio da comunidade judaica de Inglaterra. Em prova disso está o facto de ele ter sido um dos fundadores do Banco de Inglaterra, em 1694, aparecendo na lista dos maiores accionistas em 15º lugar, com a subscrição de 2000 acções, no montante de 25 000 libras. Outro momento importante na vida deste sefardita nascido em torre de Moncorvo aconteceu em 12 de Fevereiro de 1699. Ele foi um dos 5 membros da comunidade que assinaram com a empresa de Joseph Avis um contrato no valor de 2 650 libras para a construção da sinagoga de Bevis Marks na capital de Inglaterra, com o qual se abriu uma nova era na construção do mundo moderno, sob o influxo e por acção pioneira dos judeus novos.
Igreja Matriz de Torre de Moncorvo.
António Júlio Andrade
 
 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

TRANCOSO - MARIA SOARES, MULHER CORAJOSA QUE ANIMAVA O MARIDO

Trancoso -Leão de Judá

No dia 31 de Maio de 1662, na vila de Trancoso, o comissário local da Inquisição, Francisco Soares de Albergaria procedeu à prisão de João Mendes da Costa e sua mulher Maria Soares.
Tratava-se de uma poderosa família de cristãos-novos, que tinha o assento da Beira, ou seja a responsabilidade pelo abastecimento de géneros às tropas estacionadas naquela região do País.
E era também uma família ligada a importantes dignitários do regime, assistentes em Madrid e com entrada na Corte do rei Filipe. Referimo-nos ao dr. Miguel da Silveira, poeta famoso e professor de príncipes e jovens da nobreza que faleceu em Nápoles, terra para onde foi, na comitiva do duque de Medina, quando a Inquisição ali começou a prender uma série de cristãos-novos portugueses que com eles frequentavam os mesmos corredores do poder. E ao seu irmão, dr. Francisco da Silveira, médico de muita aceitação nos mesmos círculos, o qual, quando a roda da fortuna virou, se meteu em fuga para a França, fixando-se em Bordéus. Eram ambos tios maternos de Maria Soares.
Por esta parte materna, Maria Soares descendia de António Henriques Bueno da Mesquita, natural e morador em Torre de Moncorvo, cuja mulher, Filipa Rodrigues, foi mandada prender pela Inquisição de Coimbra em 1592.
E já antes dela outros familiares tinham conhecido as cadeias da Inquisição. E depois dela também. E a odisseia desta família seguiria também pelos cárceres da Inquisição de Castela. Foi o caso de um neto de Filipa, tio-avô de Maria Soares, o dr. Filipe de Nagera, médico de profissão que foi preso em Toledo em 1608 e saiu no auto-de-fé de 7 de Fevereiro de 1710, condenado a 5 anos de galés.
À data da prisão de Maria Soares, o seu pai (Fernão da Silveira) era já falecido e a sua mãe (Branca Henriques) estava já emigrada em Bordéus. Tinha fugido com o filho Rafael da Silveira, que naquela cidade francesa se tornaria famoso e depois terá embarcado para a Jamaica, com descendência ainda hoje em dia bem identificada.
De referir que Maria Soares (como, aliás, as suas duas irmãs) foram presas na sequência das denúncias feitas por seu irmão António Gomes da Silveira, encarcerado ano e meio antes.
Não sabemos a idade certa da prisioneira. Andaria pelos 30 anos. Mas era já mãe de 8 filhos (6 rapazes e 2 raparigas), o mais velho dos quais tinha uns 12 anos e a mais nova 10 meses.
Imagina-se todo o drama daquela mãe que muito justamente recearia não voltar a vê-los. Mas a sua coragem e força interior era bem maior, como em seguida se verá. Por agora diga-se que o calvário de Maria Soares nas masmorras de Coimbra se prolongou por mais de 2 anos, saindo condenada em confisco de bens, cárcere e hábito, no auto-de-fé de 26 de Outubro de 1664. Naturalmente confessou suas culpas, que não valia a pena negar. E confessou que foi educada na religião judaica, desde pequena, por seus pais. E que também ela tinha já começado a educar nessa mesma lei o seu filho mais velho, Luís Henriques, de 12 anos de idade. De resto, o seu processo é um autêntico inventário dos cristãos-novos de Trancoso, pois são dezenas e dezenas as pessoas com quem ela disse ter judaizado.
Apesar dessa atitude, em tudo colaborante com os inquisidores, Maria Soares foi submetida a tormento. Acaso para “purgar” os seus pecados.
E agora, se bem que não conheçamos todos os pormenores que rodearam a cena, vamos relatar um pouco do acto da prisão e “leva” para Coimbra de Maria Soares e seu marido, o assentista João Mendes da Costa, também ele de uma família cristã-nova bem poderosa na região de Trancoso.
Terá sido ao domingo, em plena missa, como geralmente acontecia, para maior triunfo da Inquisição e exemplo mais claro para os fiéis cristãos, que a prisão se efectuou.
O comissário local do Santo Ofício que dirigia as operações, logo lhe mandaria meter grilhões nos pés e sequestrar os bens. E exigiu que lhe dessem para a mão 40 mil réis, em dinheiro vivo, que era para se pagarem os ferros e as cordas com que os prendiam, os animais que se haviam de alugar para o transporte de pessoas e bens até Coimbra, a alimentação e hospedagem pelo caminho e os jornais aos homens que os prendiam e levavam presos até à cadeia.
Se não tinham dinheiro… vendiam-se em hasta pública os bens dos prisioneiros até perfazer aquela quantia.
Para comandar a “leva dos presos” o comissário encarregou o padre Caldeira, da ordem de S. Pedro, já muito experimentado nestas andanças e precioso colaborador da Inquisição.
Como a leva era reduzida (para além de Maria Soares e do marido, ia apenas outra rapariga, Clara de Almeida, sua parente), o padre Caldeira requisitou apenas dois guardas da correição de Trancoso e um almocreve (Francisco Pires) seu amigo e igualmente bem experimentado e conhecedor dos caminhos e dos métodos utilizados na condução de tal “gado”.
E como os presos, para além da roupa que precisavam para vestir, tinham de levar a cama e a roupa necessária para dormir, a panela, o prato, copo, faca, garfo… para comer e confeccionar as refeições… alugou-se um jumento para carregar a trouxa de Maria Soares.
E para que a viagem se fizesse com mais ligeireza, alugou-se também uma mula para a transportar a ela. Assim, ela foi colocada sobre o dorso do animal, com as mãos amarradas com uma corda que lhe passavam também em volta do corpo atada na albarda do animal. A rédea da besta segurava-a o almocreve que, por sua vez, ia montado no seu poderoso macho.
Pelo caminho havia o cuidado de não deixar que os presos comunicassem entre si. E se comunicavam, havia de se tomar cuidado em todas as palavras e gestos que trocavam e delas prestar completa informação aos inquisidores, no acto da entrega.
De concreto, notou o almocreve que, em uma volta do caminho, a viu fazer gestos para o marido e dizer-lhe que tivesse coragem, que tudo havia de passar, que seriam apenas dois ou três anos de cadeia que tinha de suportar, que cuidasse de si, que não se importasse dela e que não tivesse cuidado com os filhos. E porque ele fosse o homem responsável pelo fornecimento de géneros às tropas, ela o tratava por capitão e dizia:
- Força capitão…
Por sua vez, o marido dizia-lhe:
- Está feito. Se eu faltar (…) os meus filhos que vão à geração de Filipe Lopes e a nenhuma outra.
Queria com isto dizer que, no caso de ele morrer, a tutela de seus 8 filhos (todos menores de 12 anos) deveria ser entregue a seu irmão Filipe. Para além disso, o marido recriminava Maria, culpando seus familiares pela sua prisão, dizendo:
- Boa obra nos fez a vossa gente!...
E ela voltava, dizendo-lhe que tivesse paciência, que se lembrasse dos filhos, que tudo se havia de resolver, que eram apenas 2 ou 3 anos.
Pelo caminho havia estalagens que já eram conhecidas e recomendadas para pernoitarem os presos do Santo Ofício. Algumas tinham mesmo “apartamentos” especialmente preparados para o efeito, sem janelas e com as portas especialmente reforçadas.
Uma dessas estalagens era em Mortágua, à saída da vila. Nela pernoitaram a Maria Soares e o marido. E embora em apartamentos distintos, eles conseguiram chegar à fala. E o padre Caldeira tomou nota e contou depois aos inquisidores que Maria Soares dizia:
- Que tivesse ânimo nesta ocasião, pois tudo se resolveria em dois ou três anos. Como bom capitão de guerra…
Muito corajosa esta mulher!
António Júlio Andrade
Fernanda Guimarães
 Bibliografia e Fontes:
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 493, de Filipa Rodrigues
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 7825, de António Gomes Silveira
IANTT, Inquisição de Coimbra, pº 4952, de Maria Soares
JULIO CARO BAROJA, Los judíos en la España Moderna y Contemporánea, ediciones Arion, Madrid, 1961, tomo I, p. 392 e tomo II p. 197 - 206

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 9

Vila Flor - 1951
Tomás Rodrigues Pereira. Nasceu em Vila Flor por 1605 e faleceu em Amesterdão em 1699. Depois de casar com Beatriz Gomes, o casal deixou Vila Flor e foi para Madrid. Em Espanha começou por trabalhar no negócio da distribuição do sal e nos anos 30 tornou-se conhecido como exportador de lãs para França. Em tais negócios usava o pseudónimo de Francisco de Gurre, o que deixa adivinhar alguma margem de ilegalidade ou fuga aos impostos. Por 1640, seguiu com a mulher, os filhos e a sogra para Amesterdão, abraçando claramente o judaísmo e tomando o nome de Abraão Israel, ao circuncidar-se, naturalmente. Mercador abastado e influente no seio da comunidade, conseguiu autorização para instalar uma refinaria de açúcar, a primeira que houve em Amesterdão. O tempo era de angústia para os sefarditas, com o “auto de fé” de Toulouse, em França e a Inglaterra a abrir-se aos católicos. Tomás Rodrigues Pereira não podia ficar indiferente e colocou-se desde logo ao lado de Guilherme III na luta contra o rei de Inglaterra Jaime II, tomando o encargo do abastecimento das tropas, juntamente com Álvaro machado. Esta operação terá sido coordenada pelo seu filho Jacob e terá envolvido 28 padeiros, 700 a 800 cavalos e 300 a 400 vagões. Não era coisa fácil dar de comer a exércitos estacionados, quanto mais em manobras de invasão de um país estranho. Para além de mercador, Tomás era também banqueiro e foi um doa 20 fundadores do Banco de Hamburgo, o primeiro que existiu. E era também um homem de letras e o seu nome está ligado à fundação do primeiro jornal impresso a nível mundial – a Gazeta de Amesterdão. Tal como aparece entre os fundadores da célebre Academia dos Floridos, cujo membro mais brilhante foi Oróbio de Castro. Quando em 1666 chegou a Amesterdão a notícia de que o Messias havia aparecido e estava na Terra Santa, pronto a tomar a liderança da nação hebreia, Tomás meteu-se logo a caminho da Palestina ao encontro do Messias. Descobriu-se o logro quando Tomás Pereira ia já em Veneza e terá sofrido uma tremenda desilusão. Mas isso não o fez esmorecer na fé mosaica e não impediu que ele custeasse a criação de uma escola talmúdica, espécie de seminário, em hebron, na Terra Santa. E quando faleceu, deixou 46 000 florins à Talmud Totah de Amesterdão. De entre os seus escritos religiosos, destacam-se dois livros: Certeza del Camiño e Espejo de la vanidad del Mundo. Será que nas escolas de Vila Flor o nome deste grande sefardita foi alguma vez citado, como exemplo para as gerações mais novas?
António Júlio Andrade

domingo, 14 de outubro de 2012

Descendentes de Francisco Rodrigues Brandão Faro entre Viseu e Londres

por: António J. Andrade
       Maria F. Guimarães
MONCORVO .1974

No dia 26 de Maio de 1779, na cidade de Londres, fazia seu testamento um indivíduo que se identificava como mercador, natural de Viseu e se assinava Joshua Rodrigues Brandão. Anos antes, em 25.1.1768, na mesma cidade, um outro mercador, chamado Abraham Rodrigues Brandão tinha feito testamento semelhante. Para além da identificação, do expresso desejo de ser sepultado no cemitério dos Portugueses, das disposições sobre a herança dos bens, Abraham deixava 20 libras/ano para a sua irmã Mariana, casada com Mateus Oróbio Furtado, residente em Viseu. E contemplava ainda seus sobrinhos, filhos de sua irmã Isabel, casada com João Pereira Dias, residente em França. 
Sem dúvida que os nomes judaicos de Abraham e Joshua não foram os recebidos no baptismo cristão feito em Portugal, antes foram adoptados depois da fuga para o estrangeiro e ingresso na comunidade judaica, porventura no acto da sua circuncisão. Sabemos, porém, que Abraham e Joshua eram irmãos e ambos deixaram descendência directa. Alguns de seus descendentes continuaram vivendo em Inglaterra e outros emigraram para o continente americano, ganharam notoriedade e são bem conhecidos.
E foi a seu pedido que nós partimos à procura dos ascendentes de Mariana, Abraham, Joshua e outros seus parentes. Naturalmente que, por se tratar de gente cristã-nova, a procura começou pelos arquivos da Inquisição Portuguesa. E logo verificámos que Mariana e seus 7 irmãos foram quase todos hóspedes daquele tribunal, como, aliás, muitos mais parentes seus. Possivelmente também o terão sido Joshua e Abraham que então teriam os nomes de João e Lopo Rodrigues Brandão, segundo pensamos, se bem que não tenhamos ainda provas concretas desta identidade. Mas temos a certeza de que ambos eram filhos de Francisco Rodrigues Brandão Faro e de Guiomar Rodrigues Portelo, estes nascidos por 1662 e que também conheceram as masmorras do Santo Ofício.
Fiquemos então em Viseu, na Rua Nova, na morada de Francisco e Guiomar, ao início do mês de Novembro de 1698, quando a Inquisição o foi prender. Antes de mais, diga-se que ele suspeitava que poderia ser preso já que, antecipadamente ele tratara de enviar uma pequena fortuna (quase de 3 contos de réis, em “250 ducatões de ouro”!) para Londres. E, no próprio dia da prisão, entrando ele em casa, uma criada lhe dissera que fora ali procurado pelo padre António Chaves, vizinho da Rua Nova, que até entrou no seu escritório e se pôs a mexer-lhe nos papéis. E ao ouvir isto, Francisco foi direito aos papéis, ripou da folha comprovativa do envio dos 250 ducatões para Londres e rasgou-a atirando os pedacinhos pela janela para a rua. Só que o mesmo padre estava de vigia e mandou um rapazito apanhar os pedaços de papel e reconstituiu a folha. Era realmente um conhecimento (tipo nota de recibo) da remessa daquele dinheiro, uma prova de que ele estava colocando no estrangeiro os seus recursos financeiros e talvez preparando a fuga.
Bom, vejamos agora a situação económica do casal. Antes de mais, diga-se a casa onde moravam era muito boa pois foi avaliada em 250 mil réis. O casal era ainda proprietário de uma casa sita numa das 4 esquinas da mesma rua, vendida por 140 mil réis, de 2 outras na mesma rua que serviam de tulha para recolha do cereal e mais uma pegada às tulhas, que arrematara um ano antes por 120 mil réis no Juízo do Fisco. Em Viseu ainda, na Rua da Carvoeira, era co-proprietário de mais 2 casas. Do seu património imobiliário constava ainda uma casa sita em Lisboa, junto à igreja de Santa Engrácia, a qual era dotada de uma atafona que, pensamos, serviria para moer os fardos de tabaco vindos do Brasil. Aliás, a casa e atafona tinham o formidável valor de 750 mil réis!
E vale bem a pena dizer que o imóvel pertencera em tempos ao chantre da Sé de Viseu, o licenciado João Saraiva de Carvalho. Foi dada como hipoteca de uma dívida de 600 mil réis a um seu parente que morava no Brasil – Francisco Rodrigues, o Temeroso, de alcunha – e, talvez por não ter filhos, chegou ás mãos de Brandão Faro e de sua tia por afinidade, Leonor Mendes, viúva de João Rodrigues Portelo.
E estes são 3 elementos da rede familiar de negócios de Francisco Brandão Faro. E se do Brasil recebia fardos de tabaco e caixas de açúcar descarregadas em Lisboa, para aquela colónia, enviava em troca remessas de vinho, tecidos, ferramentas… A título de exemplo, diremos que, tempo antes da prisão, ele remetera para o Brasil 35 almudes de aguardente, carregados no Porto por seu primo Diogo Vaz Faro que, por sua vez, recebia 3 arrobas de “pau cravo”. A aguardente, porém, era fabricada na Sabugosa, termo de Tondela, onde Francisco tinha montado um alambique de cobre. E ali tinha também um celeiro onde recolhia o cereal proveniente das rendas que trazia arrematadas à Mitra de Viseu.
Mas, se no Porto era Diogo Vaz que tratava dos negócios de Francisco com o Brasil, já com a praça de Londres era Rodrigo Álvares da Fonseca o intermediário privilegiado. Por suas mãos transitaram os 250 ducatões, como transitavam as pipas de vinho, os açúcares ou os tabacos. E em Londres o parceiro comercial de Francisco era o seu parente Luís de Castro, que antes em Portugal se chamava Nuno Rodrigo Portelo e que, em troca, lhe despachava predominantemente tecidos. E não era só a cidade do Porto o palco dos negócios entre Luís de Castro e Brandão Faro. Não, que os ovos não devem meter-se todos no mesmo cesto. Por uma questão de segurança, algumas operações de embarque / desembarque de mercadorias negociadas eram efectuadas no porto de Viana do Castelo, por exemplo, onde o seu representante era um tal João Reimaste, estrangeiro.
Por esclarecer estará ainda a questão do nome Faro, mas que terá sido acrescentado ao apelido por alguma ligação à cidade capital do Algarve e por ali passariam certamente alguns de seus negócios.
Na rede comercial de Brandão Faro entrariam provavelmente muitas mais pessoas, geralmente ligadas por laços familiares, como era o caso de seu cunhado Domingos Pereira, marido de Isabel Gomes Brandoa, em Bayonne, França, país de onde importava muitos coiros de vaca para solas. E também haveria alguns outros parentes e amigos que asseguravam as parcerias comerciais em praças de mais negócio, como Amesterdão na Holanda, Livorno em Itália e outras.
Mas não se pense que o mundo empresarial de Brandão Faro girava apenas em volta da cobrança de rendas e dos grandes negócios de importação / exportação. Não: ele deitava a mão a tudo, como se depreende do inventário de seus bens, onde aparece quantidade de objectos de ouro e prata (avaliados em 235 500 réis), muito linho e algodão, em rama ou fiado, muitas dívidas de pão fornecido ou dinheiro emprestado a juros, de solas vendidas a sapateiros, pipas de vinho fornecidas a vendeiros.
E também ia a Bragança cobrar dívidas da mão do abade de Rossas e negociar sedas com o “industrial” Tomás Rodrigues da Silva ou na real fábrica que existia na cidade. De igual modo se metia no monopólio das “cartas de jogar e solimão”, em parceria com Luís Rodrigues Ferreira, da cidade da Guarda.
Voltemos ao momento da prisão de Francisco para dizer que, em casa, em dinheiro vivo, ele tinha a extraordinária quantia de 3 contos, 50 e tantos mil réis metidos “em um caixotinho fechado com um cadeado, metido numa arca e outro pouco de dinheiro em dois taleigos…” Sinal de vitalidade e força empresarial? Ou mais uma prova de que ele se preparava para abandonar o país e estabelecer em terra alheia a sede da sua empresa?
A verdade é que, metido a ferros nas masmorras da Inquisição de Coimbra, Francisco Brandão Faro, desde logo se declarou culpado de práticas de judaísmo e delas pedia misericórdia e perdão. Aliás, confessou que desde há meio ano que andava pensando vir apresentar-se de livre e espontânea vontade e se o não fez foi porque João Lopes da Mesquita e seu irmão Francisco Lopes da Mesquita lhe disseram que não se admitiam apresentações. Este último, aliás, sendo seu compadre e pessoa de grande intimidade é que o terá induzido no erro e doutrinado, uns 15 anos atrás. Este seu compadre dizia-se mesmo judeu, tal como um outro irmão, o dr. António Lopes da Mesquita, médico de profissão. Para além destes e entre muitas outras pessoas denunciadas por Francisco Brandão Faro como seus cúmplices em práticas de judaísmo, fixemos o nome de seu primo Francisco Marcos Ferro, advogado, natural de Torre de Moncorvo, morador em Viseu e que, dois anos antes, transferiu a sua residência para o Porto. Daquele médico e deste advogado haveremos de falar em outra ocasião.
Resta agora dizer que o processo levou dois anos a ser despachado, acabando o réu por ser condenado em hábito e penas espirituais, saindo no auto-de-fé de 18 de Dezembro de 1701. Em Agosto seguinte seria autorizado a despir o sambenito que remeteu para Coimbra, juntamente com 3 vinténs. E terminamos transcrevendo uma pequena oração que Francisco Brandão Faro rezava “para os mortos, a qual dizia sexta-feira ou sábado, por estarem as almas em folgança”:
Folgança composta
Assentamento de altura,
Dá Senhor claridade dos céus
Para a vida em o mundo virá,
Venha sobre a alma do meu pai
E da minha mãe. (Ou da pessoa de quem se pedir – acrescentou).
Fonte – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo nº 8867, de Francisco Rodrigues Brandão Faro.
NOTA – Este trabalho foi publicado no jornal Terra Quente

MARRANOS - Orações


                                           In OS MARRANOS EM TRÁS- OS- MONTES
                                                 de Amílcar Paulo

sábado, 13 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 8

Real Filatório de Chacim .Foto: Carla A. Gonçalves
Jacob Rodrigues Pereira. Nasceu em Espanha, depois que seus pais foram presos em Cádiz quando iam fugidos de Chacim, terra do actual concelho de Macedo de Cavaleiros, perseguidos pela inquisição. Nenhum português despertou mais atenção e mereceu mais elogios que ele por parte dos enciclopedistas e dos membros da Academia das Ciências de França e até chegou a ser contemplado com o estatuto de representante de toda a nação sefardita. Mas esqueceram-se dele os dicionaristas dos ilustres Trasmontanos e creio que nem uma placa tem a lembrá-lo na sua terra. O prestígio alcançado deriva do facto de ter sido o primeiro grande investigador na área das ciências de educação dos surdos-mudos. Da descendência de Jacob Rodrigues Pereira devemos citar dois netos (Jacob Emílio pereira e Isaac Pereira) que ganharam lugar na história da França e da Europa, por mérito próprio e são referidos como “Les Frères Pereire”. Na verdade eles formaram uma dupla empresarial que deu cartas, nos mais diversos ramos de actividade. A começar pelos caminhos de ferro, pois que eles foram os maiores construtores de linhas no interior de França e também de linhas transeuropeias. Com os pés bem assentes na terra, eles investiram igualmente nos transportes marítimos, chegando a ter uma frota de 21 barcos navegando nos mares. Ainda no domínio dos transportes, eles criaram uma “Companhia Geral de Omnibus” e outra de “Entrepostos e Armazéns Gerais”. Esta, para além de assegurar o transporte, carga, descarga e armazenagem de mercadorias, tinha também uma secção de Seguros. E para garantir disponibilidade financeira das empresas do grupo, os irmão pereira criaram a “Sociedade Geral de Crédito”, uma espécie de banco popular onde cabiam também os pequenos investidores. O tempo destes homens não era já o tempo da clandestinidade religiosa, mas o da revolução industrial e do progresso, com o afluxo de multidões de camponeses às cidades. E para responder à procura, os netos de Jacob Rodrigues Pereira meteram-se a fundo na construção civil criando a “Companhia Imobiliária de Paris” responsável pela construção de inúmeros blocos de apartamentos, vivendas e hotéis e pela abertura de múltiplos arruamentos. E lançaram empresas absolutamente inovadoras para a época: a “Companhia Parisiense de Iluminação, Aquecimento e Gás” e a “Sociedade de Lavagens industriais”, que chegou a dispor de 45 máquinas de lavar e 30 de lixiviar. Por 1870, “Lés Frères Pereire” eram proprietários de 2 castelos, 21 hotéis, 55 boutiques, 314 apartamentos e 26 estrebarias – um verdadeiro império. Dizem-nos que actualmente existem mais de 400 descendentes directos desta família originária de Chacim, concelho de Macedo de Cavaleiros. Será possível estabelecer contacto com alguns deles e mostrar-lhes que a actual geração de filhos de Chacim se orgulha daqueles para quem, em outras eras, a terra foi madrasta?
António Júlio Andrade

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 7

Pavillon Du Chateau Raba
Abraão Raba. A história dos Raba, de Quintela de Lampaças, Vila Franca e Bragança na inquisição é mais comprida que a linha do comboio. Os últimos a serem penitenciados foi no auto de fé de Coimbra de 1751, posto o que a família abalou para França, dirigida pela matriarca e pelo filho mais velho, José Henriques Nunes. Aportados a Bordéus aderiram abertamente ao judaísmo, tomando José o nome de Abraão. Com eles seguiu a prima Catarina que, desde criança fora destinada a casar com José. O casamento realizou-se pouco depois da chegada a França, por 1763. 4 anos depois Abraão Raba era já um homem respeitado e influente, a ponto de ser eleito síndico da comunidade. Nessa qualidade, em 22 .3.1768 convocou uma assembleia dos notáveis destinada a desfazer equívocos e mexericos sobre o seu casamento, pois corria o boato de que ele não pagara o imposto sobre o dote recebido da noiva. Ele então mostrou o contrato de casamento e provou que nada recebeu em dote, pelo que não tinha qualquer taxa ou imposto a pagar. Estranhou, porém, que aos seus pares não bastasse a sua palavra honrada e fosse preciso chegar a esta devassa da sua vida. E anunciou com toda a solenidade que decidira fazer uma oferta aos pobres da comuna, depositando, acto contínuo, 90 libras nas mãos do adjunto do síndico. Se antes era já um homem respeitado e influente, mais ficou sendo e seus negócios e de seus irmãos, que todos trabalhavam em rede, cresceram rapidamente, girando em volta do comércio marítimo, para o que adquiriram uma frota de barcos e da importação de açúcar das Antilhas. Aliás, dois dos irmãos foram fixar-se naquelas paragens, abrindo uma sucursal da firma Raba em Port-au-Prince. Na cidade de Bordéus moravam em um palacete na Rue des Fossés mas, à moda da época, em sinal de riqueza e prestígio, os Raba construíram em Talence, arredores de Bordéus “uma das mais belas casas de campo existentes em França” – como era apresentada no famoso guia turístico de Mr Bernadau. Nele se descrevem com inusitado pormenor, os salões do palácio e o jardim povoado de estátuas e inscrições, onde se davam famosos concertos musicais e promoviam elegantes recepções, frequentadas por personalidades da primeira linhada aristocracia de França, como foi o caso de Beaumarchais e mesmo de Napoleão Bonaparte. Conta-se que as tropas de Napoleão quando invadiram Portugal pelo Norte não seguiram o caminho mais direito entrando por Bragança, antes foram dar uma volta bastante grande e entraram por Chaves, exactamente porque os Raba terão pedido ao imperador e à imperatriz Josephine, que estavam hospedados no seu palácio, que poupassem a sua terra natal. Creio que existem descendentes directos dos Raba, mantendo este sobrenome. Não sei é se o palácio de Talence, hoje transformado em hotel de 4 estrelas ainda se mantém na posse da família. Bem gostaria de ir lá em viagem de turismo cultural. E também não sei se os Brigantinos e Trasmontanos ainda iremos a tempo de saldar uma dívida de gratidão a sefarditas que bem prestigiaram a terra que lhes foi madrasta, mas que foi a terra onde viram a luz.

 António Júlio Andrade

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e marranos – 6

Sambade -2012
Roque de Leão. No dia 14 de Abril de 1685, a Corte de França, atendendo à súplica do Conselho Municipal da cidade de Toulouse, proferiu uma estranha sentença ordenando que 18 pessoas de origem portuguesa, mercadores ali estabelecidos e que estavam presos, acusados de práticas de judaísmo, fossem conduzidos pelas ruas da cidade em cima de uma carroça com uma corda ao pescoço até à praça de S. George e ali, sobre uma pira de lenha, fossem queimados vivos e as suas cinzas espalhadas ao vento. Desde há mais de 300 anos que tal coisa não se via na pátria do rei-sol e das luzes da sabedoria. Este episódio deixou em estado de choque todo o mundo civilizado. Já nem as inquisições de Portugal e Espanha agiam com tanta crueldade. Em simultâneo, em Inglaterra, a mais conceituada instituição de ensino, o Magdalene College foi entregue aos Jesuítas pelo rei Jaime II que o transformaram em seminário católico. Os dois factos, acrescentados a muitos outros de natureza semelhante, fizeram os Sefarditas e Anglicanos e Asquenazes e os governantes da Holanda, Alemanha, Suécia e outros países no Norte pensar que havia uma aliança entre a França e a Inglaterra e um dos pontos do programa comum era estabelecer a inquisição nos dois países. E todo o mundo sefardita e a finança internacional se mobilizou e a Inglaterra foi invadida e o rei apeado e substituído por Guilherme de Orange, enquanto o rei sol entrava em declínio, com a França a apagar-se na cena internacional e o império inglês a expandir-se. Voltando a Toulouse, diremos que aquele verdadeiro auto de fé se realizou dois dias depois mas em vez das pessoas foram queimados 18 bonecos de palha. É que, quase misteriosamente, eles conseguiram fugir para Amesterdão. À cabeça deste grupo de 18 condenados à morte encontrava-se Roque de Leão, juntamente com a mulher e um filho. Roque era acusado de ser o Rabi dos judeus de Toulouse e a sua casa de ser a sinagoga. As origens de Roque de Leão eram de Sambade, no concelho de Alfândega da Fé. Não sabemos se ele nasceu na cadeia, quando a sua mãe, Francisca Lopes, foi presa, ou se nasceu depois de ela sair da cadeia e regressar a Sambade. Ou mesmo se nasceu quando os pais se encontravam a morar na Galiza, antes de rumar a Madrid e a França. De qualquer modo a sua memória deve ser perpetuada em Sambade. Não vou aqui falar mais deste grande trasmontano e sefardita. Breve contamos que sairá um livro sobre os Marranos de Sambade, da minha autoria e da investigadora da cátedra de estudos sefarditas Alberto Benveniste da universidade de Lisboa, Maria Fernanda Guimarães, editado pela câmara municipal de Alfândega da Fé. Aí o leitor poderá ver muitas mais coisas da grande epopeia desta gente, de cujo sangue todos nós teremos uma gota e disso devemos orgulhar-nos.
António Júlio Andrade

 

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 5

Luís de Carvajal de la Cueva. Porventura nenhum português, para além de Cristóvão Colombo, é mais conhecido prestigiado na região do Texas e Nordeste do México do que “El Conquistador”. A ponto de ter uma estátua equestre plantada na mais nobre avenida da cidade mexicana de Monterrey e de os Americanos terem celebrado o V centenário da sua morte com a composição de uma ópera, interpretada pela orquestra de S. Diego. Em Mogadouro, sua terra natal, não passa de um ilustre desconhecido, sem qualquer sinal de sua memória. Ocupava o cargo de Governador do Novo Reino de Leão quando foi preso pelo tribunal da inquisição do México. Ele e todos os membros da numerosa família e numerosos amigos que o acompanharam na colonização daquela parte do mundo, cerca de 100 famílias, muitas delas recrutadas entre os marranos de Trás-os-Montes. Um sobrinho, também chamado Luís de Carvajal, é considerado um dos mártires do judaísmo, pois morreu afirmando a sua fé mosaica enquanto as chamas crepitavam, no célebre auto de fé da Cruz Verde, em 8 de Dezembro de 1596.
 
António Júlio Andrade

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos, Sefarditas e marranos - 4

Baltasar Oróbio de Castro. Terá nascido em Bragança em 1617. Por 1622, foi levado para Espanha, fixando-se a família em Málaga. Seus pais eram pobres e foi sob a protecção de um tio materno que ele foi estudar para a medíocre universidade de Osuna, transitando em 1635 para a de Alacala de Henares, esta sim, de prestígio. Na primavera de 1640, ao ter notícia da prisão do tio e dos pais, ele desapareceu, sem ter concluído o curso de medicina. Não sabemos que voltas deu mas, ao findar de 1642, Baltasar Álvares de Oróbio aparece nomeado professor de medicina na universidade de Sevilha, certamente com falso diploma e com a intervenção do poderoso duque de Medicaceli, em cuja casa servia. Em 1651 casou em Cadiz, com Isabel de Pena, filha de um rico mercador, acompanhada de largo dote. Mas nem o poderoso duque impediu que Baltasar fosse preso pela inquisição de Sevilha, saindo penitenciado em 1656. Rumou de seguida para Bayonne e depois para Tolouse, em cuja universidade foi admitido como professor de medicina. Apresentou um diploma supostamente passado pela universidade de Alcala. Em Janeiro de 1663 estaria já em Amesterdão, usando o nome de Isaac Oróbio de Castro. Ali ganhou fama de polemista, empenhando-se com “denodo farisaico” no combate às ideias menos ortodoxas em relação ao judaísmo vigente expressas por João do Prado (seu colega em A. Henares) e baruch Espinosa. Faleceu em 1687. O seu nome foi justamente perpetuado na toponímia de Bragança e constitui um activo do património cultural da cidade.
António Júlio Andrade

domingo, 7 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos – 3

Rembrandt, oil sketch for etched portrait of
the Amsterdam Jewish physician Ephraim Bueno, 1647
Amsterdam, Rijksmuseum
Dr. Afraim Bueno da Mesquita. José Boino deixou Vila Flor ao início do século de 600, depois de uma tremenda vaga de prisões que assolou a terra, vaga iniciada pelo Abade da igreja matriz, inquisidor de Évora, Jerónimo de Sousa, indo estabelecer-se em França. A família integrava uma criança nascida em 1599, que na diáspora tomaria o nome de Efraim Bueno da Mesquita. Este estudou em Bordéus e formou-se em medicina. Como em França não podia publicamente seguir a sua religião, emigrou para Amesterdão, pelos anos de 1640. Na “Jerusalém do Norte” o Dr. Bueno ganhou tal notoriedade que mereceu ser retratado por Rembrandt. E em Vila Flor, alguma lembrança deste ilustre Trasmontano?


António Júlio Andrade

MAPA DAS JUDIARIAS (Séculos XIV e XV)

In"História de Portugal",coordenada por Rui Ramos

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Nós Trasmontanos Sefarditas e Marranos - 2

Palácio de Schönbrunn
Fernando Montesinhos.
 Nasceu em Vila Flor em 1589 e faleceu em Antuérpia em 1659. Foi um dos chamados "Banqueiros do Rei" Filipe de Espanha e Portugal. Iniciando a vida no comércio de tecidos, especializou-se como "asientista", ou seja, contratador de serviços da casa real, como fosse a cobrança das rendas das salinas e comércio do sal ou o abastecimento de géneros às tropas. estacionadas no Norte de África. Tendo abandonado a terra por causa da inquisição portuguesa, acabou prisioneiro da inquisição espanhola de cujas cadeias saiu contra o pagamento da formidável quantia de 10 000 cruzados.

O Barão de Aguilar.
 Liberto das masmorras da inquisição de Coimbra, Francisco Lopes Pereira e a mulher, Maria Dias, meteram-se a caminho de Espanha. Ali fizeram fortuna, no negócio do tabaco. Um dos descendentes chamou-se Manuel e passaria à história com o título de Barão de Aguilar. Aquando da Gueera da Sucessão de Espanha, empenhou-se totalmente na cauda do Arquiduque Carlos que depois viria a reinar na Áustria. E para ali foi também o Barão de Aguilar, convidado a organizar a distribuição do tabaco no país, sob a forma de monopólio, recebendo a garantia de que lá podia professar abertamente o judaísmo. E por 16 anos ele deteve o monopólio da venda daquele produto. Amigo e conselheiro da imperatriz Maria Teresa, adiantou do seu bolso, a título de oferta à imperatriz, uns 300 000 florins para a construção do Palácio de Schöenbrunn, hoje classificado património da humanidade. O barão de Aguilar acabaria por mudar-se para Londres e ali faleceu em 1759 com 60 anos de idade. Quem o recorda em Mogadouro?

António Júlio Andrade

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

MOISES MENDES PEREIRA – baptizado em Bragança e circuncidado em Londres

Por: António J. Andrade
       Maria F. Guimarães


José Rodrigues foi notificado por João Gonçalves, familiar do Santo Ofício para se apresentar novamente em Coimbra até ao dia 24 de Abril de 1728. A ordem foi cumprida e ele foi recebido em mais uma audiência. Confirmou as declarações quer antes fizera e acrescentou mais algumas denúncias, nada de importante para o desfecho do processo.
Domus Municipalis
E foi um dos 79 penitenciados no auto-de-fé celebrado no Terreiro de S. Miguel, em 9 de Maio seguinte. Neste auto não houve gente condenada à morte, como aliás não havia desde há uns 10 anos em Coimbra. Apenas em Lisboa se decidiam então os processos considerados mais graves.
O tecelão brigantino foi condenado em penas espirituais e no confisco de todos os seus bens. Entre esses bens incluía-se uma parte de uma casa da Rua Direita, onde moravam seus pais e irmãos, como consta do inventário.
Regressou a Bragança e… a vida não seria fácil, complicando-se o seu relacionamento não apenas com os cristãos-velhos mas também com os cristãos-novos, nomeadamente com os seus amigos e familiares. Com efeito, ninguém sabia ao certo as denúncias que ele teria feito na Inquisição e as desconfianças avolumavam-se.
Ele bem tentaria normalizar a sua vida e nada melhor do que sair de Bragança a negociar por essas terras afora, em vez de ficar ali a lamber as feridas e remoer as mágoas…